Os resultados confirmam a hipótese de
que a bioética ainda mantém a centralidade do paradigma utilitarista de
curto prazo. Embora esse paradigma tenha sido fundamental para legitimar a
senciência como critério moral e ampliar o cuidado, a proteção jurídica e as
deliberações sobre vida e saúde, mostra-se limitado diante da complexidade das
relações multiespécies, especialmente em dilemas como catástrofes, adoção, luto
e tecnologias emergentes. Tal limitação explicita uma esquizofrenia moral, ao
relativizar vínculos afetivos e hierarquizar vidas. A relação humano/animal não
humano encontra-se em transformação, oscilando entre afeto, mercantilização e
justiça, com a emergência de conflitos como eutanásia por conveniência versus
clonagem pet e reconhecimento da família multiespécie versus monetização de
vínculos. A superação desses dilemas associa-se a uma ética da alteridade,
sustentada por bases científicas e legais que definam fronteiras éticas claras.
O abandono revela natureza multifatorial e demanda respostas articuladas entre
esferas pessoais, sociais e institucionais. Conclui-se que a bioética ambiental
converge com uma ética intergeracional orientada à coexistência, qualidade de
vida e justiça ecológica. A consolidação de uma bioética relacional, inclusiva
e horizontal constitui condição para expandir o reconhecimento do valor
intrínseco e dos direitos de todas as espécies. (Veja aqui artigo).
A BIOÉTICA AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DAS CIDADES BIOFÍLICAS - Marta Luciane Fischer, Thierry Betazzi Lummertz, Alex Aparecido da Silva, Carina Del Pino Sandrini, Daihyani Silva dos Santos, Ana Carolina de Campos, Cristiano Chiaramonti, Raphael Motta, Trindade Charpare . O projeto de
Cidades Biofílicas insere-se na interface entre Bioética Ambiental e Cidades Inteligentes, articulando sustentabilidade, qualidade de vida e gestão participativa. A proposta de pesquisa desenvolvida pela equipe do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental vinculada ao Programa de Pós-graduação em Bioética parte do reconhecimento do distanciamento sociedade/natureza devido ao processo histórico de urbanização, produzindo vulnerabilidades como biofobia, baixa adesão a práticas sustentáveis e fragilização do engajamento comunitário. Logo, justifica-se a necessidade de abordagens éticas, educativas e sociais para reconexão com os elementos naturais e fortalecimento da participação cidadã na deliberação ambiental. Para tal, adota-se uma perspectiva multidisciplinar integrando frentes de pesquisa já consolidadas, estudos em andamento e produção científica qualificada. Os resultados preliminares evidenciam que a construção de cidades biofílicas constitui uma demanda contemporânea, alinhada às agendas de sustentabilidade e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, bem como sustentada por evidências científicas que demonstram os benefícios da convivência com elementos naturais para a saúde global.
Contudo, o prolongado processo de urbanização promoveu um afastamento significativo em relação à natureza, de modo que a reconexão, quando não mediada por processos educativos e formativos, pode gerar novas vulnerabilidades. Esse cenário é agravado pelo contexto de emergências climáticas, que intensificam percepções de risco e medo em relação aos fenômenos naturais. Adicionalmente, observa-se que, embora existam espaços formais de deliberação ambiental, o engajamento social permanece limitado. A ausência de vínculo identitário com a natureza e a dificuldade de comunicação entre atores sociais comprometem a participação efetiva, especialmente em temas ambientais marcados por alta complexidade e pluralidade de interesses. Esses achados indicam a necessidade de incorporar a Bioética Ambiental como ferramenta estruturante para qualificar processos deliberativos, promover reconexão sociedade-natureza atuando na educação básica e na popularização da ciência e consolidar práticas mais inclusivas e colaborativas na construção de cidades biofílicas.
A
identificação das pessoas com o ambiente envolve um padrão complexo
de ideias, sentimentos e valores (Prochansky et al.,
1983), podendo o afastamento humano/natureza ser compreendido como
vulnerabilidade socioambiental (Fischer et al., 2017). Objetivou-se caracterizar
como o meio científico tem abordado o termo “déficit de natureza”, discutindo
resultados pela Psicologia Ambiental, Bioética Ambiental e Educação Ambiental.
Realizou-se uma revisão integrativa (Rosaneli; Fischer, 2024), nas bases Google
Acadêmico e Portal CAPES, com descritores “déficit de natureza” e
“nature deficit”, considerando-se os 100 primeiros resultados de cada
buscador. Resultou-se 319 trabalhos recuperados, sendo incluídos 94
artigos para análise, indicando ampla circulação do tema, mas consolidação
cientifica restrita. Observou-se concentração entre 2020-2025
(68,1%), no Brasil (51,1%), com predomínio de estudos
práticos (61,7%), qualitativos (70,2%) e multidisciplinares
(51,1%), usando-se entrevistas, questionários e formulários (28,8%).
