quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Controle ético de pragas urbanas, é possível?

Série: Instagram #Bioética.em.foco

Por Andressa Cordeiro Riceto 




Ei, você já percebeu que convivem contigo diversas espécies que não são nativas do Brasil ou da sua região?

Então olhe ao redor: as rosas! as abelhas! os gatos! o mosquito da dengue! o pombo! o javali! e por ai vai.... A maioria das espécies que são levadas (querendo e sem querer) de um país para o outro, nem chega a sobreviver! Algumas sobrevivem, mas sempre com poucos indivíduos e não causam nada! Porém, 1% se torna invasor! Isso mesmo! Eles se reproduzem exageradamente, expulsando ou matando as espécies nativas e usando os seus recursos (espaço e alimento)! A questão é o que fazer com essas espécies exóticas invasoras! É lógico! Eles precisam ser exterminados, pois causam impactos imensuráveis. Mas será que seria possível fazer isso de uma forma ética? Sustentável? Humanizada?
Certamente já ouviu falar nessas espécies, pois são muito comuns nos ambientes urbanos. Pois bem, as espécies exóticas invasoras foram introduzidas em nosso país principalmente para fins econômicos, no entanto, devido ao manejo inadequado e soltura dos animais na natureza, a população desses animais está em constante crescimento. Esse aumento na população acontece porque não há predadores disponíveis no ambiente natural que se alimentem delas. Com isso, surgem sugestões de maneiras de realizar o controle desses animais, porém, esses muitas vezes envolvem situações constrangedoras para os animais ou não possuem eficácia na eliminação e, portanto, não resolvem o problema, mas pioram a situação. Mas será que não é possível realizar um controle de maneira ética? Os pesquisadores da Bioética Ambiental estão dizendo que sim! E todos nós temos a responsabilidade de discutir essas questões, a fim de chegar a um consenso da melhor solução!
Se você entendeu que você é corresponsável pela biodiversidade, seja cuidando para não disseminar espécies exóticas, seja ajudando a monitorar os ambientes e quer aprender um pouco mais sobre o assunto te convido a ler o artigo (Link)  publicado pelas autoras Marta Fischer e Jéssica de Gang, que abordam sobre as questões da problemática do Caramujo Gigante Africano Invasor.


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Veja o Blog do Caramujo:  Conexão Caramujo




Sobre Famílias e Uniões Homoafetivas



por Mário Antônio Sanches 
Professor de Bioética e de Teologia da PUCPR e Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Bioética


Ao longo dos tempos observam-se transformações nas percepções das relações humanas e sociais. Em relação à família, por muito tempo, se apregoava que era indispensável defendê-la como instituição, afirmando que era uma instituição sagrada, quase absoluta. Com esta percepção, todo modelo familiar que não se enquadrasse da rígida regra social dominante era exorcizado e, não raramente, perseguido. 

Nos tempos atuais percebe-se, criticamente, que a família é importante na medida em que propicia estrutura humana e social para o crescimento, amparo e proteção de seus membros. Quando a família, ao contrário disso, violenta seus membros – os dados sobre violência familiar são notáveis – ela será questionada pela sociedade e a sua dissolução se permite e até mesmo se impõem. Esta é a percepção atual sobre família: ela não é uma instituição absoluta e reificada – com fim em si mesma - mas uma instituição importante como estrutura a serviço de todos os seus membros. 

Há também novas percepções sobre as relações afetivas entre pessoas. Sabe-se que termos como ‘sexualidade’ e ‘homossexualidade’ não constavam no léxico dos povos antigos. Na época em que os textos sagrados das grandes religiões foram elaborados esta terminologia não estava em uso. Havia sim expressões que denotavam relações entre pessoas. A constituição familiar não priorizava a relação afetiva entre pessoas, e era constituída, predominantemente, para fortalecer alianças entre famílias e grupos sociais. No seio do cristianismo ocidental, católico, se consolidou a ideia do ‘consentimento’ como base do matrimônio, fundamento de uma nova família. Sabe-se que isto se estabeleceu há menos de mil anos. Os estudiosos da família nos lembram o tempo todo: a família fundada no consentimento amoroso dos cônjuges é muito recente e tipicamente ocidental. 

