quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Engajamento social e biofobia: o que você tem a ver com isso????

Por Marta Luciane Fischer


Na noite de hoje, participei da live “Engajamento Social e Biofobia”, promovida em um espaço de diálogo dedicado à relação entre sociedade, animais, natureza e sustentabilidade. A conversa contou com a participação de Bernadete Brandão, Flávia Gabrioti e Schulz no canal @bernadetebrandao1208. Minha participação como bióloga e pesquisadora em Bioética Ambiental também marcou a data simbólica, o Dia do Biólogo, o que tornou especialmente significativa a oportunidade de compartilhar uma trajetória construída entre a Biologia, a Zoologia, a Bioética e a reflexão sobre as relações humanas com os demais seres vivos. A atividade teve como ponto de partida a preocupação com os animais mantidos no Passeio Público e ampliou-se para uma discussão sobre as formas contemporâneas de convivência com a natureza e os desafios para transformar preocupação individual em engajamento social e político. Minha participação partiu de uma breve retomada da minha trajetória profissional, iniciada na Zoologia e marcada por mais de três décadas de estudos sobre a aranha-marrom. A experiência com uma espécie frequentemente percebida como perigosa levou-me, ao longo da carreira, a questionar as relações estabelecidas entre seres humanos e animais e, posteriormente, a incorporar a perspectiva da Bioética. A atuação no Comitê de Ética no Uso de Animais e a formação em Bioética ampliaram meu olhar para questões relacionadas ao bem-estar animal, ao poder humano sobre outras espécies e à necessidade de buscar alternativas de manejo que considerem simultaneamente a segurança das pessoas e a conservação dos animais. A experiência com aranhas predadoras da aranha-marrom tornou evidente um desafio fundamental: para que uma alternativa ecológica seja efetiva, é necessário também compreender e transformar a percepção social sobre os animais envolvidos. A discussão avançou, então, para os conceitos de biofilia e biofobia, compreendidos como dimensões complementares da relação humana com a natureza. A biofilia foi apresentada a partir da proposição de Edward O. Wilson sobre a tendência humana de estabelecer vínculos com elementos naturais. Plantas, animais, terra, vento, chuva, sons e demais componentes do ambiente participam de experiências que podem produzir respostas fisiológicas e contribuir para o bem-estar.
 A existência humana está inserida em uma história evolutiva profundamente relacionada à natureza, de modo que a experiência de conexão com outros seres e ambientes integra dimensões importantes da própria condição humana. A biofobia foi discutida a partir de sua dimensão evolutiva e adaptativa. O medo e a cautela diante de determinados elementos naturais podem ter desempenhado funções importantes na sobrevivência, especialmente diante de predadores, animais peçonhentos, tempestades, alturas, escuridão e outros riscos. A experiência histórica de convivência com a natureza possibilitava distinguir situações de risco e desenvolver estratégias de proteção. O problema contemporâneo surge quando a precaução deixa de estar associada à identificação de riscos concretos e passa a alimentar uma rejeição generalizada daquilo que é diferente, imprevisível ou difícil de controlar. A urbanização e a industrialização contribuíram para aprofundar o distanciamento entre as pessoas e os processos naturais. A vida urbana passou a oferecer ambientes cada vez mais protegidos da terra, da chuva, dos animais e das variações ambientais. A natureza passou a ser frequentemente incorporada às cidades de maneira ornamental, controlada e previsível. A árvore é desejada para produzir sombra e amenizar o calor, enquanto folhas, frutos, galhos, aves, insetos e outros organismos podem ser percebidos como incômodos. A discussão