terça-feira, 15 de setembro de 2026

Bioética Ambiental participa do II Congresso de Bioética e Bem estar Animal com pesquisas sobre família multiespécie, vínculo e vulnerabilidade


Por Marta Fischer
 
 

O Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental, vinculado ao Programa de Pós Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, participa do II Congresso de Bioética e Bem estar Animal, CBBA 2026, realizado pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, UENF, entre os dias 15 e 18 de setembro de 2026. Com o tema “Violência contra animais: da crueldade individual ao sofrimento institucional”, o congresso reúne pesquisadores, estudantes, profissionais, protetores e diferentes áreas do conhecimento para discutir as múltiplas formas de violência que atravessam as relações entre humanos e animais, desde situações de maus tratos até formas institucionais e estruturais de produção de sofrimento. A participação do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental ocorreu por meio de dois trabalhos que abordam uma questão central para a compreensão contemporânea do bem estar animal: como os vínculos afetivos estabelecidos entre humanos e animais de companhia podem produzir cuidado, proteção e pertencimento, ao mesmo tempo em que podem reproduzir relações de dependência, controle e vulnerabilidade. As pesquisas partem do reconhecimento crescente dos animais como integrantes das famílias e desenvolvem uma reflexão bioética sobre as responsabilidades humanas decorrentes dessa transformação das relações familiares. O primeiro trabalho, intitulado “Família multiespécie, bem estar animal e vulnerabilidade compartilhada: uma reflexão bioética sob a perspectiva do luto pet”, é de autoria de Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira e Marta Luciane Fischer. A pesquisa foi apresentada no eixo temático dedicado aos animais domésticos e realiza uma revisão narrativa, exploratória e qualitativa da literatura científica sobre família multiespécie, humanização dos animais de companhia, vínculo entre humanos e animais, bem estar animal e luto pet.  A investigação parte da constatação de que os animais de companhia passaram a ocupar posições afetivas cada vez mais relevantes nas estruturas familiares.
 O reconhecimento como integrantes da família amplia as possibilidades de cuidado e proximidade, porém também mantém uma relação marcada pela dependência e pela assimetria de poder. Os animais permanecem dependentes das decisões humanas relacionadas à alimentação, saúde, cuidados veterinários, mobilidade, reprodução, proteção e morte. A pesquisa propõe, portanto, compreender a chamada vulnerabilidade compartilhada como uma condição interdependente, embora assimétrica, na qual o animal está vulnerável às decisões humanas e os responsáveis vivenciam sofrimento diante do adoecimento, da finitude e da perda. A revisão identificou 65 referências, sendo cinco relacionadas à produção nacional ou ao contexto brasileiro e 60 provenientes da produção internacional. Os estudos analisados abordaram principalmente humanização, família multiespécie,
 vínculo, sofrimento, perda, apego, luto e estratégias de enfrentamento. A análise evidencia que a intensidade do vínculo afetivo pode produzir importantes responsabilidades éticas, especialmente durante processos de adoecimento e finitude. A dificuldade humana de aceitar a perda pode interferir nas decisões terapêuticas e favorecer o prolongamento de intervenções que já não proporcionam bem estar ao animal. O estudo também chama atenção para o reconhecimento social do luto pela perda de um animal de companhia. A morte pode produzir repercussões profundas na organização emocional e cotidiana da família, enquanto a deslegitimação social desse sofrimento pode dificultar sua elaboração e restringir o acesso ao acolhimento. A conclusão sustenta que reconhecer o animal como membro da família implica assegurar proteção concreta durante sua vida e acolhimento legítimo após sua morte, articulando cuidado responsável, reconhecimento dos limites terapêuticos, bem estar animal e apoio às famílias. O segundo trabalho, intitulado “Família multiespécie ou cativeiro afetivo? O fetiche do vínculo controlável”, é de autoria de  Tëtë Xinã (Bianca Santana da Silva) e Marta Luciane Fischer. A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós Graduação em Bioética da PUCPR e articula Bioética, perspectivas decoloniais e Medicina Veterinária Comportamental para problematizar situações nas quais o animal é reconhecido como integrante da família, recebe intenso investimento afetivo, porém permanece submetido às necessidades e projeções humanas. A pesquisa questiona se a família multiespécie efetivamente proporciona condições para que os animais expressem sua própria natureza ou se determinadas formas de convivência transformam o afeto em mecanismo de controle. A revisão exploratória da literatura nacional e internacional foi realizada com apoio da ferramenta  Leap Space, disponibilizada pela CAPES, a partir de um comando elaborado pelos pesquisadores para identificar estudos relacionados à família multiespécie, vínculo afetivo interespecífico, objetificação afetiva, funcionamento familiar e projeções narcísicas. A pertinência das fontes, a interpretação dos achados e a síntese dos resultados foram posteriormente 
