Blog de discussão e aplicação de conhecimentos científicos no dia-a-dia, destinado para alunos e interessados na Ética Prática, Dialogante e Multidisciplinar própria da Bioética!
Agradeço imensamente a presença de quem pode ir me dar um abraço, mas
também a todos aqueles que não puderam estar presentes, mas que
comemoraram comigo essa jornada iniciada há mais de 30 anos. O tempo
contribuiu para a pluralidade de atores se que se entrelaçam e que
contribuíram direta ou indiretamente para os achados científicos que
permitiram escrever a biografia da aranha-marrom, mas também aquelas que
contribuíram direta ou indiretamente para escrever a biografia da Marta
Fischer que também protagoniza essa obra. Seria impossível nominar cada
uma dessas pessoas que me deram suporte emocional, estrutural e
intelectual para hoje ver um sonho de uma estudante de biologia se
concretizar. Procurei imagens que representasse esses encontros que
foram projetadas na intenção de materializar um longo abraço de
gratidão. Escolhi para representar meu agradecimento individual a cada
um de vocês, minha família formada pelos meus pais, irmã, sobrinhos e
pelo Nando que participaram ativamente em todas as etapas desta jornada,
e meus pais além possibilitarem a vida biológica e social, se
envolveram diretamente nas pesquisas me dando suporte. Inclusive a foto
na capa desse livro, foi um dos primeiros registros do meu pai nas
pesquisas de campo de mestrado.
Em um primeiro momento a intenção dessa obra foi congregar as dezenas de investigações científicas, intervenções sociais e formação de gerações de pesquisadores. Entrelaçar os conhecimentos alcançados até então, entre eles e com a literatura científica, bem como resgatar análises e dados inéditos que devido às demandas do ‘universo acadêmico’ acabaram ‘engavetados’. Dados que espero que sejam incorporados em novas hipóteses, interpretações e propostas a fim de diminuírem e mitigarem vulnerabilidades. Que sejam apropriados olhares inovadores, para que possam somar na compressão de um fenômeno peculiar de Curitiba, mas plausível de ser acometido em qualquer localidade e com qualquer outra espécie, até então desconhecida. Espera-se que a ocorrência de milhares de acidentes todos os anos não sejam mais toleráveis, uma vez que além de fragilizarem a saúde, interrompem atividades laborais e sociais, comprometem as emoções a ponto de interferir na relação com a natureza. Essa obra também tem a intenção mostrar a jornada científica, como a pesquisa surge, como o caminho é construído, como as hipóteses testadas geram mais perguntas, como a network fortalece e incorpora o conhecimento. O livro mostra a trajetória que começou na graduação em Biologia da PUCPR e interligou muitas instituições como o MHNCI, o Instituo Butantan, a UFPR, o CPPI, SMMC e a aracnologia brasileira, com meus eternos e mais amorosos agradecimentos ao meu padrinho na aracnologia e na etologia dr. Cesar Ades.
A obra também traz uma relação com nossa cidade, que me enche de orgulho. Há 30 anos os curitibanos se deparavam com novo perigo no local que deveria trazer conforto e segurança, suas casas! A aranha-marrom predominou durante muito tempo nas pautas jornalísticas, que permearam uma geração de curitibanos que cresceu em um mundo em que a aranha-marrom sempre fez parte. O que mudou nessas três décadas? Por que todo conhecimento acumulado não foi o suficiente para acabar com os acidentes? A sociedade está mais empoderada para o enfrentamento do risco ou as pessoas que se formaram nesse cenário são mais temerosas? Trinta anos depois, a aranha-marrom se incorporou na paisagem da cidade? Entrando na Teia - O ponto de partida da trilha é a PUCPR - Curso de Ciências Biológicas - 1990, meu espaço de existência de toda uma vida. A minha conexão com as aranhas, se deu no 1º ano quando o prof. Estefano Jablonski pediu para escolher, diante de todos os animais presentes no Museu de Zoologia, qual deles eu gostaria de trabalhar no meu estágio ele me conduziu ao autoaprendizado na sistemática e a conexão com o meu 1º orientador Júlio Cesar de Moura-Leite (MHNCI) e meu padrinho Emanuel Marques-da-Silva da Secretaria do Estado da Saúde do Paraná (SESA-PR) que me inseriu na questão da aranha marrom em 1992 quando foi detectada uma anormalidade no registro de acidentes e na constatação de uma infestação jamais registrada. Foi instaurada oficialmente uma comissão para estudar o loxoscelismo em 1993 que buscava entender se a resposta do “Por que Curitiba?” estava na alteração do ambiente com desmatamento e eliminação de um provável predador natural; no Cinturão verde da cidade; Tipo de iluminação pública; Característica das construções (porão, tijolo sem reboco); Hábitos e costumes da população e, então, estabelece-se diferentes frentes de enfrentamento voltadas nas medidas preventivas, profiláticas, controle e obviamente pesquisa básica.
Passo 1: A identificação espécies de aranha-marrom presentes na cidade foi a primeira lacuna que precisou ser preenchida, apoiada pelo meu pai, que ficou me esperando no carro enquanto eu estagiava com a Dra. Sylvia Lucas no Instituto Butantan, em São Paulo. Minha primeira pesquisa foi atrelada ao meu TCC com a orientação do Júlio com o levantamento das espécies do gênero Loxosceles presentes em Curitiba. Esse foi mais um momento em que pude contar com uma rede de apoio de colegas que me traziam aranhas de toda Curitiba para que eu pudesse mapear a distribuição das espécies, dos quais muitos estão aqui e agradeço publicamente e especialmente aos meus professores Carlos e Silvia Gomes. O capítulo que abre a obra é um panorama da sistemática do gênero e embora o percurso literário tenha permitido agregar o conhecimento sobre inúmeras espécies presentes em diferentes partes do mundo, a personagem principal é a espécie L. intermedia.
