terça-feira, 25 de agosto de 2026

Bioética Ambiental: Espaços Democráticos para a Participação Social na Gestão Colaborativa de uma Cidade Inteligente

 

por Carina Del Pino Sandrini




No Brasil, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu a responsabilidade compartilhada entre Estado e coletividade na proteção do meio ambiente, ampliando a participação da sociedade civil. No entanto, persistem barreiras diante da autonomia, do acesso à informação e da efetiva influência sobre as decisões públicas, além da valorização de discursos técnicos, acadêmicos e econômicos em detrimento das argumentações da população. Diante dessas lacunas, organizações, coletivos e movimentos da sociedade civil assumem funções de proteção, educação e enfrentamento sociopolítico dos territórios afetados. A sociedade civil se constitui como um espaço autêntico e autônomo de deliberação, em que pessoas debatem publicamente para além da regulação do Estado e do mercado, desenvolvendo espaços legítimos de deliberação ética, atores de resistência e pontes entre as comunidades vulnerabilizadas e as instâncias formais de gestão pública. No contexto das cidades, os conflitos socioambientais urbanos enfrentam gradativa complexidade, uma vez que a urbanização intensifica as desigualdades presentes no território. A partir disso, as cidades inteligentes surgem como proposta de enfrentamento dos desafios do desenvolvimento urbano, articulando tecnologia, gestão participativa e sustentabilidade. A efetivação desse objetivo, no entanto, deve incorporar o direito à cidade e as especificidades culturais, sociais e econômicas dos territórios para não impor modelos padronizados, garantindo a participação social nas decisões e práticas que rondam a cidade. A cidade de Curitiba, que corresponde ao recorte da pesquisa, é reconhecida internacionalmente por iniciativas relacionadas ao modelo de cidade inteligente, à imagem de capital ecológica e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, mas apresenta, em seu território, desigualdades socioambientais estruturais. Esse contraste demonstra que o discurso de cidade inteligente e sustentável não garante participação ou justiça socioambiental quando desvinculado de uma abordagem ética crítica, podendo ser utilizado para sustentar premissas superficiais e legitimar decisões tecnocráticas que reproduzem e naturalizam desigualdades históricas. Diante disso, a pesquisa buscou compreender como se constituem os espaços deliberativos de participação social em questões socioambientais na região de Curitiba/PR, a partir das perspectivas da bioética ambiental e da bioética urbana, e de que forma esses referenciais podem contribuir para qualificar os processos de decisão sobre os problemas que atravessam a cidade. Foi esse percurso que me levou a propor, ao final da pesquisa, a criação de um Comitê de Bioética Ambiental para Curitiba.


O que a pesquisa mostrou
?
A dissertação foi estruturada em três artigos. O primeiro artigo foi uma revisão integrativa, exploratória e analítica, realizada nas bases CAPES e Google Acadêmico, com os descritores “bioética urbana” e “urban bioethics”. Os resultados evidenciaram que a bioética urbana está em processo de consolidação terminológica, com um núcleo semântico voltado à análise crítica das desigualdades urbanas, embora a incorporação das pautas ambientais permaneça majoritariamente antropocêntrica. O segundo artigo foi uma pesquisa qualitativa e exploratória, realizada por meio de entrevistas semiestruturadas com representantes de doze organizações sociais da sociedade civil com atuação em pautas socioambientais em Curitiba/PR. Os resultados demonstraram que essas organizações praticam, de forma intuitiva, pressupostos da bioética ambiental em suas ações cotidianas, porém privilegiam respostas rápidas diante da urgência dos conflitos, comprometendo a qualidade ética do processo deliberativo. O terceiro artigo consistiu em um estudo de caso do Projeto Novo Inter 2, na Avenida Arthur Bernardes, em Curitiba. Os resultados evidenciaram que a colonialidade do saber-poder e o padrão histórico de baixa participação popular condicionam a legitimidade e a visibilidade do engajamento social, favorecendo territórios de maior renda em prejuízo de populações periféricas.

Onde entra a Bioética nisso tudo?