Deste modo, chega-se a algumas posições óbvias nos nossos dias, como percepção dominante nas sociedades ocidentais. São aceitas e incentivadas as relações afetivas entre pessoas desde que estas relações tenham alguns componentes internos, dentre eles: sejam consentidas (não impostas nem violentas), promovam a realização dos envolvidos (não sejam deprimentes nem repressoras), sejam socialmente responsáveis (zelem pelo comum). Neste contexto, a família passa a ser muito valorizada por compreender que é uma instituição privilegiada para propiciar a experiência fundante de cada ser humano: ser amado de modo incondicional. Assim a família passa a ser apreciada e valorada pela sociedade na medida em que fomenta relações de amor e cuidado a cada um dos seus membros. Se a família não cumpre este papel, a sociedade atual a questiona. 

Estas transformações de percepções sobre as relações afetivas e sobre a família exigem de todos nós uma postura crítica: nenhum modelo de família pode, por si mesmo, ser canonizado nem satanizado. Por questão de honestidade somos levados a reconhecer que em modelos de família, que tradicionalmente se valoriza, pode haver imposição, violência e irresponsabilidade social. Por outro lado, em alguns novos modelos de família, que muitos não apreciam, pode haver amor, afeto sadio e promoção de vida. Deste modo a sociedade aprende a acolher – embora a cegueira social possa obnubilar algumas mentes – uma grande variedade de modelos e configurações familiares. 

A família homoafetiva é um destes novos modelos, muito atacado por aqueles que defendem uma família onde prima a força institucional e não a dinâmica do afeto, que a sociedade acolhe e por isso cria leis que a protege. Quando um Estado não acolhe nem regulamenta a união homoafetiva ele está deixando de proteger as pessoas envolvidas nesta nova configuração familiar. Quando o Estado não protege a união homoafetiva como família ele está apostando no seu fracasso, negligenciando as pessoas envolvidas, deixando de cumprir o seu papel de promotor do bem comum. Em resumo: é injusto o não reconhecimento da união homoafetiva como família por parte do Estado. 

As religiões precisam aprender que o Estado regula as relações pessoais e sociais que promovem o bem comum. Isto nem sempre vai coincidir com o que uma determinada religião estabelece como ideal de vida. 




sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Estudante recebe o primeiro título do Doutorado em Humanidades da PUCPR e UCM

Moçambicano é o primeiro doutor formado pelo programa de pós-graduação fruto da parceria entre o Brasil e o país africano



O Portal da PUCPR divulgou no dia 16/10/20



No último sábado (10), Trindade Chapare, estudante do Doutorado em Humanidades, defendeu sua tese de forma online e foi o primeiro a receber o título pelo programa, que é fruto de um acordo de cooperação entre a Pontifícia Universidade Católica do Paraná  (PUCPR) e a Universidade Católica de Moçambique (UCM).

A pesquisa de Chapare teve como tema  “A pertinência de políticas de proteção dos animais não-humanos em Moçambique: um estudo baseado na percepção de estudantes universitários sobre bens e serviços” e foi orientado pela professora Marta Luciane Fischer, do Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR.


Além do estudante e da professora orientadora, também acompanharam a banca virtual o professor da PUCPR Anor Sganzerla, coordenador do Doutorado em Humanidades, o diretor da UCM, Lino Marques Samuel, o professor Jelson Oliveira, do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da PUCPR (PPGF-PUCPR), e o bispo D. Luiz Fernando Lisboa, que é brasileiro mas atua em Moçambique.

Chapare fez parte da primeira turma do Doutorado em Humanidades da PUCPR e UCM, que começou em 2017. Segundo o professor Anor Sganzerla, Trindade é um pesquisador talentoso e a banca foi bastante satisfatória. “Nós gostamos bastante do resultado do trabalho”, comenta. Nos próximos meses, os colegas do mais novo doutor em Humanidades também devem fazer as defesas.

