quarta-feira, 1 de julho de 2026

Participação do grupo de Pesquisa Bioética Ambiental no VI Congresso Iberoamericano de Bioética 2026



Entre os dias 1º e 3 de julho, o Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), participou do IV Congresso Iberoamericano de Bioética com uma expressiva produção científica, reafirmando sua atuação na consolidação da Bioética Ambiental como campo interdisciplinar voltado à análise das relações entre sociedade, natureza, saúde e sustentabilidade. Ao longo do evento foram apresentados 17 trabalhos científicos, desenvolvidos por pesquisadores, docentes, pós-graduandos e colaboradores nacionais e internacionais. A produção contemplou diferentes linhas de investigação articuladas pelo grupo, evidenciando a diversidade temática e a integração entre pesquisa, ensino e extensão. Entre os estudos apresentados destacaram-se investigações sobre bioética ambiental, cidades biofílicas, bioética urbana, déficit de natureza, percepção social sobre espaços verdes, rios urbanos, direitos da natureza, saúde planetária, fisioterapia ambiental, cuidados paliativos, hospices, medicina veterinária, relações humano-animal, espiritualidade dos rios, engajamento social, justiça hídrica e consolidação de novas terminologias no campo da bioética. A participação internacional também esteve representada por dois trabalhos desenvolvidos em parceria com Moçambique, fortalecendo a cooperação científica entre os países de língua portuguesa. Os trabalhos apresentados evidenciam o amadurecimento das pesquisas desenvolvidas pelo grupo, especialmente na proposição de referenciais teóricos capazes de ampliar o escopo tradicional da bioética para incorporar a proteção da natureza, os direitos das futuras gerações, as relações multiespécies e a promoção da sustentabilidade. Os resultados também reforçam a importância da educação, da participação cidadã e da construção de políticas públicas fundamentadas em princípios éticos, científicos e socioambientais. A importante participação no IV Congresso Iberoamericano de Bioética representa mais um marco na trajetória do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental, ampliando sua inserção nacional e internacional e fortalecendo redes de colaboração voltadas ao enfrentamento dos desafios contemporâneos relacionados à crise ambiental, à justiça ecológica e à promoção da saúde planetária. Confira nos resumos aqui!

 

 
POR UMA BIOÉTICA PET-FRIENDLY Marta Luciane Fischer. A bioética tem contribuído para o debate sobre a relação humano/animal não humano a partir de bases utilitaristas de curto prazo, centradas na redução da dor e do sofrimento. Questiona-se, contudo, sua capacidade de mediar temas persistentes e emergentes em perspectivas de longo prazo, especialmente ao incorporar o diálogo com o direito animal e a bioética ambiental, superando a noção de propriedade. Partiu-se da hipótese de que, embora consolidada em bases utilitaristas, a bioética contribui para legitimar a senciência animal. Trata-se de um estudo quantitativo e exploratório que analisou a mobilização da bioética na produção científica sobre animais, identificando 4.484 publicações, das quais 40 abordaram animais de companhia, com predomínio de estudos teóricos ibero-americanos de natureza utilitarista e jurídica. Os resultados confirmam a hipótese de que a bioética ainda mantém a centralidade do paradigma utilitarista de curto prazo. Embora esse paradigma tenha sido fundamental para legitimar a senciência como critério moral e ampliar o cuidado, a proteção jurídica e as deliberações sobre vida e saúde, mostra-se limitado diante da complexidade das relações multiespécies, especialmente em dilemas como catástrofes, adoção, luto e tecnologias emergentes. Tal limitação explicita uma esquizofrenia moral, ao relativizar vínculos afetivos e hierarquizar vidas. A relação humano/animal não humano encontra-se em transformação, oscilando entre afeto, mercantilização e justiça, com a emergência de conflitos como eutanásia por conveniência versus clonagem pet e reconhecimento da família multiespécie versus monetização de vínculos. A superação desses dilemas associa-se a uma ética da alteridade, sustentada por bases científicas e legais que definam fronteiras éticas claras. O abandono revela natureza multifatorial e demanda respostas articuladas entre esferas pessoais, sociais e institucionais. Conclui-se que a bioética ambiental converge com uma ética intergeracional orientada à coexistência, qualidade de vida e justiça ecológica. A consolidação de uma bioética relacional, inclusiva e horizontal constitui condição para expandir o reconhecimento do valor intrínseco e dos direitos de todas as espécies. (Veja aqui artigo).



