segunda-feira, 15 de junho de 2015

Esporte Sangrento



Série Ensaios: Ética Animal


POR Pâmela Christina Da Silva Gianini
Acadêmica do Curso de pós-Graduação em Conservação da Natureza

Em 2014 foi divulgado pelo jornal australiano The Telegraph News uma foto de 10 anos atrás do príncipe
Harry, sorrindo e segurando uma arma e ao lado de um búfalo abatido em uma reserva localizada entre Ríos, na Argentina, em 2004. O animal foi baleado legalmente, mas pode prejudicar a campanha que a família real britânica deu início na última semana, quando reuniu, em Londres, representantes de 50 estados para discutir leis para proibir a caça de animais silvestres.
O hábito da caça e da pesca pelos homens já vem de longa data, nos remete ao início da sua história na Terra, onde estes tinham este hábito para sua subsistência. Posterior ao homem das cavernas, a caça continua no período medieval em partes da Europa como diversão e entretenimento para homens e mulheres, onde uma raposa ou coelhos eram perseguidos por cães ferozes, que eram criados apenas para essa finalidade, e ao final tinha-se o animal capturado e abatido numa horda de loucura e selvageria.
Entretanto, anos depois de tantas situações envolvendo horror, humilhação e crueldade, nos deparamos com o homem moderno, que em pleno século XXI defendendo com unhas, dentes e armas de longo alcance a prática da caça e da pesca e, ainda, nomeando-a como um esporte. Ora, esportes deveriam ser atividades que trazem benefícios de bem-estar a saúde do corpo e tendo a caça dita esportiva, a única parte que se beneficia - e bem pouco – é a visão, munida a uma mira e o cérebro do sujeito que pratica tamanha atrocidade e, claro, sem dúvida nenhuma o ego, que deve ficar bem inflado ao abater um animal feroz.
A caça no Brasil é inconstitucional, ou seja, a Lei nº 5.197/67, que proíbe apenas a caça profissional, como é chamada aquela que rende lucro ao praticante. Portanto, qualquer dispositivo permissivo de caça se afigura ofensivo à Constituição da República. No entanto no Paraná e Rio Grande do Sul, essa mesma lei, permitiu que houvesse a caça amadora e desportiva. O que não faz sentido, tendo visto que se há perseguição e morte do animal se enquadra como prática cruel, então não é permitida. Mas ainda sim, no segundo estado citado acima ocorre à caça de paca, cotia, queixada, lebre, perdiz e outras aves. A alegação é de que esses animais se reproduzem rapidamente e prejudicam plantações. Todos sabemos que caçar no Brasil ocorre e muito por debaixo dos panos, mesmo sendo proibida a matança descontrolada Brasil afora, tem como principais alvos a onça-pintada, o jacaré, cervos, tatus, capivaras entre tantos outros macacos e diversas espécies de aves. No Pantanal, inclusive, a onça pintada é vítima de caçadores e da expansão das pastagens. Inúmeros casos de caça a este animal são frequentemente divulgados pela mídia, fazendo com que este felino se tornasse animal símbolo da preservação pela biodiversidade.
Ressalva-se ainda a  imensa atividade de pesqueiros e excursões para a pesca esportiva no Pantanal e rios afora. Costume, esse, que passa de pai para filho, sendo adquirido como atividade prazerosa e destressante. Obviamente que menos para o peixe, confinado em tanques ou livre, pois se não vai para a panela, acaba todo mutilado por anzóis e devolvido ainda com o sentimento nobre do pescador de não o matar o peixe e deixa-lo na Natureza.
