Bioética no dia-a-dia
Blog de discussão e aplicação de conhecimentos científicos no dia-a-dia, destinado para alunos e interessados na Ética Prática, Dialogante e Multidisciplinar própria da Bioética!
sexta-feira, 13 de março de 2026
Workshop internacional discute o conceito de “fome de água” em Moçambique
quinta-feira, 12 de março de 2026
Potter do futuro aparece sem avisar na acolhida cultural..... e convoca para uma missão importante!!!!
A acolhida cultural da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), realizada em 11 de março de 2026, contou com uma presença inesperada e simbólica: o próprio Van Rensselaer Potter, diretamente “do futuro”. Em uma intervenção criativa inspirada na trajetória do cientista que formulou o conceito de bioética global, Potter apareceu como um visitante vindo do ano de 2080 para reencontrar antigos amigos universitários e, sobretudo, para lançar um convite aos novos estudantes que iniciam sua jornada acadêmica. Na narrativa apresentada aos calouros, Potter descreveu um futuro em que a humanidade negligenciou sua relação com a água e com os sistemas naturais. Lá dos confins de 2080, ele chega carregando um cilindro transparente de plástico reciclável onde preserva a última árvore do planeta — única fonte de oxigênio disponível em um mundo no qual a última gota de água já desapareceu. O cenário é simbólico, mas o alerta é real: a sobrevivência planetária depende das escolhas feitas pelas novas gerações.
Por isso, sua visita teve um objetivo claro. Potter veio convidar os estudantes a integrarem uma grande comunidade comprometida com a justiça das águas: a Blue University, movimento internacional que articula universidades em torno da defesa da água como bem comum. A proposta consiste em formar uma verdadeira “comunidade azul” de estudantes, pesquisadores e cidadãos engajados na preservação da água no planeta. O ano de 2026 inicia com conquistas importantes nesse caminho. Entre elas destaca-se o lançamento do livro Blue University: a universidade na justiça das águas, organizado pelos professores Elias Wolff e Marta Fischer. A obra será lançada no dia 23 de março de 2026, com duas atividades abertas ao público: um evento presencial às 9h30 e um lançamento virtual às 19h. A publicação reúne reflexões acadêmicas e experiências institucionais que discutem o papel das universidades na promoção da justiça hídrica e da governança sustentável da água. Ao mesmo tempo, novas iniciativas começam a se estruturar. Entre elas está o fortalecimento do Clube da Água, que será coordenado pelo doutorando em Bioética, biólogo e escritor Thierry Lummertz, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR. O clube funcionará como uma liga acadêmica interdisciplinar dedicada à temática da água, promovendo atividades ao longo do semestre voltadas à formação científica, social e ambiental dos participantes. Os membros do clube serão convidados a desenvolver atividades que mobilizam diferentes habilidades de uma equipe multidisciplinar, incluindo leituras orientadas, produção de textos, pesquisa científica, ações de educação ambiental e expressões artísticas relacionadas à temática da água.
O futuro ainda pode ser diferente. E ele começa agora.
Venha conhecer o Clube da Água e fazer parte dessa comunidade azul.
segunda-feira, 9 de março de 2026
Rios voadores e seus direitos: quando a água dos céus também precisa de proteção
O presente ensaio critico foi realizado como parte integrante do Projeto de Iniciação Científica sendo baseado nas obras
ANGELINI, Ronaldo. Ecossistemas
e modelagem ecológica. Disponível em:
https://www.researchgate.net/profile/Ronaldo-Angelini-2/publication/228461752_Ecossistemas_e_modelagem_ecologica/links/586bfb2d08ae329d621217da/Ecossistemas-e-modelagem-ecologica.pdf.
Acesso em: 8 mar. 2026.
ACOSTA, Alberto. O bem viver:
uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Elefante, 2016.
Disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=cGH0DwAAQBAJ.
Acesso em: 8 mar. 2026.
INTERNATIONAL RIVERS. Declaração
Universal dos Direitos dos Rios. 2017. Disponível em:
https://www.internationalrivers.org/wp-content/uploads/sites/86/2021/03/THE-UNIVERSAL-DECLARATION-ON-THE-RIGHTS-OF-RIVERS-translation-into-PT.pdf.