A BIOÉTICA AMBIENTAL NA CONSTRUÇÃO DAS CIDADES BIOFÍLICAS - Marta Luciane Fischer, Thierry Betazzi Lummertz, Alex Aparecido da Silva, Carina Del Pino Sandrini, Daihyani Silva dos Santos, Ana Carolina de Campos, Cristiano Chiaramonti, Raphael Motta, Trindade Charpare . O projeto de Cidades Biofílicas insere-se na interface entre Bioética Ambiental e Cidades Inteligentes, articulando sustentabilidade, qualidade de vida e gestão participativa. A proposta de pesquisa desenvolvida pela equipe do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental vinculada ao Programa de Pós-graduação em Bioética parte do reconhecimento do distanciamento sociedade/natureza devido ao processo histórico de urbanização, produzindo vulnerabilidades como biofobia, baixa adesão a práticas sustentáveis e fragilização do engajamento comunitário. Logo, justifica-se a necessidade de abordagens éticas, educativas e sociais para reconexão com os elementos naturais e fortalecimento da participação cidadã na deliberação ambiental. Para tal, adota-se uma perspectiva multidisciplinar integrando frentes de pesquisa já consolidadas, estudos em andamento e produção científica qualificada. Os resultados preliminares evidenciam que a construção de cidades biofílicas constitui uma demanda contemporânea, alinhada às agendas de sustentabilidade e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, bem como sustentada por evidências científicas que demonstram os benefícios da convivência com elementos naturais para a saúde global. Contudo, o prolongado processo de urbanização promoveu um afastamento significativo em relação à natureza, de modo que a reconexão, quando não mediada por processos educativos e formativos, pode gerar novas vulnerabilidades. Esse cenário é agravado pelo contexto de emergências climáticas, que intensificam percepções de risco e medo em relação aos fenômenos naturais. Adicionalmente, observa-se que, embora existam espaços formais de deliberação ambiental, o engajamento social permanece limitado. A ausência de vínculo identitário com a natureza e a dificuldade de comunicação entre atores sociais comprometem a participação efetiva, especialmente em temas ambientais marcados por alta complexidade e pluralidade de interesses. Esses achados indicam a necessidade de incorporar a Bioética Ambiental como ferramenta estruturante para qualificar processos deliberativos, promover reconexão sociedade-natureza atuando na educação básica e na popularização da ciência e consolidar práticas mais inclusivas e colaborativas na construção de cidades biofílicas. 



DÉFICIT DE NATUREZA: CARACTERIZAÇÃO DOS ESTUDOS E CONTEXTO EDUCACIONAL - Alex Aparecido Da Silva; Marta Luciane Fischer. O termo déficit de natureza foi apresentado para nomear os custos humanos da desconexão com a natureza, descritiva e metaforicamente (Louv, 2005), e vem mundialmente permeando discussões sobre educação, saúde e políticas diversas (ONU, 2016). A identificação das pessoas com o ambiente envolve um padrão complexo de ideias, sentimentos e valores (Prochansky et al., 1983), podendo o afastamento humano/natureza ser compreendido como vulnerabilidade socioambiental (Fischer et al., 2017). Objetivou-se caracterizar como o meio científico tem abordado o termo “déficit de natureza”, discutindo resultados pela Psicologia Ambiental, Bioética Ambiental e Educação Ambiental. Realizou-se uma revisão integrativa (Rosaneli; Fischer, 2024), nas bases Google Acadêmico e Portal CAPES, com descritores “déficit de natureza” e “nature deficit”, considerando-se os 100 primeiros resultados de cada buscador. Resultou-se 319 trabalhos recuperados, sendo incluídos 94 artigos para análise, indicando ampla circulação do tema, mas consolidação cientifica restrita. Observou-se concentração entre 2020-2025 (68,1%), no Brasil (51,1%), com predomínio de estudos práticos (61,7%), qualitativos (70,2%) e multidisciplinares (51,1%), usando-se entrevistas, questionários e formulários (28,8%). Tendo como principal público os estudantes (40,4%), e o contexto educação/ensino (37,2%) e vinculação com vulnerabilidade socioambiental de demanda prática. Aparentemente, os estudos estão ganhando prospecção científica motivados por certa urgência, visto pela ascensão recente dos estudos e sua abordagem educacional essencialmente prática. Formar vínculo com a natureza pressupõe construção de valores e princípios éticos, cuja mediação sistemática de atividades para esse objetivo é papel da escola, espaço privilegiado às reflexões da Bioética Ambiental e das práticas da Educação Ambiental. 



PERCEPÇÕES SOBRE ESPAÇOS BIOFÍLICOS URBANOS:  ANÁLISE PRELIMINAR DA PERCEPÇÃO DE CIDADÃOS DE CURITIBA E FAZENDA RIO GRANDEAlex Aparecido Da Silva; Julio Rodrigues Tozo; Sara Martins do Prado; Peter Bryan Stelmhstsk; Marta Luciane Fischer.A bioética ambiental ocupa-se das vulnerabilidades da relação entre humano/natureza, buscando superar o antropocentrismo e o utilitarismo subjacentes (Fischer et al., 2025). A hipótese da biofilia entende a predisposição genética humana no vinculo com a natureza, concomitante à respostas aversivas a certos elementos naturais, fenômeno relacionado à biofobia (Kellert; Wilson, 1995). A Agenda 2030 da ONU, no ODS 11.7, defende o acesso a espaços verdes e públicos nas cidades. No Brasil, esse debate é incipiente (Trevisam; Oliveira, 2024), apesar de sua população majoritariamente urbana (IBGE, 2022). Justifica-se, que o acesso limitado a espaços verdes pode fragilizar experiências biofílicas, reforçar percepções biofóbicas e reduzir o reconhecimento da natureza como valor público (Fischer et al., 2025). Objetivou-se analisar como moradores de Curitiba e Fazenda Rio Grande percebem os espaços biofílicos urbanos, discutindo resultados através da Bioética Ambiental, visando o subsídio de políticas públicas à integração ética entre humano e natureza. Adotou-se abordagem qualitativa-quantitativa, exploratório-descritiva, com aplicação de 177 questionários online semiestruturados, contendo 24 perguntas. A análise indicou valorização dos espaços biofílicos urbanos e concordância com princípios de preservação, cuidado, acesso, qualidade de vida e consideração ética da vida. Participantes predominantemente femininos (65%), pós-graduados (52%), moradores de casa ou sobrado (71%), com destaque para interação com plantas (74%) e cães (60%). Houve defesa a oferta de espaços arborizados (94%), planejamento e manutenção dos parques (92%) e cuidado pela população (90%). Pode-se inferir amplo reconhecimento dos benefícios da interação com a natureza, embora menor conhecimento e participação declarada em programas de educação ambiental (52%). A ampla valorização da natureza ainda não se traduz, igualmente, em compromisso ético-político com a educação ambiental, indicando um subaproveitamento do potencial dos espaços biofílicos para conexões entre ser humano e natureza, pelas políticas públicas.
 
