quinta-feira, 10 de novembro de 2022

O preconceito: Até qual ponto é natural?



Série Ensaios: Sociobiologia



por Giuliano Tomasi, João S. Randi, Marcos Bigas, Murilo Araújo, Rafael Maciel e Ronald Santos

Acadêmicos de Ciências Biológicas e Psicologia




No dia 08 de maio de 2022 foi vinculada no portal G1 uma coletânea de notícias relacionada a casos de racismo. Dentre algumas notícias, uma chamou a atenção, por relatar o caso de uma mulher que associou o cabelo crespo de outra à transmissão de doenças. Ao considerarmos que ainda persistem situações como estas no vínculo social, é de se surpreender por ainda existir tais atitudes preconceituosas, irracionais e ignorantes, em vista de todo o desenvolvimento social e histórico correlato ao tema. Contudo, tais comportamentos apresentam um fundamento biológico que está relacionado diretamente com a origem de comunidades com maiores membros de uma determinada espécie ou que prevalecem de características mais atrativas para com seus semelhantes, refletindo em uma seleção entre as comunidades e os representantes de seus grupos sociais, a exemplo podemos considerar as aves em seu caráter de seleção sexual que equivalesse de diferentes atrativos como canto, coloração e dentre outras características, tornando-os mais atraentes e consideravelmente um padrão perante aquele grupo (Favretto, 2014), em que os indivíduos que não apresentam determinada características podem ficar isolados ou mesmo não passarem seu material genético para as próximas gerações, sendo notável uma homogeneização entre os grupos.

O preconceito pode ser interpretado sob três perspectivas: biológicas, etológica e psicológica. Para a psicologia o preconceito agrega um conceito, julgamento e/ou opinião que são formados antecipadamente, independente de conhecimento ou experiência sem conhecimento necessário sobre um determinado assunto ou fato, segundo o dicionário Michaelis, sem data disponível. Em outras palavras, trata-se de algo já previamente julgado.

Para Duekitt (1992) apud Crochík (1996), existem cinco formas de se entender teorias sobre o preconceito. A primeira, a interpretação psicanalista explica-o como uma forma de defesa quando há frustração, onde quem pratica preconceito necessitaria de um objeto para justificação da sua insatisfação. No segundo há uma perturbação do desenvolvimento de estruturas psíquicas, o que poderia tornar o indivíduo predisposto ao preconceito. O terceiro trata como fruto da socialização dos indivíduos adaptados a valores e normas. Já o quarto trata como conflito de entre interesses sociais diversos. Por fim, o último, busca explicar o preconceito como um problema cognitivo, onde para entender o mundo o indivíduo o simplifica, estereotipando-o. Para o autor, essa variedade de explicações se complementa entre si (Crochík, 1996).

Assim, podemos dizer que, sob o ponto de vista dos condicionantes psicológicos, o preconceito é um viés subjetivo sobre algo ou uma situação, baseada no modo de pensar e de vida, tendo relação com o processo de experiência de vida nas quais são incorporados valores, sentimentos e ideias e muitas vezes sem ter o conhecimento real do seu objeto de preconceito. Esta é a base do preconceito na qual um padrão mental de avaliação da realidade e expresso em atitudes (UFES, 2004).

O preconceito e a discriminação acompanham o processo de aglomeração dos seres sociais e das sociedades desde os primórdios. Este comportamento surge como uma forma de defesa e proteção, visando a sobrevivência do grupo. Pois, é mais vantajoso acolher seres do mesmo grupo, com características similares, do que seres com dimorfismos corporais (diferentes). Desta forma, categorizar, definindo o que é igual ou diferente, bom ou mau, amigo e inimigo, trará maior adaptação à espécie referida.


Estas interpretações estereotipadas, desenvolvidas pelo animal social, muitas vezes possui um caráter generalista, visto que, devido ao ambiente em que vivem, pequenos descuidos podem significar morte (Crochík, 1996). Desta forma, seres similares, mas que possuem uma característica difusa, eram tratados como não pertencentes ao mesmo grupo. Quando observamos a sociedade humana atual, podemos perceber que tais pensamentos discriminativos ainda estão presentes, podendo citar uma expressão muito utilizada por ocidentais, a de que “asiáticos são todos iguais”, onde fica clara a generalização imposta a toda a população asiática. O mesmo estende-se para outros grupos como pessoas que possuem tatuagens ou uma forma de se vestir diferente da considerada “normal” por grande parte da população (Crochík, 1996).

