sábado, 27 de junho de 2026

Homenagem às Mulhes Pesquisadoras: uma tarde de conexão com Camilla Gonda


Por Marta Luciane Fischer




Ontem foi uma daquelas tardes que vale a pena ser vivida, parafraseando prof. Valdemiro. A energia e a atmosfera do evento estavam muito propícias à conexão entre dezenas de mulheres, potentes em suas áreas de atuação e plurais em suas trajetórias, partilhando a alegria de serem reconhecidas e de se reconhecerem umas nas outras. Foi também uma oportunidade de reencontrar mulheres queridas e importantes na minha caminhada: a professora Rosana Rocha, que marcou minha formação na UFPR; colegas professoras e pesquisadoras da PUCPR; a Dra. Aline Brotto, egressa do Programa de Pós-Graduação em Bioética; A Bianca Caneparo, egressa da Biologia e Pesquisadora do Herbário da PUCPR, a Mel, graduanda em Ciências Biológicas; e de compartilhar esse momento ao lado da minha mais recente parceira de projetos, Aline Anile, com quem tenho dividido importantes etapas de consolidação de novos sonhos. De início, quando se recebe a notícia de que será homenageada, busca-se saber de onde vem a homenagem. A nossa veio da vereadora Camilla Gonda, a mais jovem parlamentar da atual legislatura da Câmara Municipal de Curitiba. Ao conhecê-la, encontrei uma jovem que construiu sua trajetória entre a universidade e a vida pública. Formada pela PUCPR, pesquisadora e mestranda na UFPR, fundadora do movimento Por Mais Elas na Política, levou para o Legislativo bandeiras que já faziam parte de sua caminhada antes do mandato como a a valorização da educação, da ciência, da participação das mulheres e da juventude. Em um tempo em que tantas vezes se questiona o futuro da política, foi reconfortante perceber que há uma nova geração disposta a construir esse futuro a partir do conhecimento, do diálogo e do compromisso com a sociedade. Uma trajetória que, pela coerência entre formação, pesquisa e atuação pública, também merece reconhecimento e apoio.
Por um instante, uma reunião de urgência ameaçou alterar a programação da cerimônia, o que felizmente, isso não aconteceu, permitindo que o evento transcorresse de forma acolhedora, respeitosa e, principalmente, muito alegre. Destaco também a mesa composta pela vereadora e pelas representantes das instituições às quais pertenciam as homenageadas. Todas conduziram seus discursos com respeito, precisão e sensibilidade, valorizando o significado da pesquisa científica e das trajetórias ali representadas. Recebi esta homenagem com profunda gratidão e com o coração repleto de alegria. Agradeço à Vereadora Camilla Gonda, à Câmara Municipal de Curitiba e à PUCPR por este reconhecimento, que recebo com muita honra. Sinto-me especialmente feliz por compartilhar esta tarde com mulheres tão relevantes para nossa cidade, profissionais que, em diferentes áreas, dedicam suas vidas à produção do conhecimento, à inovação e à transformação da sociedade. Há quase trinta anos, iniciei minha jornada profissional ainda como aluna de Biologia da PUCPR, quando decidi dedicar meus estudos às aranhas. Naquele momento, Curitiba vivia uma situação singular: a aranha-marrom passava a ser reconhecida como um risco justamente no ambiente que deveria representar tranquilidade, segurança e acolhimento para as famílias curitibanas: suas casas. Desde então, percorri uma longa trajetória de pesquisa, aprendizado, parcerias e amadurecimento profissional. Passei por diferentes etapas da investigação científica, buscando compreender não apenas a biologia dessa espécie, que transformou Curitiba em um cenário singular de infestação urbana, mas também como promover o engajamento da sociedade, superar a biofobia e estimular uma reconexão mais respeitosa e consciente com a natureza.
Este reconhecimento culmina em um momento muito especial da minha trajetória. Recentemente, tivemos a satisfação de publicar a obra Aranha-marrom: 30 anos de estudos biológicos, epidemiológicos e sociais, que apresenta, de forma entrelaçada, a trajetória de uma pesquisadora e da aranha que inspirou avanços técnicos e científicos ao longo de três décadas.
Mais do que registrar uma história de pesquisa, a obra representa uma oportunidade de devolver a Curitiba um conjunto de conhecimentos construídos coletivamente, que poderá ser apropriado por novos olhares, novas gerações e novas abordagens. Acredito que compreender a relação entre seres humanos e natureza é um passo fundamental para superar medos, reduzir preconceitos e fortalecer uma convivência mais harmoniosa com o ambiente. Essa reflexão é particularmente importante em Curitiba, cidade reconhecida nacional e internacionalmente por sua vocação sustentável e por sua relação histórica com as questões ambientais. Ao longo desse caminho, aprendi que o verdadeiro legado da ciência não está apenas nos artigos publicados ou nos dados produzidos, mas também na formação de profissionais e cidadãos, na construção de pontes entre universidade e sociedade e na capacidade de devolver conhecimento em benefício da comunidade.Recebo esta homenagem não como uma conquista individual, mas como o resultado de uma caminhada compartilhada com estudantes, colegas, colaboradores, instituições e com todos aqueles que acreditam na ciência como instrumento de transformação social.