 

FISIOTERAPIA AMBIENTAL E SAÚDE PLANETÁRIA: UMA REVISÃO SOB A PERSPECTIVA DA BIOÉTICA. Ana Flávia Schewtschik, Marta Luciane Fischer. O conceito de Saúde Planetária, que reconhece que a saúde 
humana interdepende da integridade dos sistemas naturais da Terra, vem emergindo. A degradação ambiental vêm impactando diretamente nos sistemas de saúde. Nesse cenário, surge a fisioterapia ambiental, que busca integrar práticas clínicas sustentáveis, intervenções baseadas na natureza e responsabilidade ecológica ao cuidado em saúde. A fisioterapia, historicamente voltada à prevenção, reabilitação e promoção da funcionalidade humana, passa a ser convocada a ampliar seu campo de atuação. O presente estudo é uma revisão narrativa da literatura, que teve como objetivo analisar as interfaces entre fisioterapia ambiental, saúde planetária e bioética, discutindo implicações para a prática clínica, formação profissional e modelos de cuidado. A coleta de dados foi realizada entre agosto e setembro de 2025 nas bases PubMed, Scopus, SciELO, LILACS e BVS. Foram utilizados descritores relacionados a Environmental Physiotherapy, Planetary Health, Bioethics, entre outros. Após o processo de triagem e elegibilidade, 14 estudos publicados entre 2020 e 2025 foram incluídos na análise. Os resultados indicam crescimento recente da produção científica sobre o tema, com predominância de ensaios conceituais voltados à construção teórica da fisioterapia ambiental. A literatura aponta para a necessidade de ampliar o referencial ético da profissão, superando uma abordagem exclusivamente antropocêntrica e incorporando conceitos como justiça multiespecífica, serviços ecossistêmicos e sustentabilidade no cuidado (Maric; Nicholls, 2022; Stanhope et al., 2023). Achados indicam benefícios de intervenções baseadas na natureza e revelam lacunas na formação profissional quanto à integração das questões ambientais na prática clínica (Serrat et al., 2020; Chi et al., 2024). Conclui-se que a integração entre fisioterapia, saúde planetária e bioética representa um campo emergente e necessário para responder aos desafios contemporâneos da saúde. A incorporação dessa perspectiva pode contribuir para modelos de cuidado mais integrados, sustentáveis e comprometidos com a justiça socioambiental e a proteção dos ecossistemas.

 


ENGAJAMENTO UNIVERSITÁRIO: O CAMPUS COMO TERRITÓRIO POLÍTICO E EDUCATIVO DE UMA “BLUE UNIVERSITY”  Carina Del Pino Sandrini; Daihany Silva dos Santos; Ana Carolina Campos; Laíssa Mirella Mendes Mariano de Lara; Nayara Lemasson Tortora; Marta Luciane Fischer.O selo Blue University se constitui no cenário contemporâneo como desdobramento do movimento global Blue Community, concebido em 2009 por Maude Barlow, como resposta à crescente mercantilização da água, e emerge de uma iniciativa ética e ecológica voltada à defesa do acesso universal, seguro e equitativo à água potável e ao saneamento, consolidando a concepção da água como direito humano inalienável e bem comum (Barlow, 2009). A adesão da PUCPR ao movimento, formalizada em outubro de 2023, reafirma o compromisso institucional com a justiça hídrica e o alinhamento com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (Fischer; Wolff; Caetano, 2025). O objetivo deste estudo foi analisar o engajamento universitário da PUCPR como território político e educativo de uma Blue University. Realizou-se o levantamento bibliográfico no Google Acadêmico com os descritores Blue University, identificando 50 produções acadêmicas relevantes, além de pesquisa de campo com aplicação de questionário a 151 estudantes de 33 cursos e realização de 38 entrevistas com professores e colaboradores da IES. Os resultados evidenciaram que apenas 10% dos estudantes conheciam o selo, associando principalmente a gestão sustentável da água, enquanto 90% desconheciam o termo, com respostas genéricas e pouco situadas do ponto de vista político e epistêmico. Ao serem apresentados aos três pilares da Blue University, demonstraram abertura cognitiva e sensibilidade ética, com maior disposição para ações cotidianas como evitar água engarrafada e reduzir plásticos descartáveis, e menor engajamento para ações políticas estruturantes, como audiências públicas e pressão sobre gestores (Fischer; Rosaneli, 2024). Entre professores e colaboradores, apenas um reconheceu o selo, sinalizando fragilidade na disseminação institucional. Concluiu-se que a construção de uma Blue University exige uma pedagogia da implicação, com a superação da conscientização pontual e formação de sujeitos comprometidos com a água como bem comum e direito inalienável. 



