Por Marta Luciane Fischer
O X Colóquio Hans Jonas e VI Jornada Hans Jonas, realizado em Curitiba entre 8 e 11 de setembro de 2026, teve como eixo central a reflexão sobre responsabilidade no Antropoceno, articulando filosofia, bioética, política, direito, ontologia, educação e tecnologia. A programação percorreu diferentes dimensões da responsabilidade contemporânea. As discussões de Bioética e Responsabilidade abordaram as implicações éticas das decisões sobre a vida, enquanto os debates sobre Política, Direito e Responsabilidade ampliaram a reflexão para as estruturas sociais e institucionais. A dimensão ontológica aprofundou a relação entre ser e responsabilidade, e a educação foi apresentada como espaço fundamental para a formação de sujeitos capazes de responder aos desafios contemporâneos. A tecnologia ocupou lugar de destaque, especialmente nas discussões sobre novas neurotecnologias, autonomia e responsabilidade, evidenciando os desafios produzidos pela ampliação das capacidades humanas de intervenção. A presença de pesquisadores internacionais, como Cristian Barros Borgoño, Luca Valera, Angelo Samuel Nunes Milhano e Hélder Telo, ampliou o diálogo para diferentes perspectivas filosóficas sobre técnica, ética e responsabilidade. A programação também incorporou perspectivas sociais e culturais, com a Oficina Abayomi, o Projeto UBUNTU e a participação do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, reforçando a relação entre responsabilidade, educação ambiental, diversidade de saberes e transformação social. De modo geral, o evento colocou em diálogo a filosofia da responsabilidade de Hans Jonas e os desafios éticos decorrentes da expansão do poder humano de intervenção sobre a vida, a sociedade, a tecnologia e o ambiente, procurando compreender como a responsabilidade precisa ser pensada diante das transformações produzidas pelo Antropoceno. Eu tive a honra de participar da mesa Bioética e responsabilidade e a tarefa de levar algumas questões mais recentes para discutirmos no âmbito deste Congresso escolhendo falar sobre: Entre o poder de agir e o dever de cuidar: a responsabilidade diante da vida multiespécie. A contextualização de responsabilidade foi rápida, retomando a ideia que é uma conduta humana discutida em diferentes níveis e a partir de diferentes abordagens, em diferentes contextos e áreas do saber. Desde sua origem, a concepção de responsabilidade está relacionada às consequências das ações de uma pessoa. A partir dessas consequências, desde a Antiguidade clássica, encontramos diferentes pensadores refletindo sobre o quanto somos responsáveis por nossas decisões e sobre quais decisões efetivamente tomamos. Se pensarmos um pouco, tomamos decisões o tempo todo, desde questões bastante simples, como acordar cinco minutos mais tarde ou alimentar-se de determinada maneira, até decisões muito mais complexas. Mesmo aquelas decisões que parecem pertencer exclusivamente ao âmbito pessoal, quando analisadas com maior profundidade, revelam uma conexão muito grande com outras pessoas e com outras situações. Grande parte dessas decisões ocorre em um nível operacional, intermediado por contextos culturais, aprendizagens e comportamentos automatizados. Em determinadas situações, entretanto, precisamos interromper essa automatização e passar por um processo de reflexão sobre as possibilidades existentes. Quando nos encontramos diante de duas ou mais possibilidades de decisão, fazemos escolhas com base nos valores e interesses que orientam nossa vida. É justamente nesse ponto que precisamos refletir sobre as consequências de nossas ações. Ao longo da história humana, o desenvolvimento tecnológico ampliou o poder das consequências de nossas decisões, ultrapassando o espaço físico e horizonte temporal.