Quando o padrão de vida comunitário passou a dominar, tais estereótipos foram reforçados como forma de união e manutenção dos grupos, e novos foram criados com base nas experiencias de cada indivíduo e que agora eram compartilhados com seu grupo (Crochík, 1996).

Pode-se considerar o preconceito como um fator agregador para a formação de muitos grupos durante a evolução do ser humano, através do compartilhamento de um mesmo ideal, sendo que alguns impactaram diretamente a história, como a formação da Ku Klux Klan nos Estados Unidos da América e o partido Nazista na Alemanha, ambos pregando a supremacia de uma raça, assim subjugando as demais (Saldanhas, 2013).

Ao se fazer um recorte histórico percebe-se que o preconceito está presente em grande parte da história, seja ela como Lusofobia, por parte dos espanhóis durante as navegações de Fernando de Magalhães, a generalização dos povos fora do Império Romano, considerados povos “bárbaros”, ou as guerras travadas entre cristãos e pagãos durante as invasões nórdicas na Europa.

Apesar de possuir uma base biológica e intrínseca ao ser humano, o preconceito não pode mais ser aceito em sua forma natural nas sociedades atuais, visto que o ambiente a qual ocorre o desenvolvimento humano atual não é o mesmo de um passado muito distante. Mesmo sendo um fator decisivo na conformação do mundo contemporâneo, suas raízes como forma de defesa contra o estranho devem ser conhecidas para serem embotadas/controladas, para que formas exageradas não ganhem espaço dentro da sociedade.

Podemos até dizer que julgamos as pessoas pelo seu carácter, e não pela cor da pele. Mas o nosso cérebro, sem sombra de dúvida, e de maneira muito rápida, percebe a cor, a raça. Em cem milissegundos, a função cerebral já diverge de duas formas deprimentes, dependendo da raça do rosto, conforme mostrado em estudos de neuroimagem (OLSSON, 2005).

Além disso, as pessoas costumam julgar rostos neutros de indivíduos de outras raças como mais zangados do que os da mesma raça. Dessa forma, se os brancos veem o rosto de um negro numa velocidade subliminar, a amígdala ativa-se. Mas, se a imagem for exibida por um tempo suficiente para haver o processamento consciente, então o córtex cingulado anterior e o «cognitivo» CPFdl (Córtex Pré-Frontal dorso lateral) ativam-se e inibem a amígdala. É o córtex frontal quem exerce controle executivo sobre a resposta mais profunda e sombria da amígdala (RICHESON et al., 2003).

A nossa afinação para a raça também pode ser comprovada de outra forma. Mostre-se o vídeo de uma mão anónima a ser espetada por uma agulha e os voluntários apresentam uma resposta «sensório-motora isomórfica»: as suas próprias mãos ficam tensas, por empatia. Tanto em brancos quanto em negros, a resposta é embotada para mãos de outras raças; quanto maior o racismo implícito, maior o embotamento. De modo similar, entre voluntários de ambas as raças, houve maior ativação do (emocional) CPF medial ao considerar infortúnios ocorridos com membros da própria raça, por comparação com os sofridos por indivíduos de outra raça (AVENANTI, 2010).

A neurobiologia subjacente tem que ver com os Potenciais Relacionados com Eventos (PRE), que são alterações na atividade elétrica do cérebro induzidas por estímulos (conforme análise eletroencefalográfica). Rostos ameaçadores produzem uma alteração distintiva (chamada componente P200) na forma de onda dos PRE em menos de duzentos milissegundos. Entre indivíduos brancos, ver uma pessoa negra evoca uma forma de onda P200 mais forte do que ver uma branca, independentemente de a pessoa estar armada ou não. Então, alguns milissegundos depois, surge uma segunda e inibitória forma de onda (o componente N200), originada do córtex frontal, que sugere: “Vamos pensar um segundo sobre o que estamos a ver antes de disparar” (CORRELL, 2006).