destacou, portanto, uma contradição importante: deseja-se a presença da natureza desde que ela permaneça subordinada às expectativas humanas. O conceito de déficit de natureza permitiu aprofundar as consequências desse afastamento. A redução das experiências diretas com ambientes naturais, especialmente durante a infância, está associada a impactos em dimensões sociais e cognitivas. Crianças que vivenciam grande quantidade de tempo diante das telas e pouca experiência corporal com ambientes naturais podem desenvolver maior estranhamento diante da terra, da areia, das folhas, da água, dos insetos e da irregularidade própria dos ambientes naturais. A natureza passa, gradativamente, a ser percebida como algo distante, perigoso ou desconfortável. A conversa permitiu relacionar o déficit de natureza à própria dificuldade contemporânea de lidar com a diversidade e a imprevisibilidade. Viver em contato com a natureza significa reconhecer que os sistemas vivos são complexos, dinâmicos e compostos por múltiplas relações. A tentativa de eliminar aquilo que incomoda pode ser compreendida como expressão de uma busca mais ampla pela simplificação e pelo controle. A
discussão alcançou, então, as relações sociais: uma sociedade que apresenta dificuldade para conviver com a diversidade biológica também pode apresentar dificuldades para lidar com diferenças humanas, opiniões divergentes e situações que escapam aos padrões previamente estabelecidos. Outro eixo importante foi a relação entre natureza, poder e controle. A discussão sobre zoológicos, animais mantidos em espaços delimitados e a expectativa de observar a natureza sem estar sujeito aos seus riscos evidenciou como determinadas formas de interação podem reproduzir uma relação hierárquica. A pessoa deseja ver o animal, fotografá-lo e apreciá-lo, desde que possa controlar a distância, o espaço e as condições do encontro. A própria ideia de uma natureza “domesticada” ou “encarcerada” pode produzir uma percepção distorcida de convivência, na qual a presença do animal é aceita enquanto não interfere na rotina humana. A discussão sobre as cidades evidenciou outro desafio contemporâneo. O movimento de reintrodução de áreas verdes e a construção de cidades sustentáveis e biofílicas representam avanços importantes, porém exigem uma transformação simultânea da relação da população com os organismos que acompanham os ambientes verdes. Árvores e parques constituem ecossistemas, e a presença de vegetação implica também a presença de aves, insetos, mamíferos, aracnídeos e outros componentes da biodiversidade. Reverdecer a cidade sem preparar as pessoas para conviver com a biodiversidade pode produzir novas situações de conflito e vulnerabilidade. Um exemplo concreto dessa possibilidade foi trazido a partir da experiência com a aranha conhecida popularmente como treme-treme, predadora da aranha-marrom. A aceitação social desse animal demonstra como o conhecimento pode modificar percepções. Quando as pessoas passam a reconhecer individualmente as aranhas, compreender sua função ecológica e perceber a relação entre sua presença e a redução da aranha-marrom, o animal anteriormente percebido apenas como algo indesejado passa a integrar uma rede de relações ecológicas compreensível. A divulgação científica em redes sociais também mostrou potencial para aproximar conhecimento acadêmico e sociedade, ampliando significativamente o alcance de experiências realizadas no laboratório. A participação de Bernadete Brandão acrescentou à discussão a perspectiva da bioética e da educação ambiental. A utilização de estratégias da natureza como fonte de aprendizagem e inspiração para crianças foi apresentada como uma possibilidade de despertar curiosidade, reconhecimento e interesse pelos organismos. Observar formigas, aranhas e outros animais e compreender suas estruturas e estratégias de