Existem decisões cujas consequências podem atingir pessoas que jamais
conheceremos, seja porque vivem em outros lugares geográficos, seja porque
viverão em outro período histórico. Essas consequências podem não ser imediatas
e podem permanecer ao longo do tempo, perpetuando-se de diferentes maneiras. Partimos
da premissa que todos compreendem que a tecnologia potencializou enormemente
essa capacidade, assim como que falar em tecnologia não se refere apenas às
tecnologias contemporâneas, como a inteligência artificial, pois a própria história
foi orientada pelo desenvolvimento tecnológico. A percepção de que o ser humano
poderia alterar o ambiente por meio da produção de ferramentas, como as pedras
lascadas, ampliaram sua capacidade de caçar animais que não conseguiria
capturar apenas com sua estrutura física. O domínio do fogo também representou
uma transformação importante, pois permitiu afastar animais, cozinhar alimentos
e obter maior disponibilidade de energia. Ao mesmo tempo, criou condições para
uma organização social mais ampla, inclusive para sistemas de distribuição dos
alimentos. Posteriormente, o domínio dos metais, especialmente do ferro,
associado à produção de armas cada vez mais potentes e à construção de grandes
templos destinados às divindades, como uma forma de interação com uma natureza
que, até então, era experimentada de maneira horizontal. À medida que a
tecnologia foi sendo aprimorada, a posição do ser humano em relação à natureza
também foi se modificando. A própria conexão com o sobrenatural pode ser
compreendida, nesse período, como uma tentativa de produzir algum tipo de influência
sobre aquilo que permanecia fora do controle humano. O desenvolvimento da
agricultura representa outro momento fundamental dessa transformação. O ser
humano percebe que pode cultivar determinadas plantas e criar determinados
animais e começa, progressivamente, a exercer maior controle sobre os processos
naturais.
A seleção artificial modifica características das espécies, enquanto
a agricultura favorece a fixação das populações humanas em determinados
territórios. Surgem os primeiros assentamentos, as primeiras aldeias, formas
mais estruturadas de organização social e, posteriormente, as primeiras
cidades. A interferência no ambiente também aumenta progressivamente por meio
de projetos de irrigação, desvios de rios, retirada de árvores e intensificação
da produção. O desenvolvimento tecnológico amplia, portanto, a capacidade de
intervenção humana sobre a natureza e, automaticamente, amplia também a
dimensão das consequências pelas quais os seres humanos precisam responder. Já
não estamos diante de uma responsabilidade limitada à consequência imediata de
uma ação. Estudos arqueológicos demonstram que, quando o Homo sapiens
chega a determinados ambientes, pode ocorrer uma alteração significativa na
composição das comunidades animais. Um exemplo bastante conhecido está
relacionado à megafauna australiana, cuja extinção ocorreu em um período
associado à presença humana e às transformações provocadas pela ocupação do
território. Desde os primórdios da nossa história, portanto, já encontramos
interferências importantes sobre os ambientes e consequências que ultrapassam o
momento específico em que determinada ação foi realizada. O surgimento das
cidades e a ampliação desses sistemas culminam posteriormente na Revolução
Industrial, permitindo que o ser humano passasse a exercer um domínio muito
maior sobre processos naturais e consegue manipular recursos em uma escala cada
vez mais ampla, produzindo elementos que ampliam ainda mais sua capacidade de
intervenção. A Revolução Industrial estabeleceu condições para uma
transformação profunda da relação entre produção, tecnologia e natureza e,
posteriormente, esse desenvolvimento tecnológico é mobilizado em uma escala
extraordinária durante as grandes guerras mundiais. Nesse período, observamos
um desenvolvimento tecnológico de enorme magnitude, talvez um dos maiores
processos de aceleração tecnológica da história, envolvendo a corrida espacial,
o desenvolvimento de armas, a energia nuclear, os submarinos, a indústria
bélica, a automação e os primeiros desenvolvimentos relacionados àquilo que
posteriormente chamaremos de inteligência artificial. A mobilização científica
e tecnológica realizada durante as guerras produz também uma profunda
transformação econômica e política. Com o final da Segunda Guerra Mundial,
muitos dos recursos tecnológicos e industriais desenvolvidos para fins
militares passam a ser direcionados para outras finalidades. As indústrias que
haviam sido estruturadas para a produção bélica passam a produzir mercadorias,
equipamentos, tecnologias médicas e diferentes bens de consumo.
O conhecimento
científico produzido naquele período também passa a ser incorporado a novas
áreas. A expansão econômica do pós-guerra encontra, então, uma combinação entre
indústria, tecnologia e publicidade que estimula intensamente o consumo. Os
recursos naturais eram tratados como elementos disponíveis para a produção, e
água, madeira e minérios eram considerados recursos de baixo custo em
comparação com os investimentos necessários para sua transformação industrial.