Acesso em: 8 mar. 2026.
REVISTA VEREDAS DO DIREITO. Direitos
da natureza: fundamentos e perspectivas jurídicas. Belo Horizonte.
Disponível em:
https://revista.domhelder.edu.br/index.php/veredas/article/view/253.
Acesso em: 8 mar. 2026.
AYOADE, J. O. Introdução à
climatologia para os trópicos. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1996.
Disponível em:
https://books.google.com.br/books?id=t8LXP791TMIC.
Acesso em: 8 mar. 2026.
SILVA, et al. Rios voadores e
sua importância para o regime de chuvas na América do Sul. In: SIMPÓSIO
BRASILEIRO DE GEOGRAFIA FÍSICA APLICADA, 2024. Anais… Disponível em:
https://www.editorarealize.com.br/editora/anais/sbgfa/2024/TRABALHO_COMPLETO_EV206_MD1_ID2340_TB814_01122024165708.pdf.
Acesso em: 8 mar. 2026.
NOBRE, Antonio Donato. O
futuro climático da Amazônia. Estudos Avançados, São Paulo. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/ea/a/fXZzdm68cnzzt6Khr8zYx3L/.
Acesso em: 8 mar. 2026.
MARENGO, José Antonio. Mudanças
climáticas globais e seus efeitos sobre a biodiversidade. Disponível em:
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252003000400018&script=sci_arttext.
Acesso em: 8 mar. 2026.
MMA – Ministério do Meio
Ambiente. Mudanças climáticas e seus efeitos sobre a biodiversidade.
Disponível em:
https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/3526142/megadiversidade_desafios_cientificos-libre.pdf.
Acesso em: 8 mar. 2026.
RODRÍGUEZ, et al. Derechos de
la naturaleza y protección de los ecosistemas. Disponível em:
https://ciencia.lasalle.edu.co/items/4192a797-e512-4f1a-9da0-e6ab63b754d0.
Acesso em: 8 mar. 2026.
SACHS, Ignacy. Educação
ambiental e desenvolvimento sustentável: interdependência entre sociedade e
natureza. Disponível em:
https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/3250993/EDUCACAO_AMBIE_TAL_E_DESE_VOLVIME_TO_SUSTE_TAVEL_UM_E_FOQUE_AS_RELACOES_DE_I_TERDEPE_DE_CIA_EI_TERACOES_PRESE_TES_A_ATUREZA_.pdf.
Acesso em: 8 mar. 2026.
O ensaio foi produzido com apoio da IA GPT5, a fim de criar imagens e melhorar o texto, além da formatação das fontes.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Quando o afeto vira captura: Cosmovisão originária, objetificação afetiva e o transtorno do vínculo na relação humano-animal
Essa leitura não é metafórica. É ética.
O animal não é recurso, não é extensão psíquica e não é objeto de compensação emocional. Quando essa fronteira é atravessada, o que se rompe não é apenas um vínculo individual, mas um equilíbrio relacional mais amplo. O sofrimento emerge como consequência de uma captura indevida do outro.
Esse ponto dialoga diretamente com o que, na clínica contemporânea, podemos reconhecer como objetificação afetiva.
Na cultura urbana moderna, o discurso do afeto frequentemente encobre práticas profundamente utilitaristas. O animal é amado, mas esse amor muitas vezes vem acompanhado de uma exigência implícita: regular o humano. Acalmar, preencher, sustentar, fazer companhia, dar sentido, evitar o vazio, tamponar a angústia.
O cão deixa de ser sujeito e passa a ser função.
Esse deslocamento é sutil e socialmente validado. Diferente da exploração física direta, a objetificação afetiva se apresenta como cuidado, zelo e proximidade. No entanto, do ponto de vista relacional, ela produz o mesmo efeito estrutural: retira do animal sua autonomia emocional e o aprisiona em um papel que não lhe pertence.