Tendo como principal público os estudantes (40,4%), e o contexto
educação/ensino (37,2%) e vinculação com vulnerabilidade
socioambiental de demanda prática. Aparentemente, os estudos estão ganhando
prospecção científica motivados por certa urgência, visto pela ascensão recente
dos estudos e sua abordagem educacional essencialmente prática. Formar vínculo
com a natureza pressupõe construção de valores e princípios éticos, cuja
mediação sistemática de atividades para esse objetivo é papel da escola, espaço
privilegiado às reflexões da Bioética Ambiental e das práticas da Educação
Ambiental.
A hipótese da biofilia entende a
predisposição genética humana no vinculo com a natureza, concomitante à
respostas aversivas a certos elementos naturais, fenômeno relacionado à
biofobia (Kellert; Wilson, 1995). A Agenda 2030 da ONU, no ODS 11.7,
defende o acesso a espaços verdes e públicos nas cidades. No Brasil, esse
debate é incipiente (Trevisam; Oliveira, 2024), apesar de sua população
majoritariamente urbana (IBGE, 2022). Justifica-se, que o acesso limitado a
espaços verdes pode fragilizar experiências biofílicas, reforçar percepções
biofóbicas e reduzir o reconhecimento da natureza como valor público (Fischer
et al., 2025). Objetivou-se analisar como moradores de Curitiba e Fazenda Rio
Grande percebem os espaços biofílicos urbanos, discutindo resultados através da
Bioética Ambiental, visando o subsídio de políticas públicas à integração ética
entre humano e natureza. Adotou-se abordagem qualitativa-quantitativa,
exploratório-descritiva, com aplicação de 177 questionários online
semiestruturados, contendo 24 perguntas. A análise indicou valorização dos
espaços biofílicos urbanos e concordância com princípios de preservação,
cuidado, acesso, qualidade de vida e consideração ética da vida. Participantes
predominantemente femininos (65%), pós-graduados (52%), moradores de casa ou
sobrado (71%), com destaque para interação com plantas (74%) e cães (60%).
Houve defesa a oferta de espaços arborizados (94%), planejamento e manutenção
dos parques (92%) e cuidado pela população (90%). Pode-se inferir amplo
reconhecimento dos benefícios da interação com a natureza, embora menor
conhecimento e participação declarada em programas de educação ambiental (52%).
A ampla valorização da natureza ainda não se traduz, igualmente, em compromisso
ético-político com a educação ambiental, indicando um subaproveitamento do
potencial dos espaços biofílicos para conexões entre ser humano e natureza,
pelas políticas públicas.humana interdepende da integridade dos sistemas naturais da Terra, vem emergindo. A degradação ambiental vêm impactando diretamente nos sistemas de saúde. Nesse cenário, surge a fisioterapia ambiental, que busca integrar práticas clínicas sustentáveis, intervenções baseadas na natureza e responsabilidade ecológica ao cuidado em saúde. A fisioterapia, historicamente voltada à prevenção, reabilitação e promoção da funcionalidade humana, passa a ser convocada a ampliar seu campo de atuação.
O presente estudo é uma revisão narrativa da literatura, que teve como objetivo analisar as interfaces entre fisioterapia ambiental, saúde planetária e bioética, discutindo implicações para a prática clínica, formação profissional e modelos de cuidado. A coleta de dados foi realizada entre agosto e setembro de 2025 nas bases PubMed, Scopus, SciELO, LILACS e BVS. Foram utilizados descritores relacionados a Environmental Physiotherapy, Planetary Health, Bioethics, entre outros. Após o processo de triagem e elegibilidade, 14 estudos publicados entre 2020 e 2025 foram incluídos na análise. Os resultados indicam crescimento recente da produção científica sobre o tema, com predominância de ensaios conceituais voltados à construção teórica da fisioterapia ambiental. A literatura aponta para a necessidade de ampliar o referencial ético da profissão, superando uma abordagem exclusivamente antropocêntrica e incorporando conceitos como justiça multiespecífica, serviços ecossistêmicos e sustentabilidade no cuidado (Maric; Nicholls, 2022; Stanhope et al., 2023). Achados indicam benefícios de intervenções baseadas na natureza e revelam lacunas na formação profissional quanto à integração das questões ambientais na prática clínica (Serrat et al., 2020; Chi et al., 2024). Conclui-se que a integração entre fisioterapia, saúde planetária e bioética representa um campo emergente e necessário para responder aos desafios contemporâneos da saúde. A incorporação dessa perspectiva pode contribuir para modelos de cuidado mais integrados, sustentáveis e comprometidos com a justiça socioambiental e a proteção dos ecossistemas.
