terça-feira, 21 de abril de 2026

Pontifícia Universidade Católica do Paraná: Blue Community Exchange


No dia 20 de abril de 2026, ocorreu mais um encontro da série Blue Community Exchange, reunindo instituições da rede internacional Blue Community em torno da governança da água, da cooperação acadêmica e da justiça hídrica. A Pontifícia Universidade Católica do Paraná, certificada como Blue University em 2023, participou do encontro por meio de uma apresentação institucional e acadêmica coletiva, evidenciando como a universidade tem articulado ética, ciência e ação concreta diante da crise da água. O encontro reuniu pesquisadores e representantes internacionais, entre eles Roland Brunner, Christoph Lüthi, Andreas Klay, Nicole Arsenault, Caitlin Schroering, Matthias Saladin e Maude Barlow, reforçando o caráter internacional e interdisciplinar da rede. A apresentação da PUCPR foi estruturada em diferentes eixos. A dimensão institucional foi conduzida por Elias Wolff, que situou a universidade no contexto brasileiro e latino-americano, destacando o paradoxo de um país que concentra cerca de 12% da água doce do planeta, mas ainda enfrenta desigualdades no acesso. Em Curitiba, a escassez hídrica impacta diversos bairros, reforçando a necessidade de respostas estruturais. Nesse contexto, foram apresentados o Comitê da Água, os Clubes da Água e o setor de sustentabilidade como instâncias de governança hídrica institucional. Wolff também destacou a atuação da REDA – Rede Ecumênica da Água como espaço de articulação interinstitucional e inter-religiosa em defesa da água como bem comum, além de reforçar a participação futura das Blue Universities nas ações do Tempo da Criação, ampliando o diálogo entre espiritualidade, ecologia integral e justiça hídrica. 
A dimensão acadêmica foi apresentada por Marta Luciane Fischer, com foco na bioética da água e na justiça hídrica, desenvolvidas de forma articulada entre ensino, pesquisa e extensão envolvendo a graduação e a pós-graduação em projetos de iniciação científica graduação e junior, mestrado, doutorado e pós-doutorado e com parcerias internacionais. O trabalho evidencia uma produção científica consolidada, centrada na análise de corpos hídricos e na compreensão do rio, especialmente o rio Belém, como sujeito de direitos, associando a identificação de princípios éticos violados a análises bioéticas aplicadas a conflitos socioambientais concretos. Como principais produtos desse percurso, destacam-se o artigo publicado na revista Caminhos de Diálogo (acesse aqui) e o livro Blue University: A Universidade e a Justiça das Águas (acesse aqui), que sistematizam as experiências e referenciais teóricos da proposta. Como ações se destaca a presença do personagem de Thierry Lummertz (coordenador do clube da água) "O Potter do Futuro" presentes nas comemorações institucionais do dia mundial da água, de sensibilização de estudantes universitários e condução de grupos focais com estudantes do ensino básico. a PUCPR como Blue University também está presente em eventos sobre água e meio ambiente como a ecologia integral, laudado si e reuniões com outras Blue Communities brasileiras. É fundamental destacar que toda a produção do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental, incluindo artigos, livros, projetos de campo, ações de extensão, eventos, registros fotográficos e reflexões acadêmicas, pode ser acompanhada diretamente no blog “Bioética no Dia a Dia”, que se consolida como um espaço ativo de divulgação científica, memória e análise crítica das práticas desenvolvidas no âmbito da justiça hídrica e dos direitos da natureza. O rio Belém, nesse contexto, é mobilizado como laboratório vivo, articulando ensino, pesquisa e extensão por meio de diagnósticos participativos, mobilização estudantil, grupos focais com educação básica e integração com o Clube da Água da PUCPR.
Essa abordagem amplia o campo da bioética para além do humano, incorporando dimensões ambientais e territoriais, além de incluir práticas pedagógicas inovadoras, como projetos de comunicação baseados em arte e a participação na COP30, em Manaus, por meio da iniciativa “Maloca Azul” no metaverso. A dimensão institucional e ambiental foi complementada pelas apresentações de Gustavo Liz e Elaine Kurscheidt, que evidenciaram a integração entre infraestrutura e sustentabilidade, com projetos de captação de água da chuva, reuso hídrico, plantio de árvores ao longo do rio Belém, compostagem e redução de plástico, indicando uma transição para um modelo de gestão ambiental integrado e regenerativo.  O encontro também contou com a apresentação de Maude Barlow, que discutiu sua obra Earth for Sale: The Fight to Stop the Last Plunder of the Planet, trazendo uma crítica à financeirização da natureza e à mercantilização da água, reafirmando-a como direito humano e bem comum. O conjunto das discussões evidencia que a experiência da PUCPR se estrutura na convergência entre produção acadêmica, práticas pedagógicas e ações institucionais. Mais do que iniciativas isoladas, trata-se de uma mudança de paradigma, na qual a água passa a ser compreendida como eixo estruturante de justiça, ética e governança socioambiental, reforçando o papel das universidades na construção de respostas para a crise hídrica global.

