quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O destino de Sandro: uma nova esperança?

 por  Laíssa Mirella Mendes Mariano de Lara, Rebecca kempis e Jean Carlos Scuissiato

 Formandos de Biologia 

 


Alguns casos envolvendo animais mantidos sob domínio humano chamam atenção justamente porque nos obrigam a questionar situações que, durante muito tempo, foram consideradas aceitáveis O caso do elefante Sandro de 54 anos é um desses exemplos. Depois de mais de 40 anos vivendo no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP), onde foi encaminhado após ser resgatado de um circo, Sandro foi transferido, em setembro de 2026, para o Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães (MT) , após uma disputa judicial envolvendo o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Prefeitura de Sorocaba. A solicitação da transferência do animal teve início em 2022, quando o MPSP começou a investigar as condições de vida do indivíduo, que após inúmeras recorrências da prefeitura de Sorocaba, foi executada somente em 2025 sob a alegação da perícia que apontou a presença de cerca elétrica no recinto do animal e ausência de exames de saúde atualizados, além da autuação do IBAMA de maus tratos, pautada na Lei 9.605/1998.  Porém, essa resolução não agradou a todos, sendo marcada pelo descontentamento de parte da população da cidade de Sorocaba, mobilizando protestos no dia da transferência, durante os quais a Polícia Militar utilizou spray de pimenta para dispersar os manifestantes. As preocupações com o bem-estar de Sandro estavam relacionadas às restrições ambientais e comportamentais impostas pelo cativeiro. Embora recebesse alimentação, água, acompanhamento e atividades de enriquecimento ambiental, as condições do
recinto eram questionadas diante do porte e das necessidades ecológicas da espécie. Elefantes são animais com elevada capacidade de senciência, que estabelecem vínculos sociais, comunicam-se e percorrem longas distâncias. A morte da elefanta Haisa, sua companheira de recinto por 25 anos, em 2020, intensificou as preocupações sobre o isolamento de Sandro e a ausência de interações com outros indivíduos da mesma espécie. Essas condições podem ser analisadas à luz das Cinco Liberdades, especialmente a liberdade para expressar comportamentos naturais, que pressupõe oportunidades ambientais e sociais compatíveis com as necessidades do animal. A restrição dessas oportunidades pode comprometer seu bem-estar, mesmo quando suas necessidades básicas de alimentação e saúde são atendidas.  
A discussão sobre a transferência ganhou repercussão nas redes, com manifestações de influenciadores digitais, como o Biólogo Henrique e Yago Stephano. Enquanto parte do público defendia a permanência de Sandro no zoológico, considerando os vínculos afetivos estabelecidos ao longo de décadas e os riscos de uma viagem prolongada na idade avançada, outros argumentam que a transferência poderia proporcionar melhores condições ambientais, maior liberdade de movimento e oportunidades de interação. A preocupação com os riscos também se relacionava ao histórico de elefantes transferidos para o mesmo santuário que morreram pouco tempo depois da chegada. Ramba morreu cerca de dois meses após sua chegada, em 2019, em decorrência de uma doença renal crônica que já havia sido diagnosticada anos antes, enquanto Pocha morreu aproximadamente cinco meses após a transferência, em 2022, também apresentando comprometimento renal grave associado a uma infecção por Mycobacterium tuberculosis. Guida, por sua vez, permaneceu no santuário por quase três anos antes de morrer, em 2019. Embora esses casos não comprovem que as transferências tenham causado os óbitos, evidenciam a necessidade de avaliar os riscos envolvidos, especialmente em animais idosos e com condições de saúde preexistentes.  
A transferência de Sandro foi precedida por semanas de treinamento com condicionamento operante e reforço positivo, para que ele se habitu à caixa de transporte e entrasse nela voluntariamente, sem necessidade de sedação ou coerção. Essas estratégias são compatíveis com o refinamento do manejo e com a redução do estresse durante procedimentos. ALei Arouca (Lei nº 11.794/2008), embora voltada à utilização de animais em ensino e pesquisa científica, apresenta princípios que contribuem para essa reflexão, especialmente os 3Rs: substituição, redução e refinamento. No caso de Sandro, o refinamento pode ser relacionado à adoção de técnicas que minimizem o desconforto e os riscos associados ao manejo. Após a chegada ao santuário, as atualizações divulgadas em seuperfil oficial mostraram sua exploração do novo ambiente e o início do