Caracterizada por uma coloração de marrom em tons avermelhados, é tradicionalmente descrita como possuindo um abdome que lembra uma azeitona. Mello-Leitão foi muito feliz quando denominou a espécie de intermedia, pois em vários aspectos se apresenta com características morfológicas, biológicas e comportamentais intermediárias entre as demais espécies do gênero. A origem da espécie continua a ser um mistério, embora tenha uma distribuição limitada ao sul da América do Sul, especialmente Argentina, no Brasil foram registradas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e alguns outros estados do sudeste. Até então se apostava na sua endemia, contudo a fala de registros da ocorrência em ambientes naturais, dificultam a reconstituição do seu percurso até a colonização das casas. A espécie não apresenta nenhuma característica especial que a distingue substancialmente de outras espécies, sendo inclusive menor e com uma toxina menos potente, se demonstra mais sensível para alguns fatores ambientais. Então, o que empodera a L. intermedia a ponto de se sobrepor em 90% a ocorrência de L. laeta em Curitiba, e estar presente em mais de 80% das edificações inspecionadas, foi o questionamento que motivou os mais de 30 anos de pesquisas conduzidas por mim, em parceria com muitos pesquisadores com expertises em diferentes áreas e com muitos estudantes que desenvolveram suas competências em pesquisa científica.Passo 2: Quem é L. intermedia? Após o mapeamento das espécies em Curitiba com a constatação do predomínio de L. intermedia, o segundo passo foi aprofundar o conhecimento a respeito de uma espécie praticamente desconhecida pela ciência. A entrada no programa de mestrado de Zoologia da UFPR em 1994 foi o segundo desafio, com o apoio da Dra. Setuko Masunari e do prof. Luís Amilton Forster. Ressalvo que toda essa caminhada não seria possível sem o apoio do meu orientador João Vasconcellos-Neto, que abriu as portas do departamento de zoologia da UNICAMP e ao Laboratório Interdisciplinar de Pesquisa em Animais Peçonhentos (Lilape), instalado na UFPR, que sob a coordenação do prof. Oldemir Mangili. Além disso tudo, nesta época fundei
com a Paula Batista dos Santos o Instituto de Pesquisa de Guaraqueçaba (IPG) e ingressei na Faculdade de Artes do Paraná (FAP), foi um período intenso de conexão com outras perspectivas de vida e de possibilidades para ampliar minha visão para além dos muros técnicos da academia e poder ilustrar o livro.Durante meu mestrado desenvolvi cinco pesquisas sendo que os aspectos da biologia básica como comportamento copulatório, reprodução, crescimento e longevidade compõe o capítulo 3 e a descrição de aspectos ecológicos básicos como flutuação populacional do longo do ano, alimentação, competidores e predadores compõe o capítulo 4. A parte experimental foi realizada na UFPR e a de campo em eucaliptos presentes no SMCC (meu agradecimento ao prof. João Carlos Jaszerski que abriu as portas do SMCC) seu Francisco Fischer me acompanhava em visitas semanas ajudando a carregar e segurar uma escada de 7 metros, a marcar e registrar as aranhas. No ambiente antrópico foi acompanhada uma população presente em entulhos presentes na casa da bióloga Iris Trochimczuk, cuja família gentilmente, deixou de fazer o manejo e não eliminou as aranhas por um ano. Passo 3: Por que L. intermedia? Ambiente ou aranha? Os resultados obtidos no mestrado foram estruturados em experimentos e teste de hipóteses que resultaram na tese de doutorado iniciada em 1997 na zoo da UFPR.
Agora munida de informações sobre morfologia, biologia e ecologia de L. intermedia, meu desafio era entender o que havia em Curitiba que fazia com que L. intermedia obtivesse tanto sucesso, enquanto L. laeta, a única espécie com quem compartilha a cidade, mantinha as proporções registradas em outras localidades. Com a mesma equipe de orientadores e com a ideia de aprofundar na experimentação ecológica montei um percurso de oito pesquisas, sendo algumas delas publicadas de forma inédita nessa obra, envolvendo a caracterização dos nichos, a seleção, colonização e distribuição, temperatura letal e o comportamento agonístico e de captura de presas. A parceria com a SESA-PR foi essencial, especialmente com a bióloga Giselia Rubio e Dra. Marlene Entres. A perspectiva ambiental se deu por meio do desenvolvimento de um protocolo de diagnóstico desenvolvido para caracterização das populações de L. intermedia demonstrando ausência da aranha-marrom na natureza, a caracterização população, foram replicados e validados em outras localidades (RBS, União da Vitória, Ibirama) e aplicado em Curitiba novamente depois de 10 anos. Os experimentos foram realizados no CPPI, com apoio além do Emanuel, também do Rubens Gusso e João Minozzo. Minhas pesquisas tiveram o apoio dos técnicos Milton, Joel, Luís, Jorge e Emília, e ajuda de todos os estagiários, para utilização do espaço físico e, principalmente, na captura de mais de 5.000 aranhas destinadas apenas para os experimentos da dissertação.
