quarta-feira, 1 de julho de 2026

Workshop discute ecocídio, direitos da natureza e biofilia como fundamentos para uma nova ética de proteção da vida

 Por Marta L Fischer



Atividade integrante da programação de pré-VI Congresso Internacional Ibero-Americano de Bioética e reuniu participantes para refletir sobre novas formar de incluir a natureza nos debates interdisciplinares da bioética ambiental transitando entre paradigmas jurídicos, éticos e educativos diante da crise socioambiental. No dia 30 de junho de 2026, a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) sediou o workshop "Ecocídio e Proteção da Natureza".  A oficina foi conduzida pelo Prof. Dr. José Roque Junges da Unisinus e pela Profa. Dra. Marta Luciane Fischer do PPGB, reunindo profissionais de Curitiba, Minas Gerais, Brasília, Londrina, Fazenda Rio Grande e Uruguai em uma proposta de formação voltada à discussão dos fundamentos epistemológicos, jurídicos, éticos e educacionais necessários para enfrentar a crise socioambiental contemporânea e culminando na reflexão sobre propostas de ação de educação ambiental que reconecte as pessoas à natureza. A programação foi estruturada a partir da articulação entre os conceitos de ecocídio, direitos da natureza, ecologia integral e biofilia, buscando compreender como esses referenciais podem subsidiar novas formas de governança ambiental e de educação voltadas à proteção da comunidade da vida. A primeira parte do workshop abordou a evolução conceitual do ecocídio e os desafios relacionados à sua consolidação como categoria jurídica internacional. Foi discutido que a atual proposta de tipificação do ecocídio como crime internacional ainda permanece fortemente vinculada à lógica dos crimes contra a humanidade, mantendo a proteção ambiental condicionada aos prejuízos causados aos seres humanos.
Os participantes refletiram sobre a necessidade de superar essa limitação por meio do reconhecimento da natureza como sujeito de direitos, deslocando o foco jurídico da proteção antropocêntrica para a integridade dos ecossistemas e das relações ecológicas que sustentam a vida, evidenciando a emergência de uma nova compreensão do direito ambiental baseada na proteção da própria natureza. Na sequência, a discussão aprofundou os fundamentos éticos associados ao reconhecimento dos direitos da natureza, destacando que a crise ambiental exige uma transição do paradigma antropocêntrico para uma perspectiva ecocêntrica, na qual os ecossistemas passam a ser reconhecidos por seu valor intrínseco e pelas complexas interdependências que tornam possível a manutenção da vida. A abordagem evidenciou que a conservação ambiental não pode restringir-se à proteção de espécies isoladas, mas deve priorizar a preservação das relações ecológicas responsáveis pelos serviços ecossistêmicos indispensáveis à estabilidade dos sistemas naturais e ao bem-estar humano.
Também foram debatidas inter disciplinarmente pelos participantes da oficina as dimensões simbólicas, políticas e sociais dos direitos da natureza, ressaltando seu potencial para ampliar processos de justiça ambiental e fortalecer a participação das comunidades na gestão dos territórios. O segundo eixo temático concentrou-se na apresentação da Ecologia Integral como paradigma capaz de integrar as dimensões ambiental, social e cultural da crise ecológica. A exposição evidenciou que os problemas ambientais não podem ser compreendidos de forma fragmentada, uma vez que decorrem simultaneamente da degradação dos ecossistemas, das desigualdades sociais e da construção de modelos culturais fundamentados no consumo ilimitado e na racionalidade tecnocrática. Foram discutidos conceitos como biodiversidade, justiça ambiental, economia ecológica, valor intrínseco da natureza, serviços ecossistêmicos, subjetividade neoliberal e bem comum, demonstrando que a superação da crise climática depende de transformações estruturais nas formas de produzir, consumir e estabelecer relações entre sociedade e natureza. A Ecologia Integral foi apresentada como um referencial epistemológico capaz de articular ciência, ética e políticas públicas em uma perspectiva orientada pela interdependência entre todos os componentes da comunidade da vida.  
A etapa seguinte concentrou-se na discussão da biofilia como dimensão subjetiva indispensável para a transição ecológica. Fundamentada na hipótese proposta por Edward O. Wilson, a apresentação destacou que os seres humanos possuem uma predisposição evolutiva para estabelecer vínculos com outras formas de vida, condição essencial para o equilíbrio cognitivo, emocional e social. Em contraposição, foram discutidos os fenômenos da biofobia, do déficit de natureza, da extinção da experiência e da amnésia ambiental geracional, associados à urbanização crescente e ao distanciamento progressivo das pessoas em relação aos ecossistemas naturais. A oficina apresentou evidências científicas sobre os benefícios da interação com ambientes naturais para a saúde física e mental, além de exemplos de estratégias voltadas à promoção da biofilia, incluindo cidades biofílicas, infraestrutura verde, hortas terapêuticas, jardins de cura, terapias assistidas por animais e processos educativos voltados à reconexão com a biodiversidade, emergindo a possibilidade de ampliação do termo para ecofilia e ecofobia.
 Devido a intensa participação do público, a atividade participativa planejada foi realizada coletivamente, lançando um desafiou os grupos a elaborar propostas inovadoras de educação ambiental a partir de um cenário hipotético no qual a natureza fosse oficialmente reconhecida como sujeito de direitos.
A dinâmica estimulou a construção de iniciativas capazes de incluir a natureza nos processos de tomada de decisão, superando modelos tradicionais baseados exclusivamente na transmissão de informações ou em campanhas de conscientização. Entre os elementos considerados na elaboração das propostas estiveram a representação de rios e florestas em espaços deliberativos, mecanismos permanentes de diálogo entre comunidades humanas e ecossistemas, fortalecimento da biofilia em ambientes urbanos, incorporação dos direitos da natureza às práticas educativas e desenvolvimento de estratégias voltadas à participação da natureza como integrante dos processos decisórios. As propostas foram apresentadas coletivamente e discutidas quanto à sua viabilidade, potencial transformador e capacidade de promover novas formas de pertencimento, corresponsabilidade e convivência interespécies.
Ideias emergiram como a aranha marrom, como encontrar algo bom em alguém que faz mal. Assim como na pedagogia das águas, na reconexão a partir da reidentificação com a água. Muito foi discutido sobre a biofobia, a relação com a natureza nos centros urbanos culminando na evidencia que a proteção da natureza demanda mais do que avanços legais ou tecnológicos. A consolidação do conceito de ecocídio, o reconhecimento dos direitos da natureza, a adoção dos pressupostos da Ecologia Integral e o fortalecimento da biofilia constituem dimensões complementares de uma mudança paradigmática orientada pela reconstrução das relações entre seres humanos e ecossistemas. Ao integrar fundamentos científicos, bioéticos e jurídicos com atividades participativas de construção coletiva, a oficina reforçou o papel da educação como instrumento de transformação cultural, contribuindo para o desenvolvimento de práticas comprometidas com a justiça socioambiental, a conservação da biodiversidade e a promoção de uma ética centrada na proteção da comunidade da vida.