sábado, 11 de abril de 2026

Fechamento da 4a turma da m Avaliação do Comportamento e sua Aplicação no Bem-estar Animal

 

Nos dias 8, 9 e 10 de abril de 20206 ocorreu o enceramento da 4ª turma da especialização em Avaliação do Comportamento e sua Aplicação no Bem-estar Animal  marcado por uma sequência de apresentações que evidenciaram densidade analítica, diversidade temática e forte potencial de aplicação prática e científica. Os trabalhos demonstraram  domínio técnico, criatividade metodológica e capacidade de transpor os resultados para diferentes contextos profissionais, especialmente no aprimoramento da relação entre tutores e animais de companhia, com foco na qualificação da comunicação e na promoção do bem-estar animal. A programação teve início na quarta-feira com a abordagem das relações interespecíficas em contextos domésticos. Catarina Peixoto da Silva analisou o vínculo entre caninos e felinos em famílias multiespécie, evidenciando dinâmicas de convivência e estratégias de mediação comportamental. Na sequência, Ligia do Amaral Fernandes e Vitória Kimie apresentaram os efeitos de uma intervenção baseada em reforço positivo em cães, demonstrando a eficácia de protocolos estruturados na modificação comportamental e na melhoria da qualidade de vida. Na quinta-feira, os trabalhos avançaram sobre dimensões clínicas, sociais e aplicadas do comportamento animal. Bianca Santana da Silva discutiu os transtornos de vínculo em cães, destacando implicações para o manejo e a intervenção. Clara Freitas Cordeiro e Brenda Caroline de Melo exploraram o enriquecimento ambiental como estratégia para mitigar a ansiedade de separação, articulando diagnóstico e intervenção. 