processo de readaptação, com oportunidades de movimentação em uma área mais ampla. A transferência, entretanto, não representa uma solução isenta de riscos, assim como a permanência em um zoológico não significa necessariamente que todas as condições de bem-estar estejam comprometidas. O caso deKenya, transferida de um zoológico argentino após cerca de 40 anos em cativeiro e que morreu aproximadamente cinco meses depois, e o deBaby, transferida após três décadas no Beto Carrero World e integrada à rotina do santuário, ilustram diferentes trajetórias. Esses exemplos reforçam a importância de considerar o histórico de manejo, a condição clínica, a idade e as necessidades individuais de cada animal na escolha da alternativa mais adequada.  Esses conflitos podem ser analisados a partir de duas correntes éticas. A perspectiva utilitarista admite a utilização de animais por seres humanos, desde que as decisões considerem as consequências para o bem-estar e evitem dor, sofrimento e experiências negativas desnecessárias. Nessa abordagem, a manutenção em zoológicos pode ser considerada aceitável quando as condições atendem às Cinco Liberdades, promovem experiências positivas e incorporam estratégias de refinamento, além de respeitar os princípios dos 3Rs quando aplicáveis. Já a perspectiva abolicionista ou dos direitos animais questiona a própria utilização dos animais como recursos para finalidades humanas, compreendendo-os como sujeitos de direitos, e não como objetos de entretenimento, exploração ou consumo. Sob essa perspectiva, mesmo condições adequadas de manejo não justificariam necessariamente a manutenção de animais em cativeiro para exposição pública. ADeclaração Universal dos Direitos dos Animais, como referencial ético não vinculante, e a Declaração de Cambridge sobre a Consciência contribuem para essa discussão ao reconhecerem a relevância moral dos animais e suas capacidades de experimentar estados afetivos. 
No âmbito jurídico, o artigo 225 da Constituição Federal estabelece o dever de proteção à fauna e proíbe práticas que submetam os animais à crueldade, enquanto a Lei de Crimes Ambientais prevê sanções para situações de abuso e maus-tratos. Entretanto, a existência de uma instituição autorizada a manter animais não garante, por si só, que todas as condições oferecidas sejam adequadas. A discussão também ganhou uma dimensão política com oProjeto de Lei nº 2.648/2026, que propõe o encerramento de zoológicos, aquários, safáris e ecoparques voltados à exibição pública de animais, com previsão de realocação para santuários e centros de reabilitação. A proposta levanta preocupações sobre a capacidade de acolhimento, o financiamento, a infraestrutura e o acompanhamento de milhares de animais, caso seja aprovada, evidenciando que a substituição de um modelo de manejo exige planejamento institucional e recursos adequados. Após a aprovação deste projeto, todos os empreendimentos seriam fechados em 2 anos, com realocação dos animais para Santuários de conservação e Centros de Reabilitação de Fauna (CRF). Entretanto, caso o projeto seja aprovado, surgem questionamentos quanto à disponibilidade de espaço, à infraestrutura e ao financiamento dos santuários e CRFs para receber os milhares de animais que precisariam ser realocados nesse período de dois anos. A decisão sobre o destino de Sandro envolve, portanto, diferentes concepções sobre a responsabilidade humana em relação aos animais. Enquanto a perspectiva utilitarista busca estabelecer condições para que sua utilização não resulte em sofrimento injustificado, a abordagem abolicionista questiona se os interesses humanos, mesmo quando associados à educação e à conservação, legitimam a manutenção de animais em cativeiro. Em ambas, é necessário considerar que Sandro não participou das decisões sobre seu ambiente, suas interações ou seu destino, embora tenha sido diretamente afetado por elas. A responsabilidade envolve não apenas os profissionais e as instituições responsáveis pelo manejo, mas também as políticas públicas, os modelos de conservação e as escolhas coletivas que sustentam essas práticas. Diante disso, o caso de Sandro nos leva a questionar quais formas de convivência com outras espécies estamos dispostos a manter e quais precisam ser revistas à luz do conhecimento científico e dos princípios éticos. Se os zoológicos têm como objetivos a educação, a conservação e a aproximação da sociedade com a natureza, será que esses propósitos precisam depender da exposição permanente de animais? E vocês, gostam de visitar zoológicos? O que procuram nessas visitas e até que ponto consideram que a presença dos animais nesses espaços é necessária?