Doutorado em Humanidades em Moçambique

O Doutorado em Humanidades é fruto de um protocolo de cooperação acadêmica, científica e cultural firmado entre a PUCPR e a UCM em 2015. A primeira turma, da qual Trindade Chapare fez parte, começou dois anos depois, com 36 estudantes, na cidade de Quelimane, capital da Província da Zambézia (província é o nome dado àquilo que, no Brasil, denomina-se estado).

Liderado pelas Escolas de Educação e Humanidades e Ciências da Vida e coordenado pelo professor Anor Sganzerla, conta com a participação de 29 professores da PUCPR de quatro programas de pós-graduação da Universidade: Programa de Pós-Graduação em Bioética, Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas, Programa de Pós-Graduação em Filosofia e Programa de Pós-Graduação em Teologia. Alguns dos docentes lecionaram presencialmente na Universidade Católica de Moçambique antes da declaração de pandemia.


A pertinência de políticas de proteção dos animais não-humanos em Moçambique: um estudo baseado  na percepção de estudantes universitários sobre bens e serviços

 

 

Trindade Filipe Chapare


RESUMO

A concepção moral tradicional situa o homem por cima de todos os outros seres vivos, estabelecendo assim uma ética totalmente antropocêntrica, na qual os animais somente podem chegar a ser considerados de forma instrumental. No mundo ocidental, essa tradição moral predomina há mais de dois mil anos. A pertinência de políticas de proteção dos animais não-humanos em Moçambique: um estudo baseado  na percepção de estudantes universitários sobre bens e serviços é o tema proposto para o presente estudo cuja contextualização da abordagem baseada na análise bibliográfica e entrevista, em termos gerais se circunscreve em analisar que deficiências na formação do universitário impedem sua consciência ecológica e motivam a violência contra animais não-humanos no que diz respeito aos princípios de bioética e em termos específicos procura  discutir a presença dos princípios bioéticos na formação dos universitários; apresentar a inserção social dos animais não-humanos em Moçambique numa perspectiva de consciência universitária; e descrever a percepção dos estudantes universitários sobre o uso de animais para diferentes finalidades (bens e serviços). Busca neste âmbito trazer um contributo na promoção do bem-estar animal. Em tempos actuais já não se pode olhar com passividade a crueldade imposta aos animais não-humanos. As insuficiências da legislação que regulamenta a vida selvagem são apenas uma parte do problema, já que mesmo a aplicação de penas relativamente leves tem sido inconsistente. Para além de uma legislação mais severa para travar de forma decisiva as práticas que atentam contra o bem-estar animal, são necessárias campanhas públicas de informação e consciencialização de grande visibilidade. O veganismo surge como um estilo de vida que busca excluir todas as formas de exploração dos animais – seja para alimentação, vestuário, diversão ou qualquer finalidade. Culturalmente, é ensinado que comer carne, leite e ovos é normal e necessário. A escravidão, por mais de 500 anos em Moçambique, também foi considerada normal e necessária, e isso mostra que a sociedade muda sua percepção da realidade ao longo do tempo. Não é porque todos fazem que está certo, e não é porque sempre foi feito de uma maneira que deve continuar assim. Do extremo onívoro ao extremo vegano, ambos podem ter bons ou maus hábitos. A intenção não é julgar o livre arbítrio de cada um, mas buscar alternativas capazes de causar menos sofrimento aos animais não humanos e reduzir o impacto ambiental. Assim, acredita-se que, com a mútua aplicação da Educação Ambiental e da Bioética Ambiental como ferramentas e fundamentos podem ajudar nesse processo.

Palavras-Chave: Animais não-humanos; Bioética; Bens e Serviços; Percepção de Estudantes.





quarta-feira, 23 de setembro de 2020

O controle ético da aranha-marrom é possível?

 

Bioética Ambiental

Por Caroline de Barros Rodrigues e Helena Coentro Wohlke

 

Buscando auxiliar estudantes de ensino médio na escolha de seu curso, o Planeta PUCPR é uma feira de cursos e profissões onde ocorre a integração entre alunos, professores e participantes. Normalmente, há um percurso entre escolas e cursos com estandes em que graduandos explicam mais sobre sua graduação e respondem a perguntas, havendo oficinas e visitas guiadas por laboratórios e museus utilizados no dia a dia da faculdade. Por meio do Planeta PUC, aqueles que estão decidindo sua futura carreira podem fazê-lo de maneira mais dinâmica e divertida.