Bioética Ambiental: reconhece a interdependência existente entre a vida humana e não humana e integra a natureza, as futuras gerações e as populações em vulnerabilidade como pacientes morais, sujeitos afetados pelas decisões, mas que não possuem poder de decisão sobre elas. Bioética Urbana: parte da premissa que a cidade constitui agente ativo na produção de vulnerabilidades sociais, ambientais e territoriais, questionando modelos de gestão urbana homogêneos e hegemônicos que marginalizam outros modos de existir e habitar na cidade, e busca criar ferramentas capazes de proteger e empoderar as populações mais vulneráveis a intervir nas decisões que as afetam.  Bioética Deliberativa: valoriza o diálogo, a prudência, a escuta plural e a construção coletiva de decisões. Em conjunto, esses referenciais demonstram serem instrumentos capazes de integrar saberes populares e participação social, em diálogo com movimentos sociais e resistências populares, contribuindo para processos decisórios mais inclusivos e comprometidos com a justiça socioambiental.  A proposta: Comitê de Bioética Ambiental - A partir desses resultados, a pesquisa propôs a criação de um Comitê de Bioética Ambiental para a cidade de Curitiba, diante da complexidade dos conflitos socioambientais, que ultrapassam a capacidade de resposta dos modelos deliberativos existentes. Situado no campo da macrobioética, o comitê seria composto de forma multidisciplinar, plural e horizontal, reunindo poder público, setor privado, terceiro setor, academia e sociedade civil para democratizar o debate e qualificar eticamente as decisões. Sua atuação seria orientada pela deliberação, planejamento estratégico, responsabilidade mútua, precaução, pluralidade epistêmica e alfabetização ecológica, incorporando conhecimentos científicos, territoriais e comunitários. O objetivo seria fornecer visibilidade aos pacientes morais, incluindo natureza, animais, gerações futuras e populações vulnerabilizadas, reconhecendo a interdependência entre humanos, animais e ecossistemas.  O comitê funcionaria como espaço de diálogo, educação, consulta e construção de soluções prudentes e consensuais, inclusive diante de situações de incerteza, risco e crise ambiental.


Por que isso importa?

Os conflitos socioambientais urbanos abrangem diferentes valores, interesses, saberes, vulnerabilidades e sujeitos afetados pelas decisões. A pesquisa demonstra que existem organizações e movimentos sociais que praticam, no cotidiano, os pressupostos da bioética ambiental, atuando na proteção dos territórios, na educação, na mobilização e no enfrentamento de conflitos socioambientais, ainda que de maneira intuitiva e sem nomeá-los como práticas bioéticas. O desafio se encontra na falta de espaços capazes de qualificar a deliberação ao longo do tempo, uma vez que a urgência dos conflitos costuma priorizar respostas rápidas em detrimento de processos mais plurais e participativos. A bioética ambiental, articulada com a bioética urbana e a bioética deliberativa, demonstra ser instrumento capaz de integrar o conhecimento técnico aos saberes populares e à participação social, promovendo a inclusão e a defesa de grupos socialmente marginalizados, em sintonia com movimentos sociais e resistências populares, e contribuindo para a construção de processos decisórios mais inclusivos, transparentes e comprometidos com a justiça socioambiental. A priorização da inclusão de saberes e do exercício do direito à cidade deve anteceder qualquer prática de cidade inteligente, que precisa ser pensada a partir do contexto social de cada sociedade e integrada às diversidades éticas e culturais presentes no território. A proposta do Comitê de Bioética Ambiental pretende criar um espaço democrático capaz de articular, qualificar e ampliar os espaços de diálogo, fortalecendo a participação social e a responsabilidade compartilhada na gestão dos conflitos socioambientais.

Se interessou para o Tema te convido para assistir a defesa da minha dissertação

e Também Te convido a conhecer um pouco mais sobre a minha produção científica:

1. FISCHER, M. L.; SANTOS, D. S.; LARA, L. M. M. M.; TORTORA, N. L.; SANDRINI, C. P.; ROSANELI, C. F.. Engajamento Universitário: O campus como território político e educativo de uma Blue University In: Blue University: A Universidade e a Justiça das Águas, ed.1. Curitiba: CRV, 2026, v.1, p. 27 - 214.

2. SANTOS, D. S.; CAMPOS, A. C.; SANDRINI, C. P.; SUTILE, V. M.; FISCHER, M. L.. A importância do engajamento comunitário na bioética social e ambiental In: O E-caminho do diálogo V: A deliberação coletiva em busca da humanização em saúde integral na era digital, ed.1. Ponta Grossa: Atena, 2025, v.1, p. 148 - 159.

3. SANDRINI, C. P.; CHAVES, P.; CUNHA, T. R.; SGANZERLA, A.. Bioética e Justiça Climática In: O E-caminho do diálogo V: A deliberação coletiva em busca da humanização em saúde integral na era digital, ed.1. Ponta Grossa: Atena, 2025, v.1, p. 73 - 84.

4. FISCHER, M. L.; CAMPOS, A. C.; SANDRINI, C. P.; SANTOS, D. S.. O direito de os animais conviverem nas cidades: um debate entre a bioética ambiental e as cidades inteligentes In: Estado, regulação e transformação digital: política públicas, vulnerabilidades, mudanças climáticas e bioética, ed.1. São Paulo: Tirant Brasil, 2024, v.1, p. 273 - 288.

domingo, 2 de agosto de 2026

Invasão Silenciosa no Campus: Aranhas-da-Seda-Dourada

Estudo de campo detalha a distribuição, preferências de habitat e o intrincado comportamento ecológico da Trichonephila clavipes na capital paranaense.

