Por Marta Luciane Fischer
A existência humana está inserida em uma história evolutiva profundamente relacionada à natureza, de modo que a experiência de conexão com outros seres e ambientes integra dimensões importantes da própria condição humana. A biofobia foi discutida a partir de sua dimensão evolutiva e adaptativa. O medo e a cautela diante de determinados elementos naturais podem ter desempenhado funções importantes na sobrevivência, especialmente diante de predadores, animais peçonhentos, tempestades, alturas, escuridão e outros riscos. A experiência histórica de convivência com a natureza possibilitava distinguir situações de risco e desenvolver estratégias de proteção.
O problema contemporâneo surge quando a precaução deixa de estar associada à identificação de riscos concretos e passa a alimentar uma rejeição generalizada daquilo que é diferente, imprevisível ou difícil de controlar. A urbanização e a industrialização contribuíram para aprofundar o distanciamento entre as pessoas e os processos naturais. A vida urbana passou a oferecer ambientes cada vez mais protegidos da terra, da chuva, dos animais e das variações ambientais. A natureza passou a ser frequentemente incorporada às cidades de maneira ornamental, controlada e previsível. A árvore é desejada para produzir sombra e amenizar o calor, enquanto folhas, frutos, galhos, aves, insetos e outros organismos podem ser percebidos como incômodos. A discussão destacou, portanto, uma contradição importante: deseja-se a presença da natureza desde que ela permaneça subordinada às expectativas humanas. O conceito de déficit de natureza permitiu aprofundar as consequências desse afastamento. A redução das experiências diretas com ambientes naturais, especialmente durante a infância, está associada a impactos em dimensões sociais e cognitivas. Crianças que vivenciam grande quantidade de tempo diante das telas e pouca experiência corporal com ambientes naturais podem desenvolver maior estranhamento diante da terra, da areia, das folhas, da água, dos insetos e da irregularidade própria dos ambientes naturais. A natureza passa, gradativamente, a ser percebida como algo distante, perigoso ou desconfortável. A conversa permitiu relacionar o déficit de natureza à própria dificuldade contemporânea de lidar com a diversidade e a imprevisibilidade. Viver em contato com a natureza significa reconhecer que os sistemas vivos são complexos, dinâmicos e compostos por múltiplas relações. A tentativa de eliminar aquilo que incomoda pode ser compreendida como expressão de uma busca mais ampla pela simplificação e pelo controle. A discussão alcançou, então, as relações sociais: uma sociedade que apresenta dificuldade para conviver com a diversidade biológica também pode apresentar dificuldades para lidar com diferenças humanas, opiniões divergentes e situações que escapam aos padrões previamente estabelecidos. Outro eixo importante foi a relação entre natureza, poder e controle. A discussão sobre zoológicos, animais mantidos em espaços delimitados e a expectativa de observar a natureza sem estar sujeito aos seus riscos evidenciou como determinadas formas de interação podem reproduzir uma relação hierárquica. A pessoa deseja ver o animal, fotografá-lo e apreciá-lo, desde que possa controlar a distância, o espaço e as condições do encontro. A própria ideia de uma natureza “domesticada” ou “encarcerada” pode produzir uma percepção distorcida de convivência, na qual a presença do animal é aceita enquanto não interfere na rotina humana. A discussão sobre as cidades evidenciou outro desafio contemporâneo. O movimento de reintrodução de áreas verdes e a construção de cidades sustentáveis e biofílicas representam avanços importantes, porém exigem uma transformação simultânea da relação da população com os organismos que acompanham os ambientes verdes. Árvores e parques constituem ecossistemas, e a presença de vegetação implica também a presença de aves, insetos, mamíferos, aracnídeos e outros componentes da biodiversidade. Reverdecer a cidade sem preparar as pessoas para conviver com a biodiversidade pode produzir novas situações de conflito e vulnerabilidade. Um exemplo concreto dessa possibilidade foi trazido a partir da experiência com a aranha conhecida popularmente como treme-treme, predadora da aranha-marrom. A aceitação social desse animal demonstra como o conhecimento pode modificar percepções. Quando as pessoas passam a reconhecer individualmente as aranhas, compreender sua função ecológica e perceber a relação entre sua presença e a redução da aranha-marrom, o animal anteriormente