A ANÁLISE DA TERMINOLOGIA DA BIOÉTICA URBANA A PARTIR DE UMA REVISÃO INTEGRATIVA DA LITERATURA.   Carina Del Pino Sandrini; Marta Luciane Fischer.A bioética urbana constitui uma terminologia emergente que resgata a proposta potteriana ao analisar a vida em sentido amplo aplicada a realidade das cidades, incorporando as dimensões territoriais, políticas e sociais constitutivas do espaço urbano (Sarmiento, 2018). A consolidação de uma terminologia cientifica exige frequência, saturação e apropriação interdisciplinar consistente (Krieger; Bevilacqua, 2004). O objetivo foi analisar a consolidação da terminologia da bioética urbana por meio de uma revisão integrativa da literatura. Realizou-se revisão integrativa nas bases CAPES e Google Acadêmico, sem recorte temporal, resultando em 572 sugestões de busca que após passarem pelos critérios de inclusão e exclusão, resultaram em 30 artigos em português, inglês e espanhol (Rosaneli et al., 2024). A análise foi orientada por meio dos critérios de Krieger e Bevilacqua (2004), organizando os resultados em categorias primárias de referenciais teóricos, vulnerabilidades, problemas, soluções e conceitos. Nos referenciais teóricos mobilizados, foram identificadas convergências entre a bioética crítica, social e ambiental, articuladas com ecologia, sociologia crítica e filosofia política, sendo evidenciado que, diferentemente da bioética ambiental centrada em preocupações com a biosfera e os ecossistemas, a bioética urbana parte da cidade como agente central produtor de vulnerabilidades, o que delimita sua especificidade terminológica. As vulnerabilidades predominantes foram de natureza social, socioambiental e moral com destaque para racismo estrutural, segregação socioespacial e interseccionalidade. Os problemas convergiram nas categoriais social, política, territorial e cultural, identificando o urbanismo neoliberal como mecanismo produtor de exclusão e déficit democrático. As soluções, por sua vez, mobilizaram democracia deliberativa, direito a cidade e valorização da diversidade cultural (Blustein; Fleischman, 2004). Em conjunto, as categoriais identificam a incorporação progressiva de pautas ambientais ainda em consolidação e predominantemente antropocêntricas, sinalizando limitação conceitual em expansão. Concluiu-se que a bioética urbana está em processo de consolidação terminológica, com núcleo semântico em formação centrado na análise crítica das desigualdades urbanas e comprometido com a transformação ética e política das cidades.  

BIOÉTICA AMBIENTAL E AVES URBANAS: UMA ANÁLISE PRELIMINAR SOBRE ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA EM CIDADES BIOFÍLICAS.  Cristiano Chiaramonti, Jean Carlos Scuissiato, Marta Luciane Fischer A Bioética Ambiental, incorporada à contextos urbanos marcados por transformações socioecológicas e pela intensificação das interações entre humanos e não humanos, exige abordagens éticas capazes de compreender a complexidade relacional (Fischer; Chiaramonti, 2026). A convivência entre humanos e aves urbanas em Curitiba evidencia uma relação simultaneamente valorizada e conflituosa, cuja compreensão demanda abordagens da Bioética Ambiental que integrem dimensões ecológicas, sociais e morais no contexto urbano (Fischer, 2026). Justifica-se o entendimento de que as cidades, ao incorporar a fauna silvestre, configuram-se como espaços de convivência interespécies, onde benefícios e conflitos coexistem (Farias et al., 2022; Prefeitura de Curitiba, 2023). Objetivou-se analisar a percepção de moradores de Curitiba sobre aves urbanas, articulando os resultados à Bioética Ambiental, visando à promoção de convivência ética e inclusiva. A metodologia adota abordagem qualitativa-quantitativa, de caráter exploratório-descritivo, com aplicação de 163 questionários estruturados, contendo 27 questões, sendo 20 fechadas e 7 abertas, voltadas à compreensão de percepções, experiências, conhecimentos e atitudes quanto às aves urbanas. A análise evidenciou elevada valorização das aves, associadas ao bem-estar, à conexão com a natureza e ao reconhecimento de sua importância na qualidade ambiental urbana. Os dados indicam amostra com predominância feminina (61%), com ensino superior (46%), residente de casas (58%). A percepção das aves ocorre em trajetos cotidianos (45%), seguida de quintais (24%) e o interior das residências (15%). Os sentimentos direcionados para as aves foram majoritariamente positivos (93%), destacando-se o cuidado e manejo (94%), evidenciando consenso sobre sua relevância socioambiental. Os conflitos incluem sujeira e ruído, com destaque para pombos (25%). Observou-se o reconhecimento da importância das aves urbanas, mas contraditoriamente, tal percepção não se traduz em ações coerentes. Na prática, essas ações reforçam problemas do avanço urbano, indicando a necessidade de educação que promova a compreensão complexa das relações interespécies e o agir de forma ética.  Palavras-chave: Bioética Ambiental. Aves Urbanas. Cidades Biofílicas. Fauna Silvestre. Espaço de Convivência. 