Isso é tão deprimente, será que estamos fisicamente programados para temer alguém de outra raça, para processar o seu rosto como se fosse menos que um rosto, para sentir menos empatia? Não. Em primeiro lugar, há uma tremenda variação individual, não é a amígdala de todas as pessoas que se ativa em resposta a um rosto de outra raça, e essas exceções são instrutivas. Além disso, manipulações sutis podem alterar rapidamente a resposta da amígdala ao rosto do outro (LEDOUX, 1995).

Desta forma, ao contrário do senso comum, nós não nascemos seres tolerantes com todas as raças, somos programados para sentir menor empatia com indivíduos de outra cor. Contudo, esse não é o fim da linha, somos seres com cérebros extremamente plástico, com capacidade de mudança. Desta forma, com sucessivas experiências, em uma cultura tolerante, que priorize os direitos humanos, evidenciando que estes vieses preconceituosos não condizem com a realidade, é possível amenizar estes comportamentos. Tornando-nos seres mais tolerantes. Contudo, para isto, essencial que a hierarquia das comunicações neuronais priorize a interpretação e a modulação por parte do Córtex Pré-Frontal, em aposição à amígdala (SAPOLSKY, 2021).

Em consideração ao cenário supracitado, nós estudantes dos cursos de Ciências Biológicas e Psicologia, compreendemos que a relação entre a notícia abordada e as condicionantes dispostas a cerca dos contextos biológicos, etológicos e psicológicos, para com o tema preconceito, condizem a um fator complexo a ser discutido no intuito de julgamento da ação quando contrastado a parâmetros sociais, mas que estão efetivamente relacionados a um aspecto natural no âmbito biológico de cada ser vivo, visando estar averso ao diferente ou algo que não condiz ao natural em seu grupo social. Contudo, seguindo a dinâmica histórica e social abordada, o julgamento para a ação é completamente contraditório ao exposto acima, logo que observamos diferentes contextos que não foram momentos felizes socialmente. Sobretudo, acreditamos que seja relevante essa discussão desde que seja enquadrada em contextos pautáveis, mas que não sejam medidas para impunidade.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Os Animais e as Cidades

 




O número da Revista Inclusiones: Revista de humanidades y ciência sociales intitulado “animais e cidades” traz atrelado além da valiosa contribuição científica dos 17 artigos que a compõe, uma série de representações, ideologias e frutos de encontros improváveis e frutíferos.

A ideia de se trabalhar na Revista Inclusiones um número que congregasse a reflexão do papel dos animais nas sociedades humanas, em especial, as limitações éticas envolvidas nas cidades, foi fruto de um daqueles momentos ímpares, improváveis e eternos, que ocorrem poucas vezes em nossas vidas. Foi por meio de uma conversa com o diretor da revista Juan Guillermo Estay Sepúlveda que percebemos que o mundo conclamava pela superação dessas limitações, então, começamos nossa caminhada em prol de prover hoje para sociedade um cenário complexo, mas acolhedor à vulnerabilidades.

O percurso do número “animais e cidades” perpassa por discussões filosóficas a respeito do antropocentrismo, consciência animal e humanização dos animais; discute o princípio do bem-estar-animal na dimensão teórica e prática direcionada tanto na relação com gatos como animais de companhia, quanto com cães de abrigo e os critérios adotados diante da decisão pela eutanásia ou cuidados paliativos, em caso de debilidade de saúde; aborda a inserção dos animais silvestres e sinantrópicos nas pautas da gestão urbana e os impactos que a poluição sensorial pode causar nesses animais; inclui a dimensão da relação com animais de interesse médico, como a aranha-marrom, animais como recursos nutricionais, como a entomofagia e o manejo sustentável dos jacarés; e, por fim, insere os animais nas pautas judiciais e da proteção animal, imputando um contexto legal no que tange seus direitos nas sociedade humanas.

Olhando para esse resultado imagino o que diria Jan Guillermo, internacionalmente reconhecido pelo seu posicionamento contundente diante das vulnerabilidades socais e ambientais, e revertido por uma preocupação com a conduta ética. Eternizado na sua principal obra “A canção do rouxinol que não era um rouxinol. Aves na América vistas por cronistas: Mesoamérica e Caribe” mostrou para o mundo como é possível ler através a interação entre as aves e suas penas com a cultura, a história de um povo. Um dia conversando com Juan, ele me disse que tinha interesse em reeditar essa obra, ficando em suspenso, a possibilidade da minha contribuição nas ilustrações. Foi dessa expectativa e de um breve encontro que hoje concretizamos e entendemos os motivos que nos conectaram naquele momento do tempo e do espaço. Eu não tive tempo de conhecer a Juan Guilhemo pessoalmente, mas com certeza carregarei no meu legado a sua presença.