 Maria Paula Mansur Mäder e Áurea Aragão Caribé Dias analisaram a dinâmica comportamental e a competência social canina, ampliando a compreensão das interações intraespecíficas realizando uma linda comparação entre a relação de crianças e cães docimciliados e comunitários em Curitiba e no interior da Bahia. Rafaela Nigri Silveira Duarte e Rafaela Oliveira Cardoso de Miranda enfatizaram a importância da capacitação de monitores para o manejo eficiente em creches de cães, evidenciando a interface entre comportamento agressivo em cães e a experiência e capacitação técnica de monitores, contribuindo para a interpretação funcional de padrões frequentemente negligenciados. Encerrando a noite, Isabelle Louise Aliganchuki trouxe uma análise comportamental de um gato do mato cativo de Herpailurus yagouaroundi sob diferentes níveis de visitação no Zoológico Municipal de Curitiba, articulando comportamento, estresse e manejo em contexto de cativeiro. A sexta-feira concentrou estudos voltados majoritariamente à espécie felina, além de uma abordagem com equinos, ampliando o espectro taxonômico e aplicado. Louise Caroline Bonfim Silva Casara apresentou a construção de um etograma de gato doméstico, fornecendo base sistematizada para análises futuras. Jessica Thompson de Oliveira investigou o comportamento social e lúdico em gatos, destacando sua relevância para o bem-estar. Monik Oprea abordou um comportamento incomum de tosse em felinos, contribuindo para a interface entre comportamento e clínica. Erika Cristina Paul analisou o comportamento de gatos em um abrigo na Noruega, trazendo uma perspectiva comparativa e contextual e levando reflexões a partir de uma experiência vivencial única e de muita dedicação. Paula Wolfgan Cieslinski Wendling discutiu o comportamento de gatos em tratamento de esporotricose, integrando aspectos sanitários e comportamentais. Por fim, Laís Honorato Rezende apresentou a análise do comportamento de equinos internados em hospital universitário em Sorocaba, evidenciando desafios e possibilidades de intervenção em ambiente clínico. O conjunto dos trabalhos evidencia uma formação que ultrapassa a dimensão técnica, alcançando maturidade analítica e compromisso ético com a transformação das realidades investigadas. As produções apresentadas demonstram elevado potencial de desdobramento em publicações científicas e no desenvolvimento de produtos e protocolos aplicáveis, capazes de qualificar práticas profissionais e promover melhorias concretas na vida dos animais. O encerramento desta turma ocorre com satisfação e reconhecimento pela consistência, competência e sensibilidade dos especialistas formados, evidenciando a maturidade alcançada na área de comportamento e bem-estar animal. 

A 5ª turma já está confirmada e ainda estamos recebendo inscrições. Nosso time de professores atuantes nas mais diversas áreas do bem-estar-animal convidam aos interessados para conhecerem mais de suas trajetórias e também a proposta do curso  no endereço: https://estudenapuc.pucpr.br/pos-graduacao/cursos/avaliacao-do-comportamento-e-sua-aplicacao-no-bem-estar-animal-curitiba/

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Aranha-marrom: 30 anos de estudos biológicos, epidemiológicos e sociais