Ambos os casos não se tratam de subsistência da população local. Como diria o filosofo Peter Singer, grande idealizador da Ética Animal, defensor da expansão do princípio da igualdade na consideração da dor e do sofrimento para atender aos interesses e preferências tanto de humanos quanto de animais. Como uma crítica à tradição filosófica que supervaloriza o status moral do ser humano, a teoria ética de Singer busca expandir a esfera de consideração moral humana para que seja possível incluir os animais na comunidade moral, usando como critério o princípio da igual consideração de interesses semelhantes. Portanto, para Singer, o que tem que ser defendido é o interesse do maior afetado, que é o animal, que possui sim sensibilidade ou a capacidade de sofrimento, associada à consciência desse sofrimento (senciência), sendo este o critério de referência para identificar os seres sujeitos de interesse. Neste caso, onde a caça e a pesca se torna objeto de interesse no âmbito de ser algo supérfluo, se torna algo imoral. E isto indica que estes seres têm interesse em receber um tratamento que os poupe de circunstâncias dolorosas. Na maioria das vezes, os animais são abatidos por fazendeiros ou por caçadores que abastecem o comércio de peles e plumas, e ainda por aqueles que o fazem pelo prazer de matar e com a desculpa de estes animais estarem atacando rebanhos de gado. Mas como muitas coisas no Brasil são proibidas e, ainda sim, são feitas, é claro que este hábito não poderia deixar de ser banido e ser considerado absurdo, em um país onde um de seus maiores tesouros é a fauna.
Por sorte, não temos costumes mais ferozes, como os americanos que em grande maioria crescem com a presença de armas e acreditam ser o topo da cadeia desta pirâmide, se achando no direito de decidir quem vive ou quem morre. Assim, a caça e pesca esportiva neste país é permitida, assim como em outros países aqui da América Latina e nosso vizinho continente a África, de onde existem parques apenas para essa finalidade e com a desculpa de estar se fazendo o controle biológico de determinadas espécies, como Leões e Elefantes.  Do outro lado deste embate, tem sim quem seja favorável à caça e à pesca esportiva, pois, olhando com a frieza de que a pobre Natureza não consiga chegar num equilíbrio - onde muito antes do homem querer se colocar como Deus nesta questão - o número de animais não aumentava ou diminuía em demasia, a teia alimentar e este equilíbrio ecológico sempre existiu.
No entanto e aqui nos deparamos com a real defesa de tantas pessoas para a caça e a pesca é sim o mercado milionário que se gera com pessoas que fazem desta prática esporte, mas que na verdade não passa de uma horrorosa desculpa para matar um inocente.  A caça e a pesca são atividades econômicas como qualquer outra, só nos Estados Unidos de cada 100 dólares do PIB, um é fornecido pela caça e pela pesca esportiva. O que não dizer de comércios e pessoas que lucram com parques, aluguel de carros, venda de armas e tantos outros equipamentos para que alguns saiam bonitos na foto-  com um animal que servirá de souvenir taxidermizado para se pôr na parede de suas casas. O mais interessante a se observar ainda, é que dos dois estados brasileiros que se tem permissão para caça desportiva no Brasil, é o fato de empresas de armamentos estarem instaladas no Rio Grande do Sul e no Paraná, os clubes e fazendas de caça fazem divulgação discreta, na certa para evitar conflito com protecionistas.
Então, analisando como Bióloga, se a grande desculpa aqui é justamente a caça como meio de controlar espécies em grandes quantidades, por que não se fazer uso de rifles com sedativos para aplicar anticoncepcionais nestes animais, e daí sim, se pensar no grande lucro que se pode obter ao ter um parque para turismo ecológico, e principalmente pensar na sensibilização e na educação ambiental que deve sim ser gerada, visando à importância destes animais quando vivos e não como enfeites ou futuros troféus para pessoas que na verdade precisam mesmo é avaliar o que pensam e fazem com vidas que tem consciência como já foi provado e estas mesmas pessoas irem atrás de um tratamento psicológico para tentar entender que o valor de um animal vivo é muito maior do que o prazer de tirar sua vida, que esta mesma vida não é algo que se pode ter valor monetário e sim o valor que é muito mais importante, que seria está tênue linha da harmonia que só a Natureza consegue ter sem precisar de ninguém armado com artefatos de guerra, mas só de boas intenções.