validadas pelos pesquisadores. Os resultados identificaram 51 registros nacionais, distribuídos entre disfunção clínica do vínculo, família multiespécie e vínculo interespecífico, funcionamento familiar, objetificação, projeção e idealização. Na produção internacional foram encontrados 78 estudos provenientes de 17 países, com predominância de pesquisas relacionadas ao luto pela perda de animais de companhia. A literatura internacional apresentou maior sistematização das relações entre família multiespécie, vínculo, funcionamento familiar, antropomorfização, apego e disfunção relacional, especialmente nos campos da Psicologia e da Medicina Veterinária. A contribuição conceitual central do trabalho está na proposição de quatro categorias analíticas: fetiche do vínculo controlável, utilitarismo afetivo, captura afetiva e cativeiro afetivo. O utilitarismo afetivo ocorre quando o animal é valorizado prioritariamente pela função emocional atribuída pelos humanos. A captura afetiva caracteriza relações nas quais dependência e disponibilidade constante são interpretadas como manifestações de amor.  O cativeiro afetivo corresponde a situações nas quais a proximidade e o controle reduzem oportunidades de exploração, repouso autônomo, interação social e expressão de comportamentos próprios da espécie. O fetiche do vínculo controlável enfatiza a valorização de uma relação previsível e responsiva, na qual a qualidade do vínculo passa a ser medida pela capacidade do animal de atender às expectativas humanas. A Medicina Veterinária Comportamental contribui para ampliar a análise ao considerar indicadores como capacidade de afastamento, repouso autônomo, exploração, repertórios sociais e oportunidades de escolha. A presença de comportamentos associados à ansiedade de separação, por exemplo, não permite estabelecer uma relação causal direta com a família multiespécie, pois fatores individuais, ambientais e relacionais também participam de sua determinação. A avaliação bioética pode ampliar a compreensão do vínculo ao observar as possibilidades efetivas de escolha e expressão comportamental oferecidas ao animal dentro da convivência familiar. As duas pesquisas convergem ao evidenciar que a transformação dos animais de companhia em integrantes reconhecidos das famílias amplia responsabilidades éticas relacionadas ao cuidado. A proximidade afetiva adquire relevância bioética quando passa a ser acompanhada pela consideração das necessidades próprias dos animais, de sua capacidade de expressão comportamental e das condições concretas de bem estar. O pertencimento familiar, portanto, exige uma reflexão sobre as relações de poder presentes na convivência doméstica e sobre a responsabilidade humana diante da dependência animal. A participação no II Congresso de Bioética e Bem estar Animal fortalece a inserção do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental em um debate interdisciplinar que aproxima Bioética, Medicina Veterinária, comportamento animal, Psicologia, Direito, filosofia e estudos das relações entre humanos e animais. As duas pesquisas contribuem para ampliar a compreensão da violência contra animais ao deslocar a análise para dimensões relacionais que podem permanecer invisíveis quando o sofrimento é compreendido apenas a partir de situações explícitas de maus tratos. 
 O controle excessivo, a objetificação afetiva, a desconsideração das necessidades próprias da espécie e a dificuldade humana de reconhecer os limites do cuidado também constituem questões que merecem análise ética. Como sintetiza Martha C. Nussbaum em Justice for Animals: Our Collective Responsibility, “Todos os animais deveriam ter a oportunidade de florescer à sua maneira. Os seres humanos têm um dever coletivo de enfrentar e solucionar os danos que causamos aos animais.”  A perspectiva apresentada pelos dois trabalhos do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental aproxima se dessa responsabilidade ao defender que o vínculo com animais de companhia deve produzir condições concretas de cuidado, 
proteção, expressão e bem estar, preservando a alteridade animal e reconhecendo a responsabilidade humana decorrente da assimetria existente nas relações.  A presença de Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira, Tëtë Xinã e Marta Luciane Fischer no CBBA 2026 reafirma, portanto, a contribuição da Bioética Ambiental para a construção de uma reflexão crítica sobre as relações entre humanos e animais. As pesquisas apresentam diferentes perspectivas sobre a família multiespécie, articulando o cuidado durante a vida, as possibilidades de autonomia e expressão do animal, os limites da intervenção humana e o reconhecimento do sofrimento relacionado à perda. O conjunto evidencia que promover o bem estar animal exige compreender a complexidade dos vínculos e transformar o poder humano em responsabilidade efetiva diante das outras formas de vida. 

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