ENGAJAMENTO
UNIVERSITÁRIO: O CAMPUS COMO TERRITÓRIO POLÍTICO E EDUCATIVO DE UMA “BLUE
UNIVERSITY” Carina
Del Pino Sandrini; Daihany Silva dos Santos; Ana Carolina
Campos; Laíssa Mirella Mendes Mariano de Lara; Nayara Lemasson
Tortora; Marta Luciane Fischer.O selo Blue
University se constitui no cenário contemporâneo como desdobramento do
movimento global Blue Community, concebido em 2009 por Maude Barlow, como
resposta à crescente mercantilização da água, e emerge de uma iniciativa ética
e ecológica voltada à defesa do acesso universal, seguro e equitativo à água
potável e ao saneamento, consolidando a concepção da água como direito humano
inalienável e bem comum (Barlow, 2009).
A adesão da PUCPR ao movimento,
formalizada em outubro de 2023, reafirma o compromisso institucional com a
justiça hídrica e o alinhamento com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável
(Fischer; Wolff; Caetano, 2025). O objetivo deste estudo foi analisar o
engajamento universitário da PUCPR como território político e educativo de uma
Blue University. Realizou-se o levantamento bibliográfico no Google Acadêmico
com os descritores Blue University, identificando 50 produções acadêmicas
relevantes, além de pesquisa de campo com aplicação de questionário a 151
estudantes de 33 cursos e realização de 38 entrevistas com professores e
colaboradores da IES. Os resultados evidenciaram que apenas 10% dos estudantes
conheciam o selo, associando principalmente a gestão sustentável da água,
enquanto 90% desconheciam o termo, com respostas genéricas e pouco situadas do ponto
de vista político e epistêmico. Ao serem apresentados aos três pilares da Blue
University, demonstraram abertura cognitiva e sensibilidade ética, com maior
disposição para ações cotidianas como evitar água engarrafada e reduzir
plásticos descartáveis, e menor engajamento para ações políticas estruturantes,
como audiências públicas e pressão sobre gestores (Fischer; Rosaneli, 2024).
Entre professores e colaboradores, apenas um reconheceu o selo, sinalizando
fragilidade na disseminação institucional. Concluiu-se que a construção de uma
Blue University exige uma pedagogia da implicação, com a superação da
conscientização pontual e formação de sujeitos comprometidos com a água como
bem comum e direito inalienável.
A consolidação de uma terminologia cientifica exige frequência,
saturação e apropriação interdisciplinar consistente (Krieger; Bevilacqua,
2004). O objetivo foi analisar a consolidação da terminologia da bioética
urbana por meio de uma revisão integrativa da literatura. Realizou-se revisão
integrativa nas bases CAPES e Google Acadêmico, sem recorte
temporal, resultando em 572 sugestões de busca que após passarem pelos
critérios de inclusão e exclusão, resultaram em 30 artigos em
português, inglês e espanhol (Rosaneli et al., 2024). A análise foi
orientada por meio dos critérios de Krieger e Bevilacqua (2004), organizando os
resultados em categorias primárias de referenciais teóricos, vulnerabilidades,
problemas, soluções e conceitos. Nos referenciais teóricos mobilizados,
foram identificadas convergências entre a bioética crítica,
social e ambiental, articuladas com ecologia, sociologia crítica e filosofia
política, sendo evidenciado que, diferentemente da bioética ambiental centrada
em preocupações com a biosfera e os ecossistemas, a bioética urbana parte da
cidade como agente central produtor de vulnerabilidades, o que delimita sua
especificidade terminológica. As vulnerabilidades
predominantes foram de natureza social, socioambiental e moral com
destaque para racismo estrutural, segregação socioespacial e
interseccionalidade. Os problemas convergiram nas categoriais social,
política, territorial e cultural, identificando o urbanismo neoliberal como
mecanismo produtor de exclusão e déficit democrático. As soluções, por sua vez,
mobilizaram democracia deliberativa, direito a cidade e valorização da
diversidade cultural (Blustein; Fleischman, 2004). Em conjunto, as categoriais
identificam a incorporação progressiva de pautas ambientais ainda em consolidação
e predominantemente antropocêntricas, sinalizando limitação conceitual em
expansão. Concluiu-se que a bioética urbana está em processo de consolidação terminológica,
com núcleo semântico em formação centrado na análise crítica das
desigualdades urbanas e comprometido com a transformação ética
e política das cidades. BIOÉTICA AMBIENTAL
E AVES URBANAS: UMA
ANÁLISE PRELIMINAR SOBRE ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA EM CIDADES BIOFÍLICAS.