O presente estudo foi elaborado para a disciplina de Ética no uso de animais e bem estar animal, tendo como base as obras:

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Entretenimento, será?!



Série Ensaio: Ética Animal
Por Lohana Neves de Souza
Acadêmica Curso Ciências Biológicas

            No dia 3 de Outubro de 2012 saiu uma notícia no G1.com da (AFP), que uma mudança na lei aprovada na Costa Rica, proíbe a caça esportiva, primeiro projeto que chega ao Legislativo do país por meio de um sistema de iniciativa popular. A reforma da Lei da Vida Silvestre permite a caça de animais apenas para pesquisa científica, subsistência e controle de espécies.

         
   A caça foi atividade legal e regulamentada no Brasil entre 1934 e 1967 [Código de caça e Pesca (1934); Código de Caça (1943)]. Em 1988, a caça tornou-se um crime inafiançável com a Lei Federal nº 76533/88. Somente 10 anos depois a caça para subsistência tornou-se aceitável (descriminalizada), entretanto não estabeleceu mecanismos de controle para esta atividade. (Wallauer,2003).
            A caça tem por atividade o
abate de animais silvestres para obtenção de alimentos. Esta atividade é antiga, vem desde a época dos homens da caverna que caçavam animais para comer sua carne, vestir sua pele e usar suas presas como armas e ferramentas. A caça esportiva é algo "recente", seu objetivo é simples, o abate da presa, em troca do prazer da perseguição e a satisfação do abate. Seu corpo pode ser usado como troféus de competições, taxidermizados em paredes repletas com cabeças e seus outros membros que representariam sua "importância" entre os membros sociais.
            A caça esportiva pode levar a
extinção de uma espécie, gerando desequilíbrio no ambiente silvestre. No Brasil esta atividade cresce a cada ano, muitos brasileiros viajam para países vizinhos onde esta prática é legalizada e podem pratica-la sem proibições, pois no Brasil, a Lei nº 5.197/67 proíbe a caça profissional, mas permite a amadora.
            Em 30 de Março de 2007, um artigo publicado na National Geographic, noticiada pelo site
Terra. Relata que a África, usa a prática de caça esportiva como grande potencializador de conservação, pelo ato de controle populacional. Afirmando que se regulamentada adequadamente pode ser uma atividade sustentável.
           
Visando a ética e bem estar dos animais, é desumano um ser que utiliza meios mais vantajosos para caçar sua presa em seu próprio habitat. Muitos animais não reconhecem o humano como predador, e o mesmo conhecendo sua biologia, seu forrageio e hábitos, tem grandes vantagens sobre o animal que pouco pode se defender. O fato de abater algum animal pelo fato de satisfação nos faz pensar até onde essa "satisfação doentia" considerada como esporte pode levar um ser em sã consciência a crer que estes animais também são seres conscientes, com sentimentos e tantos outros aspectos considerados humanos. Esta atividade pode até controlar a população (óbvio, pois se mata, até achar que matou o suficiente), mas parando para refletir, é meio óbvio, não?!.
            Enfim, o fato desse esporte ser considerado um tipo de entretenimento, como entre outros, não está trazendo beneficio algum para a sociedade, nem para o caçador como pessoa, muito menos para o animal sabendo que ele sendo morto em vão, enquanto este tipo de atividade não ser fiscalizada adequadamente, este tipo de "entretenimento" infelizmente ainda será uma infeliz realidade.

            O presente ensaio foi elaborado para a disciplina de Etologia, tendo como base os seguintes referenciais:


Terra. África: caça esportiva pode ajudar na preservação. Publicado em: . Acessado em Maio de 2015.

100 Animais. Caça esportiva. Publicado em . Acessado em Maio de 2015.
G1. Costa Rica proíbe caça esportiva por iniciativa popular. Publicado em: . Acessado em Maio de 2015.

VERDADE, L.M. & SEIXAS, C.S. Confidentiality and professional secrecy in studies about hunting. Biota Neotrop. 13(1): . Acessado em Maio de 2015.

Animal machine: para os animais, a escravidão não acabou



Série Ensaios: Ética Animal

Por: Gabriela Ferreira Dias
Acadêmica do Curso Bacharelado em Ciências Biológicas

Uma investigação da ONG Igualdade Animal, na Alemanha, revela maus-tratos a galinhas em granjas ecológicas de produção de ovos, consideradas de alta qualidade. Dentre os maus tratos estão: animais doentes, animais mortos na granja, cadáveres em decomposição entre os animais vivos, galinhas sem plumagem devido ao stress e às condições de exploração, galinhas com úlceras ensanguentadas, inflamação dos órgãos genitais e outras lesões sem receberem tratamento veterinário.