 O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Biologia e Evolução do Comportamento Animal, tendo como base nas fontes:

https://periodicos.unifesp.br/index.php/revbea/article/view/2613

https://periodicos.unifesp.br/revbea/article/view/9645

https://www.researchgate.net/profile/Marta-Fischer/publication/317889481_Os_Zoologicos_sob_a_perspectiva_da_bioetica_ambiental_uma_analise_a_partir_do_estudo_de_caso_dos_felideos_cativos/links/5950eb85aca27248ae46153b/Os-Zoologicos-sob-a-perspectiva-da-bioetica-ambiental-uma-analise-a-partir-do-estudo-de-caso-dos-felideos-cativos.pdf

Autodeclaração do uso da IA: Declaramos que foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial (IA) como recursos auxiliares na elaboração deste trabalho. O ChatGPT (GPT-5.6 Luna) foi empregado para a revisão e correção, incluindo ajustes de clareza, fluidez e organização textual, além da geração de imagens ilustrativas. Também foi utilizada a ferramenta Gemini, por meio do modelo Imagen 3, exclusivamente para a geração de imagens. Ressaltamos que o conteúdo, a análise crítica, a seleção das informações e a revisão final foram de responsabilidade dos autores, que se comprometem com a veracidade e a integridade das informações apresentadas.

 

domingo, 4 de outubro de 2026

Quando uma provocação encontra escuta

                                                                 Por Têtê Xinã

Mestranda do PPGB


Há alguns meses, escrevi neste espaço sobre uma inquietação que nasceu entre a clínica comportamental, a Bioética e aquilo que aprendo com os saberes originários: o afeto não é, por si só, garantia de uma relação ética. Um animal pode ser profundamente amado e ainda assim ser submetido às necessidades, projeções e expectativas humanas. Pode ser chamado de filho, ocupar a cama, participar da intimidade da família multiespécie e, ainda assim, ter sua autonomia reduzida e sua alteridade pouco reconhecida. Foi dessa inquietação que nasceram ideias como objetificação afetiva, captura afetiva e cativeiro afetivo. No II Congresso de Bioética e Bem-estar Animal, essa reflexão ganhou outro espaço. Apresentei, ao lado da minha orientadora Marta Fischer, o trabalho Família multiespécie ou cativeiro afetivo? O fetiche do vínculo controlável. Ali, pude compartilhar essas inquietações e colocá-las em diálogo com outras perspectivas sobre nossas relações com os animais. Quando incluímos os animais em nossas famílias, transformamos também as estruturas de poder dessa relação? A escuta que encontrei foi generosa. Houve diálogo, perguntas, incômodo, interesse. Perspectivas diferentes se encontraram e nos convidaram a olhar novamente para relações que, de tão presentes no cotidiano, muitas vezes parecem naturais. Ao final do congresso, o trabalho recebeu o reconhecimento de Melhor Apresentação Oral. Recebo esse prêmio com alegria, mas principalmente como sinal de que existe espaço para aprofundarmos essa discussão. Porque, para mim, o centro continua sendo o bem-estar animal. Se conseguimos reconhecer que cuidado também pode controlar, que proximidade também pode restringir e que afeto não autoriza captura, abrimos espaço para relações nas quais os animais possam existir menos como função das nossas necessidades e mais como sujeitos de suas próprias vidas. Agradeço ao CBBA pela abertura com que recebeu essas provocações e à Marta por construir comigo um espaço em que inquietação não precisa ser domesticada para se transformar em conhecimento.
Quando a ciência se dispõe a olhar também para o poder que exercemos sobre os animais, o bem-estar animal deixa de ser apenas aquilo que oferecemos e passa a exigir que reconheçamos aquilo que retiramos: autonomia, escolha, limites, possibilidade de afastamento, expressão da própria natureza. Talvez nosso compromisso com o bem-estar animal comece justamente aí: não em ocupar ainda mais suas vidas com aquilo que julgamos necessário, mas em devolver espaço para que possam vivê-las segundo suas próprias necessidades. Descentralizar o humano não significa abandonar nossa responsabilidade. Se somos nós que concentramos o poder de decidir sobre tantas dimensões da vida dos animais, cabe a nós transformar esse poder em responsabilidade, para que o cuidado deixe de reproduzir, mesmo sob a linguagem do afeto, formas de utilitarismo animal.  Que o afeto não autorize abuso emocional. Que a família multiespécie seja um lugar seguro também para o animal. Que o bem-estar animal seja rotina. Que não seja confundido com o consumo excessivo de produtos, mas reconhecido especialmente nas experiências que podem parecer simples para nós e são essenciais para os cães: explorar, farejar, descansar, escolher, brincar, conviver e, também, poder se afastar. Que nosso amor se converta em responsabilidade, e não em objetificação afetiva. Por uma sociedade animalitária, em que os animais não precisem ser úteis aos seres humanos para terem valor. Em que sua alteridade seja respeitada na sociedade e em seus lares multiespécie. 