Devido a pandemia do Covid-19, a feira de profissões de 2020 ocorreu através de uma plataforma online, onde as lives e oficinas foram transmitidas tanto no próprio website quanto no YouTube, permitindo também a interação entre alunos, professores e participantes. Visando explicar mais sobre o papel do biólogo no século XXI, as professoras Marta Luciane Fischer e Lays Cherobim Parolin debatem sobre biodiversidade, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), e animais cosmopolitas. Pensando nas aranhas cosmopolitas, as professoras discutem sobre o controle biológico, podendo ser utilizado para o controle das aranhas-marrom, por exemplo, que são muito presentes na cidade de Curitiba.

O controle biológico é uma técnica que consiste na utilização de “inimigos” naturais da espécie danosa, evitando assim o uso de soluções possivelmente tóxicas, tanto em grande escala como nas lavouras, quanto no ambiente doméstico, dificultando o contato dos residentes com animais nocivos. Uma das pesquisas que atualmente está sendo realizada pelos membros do Núcleo de Estudos do Comportamento Animal vinculado ao Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental e ao Programa de Pós-Graduação em Bioética da PUCPR visa a criação de um protocolo de controle biológico de aranhas do gênero Loxosceles. (com enfoque principal em L laeta e L. intermedia), onde a manutenção de aranhas da espécie Pholcus phalangioides e suas teias possuem o potencial de dificultar a instalação da aranha-marrom nas edificações. Esse é um exemplo claro de como o controle ético é benéfico à sociedade já que, por apresentar comportamento araneofágico (alimentar-se de outras espécies de aranhas) e seu veneno ser completamente inofensivo ao ser humano, afetando apenas suas pequenas presas, a utilização desta técnica não afeta o nosso cotidiano, trazendo o benefício da redução de casos de loxoscelismo em todo o estado.

Assim, convidamos-vos a assistir o vídeo e deixar a sua opinião! Caso queira se certificar quais são as aranhas que você possui em sua casa, basta mandar a foto no insta @aranha.morrom que identificaremos para você! Assim como podemos ajudar em outras dúvidas!








segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Uso de recursos naturais e sua relação com pandemias


Ensaio: Bioética Ambiental 


Por Samuel Soares 

Graduando em Ciências biológicas 



A natureza e seus recursos são há muito tempo e amplamente utilizados pela humanidade para produção de tecnologias que aprimoram as habilidades do ser humano como espécie e nos revertem em vantagens evolutivas sobre demais animais. A exemplo da produção de alimentos, que no Brasil já é suficiente para alimentar toda a população, muito embora política e desigualdades sociais estejam relacionados à distribuição desigual de produtos alimentícios. Na natureza algumas espécies animais cultivam seu alimento, como as formigas cortadeiras que cultivam o fungo da espécie Leucoagaricus gongylophorus. Porém muitos procuram o alimento no ambiente, seja pastagem ou seja uma presa pastando. Estão sempre condicionados ao que tem disponível sendo obrigados a procurar por alimento, migrar, hibernar. 

Mas com a humanidade é diferente. A produção de alimento já não atende unicamente ao propósito de sobrevivência. Atende à uma indústria centenas de vezes ramificada que atende a diferentes interesses. Há uma variedade de produtos que podem ser consumidos em mercados, lanchonetes, restaurantes, fast-foods, cafeterias, bares, food-trucks, delivery entre outras opções. O alimento, quanto recurso, está sempre disponível em vários locais do centro urbano - desconsiderando desigualdades em termos de capital. 
O conforto que a indústria agro-pecuária trouxe com seus anos de inovação é sem igual. Hoje em dia ninguém precisa cultivar seus grãos, moê-los, torrá-los ou extrair seu óleo. Tudo isso já está feito. E quem consome pode se preocupar com outras coisas, pode se ocupar com outros afazeres. Isso pode em parte explicar o sucesso da espécie até os 7,8 bilhões de indivíduos atuais. 
Outras indústrias também promoveram o avanço de uma vida mais confortável e tecnológica. Como a mineração. A extração de minerais proporcionou a base material para o avanço tecnológico com smartphones e computadores. Usinas hidrelétrica produzem a energia necessária para que a vida continue mesmo a noite, prolongando o tempo de atividade humana. Sem contar os benefícios de máquinas movidas a eletricidade e toda tecnologia que dela depende. 