 


 

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Juca e Potter na Mata Atlântica, Cultivando Água.

por Thierry Betazzi Lummertz, Adriana Sottomaior e Mel Maback

 

Potter é um bioeticista viajante no tempo que se teletransporta para o presente para entender o que aconteceu para que o futuro esteja tão sem vida. Não existe animais, nem florestas e os poucos habitantes que restaram usam cilindros de oxigênio, porque não tem mais ar livre. Vivem em cápsulas subterrâneas e tomam comprimidos de sobrevivência, porque não existe mais água. Nessa aventura para o presente, Potter conhece Juca, um menino inteligente e boa gente, sempre disposto a ajudar. Ele vendia frutas sem saber que estavam contaminadas com agrotóxicos. Seu pai ficou doente por ficar em contato com esses alimentos, durante muito tempo. Juca e Potter descobrem muitas coisas, aprendem e compartilham seus ensinamentos. Potter conduz o menino a consciência sobre a natureza e o quanto precisamos dessa harmonia. Com Juca compartilhou muitas coisas que aprendeu, o futuro melhorou de alguma forma e Potter retorna ao presente para rever seu amigo. Juca agora se especializou em agro-floresta, uma forma incrível de unir a produção de alimentos e a preservação da natureza. Uma técnica que imita um ambiente natural, favorecendo todos a sua volta. Os amigos se reencontram e Potter percebe que Juca está indo muito bem em seus estudos e contribuindo um pouquinho com a saúde de todos, No entanto, Juca desconhece a importância da água e sua preservação. Potter, então decide levar o menino em uma super viagem pelo mundo mágico do ciclo da água. Nessa viagem, Juca descobre a importância de se preservar a água, afinal todos os seres tem o direito de viver e isso apenas é garantido, com a distribuição e preservação da água. Conhecem também o que restou da Mata Atlântica e Potter mostra como a relação do ser humano com a natureza está desalinhada, ao ponto de mercantilizar a natureza. Então surge a linda Yara, uma indígena que resiste e luta para que seu povo continue vivendo na floresta.
A ganância fez com que Naurú, o guerreiro mais forte da aldeia, vendesse as terras para Brancos construírem uma Represa. Ela conta para eles como é viver em harmonia com o planeta e que para eles não existe a palavra natureza, afinal natureza significa cada um e o todo. Assim como ela se relaciona com sua família, ela convive com seu primo vento, sua tia montanha e aprende muito com sua irmã água. É por meio da resiliência da água que os rios fluem para o oceano. Para eles, essa é a maior lição. Quando Y-ara se vê nervosa com toda essa situação, a entidade Caipora a incorpora, trazendo muita raiva e indignação. Juca e Potter tentam explicar para essa entidade que estão ali para também ajudar. Caipora é a guardiã da floresta e está muito enraivecida com os humanos e suas ações ignorantes. Potter mostra que eles estão do seu lado, do lado da natureza e querem ajudar. Mas essa história terá novos capítulos, afinal precisamos de novos membros da sociedade conscientes de seus papeis e responsabilidades nessa intrincada relação de poder e codependência entre humanos e natureza. É preciso resgatar a conexão que temos com a natureza em nossos DNAs, permitindo que aprendamos, de uma vez por todas, que não vivemos sem a natureza e que outro mundo é possível de ser construído. Uma sociedade mais justa e saudável, independente e respeitosa das diferenças culturais, em harmonia com a biosfera e a vida no planeta. Só assim garantiremos um ambiente saudável para esta e as futuras gerações.