A publicidade passa a desempenhar um papel importante ao criar e ampliar
necessidades de consumo, estabelecendo uma dinâmica na qual trabalhar,
produzir, consumir e voltar a produzir passam a constituir partes de um mesmo
sistema. Durante as décadas de 1960 e 1970, entretanto, começa a ocorrer também
uma transformação importante na percepção dos limites desse modelo.
Pesquisadores, cientistas, ativistas, ambientalistas e ecologistas passam a
chamar atenção para os efeitos ambientais e sociais do desenvolvimento
tecnológico e industrial. A humanidade havia vivenciado os resultados das
pesquisas realizadas durante o nazismo, conhecia as consequências das armas
nucleares e começava a compreender a dimensão dos impactos ambientais associados
ao crescimento econômico e tecnológico. Começa, então, a surgir uma pergunta
que considero fundamental para compreender a responsabilidade contemporânea,
que consiste em saber como devemos utilizar a tecnologia e quais limites
precisam orientar sua utilização. A questão da responsabilidade passa a
adquirir outra dimensão porque o problema já não está relacionado apenas à
capacidade de agir, mas também à necessidade de refletir sobre as consequências
daquilo que podemos fazer. É justamente nesse período que encontramos uma
confluência importante entre a reflexão de Hans Jonas e o surgimento da
Bioética. Trata-se de uma época extremamente fértil para o pensamento sobre as
relações entre ciência, tecnologia, ética, sociedade e ambiente. A Bioética se
desenvolve, a ética ambiental ganha força, a educação ambiental começa a se
consolidar e diferentes movimentos sociais e científicos passam a questionar as
consequências do modelo de desenvolvimento adotado. Também encontramos importantes
denúncias sobre os efeitos da exploração ambiental e sobre a maneira como a
sociedade moderna estava modificando sua relação com outras formas de vida (Primavera
Silenciosa (Silent Spring) — Rachel Carson, 1962 e Animal Machines: The New Factory Farming
Industry — Ruth Harrison, 1964, por exemplo). A Bioética surge, portanto,
em um momento de grande transformação científica, tecnológica e social. O nome
que costumo trazer como um dos grandes expoentes desse movimento é o de Van
Rensselaer Potter, que, no início da década de 1970, propõe a Bioética como uma
ponte para o futuro e como uma ética da sobrevivência. Potter percebe que, sem
uma aproximação entre as Humanidades, a ética, os valores e os princípios e o conhecimento
produzido pelas ciências, o desenvolvimento tecnológico poderia produzir
consequências extremamente problemáticas para a humanidade. A proposta de
Potter era bastante ampla e incluía também a preocupação com o uso dos recursos
naturais e com as consequências futuras das decisões humanas. Muitas das
situações que naquele momento eram apresentadas como possibilidades
catastróficas parecem, atualmente, muito mais próximas da realidade. Aquilo que
poderia ter sido prevenido ou minimizado em décadas anteriores tornou-se, em
muitos casos, um problema de enorme complexidade. A perspectiva de Potter,
entretanto, não foi incorporada imediatamente da maneira ampla como havia sido
originalmente formulada.
A Bioética acabou
se consolidando fortemente a partir de uma perspectiva clínica, voltada para
questões relacionadas à autonomia do paciente, às decisões médicas e às novas
tecnologias aplicadas à saúde. Nesse processo, consolidou-se aquilo que podemos
compreender como uma microbioética, voltada para o autocuidado, a autogestão do
corpo e a autonomia do paciente diante das decisões médicas. Essa dimensão foi
e continua sendo extremamente importante. A medicina havia passado por
experiências profundamente traumáticas relacionadas à experimentação humana e
ao abuso do poder científico, e as novas tecnologias médicas produziram
situações que exigiam parâmetros éticos claros. Transplantes, reprodução
assistida, manutenção artificial da vida, experimentação, genética e diferentes
formas de intervenção sobre o corpo passaram a exigir uma reflexão que
ultrapassasse a pergunta sobre aquilo que era tecnicamente possível. Era
necessário discutir também se determinada intervenção deveria ser realizada, em
quais condições, com quais limites e com quais consequências. No início da
década de 1980, começa a ganhar força uma dimensão intermediária da Bioética,
que podemos compreender como mesobioética. A reflexão deixa de estar restrita à
decisão individual e passa a considerar instituições e coletividades.