Desejo que os desdobramentos das pesquisas apresentadas neste número sejam tão frutíferas quanto foi o projeto firmado entre Cuadernos de Sofia e o Programa de Pós-graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Boa leitura a todos e todas

Marta Luciane Fischer

Editora convidada



quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Não choveu e faltou água! O impacto da crise hídrica na vida da população vulnerável

 

Série Ensaios: Bioética Ambiental

Por Jaqueline Stramantino

Mestranda em Bioética




            Os últimos anos revelaram que a abundância de água no Brasil pode ser considerada um mito, uma vez que toda essa abundância não garante a segurança hídrica. A crise hídrica que o país enfrentou foi resultado dos desequilíbrios que vão muito além da falta de chuva e estão envolvidos com a vulnerabilidade ambiental. 


A vulnerabilidade ambiental pode ser percebida com o aquecimento global, que aumentou a temperatura do planeta, uma vez que, a influência antrópica sobre o aquecimento global ocorre em ritmo sem precedentes nos últimos 2000 anos.  Além do aquecimento, o desmatamento da Floresta Amazônica também contribuiu para a crise, pois os rios voadores, que levam a chuva através do vento ficam totalmente prejudicado com a perda da capacidade da umidade atmosférica pela falta de árvores. Outros fenômenos como o El ninho também interferem no aumento da temperatura da água e consequentemente no aumento da temperatura.

As vulnerabilidades ambientais percebidas poderiam ser mitigadas caso houvesse um plano de ação pela gestão das águas, em prol do meio ambiente, com estratégias direcionadas a uma cidade sustentável paralelamente com uma jurisprudência que zela a água, como o caso da Colômbia, que à água se encontra como um bem jurídico que deve ser protegido. Um dos fatores para ocorrer a escassez de água foi gerado pela inconsistência da gestão para antecipação de fatores de risco que ocasionariam uma possível falta de água somada ao crescimento da demanda e a baixa capacidade dos reservatórios. Esse problema aconteceu nos últimos anos (2020-2021), no Estado do Paraná, na cidade de Curitiba.

A maior crise hídrica da história do Paraná ocasionou pânico em sua população, que se viu em cenários desoladores com falta de água para higiene e alimentação. Especialmente em indivíduos nas regiões mais periféricas, que não possuíam reservatórios ou caixas-d’água para o seu armazenamento próprio. Outro fator foi a falta de igualdade e equidade na redistribuição de água durante o racionamento de água que resultou em aumento do racionamento de água em alguns bairros periféricos, enquanto bairros centrais não sofreram com a restrição de água. Quando as pessoas ficam sem o básico para suas necessidades como sem água para lavar e cozer os alimentos consegue-se enxergar um cenário de falhas éticas na dignidade humano, em que, o Estado faltou com seus deveres éticos de garantir o acesso à água potável para a população com qualidade e quantidade suficiente para todos.


A falta de acesso à água aumenta a pobreza, 35 milhões de brasileiros são privados do acesso à água potável. Na prática, isso significa um crescimento gigantesco das vulnerabilidades ocasionando aumento de doenças de veiculação hídrica, pobreza menstrual em meninas e mulheres, abalos na segurança alimentar e nutricional, perda da autonomia, abandono escolar em crianças e adolescentes e dificuldade de ingressar no mercado de trabalho em adultos. Por isso, pautas hídricas como a universalização do acesso à água potável são tão importantes na sociedade, através de um abastecimento equitativo para 100% dos indivíduos, a população terá direito à água com quantidade e quantidade adequada, capaz de mitigar a vulnerabilidade hídrica e social que está envolvida quando falta água.