 


QUANDO O AFETO VIRA CAPTURA: VULNERABILIDADE, UTILITARISMO ANIMAL E TRANSTORNO DO VÍNCULO NA RELAÇÃO HUMANO-ANIMAL Bianca Santana da Silva – Tëtë Xinã e Marta Luciane Fischer.   A relação entre humanos e animais de companhia ocorre em um contexto de assimetria estrutural, no qual o animal depende das decisões humanas para acesso ao ambiente, socialização e expressão comportamental. Assim, configura uma situação de vulnerabilidade, na qual práticas potencialmente danosas podem ser legitimadas por discursos de afeto e cuidado (Fischer, 2026). Trata-se de um ensaio teórico fundamentado em revisão narrativa de literatura e análise crítica da prática contemporânea em comportamento animal acrescida da vivência de mais de 12 anos no adestramento de cães. Os resultados indicam que a atribuição de funções psíquicas aos animais produz desequilíbrio relacional e sobrecarga funcional, com impacto direto no bem-estar-animal. A análise bioética da objetificação afetiva articula-se com a teoria do apego, etologia e cosmovisões de povos originários, cujos animais são compreendidos como sujeitos, e não como recursos ou extensões psíquicas, estabelecendo limites éticos entre proximidade e apropriação (Kopenawa; Albert, 2015; Krenak, 2019).  Na cultura urbana contemporânea observa-se que o afeto frequentemente encobre práticas utilitaristas, nas quais o animal é investido de funções psíquicas relacionadas à regulação emocional humana. Em contextos de fragilidade subjetiva e ausência de elaboração emocional, é comum a transferência de demandas psíquicas ao animal, que passa a ocupar o lugar de regulador do sofrimento, sendo mobilizado para aliviar angústia, sustentar a presença e reduzir estados de vazio.  A objetificação afetiva implica restrição da autonomia do animal e comprometimento de sua capacidade de autorregulação, configurando o que se propõe conceituar como transtorno do vínculo humano-animal. O vínculo deixa de operar como segurança e passa a sustentar dependência relacional, na qual o animal é funcionalizado para atender demandas emocionais humanas. Reconhece-se a necessidade de técnicas para diagnosticar e mitigar o transtorno no subsidio da reorganização da relação humano/Pet a partir do reconhecimento dos limites do afeto e das necessidades biológicas animal. 

 


ENGAJAMENTO JUVENIL MEDIADO POR ARTE NO CUIDADO AOS RIOS URBANOS - Thierry Betazzi Lummertz, Alex Aparecido da Silva, Marta Luciane Fischer.  A água doce é um recurso limitado e essencial à vida, pressionado por poluição, mudanças climáticas e processos de mercantilização que intensificam a crise hídrica e as desigualdades no acesso (Shiva, 2006). A Declaração Universal dos Direitos dos Rios reforça o reconhecimento dos rios como sujeitos de direitos (Earth Law Center, 2025), enquanto iniciativas sociais defendem a água como direito humano, com destaque ao engajamento juvenil em movimentos como “100 Mil Jovens pela Água” e as Blue University (Fischer et al., 2026). A bioética ambiental amplia a compreensão das interdependências entre humanos e natureza, promovendo educação crítica, participação social e gestão sustentável orientada por princípios éticos (Potter, 2016). A pesquisa adotou abordagem de pesquisa-ação-participativa, com grupos focais, utilizando a ferramenta “Caminhos do Diálogo” e o método Bioteatro (Lummertz; Fischer, 2021). A intervenção ocorreu em 21 de novembro de 2025 com estudantes do 7º ano do Colégio Estadual Olindamir Merlin Claudino, às margens do Rio Belém, no campus da PUCPR. A atividade teatral “Potter do futuro” estimulou a escuta sensível do rio e a reflexão sobre seus direitos. Os resultados indicam que os estudantes reconhecem a relação humana com os rios como predominantemente degradadora, apontando indicadores de saúde ambiental, como canto de aves, sombra e diversidade vegetal, e sinais de degradação, como lixo, odores e água estagnada. As falas evidenciaram a percepção do rio como entidade vulnerável, frequentemente descrito como “doente” e impactado por ações humanas, aproximando-se da noção de sujeito de direitos. Observou-se também uma crítica ao distanciamento da natureza no contexto urbano e o reconhecimento do engajamento juvenil como via de transformação social, alinhado à Educação Ambiental crítica e à justiça hídrica. Predominam percepções negativas, mas emergem dimensões afetivas, éticas e potenciais de engajamento, reforçando a necessidade de redefinir as relações entre sociedade e natureza. 

 