Passo 4: Onde tem uma espécie não tem outra? Foram realizados inúmeros experimentos no doutorado e após o doutorado testando preferência por substrato, deslocamento, interações, estratégias reprodutivas. Embora tenham sido realizados alguns poucos estudos sobre epidemiologia, o capítulo 2 foi usado mais como caracterização do início do percurso. Ressalvo que o início dos anos 2000 representou um novo marco na minha jornada, o retorno à PUCPR, agora como professora de Zoologia pelas mãos do prof. Rubens Vianna e da profa. Leny Cristina Miléo Costa e apoio dos coordenadores Waldemar Enz e Ana Greca, criamos o Laboratório Núcleo de Estudos do Comportamento Animal (NEC-PUCPR), onde pudemos contribuir com a formação profissional de um número mais expressivo de estudantes, ampliando as perspectivas de estudos para outras espécies de aranhas e outros animais, como o caramujo gigante africano, o aruá do mato, os escorpiões, baratas, tenébrios, répteis, aves e mamíferos e, até animais humanos, cuja a vivência no ambiente do laboratório e os vínculos criados também contribuíram para essa obra. Foram inúmeras pesquisas em que se confrontou o hábito generalista e especialista avaliando efeito da alimentação no crescimento e na constituição bioquímica e entre hábitos mais ou menos agressivos a partir de interações entre adultos, jovens e filhotes, ressalto a contribuição da Lays Parolim como aluna hj é minha colega colaborando em outras dimensões do comportamento animal. O estudo das estratégias reprodutivas que foi o maior investimento de pesquisa congregando diferentes perspectivas, desde as estruturas morfológicas, os mecanismos de comunicação, comportamento da fêmea e comportamento agonístico de machos.Aponto também os projetos desenvolvidos com Fontanta, Eduardo e Tic, e meu pós-doutorado no Departamento de Química da UFPR.
Passo 5: Qual a relação com as outras aranhas? A aplicação do protocolo de diagnostico indicou a relação entre a grande população da aranha-marrom com pequena presença de outras aranhas sinantrópicas. Essa evidencia se conecta com a minha entrada no Comitê de Ética no uso de animais conduzido pelo Pro. Mario Sanches e pela Dra. Maria Antônia Prado que mudou totalmente a minha visão sobre bem-estar animal especialmente de invertebrados e que consolidou com minha entrada no PPGB frente do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental e abrindo uma nova página no meu percurso profissional. Então comecei a pensar na possibilidade de um controle ético. Investi em pesquisas buscando compreender a relação entre as espécies, realizamos muitos experimentos especialmente com a treme-treme e a aranha vermelha. Os experimentos apontavam para uma eficiência da treme-treme como predadora, mas para tal seria necessário investir no conhecimento da relação das pessoas com as aranhas e o desafio de como promover um engajamento social e a superação da aversão às aranhas.
Passo 6: O que a sociedade sabe? Tecnologia Social e Bioética - A perspectiva da bioética deslocou o foco exclusivamente o controle e passou a incluir educação, diálogo e sustentabilidade. A questão das aranhas foi então inserida no campo da biofobia, evidenciando que o problema não é apenas biológico, mas também cultural. O deslocamento ampliou a compreensão das vulnerabilidades, que não se restringem à espécie ou aos acidentes, mas incluem dimensões sociais, ambientais e institucionais. Nesse contexto, a relação com a aranha-marrom passa a ser entendida dentro de uma perspectiva de saúde global, fortalecimento do autocuidado ambiental e o reconhecimento de que problemas comuns demandam decisões compartilhadas. Então fomos a campo, ouvir as pessoas, entender aspectos biológicos e sociais associados a biofobia, especialmente a aracnofobia. As cidades estão se re-enverdecendo, mas junto com as arvores vêm também a fauna. As pessoas desaprenderam a se relacionar com a natureza, a cidade sempre foi estéril, elas são sabem identificar e se proteger do risco real. Então, o que precisamos para reconectar e reeducar as pessoas a natureza.
Passo 7. Popularizar para convivência – foi nosso último projeto, buscando uma integração social elaboramos um experimento que avaliasse a efetividade da treme-treme como predadora da Aranha-marrom através do acompanhamento de como se distribuem pelo ambiente, ao mesmo que pudesse mostrar para sociedade os bastidores da pesquisa. Foram várias turmas de estagiários e quatro Pibits que juntos resultaram na última publicação do grupo. Nesta foto é possível visualizar a casa da aranha, uma simulação lúdica de um ambiente de uma casa onde se avaliou a distribuição das aranhas. E aqui eu apresento o canal @aranha.marrom, que foi criado para informar sobre a aranha marrom, trazer enquetes, engajamento. Quando começamos o projeto da casa da aranha passamos também a postar em tempo real o resultado os experimentos. O grande crescimento do canal se deu com a entrada do Kaz Born no projeto e popularização da ciência, que antecedeu o livro, mas a intenção foi a partir de diferentes ferramentas de comunicação mostrar o percurso de uma pesquisa científica que levou décadas e principalmente engajar o público. Como interlocutor criamos uma aranha de crochet, feita pelo Felipe um aluno da biologia, e que passou a ser o personagem que permeava a história para entender o pq foi batizada de Loxosceles crochet. Tivemos postagens que abordaram todos os temas do livro, lives com especialistas, depoimento de ex-pesquisadores, entrevista com Dr. Valdemiro Gremink, o post que falava da predação pela aranha treme-treme foi nosso maior alcance com mais 400 mil acessos e principalmente o que validou nossa pesquisa, pois pudemos acessar aqui a reação espontânea do publico engajamento com o reconhecimento e adesão ao controle ético, além de relatos de terem presenciado a predação em suas próprias casas. Uma das postagens foi comentada pelo biólogo Henrique, Ibest em Ecologia e sustentabilidade que elogiou o experimento e foi visualizado por mais de um milhão de pessoas, com comentários também muito gratificantes. Enfim, é um rico material que traduz esse livro para outras formas de comunicação e que levou a aranha-marrom até as crianças em duas escolas, uma privada, 1ª série e outra pública aqui na comunidade Torres. Convido a conhecerem, se inscreverem e divulgarem nosso canal, assim como explorarem nosso livro, dando sentido a esses 30 anos de conexão, comprometimento e perseverança, em um futuro factível para todos!