A crise hídrica se revela a próxima pandemia, essa afirmação tem intrínseca relação com as utilidades da água, que na sociedade capitalista ficou refém de uma privatização e mercantilização sobrepondo- se como um bem comum adquirindo características de commodity passando a ser um recurso natural que pode ser explorado. Sob uma ótica mercadológica a administração da água foi centralizada para aqueles que tinham capital monetário e esses dominaram esse bem explorando e subsidiando cada vez mais políticas de desigualdade, como o farto desperdício de água pelo agronegócio. No qual, as questões da água sofreram injustiças ambientais e sociais atingindo as populações vulneráveis que para conseguir o aporte de água potável precisa dispor de renda compatível com o preço da água. Assim, quem sofre de vulnerabilidade socioeconômica fica desprotegido sem água despeitando totalmente o preconizado pelos direitos humanos de que à água é um bem comum. Nesse aspecto, a saída encontrada pela parcela dos indivíduos prejudicados pela mercantilização da água é se conglomerar ao redor de rios ou fontes de água naturais, como os mananciais trazendo inúmeros malefícios para o meio ambiente como poluição dos rios e contaminação das águas.

A bioética, nesse cenário pode apontar que existam soluções que sejam justas e equitativas para todos os atores envolvidos diminuindo as vulnerabilidades provocadas por essa crise. Principalmente articulando o direito humano à água potável e os Objetivos do Desenvolvimento Sustentáveis (ODS). Para que haja diminuição da insegurança alimentar instalada quando acontece a falta de água. Bem como redução da taxa de internação e mortalidade infantil, em menores de 5 anos, causadas por doenças gastrointestinais. E contribuindo para acesso potável e distribuição de saneamento para todos. Aumentando a oportunidade de inserção no mercado de trabalho. Fortalecendo as cidades por meio de fomento para o comprimento de políticas públicas por meio de uma gestão eficaz contra as mudanças climáticas.


O processo da inserção da bioética ambiental não pode ser indiferente, o bioeticista será o protagonista nas discussões acerca da garantia de água potável pelo Estado estabelecendo um papel de “ponte” para que as vulnerabilidades sejam diminuídas e a tomada de decisão seja equitativa beneficiando tanto a população quanto o Estado mitigando os conflitos de interesses relativos a água que acontecem de forma desigual, para atenuar as vulnerabilidades hídricas que ainda persistem.

A bioética como ferramenta para dialogar e ouvir a população dentro da agenda política das cidades poderá subsidiar informações que agreguem todos os agentes envolvidos nas questões hídricas, com soluções justas perante os recursos hídricos, não somente para os seres humanos, mas para todo o ecossistema que se encontra extremamente sensibilizado pela exploração e domínio das águas. Assim percebe-se que crise hídrica vai muito além da falta de chuvas, ela envolve fatores multidimensionais, que para serem resolvidos o Estado deverá contar com a participação social, em que, espaços deliberativos proporcionem atenuação das vulnerabilidades tanto para os cidadãos quanto para o meio ambiente.


O presente ensaio é fruto da finalização da conclusão da dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Bioética da PUCPR, se baseando nas seguintes obras:


ÁGUA. Instituto Trata Brasil, 2019. Disponível em: https://www.tratabrasil.org.br/pt/saneamento/principais-estatisticas/no-brasil/agua. Acesso em: 23 ago. 2022.

BARREIRO, R.; DEL PILAR, M. O direito humano à água e sua positivação: casos Brasil e Colômbia. 2017. Disponível em:  https://repositorio.unesp.br/handle/11449/151260?show=full. Acesso em: 23 ago. 2022.

Escassez de água será a próxima pandemia diz ONU. Consórcio PCJ, 2021. Disponível em: https://agua.org.br/blog/escassez-de-agua-sera-a-proxima-pandemia-diz-onu/. Acesso em: 22 ago. 2022.

Indicadores Brasileiros para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. ODS, 2022. Disponível em: https://odsbrasil.gov.br/. Acesso em: 23 ago. 2022.

LOPES, J.M. Maior crise hídrica da história do Paraná lança desafios em múltiplas frentes. Folha de Londrina, 2021. Disponível em: https://www.folhadelondrina.com.br/reportagem/maior-crise-hidrica-da-historia-do-parana-lanca-desafios-em-multiplas-frentes-3100476e.html. Acesso em: 22 ago. 2022.

Mudanças Climáticas 2022: Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade. IPCC, 2022. Disponível em:  https://www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-working-group-ii/. Acesso em: 23 ago. 2022.