Cristiano Chiaramonti, Jean Carlos Scuissiato,
Marta Luciane Fischer A Bioética Ambiental, incorporada à contextos
urbanos marcados por transformações socioecológicas e pela intensificação das
interações entre humanos e não humanos, exige abordagens éticas capazes de
compreender a complexidade relacional (Fischer; Chiaramonti, 2026).
A
convivência entre humanos e aves urbanas em Curitiba evidencia uma relação
simultaneamente valorizada e conflituosa, cuja compreensão demanda abordagens
da Bioética Ambiental que integrem dimensões ecológicas, sociais e morais no
contexto urbano (Fischer, 2026). Justifica-se o entendimento de que as cidades,
ao incorporar a fauna silvestre, configuram-se como espaços de convivência
interespécies, onde benefícios e conflitos coexistem (Farias et al., 2022;
Prefeitura de Curitiba, 2023). Objetivou-se analisar a percepção de moradores
de Curitiba sobre aves urbanas, articulando os resultados à Bioética Ambiental,
visando à promoção de convivência ética e inclusiva. A metodologia adota
abordagem qualitativa-quantitativa, de caráter exploratório-descritivo, com
aplicação de 163 questionários estruturados, contendo 27 questões, sendo 20
fechadas e 7 abertas, voltadas à compreensão de percepções, experiências,
conhecimentos e atitudes quanto às aves urbanas. A análise evidenciou elevada
valorização das aves, associadas ao bem-estar, à conexão com a natureza e ao
reconhecimento de sua importância na qualidade ambiental urbana. Os dados
indicam amostra com predominância feminina (61%), com ensino
superior (46%), residente de casas (58%).
A percepção das aves ocorre em trajetos
cotidianos (45%), seguida de quintais (24%) e o
interior das residências (15%). Os sentimentos direcionados
para as aves foram
majoritariamente positivos (93%), destacando-se o cuidado e
manejo (94%), evidenciando consenso sobre sua relevância
socioambiental. Os conflitos incluem sujeira e ruído, com destaque para
pombos (25%). Observou-se o reconhecimento da importância das aves
urbanas, mas contraditoriamente, tal percepção não se traduz em ações
coerentes. Na prática, essas ações reforçam problemas do avanço urbano,
indicando a necessidade de educação que promova a compreensão complexa das
relações interespécies e o agir de forma ética. Palavras-chave: Bioética
Ambiental. Aves Urbanas. Cidades Biofílicas. Fauna
Silvestre. Espaço de Convivência.
QUANDO O AFETO
VIRA CAPTURA: VULNERABILIDADE, UTILITARISMO ANIMAL E TRANSTORNO DO VÍNCULO NA
RELAÇÃO HUMANO-ANIMAL Bianca Santana
da Silva – Tëtë Xinã e Marta Luciane Fischer. A relação
entre humanos e animais de companhia ocorre em um contexto de assimetria
estrutural, no qual o animal depende das decisões humanas para acesso ao
ambiente, socialização e
expressão comportamental. Assim, configura uma situação de
vulnerabilidade, na qual práticas potencialmente danosas podem ser legitimadas
por discursos de afeto e cuidado (Fischer, 2026).
Trata-se de um
ensaio teórico fundamentado em revisão narrativa de literatura e análise
crítica da prática contemporânea em comportamento animal acrescida da
vivência de mais de 12 anos no adestramento de cães. Os
resultados indicam que a atribuição de funções psíquicas aos animais produz
desequilíbrio relacional e sobrecarga funcional, com impacto direto no
bem-estar-animal. A análise bioética da objetificação afetiva
articula-se com a teoria do apego, etologia e cosmovisões de povos
originários, cujos animais são compreendidos como sujeitos, e não como
recursos ou extensões psíquicas, estabelecendo limites éticos entre
proximidade e apropriação (Kopenawa; Albert, 2015; Krenak,
2019).