Os animais agradecem.
Axé.
Para continuar essa reflexão

Quando o afeto vira captura: cosmovisão originária, objetificação afetiva e o transtorno do vínculo na relação humano-animal

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Saneamento, dignidade e bioética ambiental: um olhar sobre a defecação a céu aberto em Tete

Por Trindade Felipe Charpare 
 
pós-doutorando PPGB 


A falta de saneamento básico é um dos grandes desafios ambientais e sociais enfrentados por muitas comunidades. Em Moçambique, essa realidade ganha contornos particularmente importantes em áreas urbanas marcadas por desigualdades sociais, dificuldades económicas e limitações na infraestrutura. É nesse contexto que o artigo “Environmental Bioethics and Environmental Health: Open Defecation as an Expression of Vulnerability and the Violation of Fundamental Rights in Tete, Mozambique”, publicado em 2026 na revista Current World Environment, analisa a persistência da defecação a céu aberto no bairro Mateus Sansão Muthemba, na cidade de Tete.  Mais do que uma questão de higiene, a defecação a céu aberto revela uma complexa realidade socioambiental. O estudo mostra que a prática está relacionada com diferentes fatores, entre eles as condições do solo, as inundações durante a época chuvosa, as dificuldades financeiras das famílias, a insuficiência de infraestruturas sanitárias, as limitações institucionais e práticas culturalmente incorporadas ao longo do tempo. No bairro estudado, os dados analisados revelam uma situação preocupante: 82,5% dos participantes declararam não possuir latrina, enquanto apenas 17,5% afirmaram possuir uma. Entre os principais obstáculos identificados estão as características do terreno, a inundação das latrinas durante o período chuvoso e a falta de ferramentas adequadas para a escavação. As dificuldades económicas também desempenham um papel importante. Cerca de 65% dos participantes consideraram elevado ou inviável o custo estimado para a construção de uma latrina melhorada, enquanto 37,5% apontaram a falta de recursos financeiros como um dos fatores relacionados à ausência de instalações sanitárias.  Esses números ajudam a compreender por que o problema não pode ser explicado simplesmente como resultado de escolhas individuais. A ausência de saneamento resulta da interação entre condições ambientais, económicas, sociais, culturais e institucionais. O estudo concentra-se no bairro Mateus Sansão Muthemba, particularmente na região do Vale de Nhartanda. Trata-se de uma área inserida em um contexto de crescimento urbano e transformações socioeconómicas que também atingiram a cidade de Tete. O crescimento urbano, a expansão periférica e as desigualdades no acesso à infraestrutura contribuíram para a existência de áreas onde a população enfrenta dificuldades para obter habitação adequada, água segura e serviços de saneamento. Nesse cenário, a falta de saneamento torna-se uma das expressões mais visíveis da desigualdade socioambiental.  A situação torna-se ainda mais complexa durante a época chuvosa. O transbordamento e a dispersão de resíduos podem transportar dejetos para áreas residenciais, aumentando a exposição da população a condições insalubres e a riscos ambientais e sanitários. Uma das principais contribuições do artigo é propor que a defecação a céu aberto seja analisada também sob a perspectiva da Bioética Ambiental.  Essa abordagem amplia o olhar tradicional da bioética, considerando as relações entre seres humanos, sociedade e ambiente. Assim, a falta de saneamento não é vista apenas como uma deficiência de infraestrutura, mas como uma questão que envolve saúde, dignidade humana, justiça socioambiental, responsabilidade coletiva e proteção do ambiente. Essa perspectiva aproxima-se também do conceito de One Health (Uma Só Saúde), que reconhece a interdependência entre a saúde humana, a saúde animal e a integridade dos ecossistemas. Quando resíduos humanos contaminam o solo, a água e os espaços públicos, os impactos ultrapassam a esfera individual e atingem toda a comunidade e o ambiente. 