A alimentação e as regras de ingestão, a forma como o alimento é apresentado e a mecânica de sua produção, tudo isso é considerado “natural”. Então, concluímos, quando comemos não praticamos qualquer ato imoral. Porém, com o aumento da população mundial, os alimentos, incluindo os de origem animal são produzidos em larga escala, e a prioridade não está no bem estar do animal, e sim na produção. 
Depender de nutrientes exteriores força o animal a procurá-los. Tal procura é parte do processo de construção da mente específica do animal, seja ele humano, ou, não-humano. Se o animal for privado da liberdade de “mover-se para autoprover-se”, destruiu-se o que o caracterizaria. Fox escreve que houve um tempo não muito longe, no entanto, no qual muitas pessoas não apenas pensavam que a escravidão humana fosse algo justificável e mesmo sancionada por Deus, e estavam seguras de que elas – e a sociedade – não poderiam sobreviver sem ela. Da mesma forma, vemos os animais como escravos para a produção de alimentos para nós, humanos.
Na produção de ovos pelas galinhas a superpopulação, a barulheira e a luz contínua levam estes animais a se atacarem entre si, a se auto mutilarem, levando-os até ao canibalismo. Podem chegar a óbito por fatores ambientais. Para limitar as vítimas, os produtores atrofiam bicos e unhas, sendo que esta prática mata muitas galinhas antes de estas atingirem a idade adulta, após longas agonias. Com base nos dados de 2002, pode-se estimar que, só nos Estados Unidos, são mortos pela indústria de ovos algo em torno de 300 milhões de pintinhos machos por ano, pois eles não servem para o abate, então são descartados como objetos sem utilidade.
“A vaca leiteira, antes vista pacífica, até mesmo idilicamente andando pelas campinas, é agora uma máquina de leite de fina sintonia, cuidadosamente monitorada. A cena bucólica da vaca leiteira brincando com seu bezerro no pasto não faz parte da produção leiteira comercial.’’Na produção de leite, as vacas podem passar suas vidas inteira sobre pisos de concreto, confinadas em espaços minúsculos e viver entre suas próprias fezes. Elas não têm liberdade de mover-se, trocar de lugar, escolher o melhor ângulo para receber a comida. A vaca destinada à produção de leite vive grávida 9 de cada 12 meses. Nascidos, os bezerros que sobrevivem ao desmame no segundo dia de vida, ou são abatidos, ou enviados para a indústria da vitela. Em média, tiram-se 20 litros de leite por dia de cada uma dessas vacas. Para aumentar ainda mais a produção do leite há produtores que aplicam hormônios como o BST, que provoca problemas de saúde nesses animais. O BST foi proibido no Canadá e na União Européia em função das preocupações com a saúde e o bem-estar das vacas leiteiras, mas é amplamente utilizado nos Estados Unidos. Somente nos Estados Unidos são abatidas anualmente mais de um milhão de vacas em razão de sua fraqueza para continuar a produzir o leite ou manter mais uma gestação.
Todo confinamento configura domínio escravista do animal, não importa se é para a indústria do alimento humano e animal, ou se é para a indústria da “estima”. Confinar animais e usar o domínio físico sobre eles para forçá-los a produzirem algo que sua natureza produz apenas para sua autoreprodução, desconfigura o ato de qualquer possibilidade de vir a ser considerado ético.
Eu, como formanda de Biologia, acredito que os métodos utilizados na produção de leite e ovos por esses animais não podem ser aceitos. Melhoria na legislação e fiscalização sobre as condições de bem estar dos animais de produção devem ser reformuladas, assim como a diminuição do consumo desses alimentos pela população.

O ensaio foi baseado nas seguintes fontes:
FOX, Michael Allen. Deep Vegetarianism. Philadelphia: Temple University Press, 1999.
 Erik MARCUS, Meat Market: Animal, Ethics and Money, p. 16.