Passo 8. Afinal Por que Curitiba? O Último capítulo traz uma luz ao desafio lançado pelo prof Oldenir há 33 anos. A alta densidade de Loxosceles intermedia em Curitiba não pode ser explicada por um único fator. Ela resulta de uma convergência entre características da espécie e condições do ambiente urbano. Trata-se de uma espécie altamente errante, que responde com deslocamento a estímulos sutis de variações de temperatura, disponibilidade de alimento ou perturbações no refúgio. Isso significa que ela está constantemente explorando o ambiente e ampliando sua ocupação dentro das edificações. Mas essa capacidade, por si só, não explica pq Curitiba. Curitiba combina alta umidade e instabilidade térmica, o que torna o ambiente natural hostil, ao contrário das construções urbanas que oferecerem abrigo estável, proteção contra intempéries, disponibilidade de microambientes ideais como caixas de papelão, quadros, telhas oferecem estrutura, isolamento térmico e locais seguros para reprodução. Outro fator é a menor pressão de competidores ecológicos. Portanto, o que explica Curitiba é uma combinação: uma espécie altamente adaptável inserida em um ambiente urbano que potencializa sua permanência e multiplicação. O estudo sobre a aranha-marrom não se finda em si, o panorama apresentado, mostra que toda uma rede de apoio é estabelecida para responder uma pergunta específica, consequentemente, é possível e necessário ampliá-la para resolver a relação da humanidade com a natureza. É necessário empoderar o cidadão para o protagonismo crítico e comprometimento com a coletividade. Essa perspectiva estará inserida em cada mistério desvendado, do dia a dia da existência de uma espécie espetacular, cujos ensinamentos podem e devem ser transpostos para o todo. Essa obra tem uma representação complexa, intensa e completa na minha jornada profissional e pessoal, o que sou hoje, indubitavelmente traz agregado o que aprendi com a L. intermedia, suas estratégias, fraquezas e fortalezas. Mas principalmente as potencialidades advindas da superação de ser um ‘problema’ para ser uma ‘inspiração’. No início da jornada se questionava: ‘o que fazer para acabar com a aranha-marrom?’, enquanto havia um esforço na busca de um tratamento e uma aspiração em um controle eficaz, eu ia na contramão, queria saber: quem era Ela. O estigma da aranha vilã era incompatível com aquelas aranhas que vi nascer, que alimentei semanalmente, limpei suas casas, ofereci o melhor ambiente que podia e estive presente até o dia de suas mortes. Promovi encontros ‘amorosos’, admirei suas estratégias, vibrei com quando superaram suas limitações, me culpei por isolado e ter realizados experimentos cruéis. Foram 30 anos! Uma vida inteira, completa, preenchida. Hoje findar, o que espero ser a primeira fase desse percurso, promove uma mistura de sentimentos de alegria, gratidão e satisfação. Escrever esse livro, foi muito significativo por relembrar que minha jornada até aqui foi muito rica e que nunca estive sozinha. Não tem como não fechar os olhos agora e lembrar daquela garota, recém-formada, proferindo uma palestra no anfi 10 do politécnico, com tão poucas informações, e se sentindo desafiada diante da pergunta da mídia, da sociedade e da academia: ‘Porque Curitiba?’ e hoje poder oferecer essa obra para cidade que me acolheu e acolheu uma espécie admirável: L. intermedia, uma cidadã Curitibana! E antes que me perguntem... nunca fui picada por uma aranha.
Meu agradecimentos à Equipe que compôs parte desse percurso...
João Carlos; Estefano Jablonski; João Carlos Jaszczerski; Emanuel Marques-da-Silva; Júlio Cesar de Moura-Leite; Francisco Fischer Filho; Sylvia Lucas; Carlos; Silvia Gomes; Claudia Staudacher; Florinda Tomé; Marcia Czulik; Iris Trochimczuk; Luiz Cesar Machado; Cesar Ades; Ricardo P. da Rocha; Antônio Brescovit; Alexandre Bonaldo; Hilton Japyassú; Jorge Rodolfo Lima; Eduardo Ramires; Setuko Masunari; Luís Amilton Foerster; João Vasconcellos-Neto; Oldemir Carlos Mangili; Paula Batista dos Santos; Giselia Rubio; Marlene Entres; Rubens Gusso; João Minozzo; Milton; Joel; Luís; Jorge; Emília; Patrícia; Denis; Érica; Santa Ineide Forti Fischer; Rubens Vianna; Leny Cristina Miléo Costa; Waldemar Enz; Alexandre Dalabona; Janael Riceti; Adriana Monteri; Aline Gonçalves; Areli; Amanda; Andressa Ricetto; Bruna Lemos; Carolina Rodrigues; Caroline Granzoti; Cesar Marquioro; Cleide Santos; Diego Freitas; Emanuelle Francisco; Eslei Xavier; Fernanda Shinaider; Helena Wohlke; Gabriela; Gabriel Cadenas; Giovana Casagrande; José Renato Rebelo; Jussara Bittencurt; Karin Wolanski; Lays Parolin; Felipe Andrade; Felipe Neves; Flávia Krechemer; Flavia Gabardo; Guilherme Lisboa; Katie Silva; Kaz Rolim de Moura Born; Lenira Ferreira; Massao Itou; Maria Fernanda Caneparo; Monyka Wanto; Munique Zeni; Rafaela Puglia; Rafaela Freitas; Renate Schuartz; Robiran Santos-Jr; Rodrigo Granzoti; Tatiane Lozano; Taje Lanzoni; Thalita Vieira; José Domingos Fontana; Francisco Assis Marques; Mario Sanches; Antônia Maria do Prado; Juliana Z Santos; Marina Farias; Ana Laura Furlan; Caroline Filla Rosaneli; Maria Fernanda Palodeto; Tuany Burda; Maicon Oliveira; Isabella Ricca