Confiram o espetáculo


 Música Água.


ANTES DO MUNDO SER COMO É, EU JÁ ESTAVA AQUI

CADA SER VIVO É COMO É, PORQUE TEM MUITO DE MIM

QUANDO O SOL BEIJA A FACE DAS GELEIRAS

ONDE EU REPOUSO

LIVRE ENTÃO DESPERTO

ME TRANSFORMO EM MAR PARA LAVAR

AS DORES DA MÃE TERRA

ÁGUA!

SUAS LÁGRIMAS SÃO FEITAS DE ÁGUA

O SUOR NA SUA PELE É ÁGUA

EU MOREI NO VENTRE QUE TE GEROU

ÁGUA!

O SANGUE NAS TUAS VEIAS É ÁGUA

O QUE MATA A SUA SEDE É ÁGUA

MEU CAMINHO AINDA NÃO ACABOU

SOU SEMPRE LEMBRADA

QUANDO FAÇO FALTA

OU QUANDO INVADO CIDADES E CASAS

TEMEM MINHA FORÇA

MAS POUCO SE LEMBRAM QUE SEM MIM NÃO HÁ VIDA

ÁGUA!

SOU O LÍQUIDO DA VIDA

SOU ÁGUA!

A ESSÊNCIA DO PLANETA, SOU ÁGUA!

SEM VOCÊ AINDA POSSO EXISTIR...

ÁGUA! ÁGUA! ÁGUA!

SIRVO SUA MESA

MAS EU SOU A MESMA DESDE O INÍCIO

NINGUÉM ME FABRICA

SEM A SUA VIDA

AINDA TENHO VIDA PRA SEGUIR NO PLANETA

ÁGUA!

O QUE REINA NESSA TERRA É

ÁGUA!

EU QUE TE MANTENHO VIVO

SOU ÁGUA!

SOU O QUE VOCÊ NÃO VALORIZOU...

ÁGUA!

O QUE BANHA O SEU CORPO

É ÁGUA!

SE ME TRATA COM DESPREZO

SOU ÁGUA!

E QUEM PRECISA DE MIM É VOCÊ...

 

 


segunda-feira, 8 de junho de 2026

Participação no I Fórum de Sustentabilidade e Meio Ambiente - PUCPR

 


A Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), os Hospitais Universitário Cajuru e São Marcelino Champagnat promoveram, no dia 8 de junho, o I Fórum de Sustentabilidade e Meio Ambiente, um evento que reuniu especialistas, gestores, pesquisadores e representantes de diferentes setores para discutir os desafios e as oportunidades da sustentabilidade diante das transformações ambientais contemporâneas. Realizado em formato presencial e online, o fórum teve como objetivo fortalecer o diálogo entre ciência, gestão, saúde, educação e sociedade, abordando temas estratégicos como mudanças climáticas, descarbonização, transição energética, gestão hídrica e gestão de resíduos. A programação foi aberta com uma reflexão sobre espiritualidade e cuidado com a vida, seguida da cerimônia oficial de abertura conduzida por representantes do Grupo Marista e da PUCPR. Participaram da mesa de abertura Carmem Murara, Diretora de Relações Institucionais e Governamentais do Grupo Marista, Dr. Álvaro Quintas, Diretor-Geral da Área de Saúde do Grupo Marista, e Vidal Martins, Vice-Reitor da PUCPR. A primeira conferência do evento foi ministrada pela infectologista Dra. Viviane Dias, que abordou os impactos das alterações climáticas sobre a saúde humana, destacando os desafios emergentes relacionados à disseminação de doenças, eventos extremos e vulnerabilidades socioambientais. Na sequência, o painel sobre redução das emissões de gases de efeito estufa discutiu caminhos para a descarbonização nos setores da saúde e da educação. Camila Farhate apresentou oportunidades para a implementação de práticas sustentáveis em organizações, enquanto Mauricy Kawano debateu os desafios e estratégias para acelerar a transição para modelos produtivos de baixo carbono. Durante a manhã, também foi realizada a conferência sobre a certificação ISO 14001, conduzida por Roberto Jovan da Silva, que destacou como sistemas de gestão ambiental estruturados podem impulsionar a eficiência organizacional e fortalecer a responsabilidade socioambiental das instituições.