Hospitais, universidades, indústrias farmacêuticas e outras instituições
precisam tomar decisões que afetam grupos de pessoas. A deliberação institucional
exige considerar responsabilidades, consequências, interesses e
vulnerabilidades e precisa ser realizada de maneira interdisciplinar. Na década
de 1990, começa a ocorrer uma retomada mais evidente daquela perspectiva ampla
originalmente proposta por Potter, com o fortalecimento de uma Bioética Global
e de uma Bioética Ambiental. A compreensão de que uma decisão pode produzir
consequências internacionais, globais, planetárias e também temporais muito
extensas amplia novamente o campo da responsabilidade bioética. É importante
perceber, entretanto, que essas três dimensões não funcionam como
compartimentos isolados. Mesmo quando tratamos de uma decisão aparentemente
individual, ela é influenciada por dimensões institucionais e sociais mais
amplas. Se um paciente precisa decidir se realizará determinado tratamento,
essa decisão será influenciada por sua família, por seu grupo social, por suas
crenças, por sua cultura, por suas condições econômicas e pelas relações de
poder que atravessam sua vida. Quando falamos de indivíduo, portanto, não
estamos falando de uma decisão que exista independentemente das dimensões meso
e macro. Da mesma maneira, quando um indivíduo chega a um hospital com
determinada doença, sua condição pode estar relacionada a fatores ambientais,
sociais, políticos e econômicos que ultrapassam completamente a relação clínica
estabelecida naquele momento. A saúde de uma pessoa pode ser consequência de
condições ambientais, de processos de urbanização, de desigualdades sociais, de
decisões políticas e até de processos geopolíticos. As três dimensões
permanecem, portanto, profundamente articuladas. Essa articulação produz uma
consequência importante para a questão da responsabilidade. Na microbioética,
os caminhos envolvidos na tomada de decisão são relativamente mais delimitados.
Temos menos agentes morais envolvidos, menos sujeitos diretamente afetados e,
em geral, conseguimos identificar com maior facilidade as vulnerabilidades e as
consequências. Quando ampliamos a escala e chegamos à macrobioética, a situação
se torna muito mais complexa. Muitas pessoas participam das decisões, os
efeitos se distribuem por grandes territórios e diferentes períodos e os
sujeitos envolvidos podem ocupar posições distintas dentro da mesma estrutura. Em
determinado momento, um indivíduo pode ser agente moral e tomar uma decisão que
terá consequências sobre outras pessoas que ocupam posições diferentes na
estrutura social. Em outro momento, esse mesmo indivíduo pode ser vulnerável à
decisão tomada por alguém que ocupa uma posição de maior poder. A mesma pessoa
pode, portanto, ocupar simultaneamente diferentes posições dentro da rede de
responsabilidades. Essa compreensão também nos permite questionar a ideia de
que problemas comuns podem ser resolvidos apenas por atitudes individuais.
Quando estamos diante de problemas como a crise hídrica ou as mudanças
climáticas, não é suficiente afirmar que cada indivíduo deve fazer a sua parte.
Tomar banhos mais curtos, economizar água ou reduzir determinados consumos são
atitudes importantes, mas não resolvem, isoladamente, problemas cuja produção
está vinculada a estruturas econômicas, políticas e ambientais muito mais
amplas. Quando temos um problema comum, precisamos de um compromisso coletivo.
Esse compromisso precisa envolver diferentes níveis de decisão e diferentes
agentes sociais. A própria dificuldade de alcançar os Objetivos de
Desenvolvimento Sustentável pode ser compreendida também a partir dessa
dificuldade de articular as diferentes escalas envolvidas nos problemas
contemporâneos.
É a partir dessa
perspectiva que parto para a Bioética Ambiental e, dentro dela, para a dimensão
da família multiespécie, que tem intermediado algumas de minhas pesquisas.