Todo esse conforto promovido por anos de evolução tecnológica se apoia em um uso de recursos naturais que está chegando a níveis irreversíveis - exemplo é o desmatamento da Amazônia para estabelecimento de monoculturas e mineração. A extração e uso desses recursos que vai desde o espaço físico aos organismos em si desequilibra todo um ecossistema. 
Um ecossistema é um conjunto de interações onde organismos vivos interagem com o meio e têm o seu papel, desempenham uma função quando realizam seus nichos. Quando um componente importante é alterado nesse ecossistema alguns organismos podem sofrer consequência e desempenhar mal a sua função ou não conseguir desempenhar. E em efeito dominó as consequências se prolongam aos demais organismos. 

Um exemplo é o uso de agrotóxicos que nas plantações matam insetos, inclusive abelhas. Estes últimos são essenciais para a reprodução de dezenas de espécies vegetais que delas dependem para polinização. Estima-se que 70% das plantas que nos servem de alimentos são polinizadas por abelhas, sendo responsáveis por 90% da produção de alimentos em todo o planeta Terra. Os agrotóxicos ao eliminar as abelhas, refletem em um declínio em espécies que elas polinizam, sejam as que consumimos ou outras. Espécies que nos seus nichos têm um papel único, que filogenética e evolutivamente são únicas. Elas fazem parte de um ecossistema e quando são afetadas podem comprometer esse sistema. 
Além do uso de recursos, o avanço da humanidade demandou muita ocupação de espaço, que antes era local para outros organismos e agora contam com grandes cidades onde animais e outros seres vivos tiveram de se adaptar, onde se não são pragas urbanas são pelo menos indesejados ou potencial perigo à saúde pública. O uso de espaço também é um fator que desequilibra ecossistemas. Desmatamento para construção de ruas, cidades, campos de agricultura ou pecuária fragmentam hábitats, isso quando não extinguem. E todos os organismos daqueles locais precisam buscar novo ambiente ou se adaptar para não se extinguirem. Essa convivência egoísta da humanidade em todo o planeta desconsidera tudo que já existe antes do que é fabricado em máquinas altamente automatizadas. 

Em Nipah, quando perderam seu habitat para uma fazenda de criação de porcos, morcegos passaram a coabitar com os suínos. Seus nichos muito parecidos levaram um vírus do morcego para o porco e deste para os humanos. 
Morcegos consumiam frutos de uma mangueira, os frutos parcialmente consumidos que caíam entre os porcos eram consumidos por eles também e a contaminação acontecia. Em seu hábitat natural morcegos frugívoros dispersam sementes de frutos e são predados por outros animais, mas não mantêm relação direta com suínos. O spillover, efeito em que um vírus animal passa para um humano, é justificado nesse caso pela perda de hábitat. 
O meio ambiente como recurso é essencial para a sobrevida de uma espécie. Predadores felinos na Índia estão invadindo cidades a noite na busca por presas que podem ser cães, cabras ou porcos, porque a cidades indianas crescem cada vez mais. E essa exposição de pessoas a animais silvestres é uma bomba relógio para toda a humanidade. 
Dos vírus que mais dizimaram pessoas no planeta, a maioria se origina em animais selvagens, que podem ser reservatórios de para doenças desconhecidas e com potencial pandêmico, ou em animais cultivados para o consumo frenético de carne nos dias atuais . 
Mesmo animais selvagens acabam se tornando um recurso em mercados de carne, a exemplo de Wuhan, China, onde iniciou a explosão do Sars-CoV-2 (Covid-19). Neste local carne de animais são vendidas livremente sob condições sanitárias fora do protocolo e por isso o efeito spillover é facilitado. 
O efeito desse ‘pulo’ de um vírus ou bactéria de uma espécie animal para um humano é catastrófico haja visto o efeito dos vírus para H1N1, MERS, varíola e da bactéria para peste bubônica. Quando encontram condições em um hospedeiro esses micróbios se disseminam. Centros urbanos e cidades, assim como as instituições em geral facilitam o contágio uma vez que a população de hospedeiros se encontra concentrada. O cosmopolitismo desses locais favorece esses agentes. 
Pandemias, contágios e doenças novas não são estranhas à história humana. A ciência avançou muito em relação a forma de lidar com pandemias ou vírus, os avanços em terapias de eliminação do HIV e a chegada precoce de potenciais vacinas para a Covid-19, demonstram isso. Graças ao avanço tecnológico e científico que por séculos incorpora recursos naturais em produtos necessários em laboratórios, hospitais, universidades e até em casa. 