 Por Marta Luciane Fischer


É com muita alegria e com um orgulho imenso que anuncio que em breve irmos lançar a publicação mais importante da minha vida: Aranha-marrom: 30 anos de estudos biológicos, epidemiológicos e sociais. O livro é uma convergência entre a trajetória a minha trajetória de vida e o processo científico que permitiu o conhecimento de uma espécie intrigante e apaixonante: a Loxosceles intermedia. O livro mostra como fazer ciência no Brasil diante de uma emergência ambiental e com nenhum conhecimento sobre o agente. Além disso, soma-se o fato de se tratar de uma aranha, um animal estigmatizado e intensificador de vulnerabilidades que precisam ser mitigadas. A obra sistematiza três décadas de investigações desenvolvidas a partir de um fenômeno emblemático observado em Curitiba, onde o loxoscelismo foi reconhecido oficialmente em 1993 como questão relevante de saúde pública. Foram registrados milhares de acidentes anuais, uma situação atípica não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. Ao longo desse período, foram conduzidas dezenas de pesquisas que articularam dimensões biológicas, ecológicas, epidemiológicas e sociais, além de intervenções junto à população e à formação de novos pesquisadores. Parte expressiva desse conhecimento tem sido publicada por diferentes grupos de pesquisa, especialmente do Brasil, mas o livro também resgata dados inéditos e análises que permaneceram fora dos circuitos acadêmicos formais, agora revisitados à luz de novos referenciais. Na verdade, a ideia do livro se consolida quando me dou conta da quantidade enorme de dados que eu tinha guardado, fruto de 30 anos de pesquisas minhas e em colaboração com meus estudantes de biologia da Pontifica Universidade Católica do Paraná. Naquele momento passei a considerar imoral guardar dados de interesse público nos meus armários e decidi processá-los e reuni-los em uma obra única. A narrativa evidencia que o sucesso adaptativo da aranha-marrom resulta de uma interação complexa entre características da espécie, como o fato de ser generalista, resistente e capaz de explorar ambientes antrópicos, com condições ambientais favoráveis e práticas sociais que, muitas vezes, ampliam a exposição ao risco. Além disso, depois de 30 anos pesquisando essa aranha impar e peculiar, acredito que merece um espaço para ela.
A L. intermedia foi registrada em outros países como a Argentina e também ocorrem em outras localidades do Brasil, mas foi em Curitiba que mostrou seu maior potencial. Apesar do acúmulo de conhecimento científico, a persistência de milhares de acidentes anuais revela um descompasso entre produção de conhecimento e sua efetiva incorporação em estratégias de prevenção e manejo. Assim, o livro desloca a discussão para além da biologia, ecologia e comportamento da espécie e propõe uma reflexão crítica: por que, após 30 anos, o problema permanece? A população está mais preparada ou mais vulnerável? A aranha-marrom tornou-se parte da paisagem urbana? Tais questões conduzem o leitor a uma abordagem bioética que integra saúde,  ambiente e sociedade, propondo a construção de uma convivência ética e viável com a fauna sinantrópica. Outro eixo central da obra é a dimensão formativa e humana da ciência. A trajetória narrada revela uma rede extensa de colaboração entre instituições como a Pontifícia Universidade Católica do Paraná, a Universidade Federal do Paraná e o Instituto Butantan, além de órgãos de saúde pública. Essa rede foi além das Instituições, envolveu mais de 68 pessoas, que contribuíram para os dados acontecerem, e talvez milhares de outras que não estão nos agradecimentos formais, mas que sem elas não haveria estrutura, base, eixo, para história acontecer e o livro de consolidar. São pessoas que conviveram no ambiente profissional e pessoal que vejo entrelaçadas em tudo que construí.   Ao incorporar, mais recentemente, aportes da bioética ambiental e da perspectiva de saúde global, a obra amplia o escopo da análise. A relação entre humanos e aranhas passa a ser compreendida também sob dimensões emocionais, culturais e éticas, incluindo temas como biofobia, bem-estar de invertebrados e autocuidado coletivo. O enfrentamento do loxoscelismo deixa de ser apenas uma questão técnica e passa a demandar educação, diálogo e corresponsabilidade social. A preocupação em popularizar a ciência, levar esse livro para a sociedade em uma linguagem diversa, acessível e interativa viabilizou a construção de uma ferramenta de comunicação que antecedeu a publicação do livro, mas que caminham juntas nessa busca.
O canal @aranha.marrom, traz os experimentos realizados pelos estudantes do Laboratório Núcleo do Comportamento Animal, componente do Grupo de Pesquisa Bioética Ambiental. Ali além de conteúdos associados diretamente com o conteúdo do livro, é possível acompanhar como se faz pesquisa com  animais de interesse médico, especialmente na busca por um controle ético da aranha-marrom e um convívio mais consciente e conectado da população com a natureza, especialmente em Curitiba, uma cidade inteligente reconhecida nacional e internacionalmente por sua grande área verde que comporta plantas, mas também muitos animais. Séculos de urbanização, conduziram as pessoas a se desconectarem da natureza, e a volta da vida às cidades, trouxe coisas excelentes, mas também novos problemas, como se reconectar com os elementos naturais, como respeitar os espaços, como identificar o que de fato é risco. É assim, que essa obra finaliza, buscando contribuir para cidades biofílicas! Mais do que um balanço científico, o livro constitui um convite à reflexão crítica e à ação. Ao evidenciar que acidentes potencialmente evitáveis ainda resultam em sofrimento e perdas, a obra convoca pesquisadores, gestores e cidadãos a revisitar práticas, valores e políticas. A expectativa é que o conhecimento acumulado não apenas descreva o problema, mas contribua efetivamente para a redução de vulnerabilidades e para a construção de uma relação mais equilibrada entre sociedade e natureza. O lançamento desta obra representa, portanto, um marco não apenas para a aracnologia ou para a saúde pública, mas para a própria Bioética Ambiental aplicada ao cotidiano, ao evidenciar que compreender a vida  em todas as suas formas  é condição indispensável para preservá-la.  Em breve irei informar o dia do lançamento e espero encontrá-los para um abraço e conexão nessa rede que dá sentido a tudo isso.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Entre galhos e raízes: sobre o modo como escolhemos pensar