Antes de falar diretamente sobre a família multiespécie, entretanto, considero
importante discutir um aspecto relacionado ao próprio ser humano, que é a
biofilia. O termo biofilia foi utilizado e desenvolvido de maneira
sistemática por Edward O. Wilson, também biólogo, que trabalhou em diferentes
áreas da Biologia e faleceu recentemente. A hipótese da biofilia parte da ideia
de que os seres humanos possuem uma tendência a estabelecer uma relação de
afinidade com outros organismos e com elementos naturais. Essa relação pode
ocorrer por meio de experiências muito simples, como caminhar descalço sobre a
areia ou sobre a terra, sentir a brisa do mar, observar o horizonte, entrar em contato
com uma árvore ou brincar com um cachorro. A ideia fundamental é que o ser
humano possui uma história evolutiva profundamente vinculada aos ambientes
naturais. Durante a maior parte de sua existência, nossa espécie viveu em
estreita relação com diferentes elementos do ambiente e desenvolveu mecanismos
de percepção e resposta relacionados a essa experiência. O contato com
elementos naturais pode produzir sensações de bem-estar e influenciar
diferentes dimensões da experiência humana, incluindo aspectos físicos,
psicológicos, sociais e subjetivos. Quando falamos de biofilia, precisamos
considerar também um fenômeno complementar, que é a biofobia. O ser humano
evoluiu em ambientes naturais que não eram necessariamente harmônicos,
previsíveis ou seguros. A natureza é caracterizada por diversidade, interação,
competição, imprevisibilidade e diferentes formas de risco. Conviver com essa
diversidade significava também aprender a reconhecer determinados perigos e
desenvolver respostas capazes de aumentar as possibilidades de sobrevivência. Ao
longo da evolução, indivíduos que conseguiam reconhecer determinados riscos e
responder rapidamente a eles poderiam apresentar maior possibilidade de
sobrevivência. A presença de uma tempestade, uma queda de grande altura, um
animal potencialmente perigoso ou determinadas condições ambientais podia
representar uma ameaça concreta. A capacidade de reconhecer esses sinais e
desenvolver respostas de proteção passou a fazer parte do repertório humano. Nosso
tempo de urbanização é muito curto quando comparado com o tempo evolutivo da
espécie. As grandes transformações relacionadas à agricultura e à fixação das
populações humanas ocorreram há aproximadamente dez ou doze mil anos, enquanto
o Homo sapiens possui uma história de cerca de 300 mil anos. A vida
urbana contemporânea constitui, portanto, uma experiência extremamente recente
quando comparada à nossa história evolutiva. Chegamos às cidades carregando
predisposições construídas ao longo dessa história, inclusive predisposições
relacionadas ao medo e à rejeição de determinados elementos naturais. Algumas
pessoas apresentam medo intenso de aranhas, cobras, tempestades, escuridão ou
altura. Parte dessas respostas pode estar relacionada a predisposições
evolutivas, enquanto outra parte é construída por experiências individuais e
culturais. Quando vivíamos diretamente em ambientes naturais, essas
predisposições eram acompanhadas por processos de aprendizagem. A pessoa
aprendia a reconhecer os riscos reais, aprendia a distinguir situações
perigosas de situações que não apresentavam perigo e aprendia,
progressivamente, a conviver com a diversidade. O problema aparece quando
ocorre a ruptura desse processo educativo e de convivência. A urbanização
intensiva produziu justamente uma transformação dessa relação. A cidade passou
a ser apresentada como oposição ao ambiente rural e à natureza, e muitas
pessoas migraram para os espaços urbanos procurando justamente uma realidade
diferente daquela encontrada no ambiente rural. A chamada selva de pedra
representava, em muitos sentidos, uma tentativa de afastamento das condições
naturais. Em poucas gerações, também fomos desaprendendo a lidar com
determinadas manifestações da natureza. Nosso mundo foi sendo simplificado e
nossas relações com os elementos naturais foram sendo reduzidas. Ao mesmo
tempo, começamos a perceber que uma vida completamente afastada da natureza
produzia consequências para diferentes dimensões do bem-estar humano. Surge,