PIMENTEL, C. A água no Brasil: da abundância à escassez. Agência Brasil, 2018. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2018-10/agua-no-brasil-da-abundancia-escassez. Acesso em: 22 ago. 2022.

               

quinta-feira, 30 de junho de 2022

Agradecimento público aos ensinamentos de uma Rolinha


Série Ensaios: Bioética em Foco


Por Marta Luciane Fischer




Nas últimas três semanas tive o prazer de ser presenteada com a oportunidade de conviver com uma rolinha (Zenaida auriculata). Estigmatizada pela superpopulação que apresentam nas áreas urbanas e rurais, são muitas vezes confundias com a pomba (Columa livia), que ao contrário da nossa rolinha, é uma espécie exótica invasora. A rolinha é uma espécie generalista que se adapta facilmente a ambientes alterados e no uso de recursos alimentares alternativos. Apenas por essas características já é um animal digno de admiração, pelo menos para mim. Vamos deixar de lado todo transtorno que causam para as pessoas, edificações e plantações... superar os desafios de um ambiente antrópico, com tanta movimentação, barulho e substratos irregulares... merece aplausos!






Fazia um tempinho que eu não entrava na minha varanda (estamos no inverno) e para minha surpresa quando acessei o local uma noite uma rolinha saiu se debatendo e, então, percebi que ela tinha feito um ninho sobre uma prateleira onde deixo coisas aleatórias que uso pouco (bagunçinha básica). E no ninho, surpresa!! dois ovinhos. De imediato minhas expectativas não foram muito boas, tendo em vista que estávamos nos dias mais frios do ano e não sabia se ela voltaria depois do estresse que sofreu pela minha entrada abrupta. 



Mas ela voltou e me trouxe seu primeiro ensinamento: persistência e dedicação. Ela passava os dias plena sobre seus ovos. Eu olhava para ela e percebia a presença e integridade no momento, sem ansiedade, insegurança ou divisão de tarefas... Apenas esse olhar que me direcionava, que me dizia claramente (mesmo diante de uma expressão facial não obvia) que estava me observando e acredito eu, contanto com a minha compreensão. 


Em alguns dias nasceram dois filhotinhos, e clima estava ainda mais frio. Não me contive e deixei algumas quirelas à disposição. A segunda lição veio com a relatividade do tempo, era como se tudo ali ocorresse em uma velocidade acelerada, mas normal... sem estresse com o tempo e se dará tempo, só deixando ser... As modificações de um dia para o outro eram fantásticas. Não consegui identificar se havia um revezamento entre macho e fêmea. Mas tenho a impressão que em alguns momentos estava mais agitada e sensível a aproximação e em outras me deixava chegar bem perto. O que me levou a considerar serem dois. O me levou ao terceiro ensinamento: não julgar!, pois eu já estava imputando a rolinha o status da mãe solo empoeirada que precisa de uma rede de apoio para combater os abusos à fêmea desamparada. De fato, quatro nesse ninho não rola!





Os dois filhotinhos estavam crescendo bem, uma graça! e eis que em uma manhã gelada eu presencio a pãe jogando um filhotinho para fora do ninho. Não sei se ela jogou ele vivou ou já morto, quando vi estava congelado... Meu coração ficou partido, fiquei tão triste! Mas olhando agora  de fato, não caberia três naquele ninho. 

O Quarto ensinamento foi que a maturidade emocional dessa rolinha é maior que a minha!!! Embora seja óbvio o cuidado, a paciência e a dedicação, também ficou óbvia a decisão racional de eliminar um filhote, mesmo formadinho. Quais critérios ela usou? aparentemente era menor que o outro. Mas o fato é que para um crescer bem e efetivamente, principalmente diante das condições, ela teria que fazer uma escolha. O que eu fiquei pensando era se eu fosse essa escolha! Bom, o fato é que daí pra frente ele só foi crescendo e cada dia mais difícil se aconchegar em baixo da pãe! 