No período da tarde, as discussões avançaram para a sustentabilidade empresarial, com apresentações sobre descarbonização, Agenda 2030 e governança corporativa sustentável. A programação incluiu ainda uma conferência sobre transição energética, ministrada pela professora Luisa Nastari, da Copel, que apresentou perspectivas e desafios relacionados à transformação da matriz energética brasileira. Um dos momentos de destaque do evento foi o painel "Gestão Ambiental: Eficiência Hídrica", que reuniu diferentes experiências voltadas à proteção e à gestão sustentável da água. Representando a PUCPR, os professores Elias Wolff e Marta Fischer apresentaram a palestra "A PUCPR e a Justiça das Águas: Blue University", compartilhando a trajetória da universidade no movimento internacional Blue Community e os avanços institucionais na promoção da água como direito humano e bem comum. A apresentação destacou resultados de pesquisas desenvolvidas pelo Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental da PUCPR, que vêm investigando as dimensões éticas, sociais, políticas e educacionais relacionadas à água. Foram apresentados dados que evidenciam o potencial transformador das universidades na construção de uma cultura de justiça hídrica, bem como os desafios para ampliar o engajamento da comunidade acadêmica em ações voltadas à proteção da água. A fala ressaltou que a proposta de uma Blue University ultrapassa questões técnicas de gestão hídrica, constituindo-se como um compromisso ético e político com a defesa da água como bem comum, direito humano e elemento essencial para todas as formas de vida. Também foram apresentados projetos de ensino, pesquisa e extensão que vêm contribuindo para fortalecer essa agenda na universidade, incluindo iniciativas relacionadas à Bioética Ambiental, aos Rios como Sujeitos de Direitos e à formação de uma cidadania ambiental mais participativa.
O painel foi complementado pela apresentação de Fernando Lira, da Santa Casa da Bahia, que compartilhou experiências sobre gestão hídrica eficiente em ambientes hospitalares, evidenciando a água como um ativo estratégico para a sustentabilidade das instituições de saúde. Encerrando a programação técnica, o painel sobre gestão de resíduos reuniu representantes da PUCRS, da Prefeitura de Curitiba e da Universidade Federal do Paraná, promovendo uma ampla discussão sobre os desafios da gestão de resíduos sólidos, educação ambiental e indicadores de sustentabilidade. Ao longo de todo o dia, o I Fórum de Sustentabilidade e Meio Ambiente consolidou-se como um importante espaço de diálogo interdisciplinar, reforçando a necessidade de integrar conhecimento científico, inovação, responsabilidade social e compromisso ético na construção de respostas aos desafios socioambientais contemporâneos. Mais do que discutir sustentabilidade, o evento evidenciou que enfrentar as mudanças climáticas, proteger os recursos naturais e promover justiça ambiental exige ações coletivas, cooperação institucional e o fortalecimento de uma cultura comprometida com o cuidado da vida em todas as suas dimensões.



Engajamento universitário: o campus como território político e educativo de uma Blue University