No dia 27 de maio de 2026, as Faculdades Pequeno Príncipe, em Curitiba (Paraná), promoveram durante o XII Fórum de Metodologias Ativas – o Talkshow “A contribuição da Pós-Graduação para a excelência do ensino”, um espaço de diálogo sobre os desafios contemporâneos da formação docente da área médica, das metodologias ativas e da qualificação do ensino nas profissões da saúde. O encontro foi estruturado em formato de talkshow, conduzido de maneira dinâmica, participativa e reflexiva, favorecendo intensa interação entre painelistas e público. A proposta do evento foi discutir como a Pós-Graduação tem contribuído para transformar práticas pedagógicas, fortalecer currículos mais humanizados e ampliar a integração entre ensino, pesquisa, cuidado e responsabilidade social. Participaram do debate a Profa. Dra. Rosiane Guetter Mello, diretora de
Pesquisa e Pós-Graduação das Faculdades Pequeno Príncipe e coordenadora
do Programa de Pós-Graduação em Ensino nas Ciências da Saúde da
instituição; a Profa. Dra. Edna Regina Silva Pereira, professora titular
da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás e docente do
Mestrado Profissional em Ensino na Saúde; a Profa. Dra. Marli Gerenutti,
coordenadora e docente do Programa Stricto Sensu em Educação nas
Profissões da Saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; e a
Profa. Dra. Marta Fischer, docente da Pontifícia Universidade Católica
do Paraná e coordenadora do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental, representando a coordenadora Caroline Rosaneli As convidadas promoveram discussões, compartilhando experiências, desafios e percepções sobre formação docente, metodologias de ensino e transformação das práticas educacionais em saúde. As discussões abordaram temas centrais relacionados às transformações promovidas pela Pós-Graduação na prática docente, aos desafios de formar simultaneamente pesquisadores, professores e profissionais da área da saúde, às dificuldades de romper com modelos tradicionais de ensino e às estratégias necessárias para aproximar a formação acadêmica das realidades vividas nas salas de aula e nos serviços de saúde. O formato adotado estimulou a reflexão da plateia sobre suas próprias trajetórias formativas, experiências profissionais e desafios institucionais. A participação da Profa. Dra. Marta Fischer trouxe ao centro do debate a contribuição da Bioética para a formação docente nas profissões da saúde. Em sua fala, destacou que a Bioética atravessa a docência porque ensinar em saúde não se limita à transmissão de conhecimento técnico, mas envolve formar sujeitos capazes de deliberar diante de conflitos morais, reconhecer vulnerabilidades humanas e atuar de maneira ética em contextos sociais cada vez mais complexos. Ao discutir a dimensão ética da formação docente, a professora ressaltou que o profissional da educação em saúde precisa desenvolver sensibilidade ética, responsabilidade social, capacidade reflexiva e maturidade para lidar com sofrimento, desigualdades e impactos das tecnologias emergentes sobre a vida humana. Também enfatizou que, embora a Pós-Graduação tenha avançado significativamente na qualificação científica e técnica, ainda existem desafios importantes para integrar de forma mais profunda aspectos relacionados à humanização, à deliberação ética e à formação moral da prática docente. Outro ponto destacado foi o caráter interdisciplinar do Programa de Pós-Graduação em Bioética (PPGB), entendido como elemento essencial para enfrentar problemas complexos da contemporaneidade.
A diversidade de áreas presentes no Programa foi apresentada como condição fundamental para ampliar o diálogo entre diferentes perspectivas científicas, humanas e sociais, fortalecendo competências relacionadas à escuta, à mediação de conflitos e à construção coletiva de soluções diante de desafios éticos contemporâneos. A fala também evidenciou que a Bioética oferece ferramentas importantes para reconstrução de espaços de diálogo e responsabilidade compartilhada em um cenário marcado pela fragilização das relações humanas, pelo aumento das desigualdades e pelos conflitos sociais, ambientais, sanitários e tecnológicos. Nesse sentido, o PPGB foi apresentado como espaço de formação científica, ética e humana comprometido com o desenvolvimento de profissionais capazes de atuar criticamente diante das complexidades do mundo contemporâneo.O Fórum evidenciou, assim, a relevância crescente da Pós-Graduação voltada ao ensino e à Bioética como instrumento de transformação da educação superior em saúde, reforçando a importância de formar docentes capazes de articular pensamento crítico, sensibilidade ética, diálogo interdisciplinar e compromisso social em suas práticas profissionais e educativas.
A aranha-marrom volta à mídia curitibana devido o lançamento do livro Aranha-marrom: 30 anos de estudos biológicos, epidemiológicos e sociais. E não poderia ser diferente. Ao longo dessas três décadas, a mídia exerceu um papel fundamental de prestação de serviço social, traduzindo a linguagem científica da academia para uma linguagem acessível à população, orientando sobre prevenção de acidentes e sobre os procedimentos adequados em caso de ocorrência.
Compreendemos que, para chamar atenção para um problema de saúde pública reconhecido oficialmente desde 1993, quando o município de Curitiba criou uma comissão específica para estudar o loxoscelismo, muitas vezes as manchetes recorrem ao impacto e ao sensacionalismo. Entretanto, a condução da informação após a chamada inicial precisa ser pautada pela responsabilidade. Mais do que gerar medo, alarmismo ou distanciamento, é necessário promover comprometimento coletivo, consciência crítica sobre o que representa um risco real e como conviver com ele de maneira adequada. Curitiba representa, de fato, um caso atípico quando comparado aos relatos científicos e epidemiológicos registrados em outras regiões.