então, uma preocupação contemporânea com aquilo que passou a ser denominado
déficit de natureza. As cidades começam a incorporar áreas verdes, parques,
árvores, jardins e diferentes elementos naturais como estratégias para
recuperar parte dessa relação perdida. As novas cidades e as chamadas cidades
inteligentes passam a reconhecer a importância da presença do verde e da
experiência da natureza. Existe, entretanto, uma questão importante nessa
retomada. Queremos novamente a natureza dentro das cidades, porém muitas vezes
queremos uma natureza organizada de acordo com nossas preferências. Queremos a
árvore, desde que ela não derrube folhas sobre nosso carro. Queremos os
pássaros, desde que não façam suas necessidades sobre o carro e não cantem de
madrugada. Queremos o verde, mas frequentemente esperamos que ele permaneça
decorativo e previsível. A natureza que retorna à cidade, entretanto, não é
decorativa. Ela traz consigo toda a sua complexidade. As árvores abrigam
animais, os animais circulam pelos espaços urbanos, diferentes espécies
estabelecem relações ecológicas e processos naturais continuam ocorrendo mesmo
quando não correspondem às expectativas humanas. Quando recolocamos a natureza
dentro da cidade sem reeducar as pessoas para lidar com sua diversidade,
criamos uma situação de vulnerabilidade que envolve seres humanos, animais e
instituições. É nesse ponto que a questão da família multiespécie começa
a se relacionar com a biofilia. A família multiespécie foi profundamente
influenciada, nos últimos anos, por uma mídia que passou a afirmar que os
animais são membros da família e devem ser tratados como filhos ou como iguais.
A indústria pet e a publicidade tiveram um papel importante nessa
transformação, incorporando o animal a diferentes contextos de consumo, cuidado
e convivência. Há poucas décadas, em muitas famílias, o cachorro permanecia no
quintal e era compreendido principalmente como um animal de companhia ou como
um animal que ocupava determinado espaço da casa. Atualmente, é muito mais
comum que cães e gatos sejam reconhecidos como integrantes da família,
recebendo cuidados, investimentos e atenção semelhantes àqueles destinados aos
demais membros humanos. Hoje temos, no Brasil, mais famílias com animais de
estimação do que famílias com filhos, e os animais estão presentes em grande
parte das residências, principalmente cães e gatos. Outros animais também
começam a aparecer dentro desse contexto. A questão que considero importante,
entretanto, é saber até onde vai esse reconhecimento do animal como membro da
família e o que acontece quando uma situação concreta confronta esse
reconhecimento com uma estrutura social que continua classificando o animal de
outra maneira.
Para Conhecer um pouco mais da nossa produção sobre o tema, convido para leitura dos artigos:
🐾 FISCHER, Marta Luciane. Por uma bioética pet-friendly: do pecado do antropomorfismo à família multiespécie instagramável. Revista Inclusiones, v. 13, n. 2, e3723, 2026.
DOI: 10.58210/rie3723
🐾 FISCHER, Marta Luciane; CARVALHO, Patricia Feiz Nardinelli Bernardes de; CARNEIRO, Jaqueline Kliemke; PIMPÃO, Claudia Turra. Humanização dos animais de companhia: por uma Educação Ambiental animalitária. Revista Brasileira de Educação Ambiental (RevBEA), v. 17, n. 4, p. 35–56, 2022.
DOI: 10.34024/revbea.2022.v17.13881.
👨👩👧👦 MEIRELLES, Jussara Maria Leal de; FISCHER, Marta Luciane. O animal de estimação como membro da família: repercussões sociais, éticas e jurídicas. 2016.
DOI: não localizado. A publicação localizada corresponde a trabalho apresentado no V Congresso Mundial de Bioética e Direito dos Animais, em 2016, portanto não se trata de artigo de periódico com DOI identificado.
🐕 MARTINS, Maria Natalia; WISNESKI, Rafael Fernando; MARÇAL, Leila Scucato; LEITE, Caroline Neppel Alves; WEBER, Saulo Henrique; FISCHER, Marta Luciane; PIMPÃO, Claudia Turra. Universidade pet-friendly: percepção acadêmica sobre cães de apoio emocional. Revista Inclusiones, v. 13, n. 3, e3780, 2026.
DOI: 10.58210/rie3780.
⚕️ CARVALHO, Patricia Feiz Nardinelli Bernardes de; FISCHER, Marta Luciane. Eutanásia ou cuidados paliativos?: critérios para deliberação na perspectiva de tutores, protetores e médicos veterinários. Revista Inclusiones, v. 9, n. 3, p. 241–284, 2022.