Quando se aborda a crise da água, a percepção comum frequentemente se restringe à escassez. Contudo, a complexidade da questão é muito maior, posicionando a água como um dos principais focos de disputa no século XXI. Essa disputa abrange interesses econômicos, justiça social, sustentabilidade ambiental e direitos humanos. Nesse cenário, emergiu o movimento internacional Blue Community, que advoga pela água como direito humano e bem comum. Desse movimento, derivou o conceito de Blue University, uma certificação concedida a instituições de ensino superior que assumem um compromisso ético e político com a proteção da água. Uma Blue University fundamenta-se em três pilares essenciais: o reconhecimento da água e do saneamento como direitos humanos, a defesa da gestão pública da água e o incentivo a alternativas ao consumo de água engarrafada. Mais do que um mero selo, representa uma transformação cultural institucional que integra ensino, pesquisa, extensão e gestão. Essa proposta surge como uma resposta direta à crescente mercantilização da água. Apesar de a Organização das Nações Unidas ter reconhecido, em 2010, o acesso à água e ao saneamento como direitos humanos fundamentais, milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para obter água segura. Paralelamente, intensifica-se a pressão para converter a água em uma mercadoria, sujeita às leis de mercado. Nesse contexto, as universidades desempenham um papel estratégico. Elas não são apenas centros de produção de conhecimento, mas também ambientes capazes de formar cidadãos críticos e engajados na transformação social. Uma das razões que tornam a universidade um espaço crucial para a construção de uma Blue University é sua função como um verdadeiro laboratório vivo de transformação social. A universidade concentra, em um único território, três dimensões fundamentais que raramente são encontradas em outros ambientes: a gestão de uma infraestrutura complexa, comparável à de uma pequena cidade; a produção de conhecimento científico por meio do ensino e da pesquisa; e a interação contínua com a sociedade através da extensão universitária. Na dimensão da infraestrutura e gestão, as decisões relativas ao abastecimento de água, saneamento, compras institucionais e consumo diário podem ser convertidas em exemplos práticos de sustentabilidade e justiça hídrica. No âmbito do ensino e pesquisa, a universidade gera evidências científicas, desenvolve tecnologias, capacita profissionais e constrói conhecimentos que podem subsidiar soluções para os desafios hídricos contemporâneos. A extensão e a relação com a comunidade, por sua vez, permitem que experiências, valores e boas práticas transcendam os limites do campus, contribuindo para a formação de uma cidadania ambiental mais crítica e participativa. A intersecção dessas três dimensões transforma a universidade em um laboratório vivo, onde princípios éticos, como o reconhecimento da água como direito humano e bem comum, podem ser traduzidos em práticas concretas, avaliadas cientificamente e compartilhadas com a sociedade. Em outras palavras, a universidade é o local ideal para uma Blue University porque reúne a capacidade de gerir recursos, produzir conhecimento e formar cidadãos, convertendo o campus em um ambiente onde a justiça hídrica pode ser experimentada, avaliada e replicada para a sociedade. Diversos estudos demonstram que as instituições de ensino superior podem contribuir significativamente para a sustentabilidade hídrica ao articular educação ambiental, participação comunitária, pesquisa aplicada e gestão responsável dos recursos naturais. Entre os exemplos internacionais, destaca-se a Universidade de Berna, na Suíça, a primeira Blue University do mundo. No Brasil, a Universidade Federal de Lavras tornou-se uma referência internacional em sustentabilidade hídrica, e a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) passou a integrar oficialmente o movimento em 2023. Essa transformação se inicia muito antes da certificação, exigindo a criação de uma cultura institucional baseada no cuidado com a água e na compreensão de que esse recurso é vital para todas as formas de vida. A autodeclaração de uma instituição como "Azul" — vinculada à rede global blue-community.net — oferece uma série de vantagens estruturais que alinham a gestão de recursos hídricos à responsabilidade socioambiental. Esse posicionamento se consolida por meio de seis pilares fundamentais que impactam tanto a operação interna quanto o alcance externo da organização. Em primeiro lugar, a instituição ganha em Coerência Institucional, estabelecendo um alinhamento prático e verificável entre seu discurso de sustentabilidade e sua infraestrutura real. Essa postura é impulsionada por uma Qualificação da Governança, que promove a articulação entre diferentes setores e integra o tema "água" às tomadas de decisão centrais, retirando-o de nichos técnicos isolados. Como resultado direto dessa gestão estratégica, observa-se uma significativa Redução da Pegada Ecológica, caracterizada pela otimização do consumo hídrico e por uma queda drástica no volume de resíduos plásticos gerados no cotidiano. Além dos benefícios operacionais e ecológicos, o selo "Azul" gera um forte impacto educativo e político. No âmbito acadêmico, há o fomento à Inovação Pedagógica, onde o próprio campus se torna conteúdo curricular e um espaço ativo para o exercício da cidadania. Essa atuação local ganha escala por meio da Internacionalização, que conecta a instituição diretamente a uma rede global de especialistas, governos