sobrevivência pode transformar o contato com a natureza em experiência de aprendizagem. A proposta de trabalhar esses conteúdos com diferentes faixas etárias converge com a necessidade de reconstruir vínculos desde a infância e favorecer o reconhecimento de que os seres humanos integram a natureza. A Bioética Ambiental apareceu, ao longo da conversa, como um campo capaz de estabelecer pontes entre conhecimento científico, valores, sociedade e tomada de decisão. A bioética foi apresentada como espaço de escuta, acolhimento, deliberação e construção conjunta de decisões relacionadas a bens compartilhados.
A questão ambiental exige precisamente essa capacidade de construir decisões coletivas, porque problemas como biodiversidade, água, clima e qualidade ambiental ultrapassam a esfera das escolhas individuais. A água ocupou um lugar especial nessa reflexão. A discussão destacou a condição da água como bem comum e como requisito fundamental para a vida. O engajamento ambiental precisa alcançar questões estruturantes, nas quais ações individuais possuem importância, porém dependem de decisões coletivas e institucionais. A dificuldade de mobilizar a sociedade em torno da água, mesmo diante de sua centralidade para a sobrevivência, foi apresentada como uma expressão significativa do distanciamento contemporâneo em relação aos bens comuns. O debate também conduziu à dimensão política do engajamento ambiental. A transformação das relações com a natureza exige participação nos espaços onde decisões são tomadas, diálogo com instituições e aproximação entre academia, ativismo, sociedade civil e poder público. A atuação política foi reconhecida como um espaço complexo, atravessado por diferentes interesses, valores e relações de poder, mas indispensável para transformar conhecimento e preocupação ambiental em políticas públicas. A discussão ressaltou que a academia precisa construir pontes com aqueles que participam diretamente dos processos decisórios, pois a produção científica, isoladamente, possui alcance limitado quando não consegue repercutir na vida social e nas políticas públicas. O encerramento da live reforçou justamente a necessidade de transformar sensibilização em participação. Bernadete Brandão relacionou as discussões à construção de políticas públicas e à necessidade de representação política das pautas ambientais, enquanto minha participação procurou enfatizar que a ocupação desses espaços precisa ocorrer por meio do diálogo, da construção coletiva e da disposição para lidar com interesses distintos. O engajamento ambiental exige pessoas dispostas a ocupar diferentes espaços sociais, políticos, acadêmicos e comunitários. A live deixou como principal reflexão a necessidade de reconstruir a relação humana com a natureza a partir de uma compreensão mais realista da biodiversidade. A natureza não é cenário, decoração ou recurso disponível exclusivamente para atender às necessidades humanas. A convivência envolve diversidade, limites, interdependência, riscos, benefícios e imprevisibilidade. Recuperar a biofilia exige, portanto, ampliar experiências, conhecimentos e vínculos capazes de favorecer o reconhecimento de que os seres humanos pertencem aos mesmos sistemas vivos que procuram proteger. A participação em encontros como o de hoje reafirma também a importância de aproximar Biologia, Bioética, educação, ativismo e política. A produção científica precisa encontrar caminhos para dialogar com a sociedade, formar pessoas capazes de deliberar sobre problemas complexos e contribuir para decisões que considerem diferentes formas de vida. A Bioética Ambiental oferece um território particularmente fértil para essa aproximação, justamente por possibilitar a escuta de diferentes saberes, o reconhecimento das vulnerabilidades e a construção coletiva de responsabilidades diante dos bens comuns e das demais formas de vida.
 
