sexta-feira, 13 de março de 2026

Workshop internacional discute o conceito de “fome de água” em Moçambique

 No dia 13 de março de 2026, às 10h (horário de Moçambique), realizou-se um workshop internacional dedicado à discussão do conceito de “fome de água” e à organização de um livro coletivo sobre os desafios hídricos enfrentados em Moçambique. O encontro reuniu pesquisadores e profissionais de diferentes áreas com o objetivo de articular conhecimento científico, experiências locais e reflexões éticas sobre a gestão da água no país. A atividade foi organizada pela Professora Marta Fischer, Líder do Grupo de pesquisa Bioética Ambiental, do Programa de Pós-graduação em Bioética, da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em parceria com o pesquisador Trindade Chapare, atualmente em estágio de pós-doutorado sob sua supervisão. O encontro contou com a participação de pesquisadores moçambicanos e colaboradores convidados, que se reuniram para debater os fundamentos conceituais da proposta e estruturar a produção coletiva do livro. Durante o workshop, Trindade Chapare apresentou o conceito de “fome de água”, entendido como uma condição que ultrapassa a simples escassez hídrica. O termo foi discutido como uma expressão das múltiplas formas de privação associadas à água, envolvendo acesso desigual, vulnerabilidade social, limitações econômicas e perda de dignidade humana. A proposta analítica busca compreender como a falta de acesso seguro à água afeta simultaneamente sistemas biológicos, ambientais e sociais, constituindo um fenômeno complexo que exige abordagens interdisciplinares.  A discussão destacou três pilares conceituais centrais da pesquisa em desenvolvimento: direitos humanos, vulnerabilidade e bioética. Nesse contexto, foi enfatizado que a crise hídrica não pode ser compreendida apenas como um problema técnico de infraestrutura ou abastecimento, mas como um desafio ético, político e social, que envolve governança, justiça ambiental e participação cidadã.  O workshop também abordou paradoxos contemporâneos relacionados à água, incluindo desperdício, excesso em determinadas regiões, desigualdade na distribuição e o impacto de tecnologias e modelos de desenvolvimento que intensificam a pressão sobre os recursos hídricos. Foi lembrado que crises recentes, como a pandemia de COVID-19, evidenciaram a fragilidade das sociedades diante de problemas estruturais ligados à segurança hídrica, alimentar e sanitária. Outro eixo central do encontro foi a discussão da bioética ambiental aplicada à gestão da água.
Os participantes destacaram a necessidade de integrar conhecimento científico, saberes tradicionais e mobilização social para enfrentar os desafios associados à proteção dos recursos hídricos. Foi ressaltado que a responsabilidade pela preservação da água não pode recair exclusivamente sobre o Estado ou sobre grandes empresas, exigindo engajamento coletivo e participação ativa da sociedade.  Como resultado do encontro, foi apresentada a estrutura do livro em elaboração, que deverá reunir contribuições de especialistas de diferentes áreas e instituições. A obra será organizada em cinco grandes partes, contemplando a fundamentação histórica e conceitual da problemática da água, as relações entre água e território, as dimensões sociais da crise hídrica, os desafios de governança e justiça hídrica e, por fim, as reflexões éticas relacionadas à água. Entre os temas previstos nos capítulos estão hidrografia de Moçambique, história e colonização, biodiversidade, mudanças climáticas, saneamento, saúde, espiritualidade, turismo e gestão de bacias hidrográficas. Cada capítulo será desenvolvido por especialistas convidados, com o objetivo de construir uma obra que apresente uma visão abrangente e multidisciplinar da relação entre sociedade, ambiente e água no contexto moçambicano.  Durante o workshop, pesquisadores também compartilharam resultados de estudos em andamento. Entre as contribuições apresentadas, destacou-se uma investigação sobre qualidade da água e saúde pública em Moçambique, que revelou problemas associados ao consumo de água canalizada de baixa qualidade e resultou na elaboração de recomendações encaminhadas às autoridades competentes.  As discussões também abordaram dimensões culturais e simbólicas da água. Foi ressaltado que a degradação ambiental, especialmente a poluição de rios e fontes de água, pode afetar não apenas a saúde das populações, mas também identidades culturais, valores espirituais e a autoestima coletiva das comunidades. Ao final do encontro, os participantes reforçaram o compromisso de desenvolver uma obra que valorize vozes moçambicanas na análise da crise hídrica, contribuindo para ampliar o debate internacional sobre justiça ambiental e gestão sustentável da água. Assim, a expectativa é que no próximo semestre já tenhamos uma obra conjunta para ser partilhada com a sociedade internacional.  A iniciativa busca consolidar uma reflexão interdisciplinar que articule ciência, ética e compromisso social, destacando a centralidade da água para a dignidade humana, para a proteção dos ecossistemas e para a construção de futuros mais justos e sustentáveis.



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