RIO BELÉM COMO SUJEITO DE DIREITOS? PERCEPÇÃO SOCIAL ACERCA DE RIOS URBANOS -  Thierry Betazzi Lummertz, Alex Conceição da Silva, Raphael dos Santos Mota, Nayara Lemasson Tortora, Marta Luciane Fischer -  A intensificação do domínio técnico sobre o planeta contribuiu para a aceleração da degradação ambiental, gerando efeitos como mudanças climáticas e agravamento das desigualdades socioambientais. Paralelamente, o avanço tecnológico passou a suscitar dilemas éticos complexos, demandando reflexão interdisciplinar. A Bioética emerge como campo crítico de análise desses conflitos, balizados pela proposta de Potter (2016) de construção de uma “nova sabedoria” capaz de integrar conhecimento científico e responsabilidade moral, articulando todos os seres vivos em torno da sobrevivência da biosfera. Essa perspectiva converge com o paradigma dos Direitos da Natureza, ao reconhecer que a preservação ambiental constitui além de opção política, uma exigência ética para a continuidade da vida (Fischer; Rosaneli, 2024). Assim, justifica-se o reconhecimento do direito universal a um ambiente saudável, consagrado em legislações nacionais e internacionais, enquanto a concepção da Natureza como sujeito de direito, impulsionada pela Bioética Ambiental, insere um novo paradigma ético e jurídico na relação sociedade-natureza (Matos, 2018). Objetivou-se avaliar a potencialidade da Bioética e da Educação Ambiental na promoção do engajamento social com a Natureza como sujeito de direitos. A metodologia adotou abordagem quali-quantitativa, de caráter exploratório-descritivo, com aplicação de 263 questionários estruturados (57 questões fechadas e 2 abertas), voltados à análise de percepções, experiências e atitudes em relação aos rios. Os dados evidenciam predominância feminina (61%), com ensino superior (48%) e residência em casas (54%). A percepção cotidiana dos rios foi majoritariamente baixa (32%), assim como a avaliação de limpeza (41%). Em relação ao rio Belém, 70% expressaram sentimentos negativos, contudo, 94% concordam que o direito do rio de não ser poluído deve sempre ser garantido. Segundo Morton (2013), há uma “cegueira ecológica”, na qual problemas ambientais não são integrados à consciência prática. Conclui-se que o engajamento emerge da conscientização, quando os indivíduos compreendem sua realidade e se reconhecem como agentes de transformação.  Palavras-chave: Rio Belém; Bioética ambiental; Rios como sujeito de direito; Percepção social; Objetivos do desenvolvimento sustentável.  

 


ÁGUA EM MOÇAMBIQUE: UMA ANÁLISE BIOÉTICA. Trindade Filipe Chapare, Marta Luciane Fischer.  Moçambique figura entre os países com maior déficit de acesso à água potável afetando mais da metade da população (UNICEF, 2015), evidenciando a urgência de uma ética orientada à gestão equitativa e sustentável, justificando o presente projeto pós-doutoral que visa avaliar a questão balizada pelo conceito de “Fome de água” (Fischer, Rosaneli, 2022). Deve-se superar interesses individuais e privilegiar a responsabilidade coletiva intergeracional (Selborne, 2001). A cobertura de abastecimento de água apresenta desigualdade: cerca de 84% nas áreas urbanas contra 37% nas rurais, enquanto o saneamento atinge 44% nas cidades e apenas 12% no meio rural (Mophrh, 2020). Essas assimetrias refletem desigualdades estruturais persistentes, que comprometem a dignidade ambiental e social. A governança do setor é fragmentada, envolvendo múltiplos atores, como o Conselho de Regulação do Abastecimento de Água e as autarquias locais, gerando desafios de articulação e sobreposição regulatória (Cistac, 2007). Paralelamente, persistem desigualdades no acesso a serviços básicos como energia, saúde e educação, indicando limitações na efetividade das políticas públicas. Um ponto crítico refere-se à atuação do Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água, que opera sob lógica comercial, realizando cortes no fornecimento de água por inadimplência, o que restringe o acesso a um direito humano fundamental (Ndapassoa, 2024). Embora marco legal, como o Decreto Ministerial n.º 23/2002, atribua ao Estado a responsabilidade de garantir melhorias contínuas no abastecimento, e os programas governamentais enfatizem a sustentabilidade e ampliação do acesso, há conflitos entre a lógica mercantil e a garantia de direitos. Nesse contexto, a proteção da água exige uma abordagem integrada que considere dimensões ambientais, sociais, econômicas, éticas e políticas (Fischer; Rosaneli, 2022). A incorporação de valores como honestidade, justiça e responsabilidade coletiva pode reduzir a necessidade de controles normativos, fortalecendo práticas mais justas e sustentáveis na gestão hídrica. 

 

 


 BIOÉTCA DAS ÁGUAS: VALIDAÇÃO DA TERMINOLOGIA  -  Trindade Filipe Chapare, Marta Luciane Fischer.  Dentre as preocupações da bioética, destaca-se a água potável essencial à vida, finito e altamente suscetível à contaminação. A compreensão da água como recurso inesgotável tem levado ao uso predatório, poluindo rios e aquíferos, afetando ciclos ecológicos e biológicos (Cini et al., 2019). O presente projeto visa avaliar a contribuição direta da bioética como instrumento de mediação, utilizando diferentes linguagens e saberes para promover o diálogo entre atores sociais e subsidiar soluções justas e compartilhadas, validando a terminologia “Bioética das águas” (Fischer, Rosaneli, 2022). As análises de textos científicos, casos reais e documentos indicam que a superação da crise hídrica não depende exclusivamente de tecnologia ou de ajustes nos modelos econômicos, mas demanda desenvolvimento baseado na sustentabilidade e na equidade (Potter, 2016). Para que a bioética ambiental se consolide como fundamento de um novo modelo civilizatório, necessita-se de transformação de valores, atitudes e modos de vida. A UNESCO, por meio da Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (DUBDH, 2005), estabelece: a água como direito fundamental à vida; a responsabilidade social vinculada à proteção de populações vulneráveis e das gerações futuras; e integração entre saúde, ciência e desenvolvimento tecnológico. A crise hídrica afeta a biodiversidade e evidencia conflitos relacionados ao uso da água na agricultura, segurança alimentar, saneamento e saúde pública. Assim, a construção de políticas públicas conclama processos participativos baseados em fundamentos sociais, científicos, tecnológicos e éticos (Ahlert, 2013). A água centraliza-se nos planos ético, político e da justiça social, sendo determinante para a paz e a continuidade da vida no planeta. Sob a perspectiva de uma bioética ambiental abrange o reconhecimento da água como direito humano e patrimônio comum. A ONU, na Declaração Universal dos Direitos da Água, estabelece diretrizes éticas que atribuem à humanidade a corresponsabilidade pela proteção dos recursos hídricos, e na manutenção da vida. 