Na cultura urbana contemporânea observa-se que o afeto
frequentemente encobre práticas utilitaristas, nas quais o animal é
investido de funções psíquicas relacionadas à regulação emocional humana. Em
contextos de fragilidade subjetiva e ausência de elaboração emocional, é comum
a transferência de demandas psíquicas ao animal, que passa a ocupar o lugar de
regulador do sofrimento, sendo mobilizado para aliviar angústia, sustentar a
presença e reduzir estados de vazio. A objetificação afetiva
implica restrição da autonomia do animal e comprometimento de sua capacidade de
autorregulação, configurando o que se propõe conceituar como transtorno do
vínculo humano-animal. O vínculo deixa de operar
como segurança e passa a sustentar dependência relacional, na qual o
animal é funcionalizado para atender demandas emocionais humanas. Reconhece-se a necessidade
de técnicas para diagnosticar e mitigar o transtorno no subsidio
da reorganização da relação humano/Pet a partir
do reconhecimento dos limites do afeto e das necessidades
biológicas animal.
A Declaração Universal dos Direitos dos Rios reforça o reconhecimento dos rios
como sujeitos de direitos (Earth Law Center, 2025), enquanto iniciativas
sociais defendem a água como direito humano, com destaque ao engajamento
juvenil em movimentos como “100 Mil Jovens pela Água” e as Blue University
(Fischer et al., 2026). A bioética ambiental amplia a compreensão das
interdependências entre humanos e natureza, promovendo educação crítica,
participação social e gestão sustentável orientada por princípios éticos (Potter, 2016).
A pesquisa adotou abordagem de pesquisa-ação-participativa, com grupos focais,
utilizando a ferramenta “Caminhos do Diálogo” e o método Bioteatro (Lummertz;
Fischer, 2021). A intervenção ocorreu em 21 de novembro de 2025 com estudantes
do 7º ano do Colégio Estadual Olindamir Merlin Claudino, às margens do Rio
Belém, no campus da PUCPR. A atividade teatral “Potter do futuro” estimulou a
escuta sensível do rio e a reflexão sobre seus direitos. Os resultados indicam
que os estudantes reconhecem a relação humana com os rios como
predominantemente degradadora, apontando indicadores de saúde ambiental, como
canto de aves, sombra e diversidade vegetal, e sinais de degradação, como lixo,
odores e água estagnada. As falas evidenciaram a percepção do rio como entidade
vulnerável, frequentemente descrito como “doente” e impactado por ações
humanas, aproximando-se da noção de sujeito de direitos. Observou-se também uma
crítica ao distanciamento da natureza no contexto urbano e o reconhecimento do
engajamento juvenil como via de transformação social, alinhado à Educação
Ambiental crítica e à justiça hídrica. Predominam percepções negativas, mas
emergem dimensões afetivas, éticas e potenciais de engajamento, reforçando a
necessidade de redefinir as relações entre sociedade e
natureza.
RIO BELÉM COMO SUJEITO DE DIREITOS? PERCEPÇÃO SOCIAL
ACERCA DE RIOS URBANOS - Thierry Betazzi Lummertz, Alex
Conceição da Silva, Raphael dos Santos
Mota, Nayara Lemasson Tortora, Marta Luciane Fischer - A
intensificação do domínio técnico sobre o planeta contribuiu para a aceleração
da degradação ambiental, gerando efeitos como mudanças climáticas e agravamento
das desigualdades socioambientais.
Paralelamente, o avanço tecnológico passou a
suscitar dilemas éticos complexos, demandando reflexão interdisciplinar. A
Bioética emerge como campo crítico de análise desses
conflitos, balizados pela proposta de Potter (2016) de construção de
uma “nova sabedoria” capaz de integrar conhecimento científico e
responsabilidade moral, articulando todos os seres vivos em torno da
sobrevivência da biosfera. Essa perspectiva converge com o paradigma dos
Direitos da Natureza, ao reconhecer que a preservação ambiental
constitui além de opção política, uma exigência ética para
a continuidade da vida (Fischer; Rosaneli, 2024). Assim,
justifica-se o reconhecimento do direito universal a um ambiente saudável,
consagrado em legislações nacionais e internacionais, enquanto a concepção da
Natureza como sujeito de direito, impulsionada pela Bioética Ambiental, insere
um novo paradigma ético e jurídico na relação sociedade-natureza (Matos, 2018).
Objetivou-se avaliar a potencialidade da Bioética e da Educação Ambiental na
promoção do engajamento social com a Natureza como sujeito de direitos. A
metodologia adotou abordagem quali-quantitativa, de caráter exploratório-descritivo,
com aplicação de 263 questionários estruturados (57 questões fechadas
e 2 abertas), voltados à análise de percepções, experiências e atitudes em
relação aos rios. Os dados evidenciam predominância feminina (61%), com ensino
superior (48%) e residência em casas (54%). A percepção cotidiana dos rios foi
majoritariamente baixa (32%), assim como a avaliação de limpeza (41%). Em
relação ao rio Belém, 70% expressaram sentimentos negativos, contudo, 94%
concordam que o direito do rio de não ser poluído deve sempre ser garantido.