percebido apenas como algo indesejado passa a integrar uma rede de relações ecológicas compreensível. A divulgação científica em redes sociais também mostrou potencial para aproximar conhecimento acadêmico e sociedade, ampliando significativamente o alcance de experiências realizadas no laboratório. A participação de Bernadete Brandão acrescentou à discussão a perspectiva da bioética e da educação ambiental. A utilização de estratégias da natureza como fonte de aprendizagem e inspiração para crianças foi apresentada como uma possibilidade de despertar curiosidade, reconhecimento e interesse pelos organismos. Observar formigas, aranhas e outros animais e compreender suas estruturas e estratégias de sobrevivência pode transformar o contato com a natureza em experiência de aprendizagem. A proposta de trabalhar esses conteúdos com diferentes faixas etárias converge com a necessidade de reconstruir vínculos desde a infância e favorecer o reconhecimento de que os seres humanos integram a natureza. A Bioética Ambiental apareceu, ao longo da conversa, como um campo capaz de estabelecer pontes entre conhecimento científico, valores, sociedade e tomada de decisão. A bioética foi apresentada como espaço de escuta, acolhimento, deliberação e construção conjunta de decisões relacionadas a bens compartilhados. A questão ambiental exige precisamente essa capacidade de construir decisões coletivas, porque problemas como biodiversidade, água, clima e qualidade ambiental ultrapassam a esfera das escolhas individuais. A água ocupou um lugar especial nessa reflexão. A discussão destacou a condição da água como bem comum e como requisito fundamental para a vida. O engajamento ambiental precisa alcançar questões estruturantes, nas quais ações individuais possuem importância, porém dependem de decisões coletivas e institucionais. A dificuldade de mobilizar a sociedade em torno da água, mesmo diante de sua centralidade para a sobrevivência, foi apresentada como uma expressão significativa do distanciamento contemporâneo em relação aos bens comuns. O debate também conduziu à dimensão política do engajamento ambiental. A transformação das relações com a natureza exige participação nos espaços onde decisões são tomadas, diálogo com instituições e aproximação entre academia, ativismo, sociedade civil e poder público. A atuação política foi reconhecida como um espaço complexo, atravessado por diferentes interesses, valores e relações de poder, mas indispensável para transformar conhecimento e preocupação ambiental em políticas públicas. A discussão ressaltou que a academia precisa construir pontes com aqueles que participam diretamente dos processos decisórios, pois a produção científica, isoladamente, possui alcance limitado quando não consegue repercutir na vida social e nas políticas públicas. O encerramento da live reforçou justamente a necessidade de transformar sensibilização em participação. Bernadete Brandão relacionou as discussões à construção de políticas públicas e à necessidade de representação política das pautas ambientais, enquanto minha participação procurou enfatizar que a ocupação desses espaços precisa ocorrer por meio do diálogo, da construção coletiva e da disposição para lidar com interesses distintos. O engajamento ambiental exige pessoas dispostas a ocupar diferentes espaços sociais, políticos, acadêmicos e comunitários. A live deixou como principal reflexão a necessidade de reconstruir a relação humana com a natureza a partir de uma compreensão mais realista da biodiversidade. A natureza não é cenário, decoração ou recurso disponível exclusivamente para atender às necessidades humanas. A convivência envolve diversidade, limites, interdependência, riscos, benefícios e imprevisibilidade. Recuperar a biofilia exige, portanto, ampliar experiências, conhecimentos e vínculos capazes de favorecer o reconhecimento de que os seres humanos pertencem aos mesmos sistemas vivos que procuram proteger. A participação em encontros como o de hoje reafirma também a importância de aproximar Biologia, Bioética, educação, ativismo e política. A produção científica precisa encontrar caminhos para dialogar com a sociedade, formar pessoas capazes de deliberar sobre problemas complexos e contribuir para decisões que considerem diferentes formas de vida. A Bioética Ambiental oferece um território particularmente fértil para essa aproximação, justamente por possibilitar a escuta de diferentes saberes, o reconhecimento das vulnerabilidades e a construção coletiva de responsabilidades diante dos bens comuns e das demais formas de vida.