Então duas semanas se passaram, a distância de fuga quase zero. Após a quarta vez que entrei na sacada, a pãe já deixou de se agitar, no máximo, uma vocalização, inflava a pena e escondia o filhote de mim... A pãe ficava a maior parte do dia sobre o filhote, plena e integra. Porém nos dois últimos dias ela começou a ficar mais tempo fora do ninho e o filhote cada vez mais  impaciente quando ficava sozinho. Quinta lição: todos temos  diferentes interesses, enquanto a função demandava dedicação dela ela correspondeu, mas depois ela passou a se dedicar a outros interesses.






Ontem fogos de artificio assustaram a pãe a noite que saiu estressada se batendo nas paredes e deixou o filhote a noite inteira sozinho, ele praticamente não dormiu, ficou em pé olhando pro nada. Fiquei preocupada amanheceu com 2oC.  E obviamente esbravejando sobre esses inconsequentes que insistem em usar fogos com barulho... já não basta? já não é proibido?  Hoje de manhã ela não voltou no ninho, mas ficou no telhado do prédio da frente a manhã inteira. Parecia que estava estimulando o filhote a sair. E ele saiu. Estava cada vez mais agitado, ia até a borda, dava para ver a ansiedade e medo nele, até que ele foi! Ele saiu todo cambaleando e conseguiu alcançar a janela do prédio da frente.. e a pãe o tempo todo olhando de longe. 
 Essa foi a última imagem dele antes de ir... Eu sei que é a ordem natural, mas não deixo de já sentir falta... Falei que a rolinha é mais madura do que eu... 




E ficou o ninho vazio e a expectativa que eles voltem para se aconchegarem um pouco, e quem sabe boas memórias estimule novas ninhadas... e a última lição: como uma experiência com uma outra espécie pode ser tão rica. Com certeza não esquecerei esse nosso breve encontro, a oportunidade de vivenciar a experiência de um outro ser, sem domínio, sem poder, sem cativeiro...  O mundo precisa disso, que as pessoas admirem os animais com quem convivem, que respeite a natureza daqueles pelos quais se tornou responsáveis, que não queiram imputar desejos e necessidades a seres que almejam apenas existir. Não julgue-os por serem classificados como pragas, feios, estranhos ou perigosos.. apenas aprecie e se aprecie apreciando eles!


E por fim o último aprendizado do meu convívio com o Gruuu, olhar ao redor... pq hoje quando estou na rua olho pro céu, para edificações, para as árvores, para os pássaros... esperando vê-lo só mais uma vez, para saber se está tudo bem! 




quinta-feira, 23 de junho de 2022

Caro Esculápio, monstro eu? (Um possível profissional de saúde diante do aborto)


Série: Bioética em foco

Por  Dr. Mário A. Sanches
Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Bioética PUCPR 

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Olá Esculápio, ouvi teu chamado, mirei em tua imagem, as enfermidades são minha rotina, me tornei especialista em humano.

Me encantei ainda mais com a arte de ajudar alguém a nascer, de ajudar alguém a ser mãe, ser pai, ser filho...

Mas o inesperado me aguarda no expediente inexorável: uma jovem senhora, violentada, está gravida e pede socorro.

Caro Esculápio, eu não deveria estar neste plantão! Eu não deveria ter vindo trabalhar hoje! Eu estou preparado para isto?

Se eu negar o aborto, serei na esquina apontado de ‘monstro torturador de meninas indefesas’. E de fato, reconheço – minha própria consciência acusa - que insistir para alguém se manter grávida nestas condições é uma tortura.

Se eu concordar com o aborto, serei taxado, na esquina seguinte, de ‘monstro assassino de criancinhas’. E de fato, eu reconheço – minha própria consciência acusa - que este pequeno humano terá que ser sacrificado, antes de ser retirado do ventre.

Terrível Esculápio, como fizestes de mim um mostro? Tenho medo de olhar na minha própria agenda e lá estar a palavra: monstro.

Angustiado, vou até a janela e do hospital enxergo os transeuntes e me lembrei que esqueceram.

Sim, todos esqueceram, quando eu estava lá fora também esqueci, na correria, no frenesi da vida todos esqueceram.

Esqueceram de desligar a chave da máquina que fabrica abusos de mulheres. Sim, a chave está lá fora.

Por favor, alguém desligue esta maquinaria perversa, antes que meu filho me chame de monstro e, pior, antes que me eu olhe no espelho e me reconheça como tal.


Curitiba, 22 de junho de 2022.