Segundo Morton (2013), há uma “cegueira ecológica”, na qual problemas
ambientais não são integrados à consciência prática. Conclui-se que o
engajamento emerge da conscientização, quando os indivíduos compreendem sua
realidade e se reconhecem como agentes de
transformação. Palavras-chave: Rio Belém; Bioética ambiental; Rios como sujeito de direito; Percepção social; Objetivos do desenvolvimento sustentável.
ÁGUA EM MOÇAMBIQUE: UMA ANÁLISE BIOÉTICA. Trindade Filipe Chapare, Marta Luciane Fischer. Moçambique
figura entre os países com maior déficit de acesso à água potável afetando
mais da metade da população (UNICEF, 2015), evidenciando a
urgência de uma ética orientada à gestão equitativa e sustentável, justificando
o presente projeto pós-doutoral que visa avaliar a questão
balizada pelo conceito de “Fome de água” (Fischer, Rosaneli,
2022).
Deve-se superar interesses individuais e privilegiar a
responsabilidade coletiva intergeracional (Selborne,
2001). A cobertura de abastecimento de água apresenta desigualdade:
cerca de 84% nas áreas urbanas contra 37% nas rurais, enquanto o saneamento
atinge 44% nas cidades e apenas 12% no meio rural (Mophrh, 2020). Essas
assimetrias refletem desigualdades estruturais persistentes, que comprometem a
dignidade ambiental e social. A governança do setor é fragmentada,
envolvendo múltiplos atores, como o Conselho de Regulação do Abastecimento de
Água e as autarquias locais, gerando desafios de articulação e
sobreposição regulatória (Cistac, 2007). Paralelamente, persistem desigualdades
no acesso a serviços básicos como energia, saúde e educação, indicando
limitações na efetividade das políticas públicas. Um ponto crítico refere-se à
atuação do Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água, que
opera sob lógica comercial, realizando cortes no fornecimento de água por
inadimplência, o que restringe o acesso a um direito humano fundamental
(Ndapassoa, 2024). Embora marco legal, como o Decreto Ministerial n.º
23/2002, atribua ao Estado a responsabilidade de garantir melhorias contínuas
no abastecimento, e os programas governamentais enfatizem a sustentabilidade e
ampliação do acesso, há conflitos entre a lógica mercantil e a
garantia de direitos. Nesse contexto, a proteção da água exige uma abordagem
integrada que considere dimensões ambientais, sociais, econômicas, éticas e
políticas (Fischer; Rosaneli, 2022). A incorporação de valores como
honestidade, justiça e responsabilidade coletiva pode reduzir a necessidade de
controles normativos, fortalecendo práticas mais justas e sustentáveis na
gestão hídrica.
O presente projeto visa
avaliar a contribuição direta da bioética como instrumento de mediação,
utilizando diferentes linguagens e saberes para promover o diálogo entre atores
sociais e subsidiar soluções justas e compartilhadas, validando a terminologia
“Bioética das águas” (Fischer, Rosaneli, 2022). As análises de
textos científicos, casos reais e documentos indicam que
a superação da crise hídrica não depende exclusivamente de tecnologia ou
de ajustes nos modelos econômicos, mas demanda desenvolvimento
baseado na sustentabilidade e na equidade (Potter, 2016). Para que
a bioética ambiental se consolide como fundamento de um novo modelo
civilizatório, necessita-se de transformação de valores, atitudes e
modos de vida. A UNESCO, por meio da Declaração Universal sobre Bioética e
Direitos Humanos (DUBDH, 2005), estabelece: a água como direito
fundamental à vida; a responsabilidade social vinculada à proteção de
populações vulneráveis e das gerações futuras; e integração entre saúde,
ciência e desenvolvimento tecnológico. A crise hídrica afeta a
biodiversidade e evidencia conflitos relacionados ao uso da água na
agricultura, segurança alimentar, saneamento e saúde pública. Assim, a
construção de políticas públicas conclama processos participativos
baseados em fundamentos sociais, científicos, tecnológicos e éticos (Ahlert,
2013). A água centraliza-se nos planos ético, político e da justiça
social, sendo determinante para a paz e a continuidade da vida no planeta. Sob
a perspectiva de uma bioética ambiental abrange o reconhecimento
da água como direito humano e patrimônio comum. A ONU, na Declaração
Universal dos Direitos da Água, estabelece diretrizes éticas que atribuem à
humanidade a corresponsabilidade pela proteção dos recursos
hídricos, e na manutenção da vida.