 

por Cristiano Chiaramonti 

Mestre em Sustentabilidade, Mestrando em Bioética


A modernidade consolidou um modo de pensar orientado pela fragmentação, pela especialização e pela busca por respostas rápidas e eficientes. Esse paradigma simplificador, ancorado na racionalidade técnico-científica, permitiu avanços significativos nas diversas áreas do conhecimento, ao mesmo tempo em que instituiu separações entre sujeito e objeto, natureza e sociedade, ciência e filosofia. Uma forma de refletir que se acredita inteira, mas nasce estreito. Ele cresce rapidamente para fora, busca o sol, as estrelas, repete fórmulas, desvela certezas, projeta soluções, organiza respostas e, em grande parte, é eficiente, funcional e produtivo. Resolve antes de escutar, simplifica antes de compreender, confunde celeridade com profundidade. Esse modo de pensar expande-se como galho, visível, afirmativo, exposto ao tempo. Mas todo galho depende de algo que não se vê.

De forma complementar, o pensamento complexo propõe uma rearticulação entre os saberes, reconhecendo que os fenômenos não se deixam apreender fora das tramas que os constituem, de seus contextos e de suas múltiplas dimensões. Trata-se de um convite à ampliação do olhar, não para alcançar uma totalidade fechada, mas para habitar a incompletude, acolher a incerteza e reconhecer o entrelaçamento como condição que sustenta a vida. Conhecer deixa de ser separar para tornar-se relacionar. Um modo de pensar, menos ruidoso, menos imediato, que reconhece o tempo como condição da vida, que pondera e medita. Um pensamento que não se apressa em responder porque compreende que nenhuma pergunta nasce isolada. Cada questão carrega histórias, contextos, pertencimentos, memórias e futuros possíveis. Pensar de forma mais ampla exige reconhecer que o conhecimento não é linha reta, ele é tecido, é relação, é enraizamento. A árvore pensa com o corpo inteiro, suportando os seus galhos que competem entre si e que, em suas divergências, se espalham e coexistem em suas próprias verdades, sem que isso rompa a unidade que as sustenta.

Pensar de forma complexa implica deslocar o foco da linearidade para a teia de relações que constitui a vida, reconhecendo que toda forma de conhecimento emerge de contextos históricos, sociais, políticos e ambientais que a permeiam. A interação entre fragmentação e complexidade não se restringe ao campo epistemológico, mas desdobra-se nas formas de viver, decidir e se relacionar com os outros, humanos e não humanos, indicando que compreender não é apenas explicar, mas sustentar as interações, os vínculos e as interdependências que tornam a existência possível. Enquanto o galho busca respostas e mede resultados, a árvore sustenta perguntas e percebe os contextos. O galho fala alto, a árvore escuta o silêncio, o solo, os fungos, a água subterrânea, os outros vivos que a perpassam sem pedir licença. Há uma ética implicada nesse modo de pensar como a árvore. Uma ética que não se coloca no centro, mas em relação, que compreende que existir é conviver, que reconhece que humanos e não humanos participam do mesmo entrelaçamento de mundo.

Quando se opera apenas pela lógica da fragmentação, produzem-se soluções funcionais e, não raro, contextos adoecidos. Quando se amplia o horizonte da escuta, torna-se possível sustentar contradições, acolher divergências e reconhecer que ordem e desordem não se anulam, mas se entrelaçam. Talvez o desafio contemporâneo para as universidades, laboratórios, salas de aula e espaços de mentoria não consista em acelerar ainda mais o crescimento dos galhos, mas em fortalecer o enraizamento que sustenta o conjunto. Não se trata de abandonar a especialização, a técnica ou o rigor. Trata-se de reconectá-los à complexidade da vida que os torna possíveis. Entre galhos e raízes pode residir o futuro do pensamento, não aquele que cresce mais rápido, mas aquele que aprende a permanecer vivo. Que se cultivem modos de pensar que incluam, escutem e permaneçam.