A elevada infestação da aranha-marrom, especialmente da espécie Loxosceles intermedia, já foi registrada em pelo menos 80% das edificações avaliadas em determinados períodos, sendo essa espécie responsável por cerca de 90% das ocorrências. Os outros 10% estão relacionados à espécie Loxosceles laeta. Entender quais características biológicas, ambientais, urbanísticas e sociais contribuíram para esse cenário, estabelecer métodos de mitigação e impedir que outras cidades expressem o mesmo fenômeno compõem parte central da obra que será lançada no dia 29 de maio de 2026, às 16h30, na Arena Digital da Pontifícia Universidade Católica do Paraná
. A publicação, editada pela PUCPRESS e pela Editora da UFPR, representa uma resposta à academia, à cidade de Curitiba e à sociedade. Mais do que apresentar a biografia da aranha-marrom e da sua pesquisadora Marta Fischer, o livro propõe uma reflexão sobre convivência com uma fauna urbana cada vez mais rica, resultado também do reenverdecimento de cidades que buscam se tornar mais ecológicas e sustentáveis. Ao longo desses mais de 30 anos, construímos uma relação de diálogo constante com a mídia curitibana, logo gostaríamos de registrar nosso agradecimento pelo cuidado, respeito e responsabilidade com que nosso grupo de pesquisa foi tratado, ouvido e divulgado.
A mídia possui um papel essencial na aproximação entre pesquisadores e sociedade, especialmente em temas ligados à saúde pública e à educação científica. Em um momento histórico marcado pela rápida circulação de desinformação, frequentemente produzida por influenciadores sem aprofundamento técnico sobre os temas que abordam, fortalecer a comunicação entre ciência e mídia profissional torna-se ainda mais importante. Difundir informação de qualidade é um compromisso coletivo e uma ferramenta indispensável para promover prevenção, pensamento crítico e convivência responsável com a biodiversidade urbana.
Veja algumas publicações e reportagens que marcaram esses 30 anos!
O webinário “Bioética ambiental: fundamentos para um futuro factível”, promovido pela Sociedade Brasileira de Bioética, ocorreu de forma remota no dia 19 de maio de 2026, por meio da plataforma Zoom, reunindo pesquisadores e participantes interessados nas interfaces entre bioética, ambiente, saúde e sociedade. O encontro integrou a programação mensal da entidade e teve como objetivo discutir a retomada da dimensão ambiental da bioética diante da intensificação da crise socioambiental contemporânea. A proposta central consistiu em refletir sobre como a bioética ambiental vem sendo reconstruída no cenário brasileiro e internacional, articulando fundamentos filosóficos, perspectivas interdisciplinares e desafios éticos associados às mudanças climáticas, à perda de biodiversidade, às desigualdades socioambientais e às relações multiespécies. A abertura institucional foi conduzida por Marisa Palácios, presidenta da Sociedade Brasileira de Bioética, que destacou a importância do fortalecimento da perspectiva ambiental no campo bioético e da ampliação dos espaços de diálogo interdisciplinar. A mediação do encontro ficou sob responsabilidade de Marta Luciane Fischer, professora titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, coordenadora do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental. Entre os convidados esteve Rita Leal Paixão, médica veterinária, filósofa e professora titular da Universidade Federal Fluminense, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Bioética, Ética Aplicada e Saúde Coletiva. Rita possui trajetória consolidada nas áreas de ética animal, ética ambiental, bem-estar animal e ética em pesquisa, tendo atuado também em comissões de ética e bioética do Conselho Federal de Medicina Veterinária. Participou igualmente Tânia Kuhnen, filósofa e professora da Universidade Federal do Oeste da Bahia, com atuação em ética, bioética, filosofia política, ética animal e filosofia feminista. Tânia coordena o grupo de pesquisa “Marginais: Grupo Interdisciplinar de Pesquisa sobre Minorias e Exclusões” e desenvolve pesquisas relacionadas à ética do cuidado, ecofeminismo e ampliação da comunidade moral. O debate contou ainda com a presença de Claudia Turra Pimpão, médica veterinária e professora titular da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, com trajetória vinculada à saúde única, medicina veterinária preventiva e políticas públicas em saúde. Claudia foi presidente da Comissão de Saúde Única do Conselho Regional de Medicina Veterinária do Paraná e coordena o Projeto Barco Saúde Única, desenvolvido no litoral paranaense. Outro participante foi Anor Sganzerla, filósofo, teólogo e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Pesquisador das áreas de bioética, filosofia da técnica e responsabilidade ambiental, Anor abordou os marcos filosóficos relacionados ao surgimento da bioética ambiental e as distinções entre ética ambiental e bioética ambiental.
Na contextualização inicial, Marta Fischer retomou a formulação originária da bioética proposta por Van Rensselaer Potter na década de 1970, destacando que a perspectiva ambiental da bioética emergiu em diálogo com movimentos ecológicos e ambientalistas que problematizavam os limites do crescimento econômico, os impactos da industrialização e os riscos ambientais globais. Foram discutidas as conexões entre a bioética, a hipótese Gaia e a compreensão da Terra como um sistema vivo, bem como o papel atribuído por Potter à bioética como ponte entre ciências biológicas e humanidades. A mediação ressaltou que, apesar dessa formulação inicial fortemente vinculada às questões ecológicas, a consolidação institucional da bioética ocorreu predominantemente no campo biomédico, deslocando durante décadas o enfoque ambiental para uma posição periférica. A perspectiva ambiental
da bioética emergiu das conexões estabelecidas por Van Rensselaer Potter com os
movimentos ecológicos e ambientalistas que se intensificaram a partir da década
de 1960 e início da década de 1970. Nesse período consolidaram-se debates sobre
ética ambiental, educação ambiental, limites do crescimento econômico e a
compreensão da Terra como um sistema vivo, articulada a perspectivas como a
hipótese Gaia. O contexto histórico era marcado pela crescente percepção de que
a exploração intensiva dos recursos naturais, associada à expansão industrial e
ao modelo econômico baseado na ideia de abundância ilimitada, produzia impactos
ecológicos de larga escala e colocava em risco a própria sobrevivência humana.