O alargamento
da bioética para uma dimensão socioambiental evidencia a insuficiência de
modelos antropocêntricos diante de sistemas
complexos constituídos pela pluralidade de atores, interdependências e
dinâmicas não lineares (Potter, 2016; Morin, 2006). O conflito reside na
dificuldade de integrar humanos e não humanos em uma mesma matriz ética, formas
de vida que, na condição de estranhos morais, não compartilham referenciais
comuns, produzindo vulnerabilidade ambiental (Fischer e Chiaramonti, 2026).
Justificando, assim, a necessidade de ampliar o campo da consideração moral,
incorporando formas de vida historicamente excluídas dos processos éticos e
políticos sociais. Objetivou-se analisar de que modo a Bioética Ambiental,
oferece uma abordagem ética capaz de compreender a pluralidade socioambiental a
partir da articulação entre os conceitos de vulnerabilidade ambiental e
estranhos morais. A metodologia adota abordagem qualitativa, de caráter
teórico-reflexivo, baseada em revisão bibliográfica exploratória e integrativa da
literatura. A análise crítica evidenciou que a incorporação dos estranhos
morais ao debate socioambiental amplia o distanciamento moral para além das
relações humanas, revelando a vulnerabilidade ambiental como resultado de
arranjos históricos, políticos e epistemológicos que tratam os não humanos como
meros objetos (Stengers, 2023). O reconhecimento dos não humanos como estranhos
morais admite a coexistência de múltiplas moralidades em um mesmo coletivo
planetário, no qual humanos e não humanos compartilham trajetórias
entrelaçadas, ainda que orientadas por linguagens, temporalidades e formas de
existência distintas. A pesquisa contribui para a consolidação de um campo
reflexivo em Bioética Ambiental, orientado a práticas éticas, políticas e
epistemológicas que sustentem a convivência entre humanos e não humanos,
com base no valor intrínseco dos sistemas vivos e em futuros compartilhados.
BIOÉTICA AMBIENTAL
E HOSPICES: INTERFACES NO CUIDADO PALIATIVO - Luciane
Cristine Oliveira Valdez, Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira,
Cristiano Chiaramonti, Marta Luciane Fischer. O movimento hospice emerge dos
cuidados paliativos impulsionados por Cicely Saunders, com a criação do St.
Christopher’s Hospice, em Londres, em 1967, marco da humanização do cuidado no
fim da vida (Paiva, 2014).
O hospice consolidou-se como modelo de alívio do
sofrimento e promoção da qualidade de vida de pessoas com doenças graves
(Zanatta et al., 2019). A permanência de uma racionalidade centrada na dimensão
humana evidencia a limitada incorporação do meio ambiente como elemento ético no cuidado paliativo (Fischer e
Chiaramonti, 2026; Zanatta et al., 2019). A justificativa reside na necessidade
de propor referenciais bioéticos que reconheçam o cuidado integral, o bem-estar
e a dignidade no fim da vida vinculados às dimensões ambientais. Objetivou-se
analisar lacunas científicas entre bioética e hospices e compreender como a
Bioética Ambiental incorpora o meio ambiente ao cuidado no fim da vida. A
metodologia adotou abordagem qualitativa e quantitativa, de caráter
teóricoreflexivo, com revisão bibliográfica exploratória e integrativa no
Portal CAPES, em 10 de abril de 2026. Foram identificadas 24.428 publicações,
predominantemente internacionais (99%), artigos (85%), revisados por pares
(96%) e concentrados nas Ciências da Saúde (91%). A interface com a bioética
mostrou-se reduzida, com 220 estudos (1%), enquanto a Bioética Ambiental
revelou-se incipiente, sem publicações que articulem aos hospices. A produção
nacional reuniu oito artigos (2010–2024), centrados em autonomia, dignidade,
ortotanásia e kalotanásia. A discussão mostrou que o modelo hospice, ao
integrar dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais, pode ser
ampliado pela incorporação do meio ambiente como dimensão terapêutica,
favorecendo conforto, reduzindo a dor e promovendo bem-estar existencial por
meio de espaços, paisagens e contato com a natureza (Gielen, 2021; Floriani,
2021). Os resultados indicam que a Bioética Ambiental amplia o cuidado
paliativo ao reconhecer o meio ambiente como componente ativo do fim da vida,
favorecendo práticas integrais e eticamente comprometidas.