 


BIOÉTICA AMBIENTAL E A RELAÇÃO ENTRE ESTRANHOS MORAIS E  VULNERABILIDADE AMBIENTAL - Cristiano Chiaramonti, Marta Luciane FischerA bioética contemporânea insere-se em contextos marcados por transformações tecnocientíficas e pela intensificação das crises ecológicas, demandando abordagens  éticas capazes de responder à complexidade das relações entre humanos e não  humanos (Fischer et al., 2017).  O alargamento da bioética para uma dimensão socioambiental evidencia a insuficiência de modelos antropocêntricos diante de  sistemas complexos constituídos pela pluralidade de atores, interdependências e dinâmicas não lineares (Potter, 2016; Morin, 2006). O conflito reside na dificuldade de integrar humanos e não humanos em uma mesma matriz ética, formas de vida que, na condição de estranhos morais, não compartilham referenciais comuns, produzindo vulnerabilidade ambiental (Fischer e Chiaramonti, 2026). Justificando, assim, a necessidade de ampliar o campo da consideração moral, incorporando formas de vida historicamente excluídas dos processos éticos e políticos sociais. Objetivou-se analisar de que modo a Bioética Ambiental, oferece uma abordagem ética capaz de compreender a pluralidade socioambiental a partir da articulação entre os conceitos de vulnerabilidade ambiental e estranhos morais. A metodologia adota abordagem qualitativa, de caráter teórico-reflexivo, baseada em revisão bibliográfica exploratória e integrativa da literatura. A análise crítica evidenciou que a incorporação dos estranhos morais ao debate socioambiental amplia o distanciamento moral para além das relações humanas, revelando a vulnerabilidade ambiental como resultado de arranjos históricos, políticos e epistemológicos que tratam os não humanos como meros objetos (Stengers, 2023). O reconhecimento dos não humanos como estranhos morais admite a coexistência de múltiplas moralidades em um mesmo coletivo planetário, no qual humanos e não humanos compartilham trajetórias entrelaçadas, ainda que orientadas por linguagens, temporalidades e formas de existência distintas. A pesquisa contribui para a consolidação de um campo reflexivo em Bioética Ambiental, orientado a práticas éticas, políticas e epistemológicas que sustentem a convivência entre humanos e não humanos, com base no valor intrínseco dos sistemas vivos e em futuros compartilhados. 

 


BIOÉTICA AMBIENTAL E HOSPICES: INTERFACES NO CUIDADO PALIATIVO - Luciane Cristine Oliveira Valdez, Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira, Cristiano Chiaramonti, Marta Luciane Fischer. O movimento hospice emerge dos cuidados paliativos impulsionados por Cicely Saunders, com a criação do St. Christopher’s Hospice, em Londres, em 1967, marco da humanização do cuidado no fim da vida (Paiva, 2014).  O hospice consolidou-se como modelo de alívio do sofrimento e promoção da qualidade de vida de pessoas com doenças graves (Zanatta et al., 2019). A permanência de uma racionalidade centrada na dimensão humana evidencia a limitada incorporação do meio ambiente como elemento  ético no cuidado paliativo (Fischer e Chiaramonti, 2026; Zanatta et al., 2019). A justificativa reside na necessidade de propor referenciais bioéticos que reconheçam o cuidado integral, o bem-estar e a dignidade no fim da vida vinculados às dimensões ambientais. Objetivou-se analisar lacunas científicas entre bioética e hospices e compreender como a Bioética Ambiental incorpora o meio ambiente ao cuidado no fim da vida. A metodologia adotou abordagem qualitativa e quantitativa, de caráter teóricoreflexivo, com revisão bibliográfica exploratória e integrativa no Portal CAPES, em 10 de abril de 2026. Foram identificadas 24.428 publicações, predominantemente internacionais (99%), artigos (85%), revisados por pares (96%) e concentrados nas Ciências da Saúde (91%). A interface com a bioética mostrou-se reduzida, com 220 estudos (1%), enquanto a Bioética Ambiental revelou-se incipiente, sem publicações que articulem aos hospices. A produção nacional reuniu oito artigos (2010–2024), centrados em autonomia, dignidade, ortotanásia e kalotanásia. A discussão mostrou que o modelo hospice, ao integrar dimensões físicas, emocionais, sociais e espirituais, pode ser ampliado pela incorporação do meio ambiente como dimensão terapêutica, favorecendo conforto, reduzindo a dor e promovendo bem-estar existencial por meio de espaços, paisagens e contato com a natureza (Gielen, 2021; Floriani, 2021). Os resultados indicam que a Bioética Ambiental amplia o cuidado paliativo ao reconhecer o meio ambiente como componente ativo do fim da vida, favorecendo práticas integrais e eticamente comprometidas.