Pesquisadores e ambientalistas discutiam problemas como superpopulação,
escassez de recursos, poluição, degradação dos ecossistemas e ameaça nuclear,
relacionando progressivamente essas transformações ambientais aos riscos para a
saúde e para o futuro da civilização. Foi nesse cenário que
Potter propôs a bioética como uma nova área de conhecimento voltada à
sobrevivência da humanidade no contexto da sobrevivência da biosfera. Em sua
formulação original, apresentada em Bioethics: Bridge to the Future
(1971), a bioética deveria funcionar como uma ponte entre as ciências
biológicas e as humanidades, articulando conhecimento científico, reflexão
ética e responsabilidade social. Nas décadas seguintes, diante da
invisibilidade acadêmica de suas propostas, inseriu os termos Bioética Global e
Bioética Profunda para fundamentar uma bioética que desse conta de problemas
complexos, plurais e globais. O objetivo era promover um diálogo
interdisciplinar capaz de orientar decisões prudentes diante do rápido desenvolvimento
científico e tecnológico, que ampliava a capacidade humana de interferir nos
sistemas naturais e, simultaneamente, aumentava o risco de colapso ambiental e
social caso tais intervenções não fossem orientadas por valores éticos. Apesar dessa formulação
originária fortemente vinculada às questões ecológicas, a consolidação
institucional da bioética ocorreu majoritariamente no campo biomédico. A partir
do final da década de 1970, a disciplina passou a concentrar-se em dilemas clínicos,
direitos dos pacientes e ética da pesquisa, especialmente após a difusão do
principialismo biomédico. Esse processo deslocou o foco da bioética para
conflitos médicos e hospitalares, contribuindo para que a dimensão ambiental
presente na proposta potteriana permanecesse durante décadas em posição
marginal no desenvolvimento acadêmico da área.Ao longo dos últimos
cinquenta anos, diferentes correntes buscaram retomar ou ampliar a relação
entre bioética e ambiente, surgindo formulações como bioética global, bioética
ecológica, bioética ambiental e outras abordagens que defendem a necessidade de
compreender os dilemas éticos contemporâneos a partir da interdependência entre
sistemas naturais, estruturas sociais e processos tecnológicos. Tais
perspectivas reconhecem que problemas como mudanças climáticas, degradação
ambiental, desigualdades socioambientais e crises sanitárias globais exigem uma
reflexão ética que ultrapasse o enfoque estritamente biomédico e incorpore a
complexidade das relações entre humanidade e natureza.O presente webinário
pretendeu discutir como a bioética ambiental vem sendo reconstruída e
consolidada nas últimas décadas, resgatando elementos da proposta original de
Potter e analisando as contribuições contemporâneas que buscam integrar
dimensões ecológicas, sociais, políticas e culturais na reflexão bioética. O
encontro pretende promover um espaço de diálogo interdisciplinar sobre os
desafios éticos associados à crise socioambiental global e sobre o papel da
bioética na construção de caminhos para a sustentabilidade e para a justiça
socioambiental.
O primeiro bloco do evento concentrou-se nos fundamentos filosóficos da bioética ambiental. Durante o debate, Anor Sganzerla discutiu a possibilidade de estabelecer um marco temporal e filosófico para o surgimento da bioética ambiental, diferenciando-a da ética ambiental clássica. Segundo o pesquisador, enquanto a ética ambiental possui origem mais filosófica e teórica, a bioética ambiental caracteriza-se pela interdisciplinaridade e pela articulação entre questões ecológicas, sociais e políticas, incorporando temas como vulnerabilidade, pobreza, desigualdade e responsabilidade coletiva. O pesquisador defendeu a legitimidade da consolidação da bioética ambiental como subárea da bioética, argumentando que os problemas ambientais contemporâneos exigem abordagens éticas capazes de integrar múltiplas dimensões da vida social e ecológica. Na sequência, Tânia Kuhnen abordou as relações entre ecofeminismo, ética ambiental e bioética ambiental, destacando que as discussões ambientais contemporâneas demandam o enfrentamento das estruturas de dominação associadas à exploração da natureza e de grupos vulnerabilizados. A pesquisadora enfatizou a necessidade de superar perspectivas antropocêntricas e dualistas, propondo relações mais horizontais e interdependentes entre seres humanos, animais e ecossistemas. A reflexão incorporou debates sobre ampliação da comunidade moral, ética do cuidado e reconhecimento das múltiplas formas de vulnerabilidade presentes na crise socioambiental. Tânia Kuhnen retomou os debates sobre expansão da comunidade moral,
discutindo contribuições do biocentrismo e das teorias da ética
ambiental para o reposicionamento das relações entre seres humanos e
demais formas de vida. Rita Paixão enfatizou a relevância das reflexões
sobre ética animal para a consolidação da bioética ambiental, destacando
a necessidade de reconhecer os impactos das ações humanas sobre animais
e ecossistemas no contexto da crise ambiental contemporânea. Rita Paixão discutiu a noção de “bioética profunda”, expressão desenvolvida por Potter em seus últimos trabalhos. Segundo a pesquisadora, a proposta representaria um amadurecimento da bioética enquanto campo voltado à articulação entre ciência, cultura, ética e natureza. A discussão destacou a evolução do pensamento de Potter desde uma bioética inicialmente associada à sobrevivência humana até formulações voltadas à interdependência ecológica e à responsabilidade planetária. A pesquisadora ressaltou ainda a influência de perspectivas ecológicas e da ecologia profunda nesse processo de ampliação conceitual. O segundo bloco abordou a ampliação da bioética para além das relações estritamente humanas. Claudia Turra Pimpão apresentou a perspectiva da saúde única, enfatizando a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. A pesquisadora discutiu a institucionalização da abordagem no contexto internacional e brasileiro, mencionando iniciativas desenvolvidas em articulação com políticas públicas e projetos de extensão universitária. Entre os exemplos apresentados, destacou-se o Projeto Barco Saúde Única, desenvolvido no litoral do Paraná, voltado ao manejo populacional de cães e gatos, à prevenção de zoonoses e à promoção da guarda responsável