Os próprios participantes apresentaram diferentes propostas para enfrentar o problema. Entre as medidas mencionadas estão a melhoria da infraestrutura básica, a construção de instalações sanitárias públicas, ações administrativas, intervenções na área do mercado de Kuachena e atividades contínuas de educação ambiental e sensibilização comunitária. O estudo chama atenção para um ponto fundamental: construir latrinas, embora necessário, pode não ser suficiente. As observações indicaram que a simples disponibilização de infraestrutura sanitária não garante, por si só, uma mudança significativa de comportamento. É necessário integrar infraestrutura, educação ambiental, participação comunitária, acompanhamento institucional e compreensão das práticas culturais locais.  A questão da defecação a céu aberto não deve ser tratada exclusivamente como responsabilidade dos indivíduos. O estudo demonstra que existem responsabilidades compartilhadas entre comunidades, instituições públicas, autoridades locais, profissionais, investigadores e demais atores sociais. Enfrentar o problema significa criar condições para que as famílias possam ter acesso a soluções sanitárias adequadas e, simultaneamente, fortalecer a educação ambiental e a participação comunitária. Significa também reconhecer que cada território possui características ambientais, económicas e culturais próprias que precisam ser consideradas na construção das soluções. Saneamento também é uma questão de justiça. O estudo conclui que a defecação a céu aberto no bairro Mateus Sansão Muthemba constitui um fenómeno socioambiental sustentado por desigualdades estruturais, limitações ambientais e institucionais e práticas socialmente incorporadas. Por isso, falar de saneamento é também falar de dignidade, saúde, ambiente e direitos fundamentais. A Bioética Ambiental oferece uma perspectiva capaz de aproximar esses diferentes campos e estimular respostas mais integradas e participativas. A experiência de Tete mostra que os desafios ambientais contemporâneos não podem ser resolvidos apenas com soluções técnicas. É necessário escutar as comunidades, compreender as particularidades do território e promover a construção coletiva de alternativas.  Garantir saneamento adequado não significa apenas construir uma latrina. Significa criar condições para que pessoas e comunidades possam viver com saúde, dignidade e segurança em um ambiente saudável.

Convido a todos acessarem o artigo completo


Charpare, T. F.; Chiaramonti, C.; Fischer, M. L. Environmental Bioethics and Environmental Health: Open Defecation as an Expression of Vulnerability and the Violation of Fundamental Rights in Tete, Mozambique. Current World Environment, Vol. 21, No. 2, 2026, p. 590–606. DOI: 10.12944/CWE.21.2.13

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Bioética Ambiental participa do II Congresso de Bioética e Bem estar Animal com pesquisas sobre família multiespécie, vínculo e vulnerabilidade


Por Marta Fischer
 
 

O Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental, vinculado ao Programa de Pós Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, participa do II Congresso de Bioética e Bem estar Animal, CBBA 2026, realizado pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, UENF, entre os dias 15 e 18 de setembro de 2026. Com o tema “Violência contra animais: da crueldade individual ao sofrimento institucional”, o congresso reúne pesquisadores, estudantes, profissionais, protetores e diferentes áreas do conhecimento para discutir as múltiplas formas de violência que atravessam as relações entre humanos e animais, desde situações de maus tratos até formas institucionais e estruturais de produção de sofrimento. A participação do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental ocorreu por meio de dois trabalhos que abordam uma questão central para a compreensão contemporânea do bem estar animal: como os vínculos afetivos estabelecidos entre humanos e animais de companhia podem produzir cuidado, proteção e pertencimento, ao mesmo tempo em que podem reproduzir relações de dependência, controle e vulnerabilidade. As pesquisas partem do reconhecimento crescente dos animais como integrantes das famílias e desenvolvem uma reflexão bioética sobre as responsabilidades humanas decorrentes dessa transformação das relações familiares. O primeiro trabalho, intitulado “Família multiespécie, bem estar animal e vulnerabilidade compartilhada: uma reflexão bioética sob a perspectiva do luto pet”, é de autoria de Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira e Marta Luciane Fischer. A pesquisa foi apresentada no eixo temático dedicado aos animais domésticos e realiza uma revisão narrativa, exploratória e qualitativa da literatura científica sobre família multiespécie, humanização dos animais de companhia, vínculo entre humanos e animais, bem estar animal e luto pet.  A investigação parte da constatação de que os animais de companhia passaram a ocupar posições afetivas cada vez mais relevantes nas estruturas familiares.
 O reconhecimento como integrantes da família amplia as possibilidades de cuidado e proximidade, porém também mantém uma relação marcada pela dependência e pela assimetria de poder. Os animais permanecem dependentes das decisões humanas relacionadas à alimentação, saúde, cuidados veterinários, mobilidade, reprodução, proteção e morte. A pesquisa propõe, portanto, compreender a chamada vulnerabilidade compartilhada como uma condição interdependente, embora assimétrica, na qual o animal está vulnerável às decisões humanas e os responsáveis vivenciam sofrimento diante do adoecimento, da finitude e da perda. A revisão identificou 65 referências, sendo cinco relacionadas à produção nacional ou ao contexto brasileiro e 60 provenientes da produção internacional. Os estudos analisados abordaram principalmente humanização, família multiespécie,
 vínculo, sofrimento, perda, apego, luto e estratégias de enfrentamento. A análise evidencia que a intensidade do vínculo afetivo pode produzir importantes responsabilidades éticas, especialmente durante processos de adoecimento e finitude. A dificuldade humana de aceitar a perda pode interferir nas decisões terapêuticas e favorecer o prolongamento de intervenções que já não proporcionam bem estar ao animal. O estudo também chama atenção para o reconhecimento social do luto pela perda de um animal de companhia. A morte pode produzir repercussões profundas na organização emocional e cotidiana da família, enquanto a deslegitimação social desse sofrimento pode dificultar sua elaboração e restringir o acesso ao acolhimento. A conclusão sustenta que reconhecer o animal como membro da família implica assegurar proteção concreta durante sua vida e acolhimento legítimo após sua morte, articulando cuidado responsável, reconhecimento dos limites terapêuticos, bem estar animal e apoio às famílias. O segundo trabalho, intitulado “Família multiespécie ou cativeiro afetivo? O fetiche do vínculo controlável”, é de autoria de  Tëtë Xinã (Bianca Santana da Silva) e Marta Luciane Fischer. A pesquisa foi desenvolvida no âmbito do Programa de Pós Graduação em Bioética da PUCPR e articula Bioética, perspectivas decoloniais e Medicina Veterinária Comportamental para problematizar situações nas quais o animal é reconhecido como integrante da família, recebe intenso investimento afetivo, porém permanece submetido às necessidades e projeções humanas. A pesquisa questiona se a família multiespécie efetivamente proporciona condições para que os animais expressem sua própria natureza ou se determinadas formas de convivência transformam o afeto em mecanismo de controle. A revisão exploratória da literatura nacional e internacional foi realizada com apoio da ferramenta  Leap Space, disponibilizada pela CAPES, a partir de um comando elaborado pelos pesquisadores para identificar estudos relacionados à família multiespécie, vínculo afetivo interespecífico, objetificação afetiva, funcionamento familiar e projeções narcísicas. A pertinência das fontes, a interpretação dos achados e a síntese dos resultados foram posteriormente 