 
Para quem quiser assistir a Live completa esta no link Engajamento social e Biofobia com Dra. Marta Luciane Fischer

 
 

Qual a importância do engajamento social no Desenvolvimento Urbano Sustentável?

 por Daihany Santos


Recentemente, foi publicado o artigo científico intitulado "Engajamento Comunitário e Políticas Públicas no Desenvolvimento Urbano Sustentável: Uma Revisão Integrativa Sob a Perspectiva da Bioética de Intervenção" na Revista da Faculdade de Direito. Mas o que esse estudo revela e qual sua importância social?

A lei garante o espaço, mas quem ocupa a cadeira?

Desde a Constituição Federal de 1988, o Brasil garante no papel o direito do cidadão de participar das decisões públicas, por meio de conselhos municipais, audiências públicas e orçamentos participativos. Teoricamente, a porta está aberta.

Contudo, ao analisar a produção científica nacional, percebe-se um diagnóstico incômodo: o engajamento comunitário com sentido verdadeiramente político ainda é pouco explorado e, muitas vezes, tratado como algo secundário. Na prática cotidiana, a participação popular enfrenta barreiras que comprometem sua efetividade, entre as quais se destacam a burocracia e o uso de linguagem excessivamente técnica nos espaços e processos públicos, que podem afastar a comunidade e reduzir a participação a um cumprimento formal, em vez de promover um diálogo efetivo; as desigualdades socioterritoriais, que impõem maiores obstáculos à participação de populações residentes em periferias ou áreas vulneráveis, especialmente em razão de dificuldades de transporte, restrições de tempo e acesso limitado a informações claras e acessíveis; e, ainda, a dependência da vontade política dos gestores públicos, uma vez que propostas e demandas apresentadas pelas comunidades podem não se converter em ações concretas quando não encontram respaldo ou interesse por parte do poder público.

Esse cenário gera conflitos éticos profundos, como a exclusão participativa, quando grupos historicamente vulnerabilizados são deixados de fora das decisões que afetam diretamente o seu meio ambiente e o seu futuro.

Como a Bioética pode ajudar?

É aqui que entra a Bioética de Intervenção. Desenvolvida no contexto latino-americano, essa vertente da bioética não se limita a teorizar abstratamente, pelo contrário, ela se posiciona firmemente ao lado dos mais vulneráveis e foca na justiça social, na equidade e na proteção do bem coletivo. Quando se aplicam os princípios da Bioética de Intervenção ao desenvolvimento urbano sustentável, perceber-se que a gestão da cidade não pode ser feita "de cima para baixo". Princípios como prevenção, precaução, prudência e proteção mostram que a preservação do meio ambiente e o bem-estar das comunidades exigem que as pessoas mais afetadas pelos problemas sejam ouvidas e respeitadas em todas as etapas decisórias. O engajamento comunitário não é apenas uma ajuda para a prefeitura, mas também é o poder cidadão. Quando vizinhos e associações de moradores se organizam, eles trazem para a mesa o conhecimento prático da rua, do bairro e do território, construindo um saber que nenhum relatório puramente técnico consegue substituir.


Da teoria à prática: Como qualificar a participação social?

O estudo aponta caminhos e potencialidades claras para o fortalecimento da participação social e da gestão ambiental, especialmente por meio da governança local participativa, da ciência cidadã e da criação de espaços interdisciplinares de reflexão ética. Quando a comunidade é ativamente incluída nos processos decisórios, tende-se a ampliar o sentimento de pertencimento, fortalecer o controle social sobre os gastos públicos e conferir maior legitimidade e continuidade às políticas públicas. Do mesmo modo, iniciativas de ciência cidadã, nas quais a população participa da coleta de dados e da construção de diagnósticos locais, podem contribuir para o desenvolvimento da consciência ambiental e para o fortalecimento da capacidade da sociedade de reivindicar respostas do poder público. Nesse contexto, destaca-se ainda a possibilidade de criação de Comitês Municipais de Bioética Ambiental, concebidos como espaços interdisciplinares e consultivos destinados à mediação de conflitos socioambientais e à avaliação dos impactos éticos das decisões urbanas, possibilitando a antecipação de riscos e a adoção de medidas preventivas antes da ocorrência de danos.

Conclusão: A cidade sustentável que queremos

Diante da crise climática e dos desafios urbanos atuais, não podemos continuar tratando o engajamento comunitário como algo opcional ou decorativo. Cidades sustentáveis não são construídas apenas com obras de engenharia ou leis bem redigidas, mas com democracia participativa, escuta atenta e respeito à diversidade de saberes. A Bioética de Intervenção nos lembra que a justiça ambiental e a justiça social são duas faces da mesma moeda. Ouvir a comunidade e garantir sua participação real nas decisões urbanas é o único caminho para construirmos cidades verdadeiramente éticas, justas e sustentáveis para todos.

Para ler o artigo científico completo, acesse: SANTOS, Daihany Silva dos; FISCHER, Marta Luciane. Engajamento Comunitário e Políticas Públicas no Desenvolvimento Urbano Sustentável: Uma Revisão Integrativa Sob a Perspectiva da Bioética de Intervenção. Revista da Faculdade de Direito, v. 50, n. 2, 2026. Disponível em: https://revistas.ufg.br/revfd/article/view/85658