em comunidades de difícil acesso. A discussão evidenciou como a saúde única dialoga diretamente com a bioética ambiental ao reconhecer a inseparabilidade entre condições ecológicas, sanitárias e sociais. Ao longo do webinário, as discussões extrapolaram os fundamentos conceituais da bioética ambiental e avançaram para a proposição de caminhos teóricos, metodológicos e políticos voltados à consolidação da área. Nesse contexto, Tânia Kuhnen destacou a necessidade de desenvolver parâmetros teóricos e princípios específicos para a bioética ambiental capazes de orientar processos de tomada de decisão diante de dilemas práticos contemporâneos, incluindo questões relacionadas ao uso de tecnologias de modificação genética em ecossistemas. A pesquisadora ressaltou que a complexidade dos problemas ambientais exige referenciais éticos que articulem responsabilidade, interdependência e reconhecimento das múltiplas formas de vida afetadas pelas intervenções humanas. A professora também enfatizou a importância de avançar na formulação de práticas concretas de cuidado, mencionando exemplos como veganismo, educação e políticas públicas estruturadas a partir da ética do cuidado e da virada relacional interespécies. Segundo Tânia, tais práticas podem fortalecer redes de cuidado e ampliar a atenção às demandas de diferentes seres vivos, contribuindo para relações menos hierárquicas entre humanos, animais e ecossistemas. As discussões conduzidas durante o encontro reforçaram a necessidade de consolidação da bioética ambiental como subárea da bioética. Nesse sentido, todos os participantes foram convidados a contribuir com sugestões e debates voltados à delimitação conceitual da área, conforme problematizado por Marta Luciane Fischer e Anor Sganzerla. O debate indicou que o fortalecimento da bioética ambiental depende tanto da construção de bases teóricas mais consistentes quanto da ampliação das articulações interdisciplinares e institucionais. Marta Fischer e os participantes também discutiram a necessidade de desenvolver estratégias de escuta e comunicação efetiva com a natureza e entre diferentes atores humanos e não humanos. Foram mencionadas possibilidades de aproximação com práticas e conhecimentos de comunidades tradicionais, compreendidas como importantes referências para a promoção de diálogos interespécies e para o reposicionamento das relações entre sociedade e ambiente. Outro eixo recorrente nas discussões foi a aproximação entre bioética ambiental e educação ambiental crítica. Marta destacou que, embora a educação ambiental já possua trajetória consolidada em políticas públicas e metodologias pedagógicas, ainda persistem dificuldades na transformação efetiva de comportamentos e paradigmas relacionados à crise ecológica. Nesse contexto, os participantes defenderam o fortalecimento da articulação entre bioética ambiental e educação ambiental crítica como estratégia para ampliar a efetividade das ações educativas e promover mudanças culturais mais amplas. Ao longo do debate, os participantes também enfatizaram a necessidade de traduzir princípios bioéticos em políticas públicas globais e ações concretas. A discussão indicou que a bioética ambiental não deve permanecer restrita ao campo teórico ou acadêmico, mas precisa contribuir para processos colaborativos de tomada de decisão capazes de enfrentar problemas ambientais complexos e interdependentes. As reflexões também abordaram a necessidade de inclusão de diferentes vozes nos processos de deliberação ética. Os participantes defenderam que grupos humanos marginalizados, animais e ecossistemas precisam ser considerados nas discussões relacionadas ao meio ambiente e à saúde planetária, ampliando os sujeitos contemplados pelas decisões morais e políticas.
O debate também incorporou perguntas encaminhadas pelos participantes por meio do chat e do WhatsApp da organização. Entre os temas discutidos estiveram as relações entre bioética ambiental e educação ambiental crítica, o combate ao negacionismo climático, os limites éticos das modificações genéticas em ecossistemas, a formulação de políticas públicas globais e a necessidade de inclusão de diferentes vozes, humanas e não humanas, nos processos de deliberação ética. A interlocução com a educação ambiental foi destacada como uma possibilidade de fortalecimento das mudanças culturais e comportamentais necessárias diante da crise socioambiental. Outro ponto recorrente ao longo do encontro foi a defesa de processos interdisciplinares como condição indispensável para enfrentar problemas complexos associados à vulnerabilidade ambiental. Os participantes discutiram a necessidade de aproximar bioética, ciência, política e sociedade, ampliando a capacidade de tradução dos princípios bioéticos em práticas concretas, ações educativas e políticas públicas. Durante o encerramento, foram mencionadas perspectivas de continuidade das articulações em bioética ambiental, incluindo a realização de novos webinários, a ampliação da rede de pesquisadores da área e a organização do Congresso Ibero-americano sobre vulnerabilidade e abordagens integrais. Também foram destacados desafios relacionados à consolidação conceitual da bioética ambiental enquanto subárea da bioética, especialmente no que se refere à definição de bases teóricas, fortalecimento da massa crítica e incorporação do termo em políticas públicas, programas de pesquisa e processos formativos. Anor Sganzerla retomou o conceito de responsabilidade como eixo central
para a ampliação do horizonte moral da bioética diante dos desafios
ecológicos contemporâneos. O pesquisador enfatizou a necessidade de
superar abordagens centradas exclusivamente no indivíduo e considerar
responsabilidades coletivas diante de problemas globais como mudanças
climáticas, degradação ambiental e perda de biodiversidade. O encontro evidenciou a diversidade de abordagens que atualmente compõem a bioética ambiental e reafirmou a centralidade das discussões éticas diante da crise ecológica contemporânea. Ao longo das discussões, os participantes convergiram na compreensão de que os problemas ambientais não podem ser dissociados das estruturas sociais, econômicas, culturais e políticas que organizam as relações entre seres humanos, animais e ecossistemas, exigindo respostas coletivas, interdisciplinares e globalmente articuladas.