e líderes comprometidos com a causa. Por fim, todo esse arranjo fortalece a Defesa do Interesse Público, consolidando uma posição técnica e ética rigorosa frente às pressões privatizantes e assegurando o entendimento da água como um bem comum. Com o objetivo de compreender o potencial de engajamento da comunidade acadêmica, a PUCPR desenvolveu uma pesquisa de Iniciação Científica para mapear o conhecimento, os valores e a disposição de engajamento de sua comunidade acadêmica em relação à proposta da Blue University. A pesquisa envolveu 151 estudantes de 33 cursos de graduação e pós-graduação, com predominância das áreas de tecnologia, ciências humanas e ciências da saúde, além de 38 entrevistas com professores e colaboradores de diferentes unidades da instituição. Os resultados revelaram um paradoxo significativo. Apenas cerca de 10% dos estudantes conheciam o conceito de Blue University, associando-o principalmente à gestão da água e a ações práticas sustentáveis. Entre docentes e colaboradores, o cenário foi ainda mais crítico, com apenas um entrevistado reconhecendo o selo, e mesmo assim de forma superficial. A maioria dos estudantes associa o tema de forma vaga à sustentabilidade e ao meio ambiente, com termos amplos e pouco situados do ponto de vista político e crítico. Cerca de um terço apresentou respostas incorretas ou irrelevantes, indicando uma fragilidade formativa importante: a educação ambiental universitária ainda opera no registro da conscientização difusa, não da transformação real. No entanto, quando apresentados aos três pilares da Blue University, os estudantes demonstraram abertura cognitiva e sensibilidade ética surpreendentes. Mesmo sem conhecimento prévio formal, reconheceram os princípios com facilidade e indicaram alta disposição para ações cotidianas, como evitar água engarrafada, reduzir o uso de plásticos descartáveis e denunciar situações de inacessibilidade à água potável. Esses gestos, aparentemente simples, carregam um significado simbólico importante: são atos de resistência à lógica da mercantilização da água. Por outro lado, o engajamento diminui de forma expressiva quando se trata de ações que exigem presença constante e exposição mais direta, como participar de ligas acadêmicas, audiências públicas ou dialogar com a gestão institucional. Esse afastamento da ação política reflete uma cultura formativa ainda marcada pela neutralidade e pela evasão de conflitos, onde a universidade atua mais como transmissora de conteúdo do que como espaço de formação para a cidadania ativa. Um caso emblemático que ilustra o potencial dessa formação foi o de uma estudante do ensino médio integrada ao projeto de Iniciação Científica Júnior. Sem conhecer formalmente o conceito de Blue University, ela demonstrou compreensão intuitiva e alinhada com seus princípios, selecionou corretamente os pilares e revelou disposição proativa para o engajamento, especialmente na redução de plásticos e na integração do tema em trabalhos acadêmicos. Sua trajetória mostra que a lacuna de informação não limita a capacidade transformadora quando há sensibilização e pertencimento. A pesquisa também mostrou que a inserção da temática da água em disciplinas, projetos de pesquisa e ações de extensão favorece significativamente o engajamento dos estudantes. A experiência da PUCPR aponta que a transversalidade é o caminho mais potente. Integrar a água como eixo estruturante em disciplinas, pesquisas e práticas extensionistas dissolve as fronteiras entre técnica, ética e ecologia. A disciplina interprofissional sobre “Rios como Sujeitos de Direitos”, os ensaios de pós-graduação em Bioética Ambiental e o Blog Bioética no Dia a Dia — com mais de 3 mil acessos e 564 comentários — são exemplos concretos de como essa agenda pode atravessar os muros da universidade e conectar a instituição às comunidades e territórios que dependem da água. Além disso, iniciativas como blogs, oficinas, seminários, projetos de iniciação científica e atividades interprofissionais ampliaram o alcance das discussões e aproximaram a universidade das comunidades e dos territórios onde os conflitos relacionados à água acontecem. Essas experiências mostram que a água pode atuar como um eixo integrador capaz de conectar ciência, ética, política, cultura e responsabilidade social. A principal conclusão é que uma Blue University não é construída apenas por meio de infraestrutura ou certificações. Ela depende da formação de uma cultura institucional capaz de reconhecer a água como bem comum, promover a participação social e fortalecer a justiça hídrica. Construir uma universidade azul significa formar profissionais que compreendam que a defesa da água não é apenas uma questão técnica ou ambiental, mas uma questão ética, política e civilizatória. A experiência apresentada demonstra que existem desafios importantes, especialmente no fortalecimento do engajamento político e da participação institucional. No entanto, também revela um enorme potencial transformador presente na comunidade universitária. Se a água é condição para toda forma de vida, sua proteção não pode ser responsabilidade de poucos; ela precisa ser assumida coletivamente. Por isso, uma Blue University é mais do que um selo. É um convite para repensarmos o papel da universidade na construção de sociedades mais justas, sustentáveis e comprometidas com o bem comum. Porque, no fundo, falar sobre água é falar sobre vida, dignidade, democracia e futuro. E as universidades têm a responsabilidade — e a oportunidade — de liderar essa transformação.