DOI: 10.58210/fprc3376.
⚖️ CARVALHO, Patricia Feiz Nardinelli Bernardes de; FISCHER, Marta Luciane. Os tênues limites entre o direito de viver e o direito de morrer: a perspectiva acadêmica, jurídica e bioética dos cuidados paliativos em animais de estimação. Revista de Bioética y Derecho, n. 58, p. 243–269, 2023.
DOI: 10.1344/rbd2023.58.42292.
🌱 FISCHER, Marta Luciane; CAMPOS, Ana Carolina de; SANTOS JUNIOR, Robiran José dos. Educação ambiental para a coexistência: superando a biofobia para um futuro sustentável. Ambiente & Educação: Revista de Educação Ambiental, v. 30, n. 1, p. 1–25, 2025.
DOI: 10.63595/ambeduc.v30i1.17978.
🐕 FISCHER, Marta Luciane; ZANATTA, Amanda Amorim; MOSER, Ana Maria. Avaliação da percepção e moralidade de universitários diante dos fenômenos “cães abandonados” e “acumuladores de animais”. Psicologia Argumento, v. 40, n. 110, p. 1994–2023, 2022.
DOI: 10.7213/psicolargum.40.110.AO01.
🦉 FARIAS, Marina Kobai; STRAMANTINO, Jaqueline; FISCHER, Marta Luciane. Fauna Silvestre: uma pauta na agenda das cidades inteligentes? Revista Inclusiones, v. 9, n. 3, p. 147–178, 2022.
DOI: 10.58210/fprc3372.
🐦 FARIAS, Marina Kobai; STRAMANTINO, Jaqueline; FISCHER, Marta Luciane. Los animales como agenda para las ciudades inteligentes: la interacción de los curitibanos con la fauna silvestre urbana. Revista Inclusiones, v. 9, n. especial, p. 18–47, 2022. DOI: 10.58210/fprc3390.
🌊 FISCHER, Marta Luciane; ADAMI, Eliana Rezende; CHAPARE, Trindade Filipe. Perdóname, te quiero, cariño, pero no cabes en el barco: la vulnerabilidad de la familia multiespecie ante las catástrofes. Revista Inclusiones, 2026.
DOI: 10.58210/rie4095.
🌱 ZANATTA, Amanda Amorim; SANTOS-JUNIOR, Robiran José; PERINI, Carla Corradi; FISCHER, Marta Luciane. Biofilia: produção de vida ativa em cuidados paliativos. Saúde em Debate, v. 43, n. 122, p. 949–965, 2019.
DOI: 10.1590/0103-1104201912223.
🧬 FISCHER, Marta Luciane. Biofobia: marcando a fronteira entre as ciências humanas e biológicas. 2026.
DOI: não localizado.
O trabalho foi publicado/disponibilizado pela autora em 2026 e discute a biofobia como fenômeno situado na fronteira entre as áreas das Humanidades e das Ciências Biológicas.
🌳 FISCHER, Marta Luciane; RENK, Valquiria Elita; MOSER, Ana Maria; ARTIGAS, Natalia Aline Soares. Diálogos entre bioética e saúde global: análise de usuários e usos de parques urbanos como indicadores éticos na promoção de bem-estar. Cadernos Metrópole, v. 20, n. 42, p. 471–492, 2018.
DOI: 10.1590/2236-9996.2018-4208.
🐕 FISCHER, Marta Luciane; ZANATTA, Amanda Amorim. Análise bioética das intervenções assistidas por animais em ambiente hospitalar. Revista da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar, v. 24, n. 2, p. 173–186, 2021.
DOI: 10.57167/Rev-SBPH.24.92.
🌎 FISCHER, Marta Luciane; ALMEIDA, João Carlos de Aquino. Humanos e não-humanos no ambiente acadêmico: o direito de conviver em harmonia como pauta da bioética e Educação Ambiental. Revista Brasileira de Educação Ambiental (RevBEA), v. 20, n. 6, p. 428–448, 2025.
DOI: 10.34024/revbea.2025.v20.20363.



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