A persistência de
uma centralidade biomédica evidencia a limitada articulação entre hospices,
bioética e cuidado animal, especialmente no contexto brasileiro (Carvalho e
Fischer, 2022). A relevância do tema justifica-se pela necessidade de
compreender lacunas científicas e estimular referenciais éticos capazes de
responder às demandas contemporâneas do cuidado no fim da vida em perspectiva
multiespécie. Objetivou-se analisar como a produção científica tem articulado os
hospices com a bioética e a medicina veterinária, identificando lacunas
científicas investigativas. A metodologia adotou abordagem quantitativo-descritiva,
mediante revisão integrativa realizada no Portal de Periódicos CAPES, em 10 de
abril de 2026. A busca identificou 24.428 publicações, com predominância de
artigos científicos (85%), acesso restrito (76%), origem internacional (99%) e
concentração nas Ciências da Saúde (91%). A análise demonstrou que a interface
entre hospices e bioética permanece reduzida, com 220 estudos (1%). A
articulação com a medicina veterinária mostrou-se ainda mais incipiente, com
107 publicações (0,4%), revelando expressiva lacuna no cuidado interespécies. O
recorte brasileiro em língua portuguesa apresentou perfil predominantemente
teórico, centrado em autonomia, dignidade e limites da intervenção no fim da
vida, sobretudo nos debates sobre ortotanásia e kalotanásia (Zilio, 2024). A
literatura internacional evidenciou maior consolidação do hospice veterinário, estruturado
em dimensões clínicas, organizacionais e normativas, destacando-se a relação
entre profissional veterinário e tutor (Brown, 2017). Os resultados indicam
que, embora consolidado na medicina humana, os modelos hospices ainda
apresentam integração restrita com a bioética e a medicina veterinária no
Brasil, reforçando a necessidade de pesquisas interdisciplinares e
desenvolvimento de uma ética multiespécie aplicada ao cuidado paliativo. Palavras-chave:
Bioética Ambiental; Medicina Veterinária; Cuidados Paliativos; Hospice; Fim da
Vida.
A ESPIRITUALIDADE
DOS RIOS E O PRINCÍPIO DA ALTERIDADE: CONTRIBUIÇÕES PARA A BIOÉTICA AMBIENTAL. Autores: Luciane
Cristine Oliveira Valdez, Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira, Cristiano
Chiaramonti, Marta Fischer. As diversas tradições culturais e religiosas
atribuem aos rios dimensão espiritual, reconhecendo-os como entes vivos e
sagrados, vinculados à identidade coletiva e à saúde comunitária (Fischer et
al., 2017).
A espiritualidade, para além da religião, representa experiência
integrativa entre corpo, mente, espírito e natureza, ampliando a ética
ambiental ao incorporar interdependência e cuidado como princípios normativos.
A compreensão do rio, nessa perspectiva, afasta-o da condição de mero recurso e
o reconhece como sujeito de valor intrínseco, em oposição à racionalidade
antropocêntrica que o reduz à utilidade e desconsidera suas dimensões
ecológicas, culturais e espirituais (Potter, 1988). A degradação do Rio Belém,
inserido em contexto urbano marcado pela classificação de suas águas como
“ruim” (IAP, 2009), revela a relevância de problematizar a relação
socioambiental sob perspectiva ética ampliada, justificando a necessidade de
repensar os fundamentos jurídicos dos rios, diante de experiências internacionais
que os reconhecem como sujeitos de direito. Objetivou-se analisar criticamente
o reconhecimento dos rios como sujeitos de direito, relacionando
espiritualidade, Bioética Ambiental e violação do princípio da alteridade. A
metodologia adota abordagem qualitativa, de caráter teórico-reflexivo, baseada
em revisão bibliográfica-exploratória. A análise dialoga com o caso do rio
Atrato (Colômbia) e demonstra que diversas tradições culturais reconhecem os
rios como entes relacionais, vinculados à ancestralidade e à sacralidade,
enquanto a espiritualidade fortalece deveres éticos de proteção (Castañeda et
al., 2019). Os resultados indicam que a degradação do Rio Belém configura
violação do princípio da alteridade pois o rio permanece tratado como objeto,
em desconsideração à sua existência própria, às suas necessidades ecológicas e
ao seu valor intrínseco (Hernández, 2011). A conclusão evidencia que o
reconhecimento dos rios como sujeitos de direito, articulado a uma Bioética
Ambiental integradora entre espiritualidade e racionalidde, contribui para
superar o antropocentrismo e fortalecer uma ética fundada na responsabilidade
coletiva e na justiça ecológica.


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