Na cosmovisão originária, isso seria compreendido como uma quebra de pacto. Um ser não pode ocupar o lugar psíquico do outro sem que o sistema inteiro se desorganize. Quando um humano deposita no animal a função de regulador emocional exclusivo, cria-se um desequilíbrio que, nessas cosmologias, se manifesta como doença, sofrimento ou perda de harmonia.
Na clínica comportamental, observamos o mesmo fenômeno sob outra linguagem.
Cães com ansiedade de separação grave, estereotipias, compulsões ou dificuldade de repouso autônomo frequentemente vivem em vínculos marcados por fusão emocional. Não lhes foi permitido desenvolver autonomia, explorar o ambiente, se regular na presença do humano. O vínculo foi construído como dependência.
Nesses casos, a ausência não é a causa do sofrimento. Ela apenas expõe uma organização emocional fragilizada, sustentada por um vínculo utilitarista travestido de afeto.
É aqui que o conceito de transtorno do vínculo se torna clínico, e não apenas teórico.
O transtorno não está na separação, mas na forma como a relação foi estruturada. Um vínculo no qual o animal existe para atender demandas emocionais humanas inevitavelmente gera ansiedade, porque coloca sobre o cão uma responsabilidade incompatível com sua biologia, sua etologia e sua capacidade de autorregulação.
A cosmovisão dos povos originários oferece um contraste radical com essa lógica. Nela, o afeto não autoriza a invasão. A proximidade não elimina o limite. O cuidado não anula a autonomia. Cada ser ocupa seu lugar no mundo, e a relação só se mantém saudável enquanto esse lugar é respeitado.
Essa leitura desmonta a ideia moderna de que amar é estar sempre junto, intervir sempre, mediar tudo. Para essas cosmologias, interferir demais é tão nocivo quanto abandonar. O equilíbrio está na justa medida, no reconhecimento do outro como outro.
Quando trazemos essa ética relacional para a clínica, algo se esclarece.
Tratar a ansiedade de separação não é ensinar o cão a tolerar a ausência humana, mas libertá-lo da função de regulador emocional. É devolver ao animal o direito de existir sem carregar o peso da angústia do outro. É reorganizar o vínculo para que ele volte a ser espaço de troca, não de captura.
O utilitarismo sobre a vida animal, mesmo quando embalado em linguagem afetiva, produz sofrimento porque transforma relação em uso. A objetificação afetiva não é menos violenta por ser silenciosa. Ela apenas é mais difícil de reconhecer.
Talvez o que os povos originários nunca tenham esquecido, e que a clínica moderna começa a reencontrar, seja isso:
vínculo não é fusão,
afeto não é apropriação,
cuidado não é dependência.
Quando o animal deixa de ser função e volta a ser sujeito, o vínculo se reorganiza. E, muitas vezes, a ansiedade deixa de ser necessária como forma de existir na relação.
O presente ensaio foi elaborado baseando-se nas obras:
ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
BOWLBY, John. Attachment and loss: attachment. 2. ed. New York: Basic Books, 1982. v. 1.
DAWKINS, Marian Stamp. Animal welfare and the paradox of animal consciousness. Oxford: Oxford University Press, 2012.
DONALDSON, Sue; KYMLICKA, Will. Zoopolis: a political theory of animal rights. Oxford: Oxford University Press, 2011.
FOGLE, Bruce. The dog’s mind: understanding your dog’s behavior. New York: Howell Book House, 2009.
HOLMES, Jeremy. Attachment theory and its clinical applications. 2. ed. London: Routledge, 2014.
HOROWITZ, Alexandra. Domestic dog cognition and behavior. Berlin: Springer, 2014.
KANT, Immanuel. Groundwork of the metaphysics of morals. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.
KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MIKLÓSI, Ádám. Dog behaviour, evolution, and cognition. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2015.
NUSSBAUM, Martha C. Objectification. Philosophy & Public Affairs, Hoboken, v. 24, n. 4, p. 249–291, 1995.
SAPOLSKY, Robert M. Why zebras don’t get ulcers. 3. ed. New York: Henry Holt and Company, 2004.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
Bioética Ambiental e Blue University: uma trajetória de engajamento, formação e incidência em 2025
Por Marta Luciane Fischer
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