Por Cauã  Macan e Davi Xavier de Cristo Silva

 

Quem caminha diariamente pelos jardins, blocos de aula e áreas esportivas do campus da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em Curitiba, pode não perceber à primeira vista, mas está dividindo o espaço com uma densa e fascinante população de tecelãs prodígios. Entre os meses de abril e maio de 2026, um mapeamento detalhado transformou o campus em um verdadeiro laboratório a céu aberto para desvendar os segredos ecológicos da aranha-da-seda-dourada (Trichonephila clavipes).  Endêmica das Américas Central e do Sul, a T. clavipes é célebre por suas teias circulares gigantescas, cujos fios de seda possuem um revestimento de gotículas oleosas produzidas pela glândula agregada, capazes de capturar presas com extrema eficiência. O estudo questionou como essa espécie interage com o constante fluxo de estudantes e funcionários e quais áreas do campus oferecem as melhores condições de sobrevivência. Os números da pesquisa resultaram no mapeamento de 80 teias,  147 aranhas (90 fêmeas e 57 machos), e, ainda mais 13 aranhas cleptoparasitas (espécies "piratas" que roubam presas diretamente das teias).  Também foi registrada arquitetura estratégica e sucesso na caça através de caminhadas sistemáticas por toda a universidade, por meio do registro e análise de parâmetros estruturais das teias e a localização dos indivíduos. A análise dos dados revelou padrões ecológicos marcantes, tais como:  Tamanho é Documento! pois as teias com maior área de superfície apresentaram um número significativamente maior de carcaças de insetos, confirmando que a dimensão da armadilha de seda é diretamente proporcional à taxa de captura de alimentos.  A Altura é Estratégica! A altura da teia em relação ao solo também influenciou diretamente o volume de presas capturadas.  A Água atrai! houve uma clara concentração de teias em locais próximos a fontes de água, ambiente propício devido à abundância de insetos voadores.  A ocupação das teias revelou uma dinâmica social própria, pois enquanto quase todas as teias continham uma fêmea residente, os machos eram mais seletivos, estando presentes em apenas metade das teias, mas às vezes disputando a mesma fêmea em grupos. Também foi observada a Reação à Presença Humana e "Piratas de Teia". Durante as aproximações para medição, as aranhas mantiveram uma postura predominantemente imóvel. Contudo, ao sofrerem perturbações diretas (como um toque acidental com a trena), demonstraram reações distintas, enquanto algumas avançavam agressivamente provavelmente acreditando ter capturado uma presa, outras recuavam rapidamente buscando abrigo.  Outro achado foi a presença de 13 aranhas cleptoparasitas, as "visitantes oportunistas" habitam a periferia das teias das T. clavipes para roubar comida sem o esforço de construir suas próprias teias.  Também foi determinada a Rota da Coleta e Condições Climáticas, sendo que as coletas cobriram diversos microclimas e horários ao longo do campus da PUCPR:  No Jardim da Vida (15:12, 25°C): o ambiente arborizado com baixo fluxo de pessoas, nos  blocos verde, vermelho e laranja (13:50–15:47, 22°C a 25°C) destacaram-se as áreas de circulação alta de pedestres. Já na capela, biblioteca e bloco Amarelo (13:40, 26°C) foi registrado alto fluxo de pessoas, enquanto no ginásio, piscinas e estacionamento 4 (14:00–14:30, 26°C), a circulação foi média/baixa. Além do trabalho de campo, as atividades se estenderam ao Núcleo de Comportamento Animal (NEC), localizado no Bloco de Ciências da Vida. Nosso estágio teve como objetivo mapear a abundância de aranhas no campus e aprofundar o conhecimento sobre seu ciclo de vida. A pesquisa importa para formação acadêmica, pois assim podemos vivenciar o dia-a-dia de um cientista, importa para ciência pois agrega dados que podem ser articulados com inúmeras outras abordagens e auxiliar na conservação da biodiversidade. Além disso, importa para sociedade também, pois busca desmistificar a biofobia relacioanda com presença desses animais, demonstrando que eles não representam uma ameaça à comunidade acadêmica. Pelo contrário, sua atuação é fundamental para o equilíbrio do ecossistema local, destacando-se no controle natural de pragas e insetos e mostrar que fazem parte da nossa comunidade acadêmica! Se encontrar alguma delas, pare por um segundo, aprecie e tire uma foto! Se quiser nos contar como foi, deixei um comentário.