segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Bioética Ambiental e Blue University: uma trajetória de engajamento, formação e incidência em 2025



Por Marta Luciane Fischer




O ano de 2025 marcou a consolidação do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental como eixo estruturante da Blue University na PUCPR, articulando ensino, pesquisa, extensão e incidência pública em torno da justiça hídrica e do reconhecimento dos rios como sujeitos de direitos. Conforme sistematizado no relatório institucional. As ações desenvolvidas ao longo do ano revelam um percurso coerente, progressivo e estrategicamente integrado.  O primeiro semestre foi caracterizado pelo fortalecimento da formação na graduação por meio do Projeto Interprofissional em Bioética e Direitos Humanos, com a temática “O rio como sujeito de direitos”. A mobilização de 744 estudantes, a realização de 1.294 entrevistas interprofissionais e a produção de 92 materiais de sensibilização pública evidenciaram o impacto acadêmico e social da proposta. A visita ao Rio Belém e a análise de suas fragilidades converteram o território em espaço pedagógico, rompendo com a fragmentação disciplinar e promovendo formação ética aplicada. No mesmo período, a disciplina de Bioética Ambiental na pós-graduação consolidou o debate teórico por meio de 45 publicações no blog “Bioética no dia a dia”, das quais mais da metade dedicadas aos corpos hídricos. A transição conceitual do rio como recurso para o rio como sujeito de direitos estruturou-se a partir de fundamentos da Bioética de Intervenção, do Princípio da Responsabilidade e da análise das vulnerabilidades ontológica e socioambiental. A produção acadêmica deixou de permanecer restrita ao espaço universitário e assumiu caráter público e deliberativo. Em março, no contexto do Dia Mundial da Água, a intervenção “A última gota de água se apagou” integrou arte, ecopedagogia e mobilização social, ampliando o engajamento da comunidade acadêmica e reforçando o compromisso da PUCPR enquanto Blue University. A ação demonstrou a potência metodológica do Bioteatro e da personificação do rio como instrumento de sensibilização ética. Ao longo do ano, a orientação de um PIBIC Graduação, um PIBIC Jr. e o início de um projeto de doutorado aprofundaram o rigor científico da linha de pesquisa. As investigações abordaram percepção social, engajamento juvenil, deliberação mediada por arte e mensuração estatística do senso de agência ambiental. Os resultados foram apresentados em congressos nacionais e internacionais, culminando na publicação do artigo “Somos uma Blue University, e agora?” e na organização de livro coletivo, escrito em 2025 e com lançamento previsto para 2026. Em setembro, a organização da primeira reunião da Blue Community Brasil posicionou a PUCPR na coordenação latino-americana do movimento, ampliando a rede de cooperação interinstitucional. Em outubro e novembro, a participação no lançamento da Pastoral da Ecologia Integral e na COP 2025 (Metaverso Maloca) reforçou a dimensão inter-religiosa, internacional e diplomática das ações, projetando a Blue University como modelo de governança democrática da água no Sul Global. A visita técnica do ativista italiano Filippo Bellini consolidou essa inserção internacional, validando a experiência brasileira como referência prática de Bioética Ambiental aplicada. A ação “Belém: o rio que nos chamou pelo nome”, realizada em novembro, sintetizou o percurso do ano ao unir diagnóstico ambiental, deliberação coletiva e formação intergeracional nas margens do Rio Belém. O rio deixou de ser objeto de estudo para tornar-se interlocutor ético e político. Ao final de 2025, a Blue University na PUCPR não se apresenta apenas como certificação institucional, mas como processo formativo contínuo, fundamentado na democracia hídrica, na responsabilidade intergeracional e na integração entre ciência, ética e espiritualidade. A continuidade desse movimento exige aprofundamento metodológico, ampliação da incidência legislativa, fortalecimento das redes latino-americanas e consolidação da produção científica internacional. Se 2025 foi o ano da estruturação e da afirmação pública do paradigma, 2026 se anuncia como tempo de maturação e expansão. A defesa dos rios como sujeitos de direitos, iniciada nas salas de aula e nas margens do Belém, projeta-se agora como compromisso duradouro com a construção de uma cultura de justiça das águas, capaz de transformar a universidade em território permanente de cuidado, deliberação e ação coletiva, novos projetos serão iniciados, novas ações, novas produções, convidamos a todos para se juntarem a nós... venham participar do nosso clube da água.
 
 
 
 
 

Um comentário:

  1. As discussões de março de 2026 trazem um alerta que, como estudante de Odontologia, mexeu muito comigo. Existe uma analogia perfeita entre o que aprendo na faculdade e o que foi debatido no workshop sobre Moçambique: assim como a saúde bucal é a porta de entrada para a saúde de todo o organismo, a preservação da água é a base para o equilíbrio de todo o planeta.
    O conceito de ‘fome de água’ me fez pensar que a escassez hídrica funciona como uma patologia severa: se não tratarmos a causa agora, o dano sistêmico será irreversível. Por isso, a proposta da Blue University e o alerta do ‘Potter de 2080’ são tão urgentes. Precisamos entender que os ‘rios voadores’ da Amazônia são o suprimento vital do nosso continente; sem esse fluxo, comprometemos a higiene e a dignidade de milhões.
    Essa urgência está mais perto de nós do que imaginamos. Aqui na PUCPR, convivemos diariamente com o Rio Belém. Apesar de ser um rio poluído, ele resiste e ainda abriga vida, com seus peixes e algas. Ele é um paciente que precisa de atenção imediata; ignorar a poluição do Belém é como ignorar uma infecção que está bem diante dos nossos olhos.
    Acredito que nossa formação acadêmica deve ir além do consultório. Reconhecer a água — seja no Belém ou nos rios invisíveis do céu — como um sujeito de direitos é fazer prevenção primária em escala global. Proteger o ciclo hídrico hoje é garantir que a gente não chegue em 2080 com aquele cenário catastrófico que vimos na acolhida cultural. A saúde é uma só: começa no cuidado com o paciente e se estende ao cuidado com a nossa 'casa' comum.

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