 


HOSPICES EM MEDICINA VETERINÁRIA E BIOÉTICA: INTERFACES EMERGENTES NO CUIDADO MULTIESPÉCIE. Autores: Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira, Luciane Cristine Oliveira Valdez, Cristiano Chiaramonti, Marta Luciane Fischer.Os hospices, modelos de cuidado voltados ao conforto e à dignidade no fim da vida, historicamente vinculados aos cuidados paliativos humanos, vêm ampliando seu escopo para abordagens interdisciplinares que incorporam dimensões éticas e interfaces emergentes com a medicina veterinária (Floriani, 2013; Zanatta et al., 2019). A persistência de uma centralidade biomédica evidencia a limitada articulação entre hospices, bioética e cuidado animal, especialmente no contexto brasileiro (Carvalho e Fischer, 2022). A relevância do tema justifica-se pela necessidade de compreender lacunas científicas e estimular referenciais éticos capazes de responder às demandas contemporâneas do cuidado no fim da vida em perspectiva multiespécie. Objetivou-se analisar como a produção científica tem articulado os hospices com a bioética e a medicina veterinária, identificando lacunas científicas investigativas. A metodologia adotou abordagem quantitativo-descritiva, mediante revisão integrativa realizada no Portal de Periódicos CAPES, em 10 de abril de 2026. A busca identificou 24.428 publicações, com predominância de artigos científicos (85%), acesso restrito (76%), origem internacional (99%) e concentração nas Ciências da Saúde (91%). A análise demonstrou que a interface entre hospices e bioética permanece reduzida, com 220 estudos (1%). A articulação com a medicina veterinária mostrou-se ainda mais incipiente, com 107 publicações (0,4%), revelando expressiva lacuna no cuidado interespécies. O recorte brasileiro em língua portuguesa apresentou perfil predominantemente teórico, centrado em autonomia, dignidade e limites da intervenção no fim da vida, sobretudo nos debates sobre ortotanásia e kalotanásia (Zilio, 2024). A literatura internacional evidenciou maior consolidação do hospice veterinário, estruturado em dimensões clínicas, organizacionais e normativas, destacando-se a relação entre profissional veterinário e tutor (Brown, 2017). Os resultados indicam que, embora consolidado na medicina humana, os modelos hospices ainda apresentam integração restrita com a bioética e a medicina veterinária no Brasil, reforçando a necessidade de pesquisas interdisciplinares e desenvolvimento de uma ética multiespécie aplicada ao cuidado paliativo. Palavras-chave: Bioética Ambiental; Medicina Veterinária; Cuidados Paliativos; Hospice; Fim da Vida.

 


A ESPIRITUALIDADE DOS RIOS E O PRINCÍPIO DA ALTERIDADE: CONTRIBUIÇÕES PARA A BIOÉTICA AMBIENTAL. Autores: Luciane Cristine Oliveira Valdez, Flávia Dandara Rangel Coelho Diniz Nogueira, Cristiano Chiaramonti, Marta Fischer. As diversas tradições culturais e religiosas atribuem aos rios dimensão espiritual, reconhecendo-os como entes vivos e sagrados, vinculados à identidade coletiva e à saúde comunitária (Fischer et al., 2017). A espiritualidade, para além da religião, representa experiência integrativa entre corpo, mente, espírito e natureza, ampliando a ética ambiental ao incorporar interdependência e cuidado como princípios normativos. A compreensão do rio, nessa perspectiva, afasta-o da condição de mero recurso e o reconhece como sujeito de valor intrínseco, em oposição à racionalidade antropocêntrica que o reduz à utilidade e desconsidera suas dimensões ecológicas, culturais e espirituais (Potter, 1988). A degradação do Rio Belém, inserido em contexto urbano marcado pela classificação de suas águas como “ruim” (IAP, 2009), revela a relevância de problematizar a relação socioambiental sob perspectiva ética ampliada, justificando a necessidade de repensar os fundamentos jurídicos dos rios, diante de experiências internacionais que os reconhecem como sujeitos de direito. Objetivou-se analisar criticamente o reconhecimento dos rios como sujeitos de direito, relacionando espiritualidade, Bioética Ambiental e violação do princípio da alteridade. A metodologia adota abordagem qualitativa, de caráter teórico-reflexivo, baseada em revisão bibliográfica-exploratória. A análise dialoga com o caso do rio Atrato (Colômbia) e demonstra que diversas tradições culturais reconhecem os rios como entes relacionais, vinculados à ancestralidade e à sacralidade, enquanto a espiritualidade fortalece deveres éticos de proteção (Castañeda et al., 2019). Os resultados indicam que a degradação do Rio Belém configura violação do princípio da alteridade pois o rio permanece tratado como objeto, em desconsideração à sua existência própria, às suas necessidades ecológicas e ao seu valor intrínseco (Hernández, 2011). A conclusão evidencia que o reconhecimento dos rios como sujeitos de direito, articulado a uma Bioética Ambiental integradora entre espiritualidade e racionalidde, contribui para superar o antropocentrismo e fortalecer uma ética fundada na responsabilidade coletiva e na justiça ecológica.  


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