validadas pelos pesquisadores. Os resultados identificaram 51 registros nacionais, distribuídos entre disfunção clínica do vínculo, família multiespécie e vínculo interespecífico, funcionamento familiar, objetificação, projeção e idealização. Na produção internacional foram encontrados 78 estudos provenientes de 17 países, com predominância de pesquisas relacionadas ao luto pela perda de animais de companhia. A literatura internacional apresentou maior sistematização das relações entre família multiespécie, vínculo, funcionamento familiar, antropomorfização, apego e disfunção relacional, especialmente nos campos da Psicologia e da Medicina Veterinária. A contribuição conceitual central do trabalho está na proposição de quatro categorias analíticas: fetiche do vínculo controlável, utilitarismo afetivo, captura afetiva e cativeiro afetivo. O utilitarismo afetivo ocorre quando o animal é valorizado prioritariamente pela função emocional atribuída pelos humanos. A captura afetiva caracteriza relações nas quais dependência e disponibilidade constante são interpretadas como manifestações de amor.  O cativeiro afetivo corresponde a situações nas quais a proximidade e o controle reduzem oportunidades de exploração, repouso autônomo, interação social e expressão de comportamentos próprios da espécie. O fetiche do vínculo controlável enfatiza a valorização de uma relação previsível e responsiva, na qual a qualidade do vínculo passa a ser medida pela capacidade do animal de atender às expectativas humanas. A Medicina Veterinária Comportamental contribui para ampliar a análise ao considerar indicadores como capacidade de afastamento, repouso autônomo, exploração, repertórios sociais e oportunidades de escolha. A presença de comportamentos associados à ansiedade de separação, por exemplo, não permite estabelecer uma relação causal direta com a família multiespécie, pois fatores individuais, ambientais e relacionais também participam de sua determinação. A avaliação bioética pode ampliar a compreensão do vínculo ao observar as possibilidades efetivas de escolha e expressão comportamental oferecidas ao animal dentro da convivência familiar. As duas pesquisas convergem ao evidenciar que a transformação dos animais de companhia em integrantes reconhecidos das famílias amplia responsabilidades éticas relacionadas ao cuidado. A proximidade afetiva adquire relevância bioética quando passa a ser acompanhada pela consideração das necessidades próprias dos animais, de sua capacidade de expressão comportamental e das condições concretas de bem estar. O pertencimento familiar, portanto, exige uma reflexão sobre as relações de poder presentes na convivência doméstica e sobre a responsabilidade humana diante da dependência animal. A participação no II Congresso de Bioética e Bem estar Animal fortalece a inserção do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental em um debate interdisciplinar que aproxima Bioética, Medicina Veterinária, comportamento animal, Psicologia, Direito, filosofia e estudos das relações entre humanos e animais. As duas pesquisas contribuem para ampliar a compreensão da violência contra animais ao deslocar a análise para dimensões relacionais que podem permanecer invisíveis quando o sofrimento é compreendido apenas a partir de situações explícitas de maus tratos. 
 O controle excessivo, a objetificação afetiva, a desconsideração das necessidades próprias da espécie e a dificuldade humana de reconhecer os limites do cuidado também constituem questões que merecem análise ética. Como sintetiza Martha C. Nussbaum em Justice for Animals: Our Collective Responsibility, “Todos os animais deveriam ter a oportunidade de florescer à sua maneira. Os seres humanos têm um dever coletivo de enfrentar e solucionar os danos que causamos aos animais.”  A perspectiva apresentada pelos dois trabalhos do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental aproxima se dessa responsabilidade ao defender que o vínculo com animais de companhia deve produzir condições concretas de cuidado, 
proteção, expressão e bem estar, preservando a alteridade animal e reconhecendo a responsabilidade humana decorrente da assimetria existente nas relações.  A presença de Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira, Tëtë Xinã e Marta Luciane Fischer no CBBA 2026 reafirma, portanto, a contribuição da Bioética Ambiental para a construção de uma reflexão crítica sobre as relações entre humanos e animais. As pesquisas apresentam diferentes perspectivas sobre a família multiespécie, articulando o cuidado durante a vida, as possibilidades de autonomia e expressão do animal, os limites da intervenção humana e o reconhecimento do sofrimento relacionado à perda. O conjunto evidencia que promover o bem estar animal exige compreender a complexidade dos vínculos e transformar o poder humano em responsabilidade efetiva diante das outras formas de vida.