Eu como estudante de biologia acredito que é inevitável transformar a natureza e seus recursos, ocupar espaço, impactar na vida de outros organismos, mas é urgente fazer isso de forma planejada. Toneladas de plástico estão sendo ingeridas por baleias e tartarugas mas ainda sim muitos produtos de plástico precisam ser produzidos. Todavia há como se evitar essa consequência produzindo esses produtos com uso de fibras (como de bambu) ou outras fontes materiais, repensando as medidas de proteção a esses animais. Medidas que não envolvem ou dependem de um órgão específico, mas de todas as pessoas. Parte da educação ambiental em escolas, para conscientização em massa, fiscalização por autoridades, prática de hábitos de proteção pelas pessoas, produção e consumo planejado dos produtos possivelmente poluentes entre outras atitudes. O conforto de toda a estrutura urbana que cada vez cresce mais tem seu impacto na natureza e planejar esse impacto é um dever de todos. 



O presente ensaio foi elaborado para o estágio em Bioética, tendo como base as obras:


BARBOSA, Vanessa. Vídeo mostra ataque de leopardo em escola na Índia: Com as cidades indianas invadindo cada vez mais os habitats desses animais, a tendência é que ocorram mais encontros entre grandes felinos e seres humanos. Exame. 08 fev de 2016. Disponível em: https://exame.com/mundo/video-mostra-ataque-de-leopardo-em-escola-na-india/. Acesso em 03/08/2020.

ESTRADA, C, et al. Fungal endophyte effects on leaf chemistry alter the in vitro growth rates of leaf-cutting ants’ fungal mutualist, Leucocoprinus gongylophorus, 2014. Disponível em: https://vanbaellab.wp.tulane.edu/wp-content/uploads/sites/66/2015/08/Estrada-et-al.-Fungal-Ecology-2014.pdf. Acesso em: 03/08/2020.

FIBERCARE. Linha Ecológica para Substituir o Plástico. Techmelt. 11 set de 2018. Disponível em: https://techmelt.com/pt-br/blog/2018/09/11/linha-ecologica-para-substituir-o-plastico/. Acesso em: 03/08/2020.

Folha informativa – COVID-19 (doença causada pelo novo coronavírus). OPAS/OMS Brasil. 31 jul de 2020. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=6101:covid19&Itemid=875. Acesso em 03/08/2020.

Formigas cortadeiras: o alimento. Cursos CPT. Disponível em: https://www.cpt.com.br/dicas-cursos-cpt/formigas-cortadeiras-o-alimento#:~:text=As%20formigas%20cortadeiras%20s%C3%A3o%20diferentes,alimentam%20das%20folhas%20que%20cortam.. Acesso em: 03/08/2020.

GRAGNANI, Juliana. Do nipah ao coronavírus: destruição da natureza expõe ser humano a doenças do mundo animal. Da BBC News Brasil em Londres - 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52161309. Acesso em: 03/08/2020.

HANBURRY, Shanna.Cientistas alertam: devastação da Amazônia está próxima de um ponto irreversível. Amazônia: notícia e informação. 13 de fevereiro de 2020. Disponível em: https://amazonia.org.br/2020/02/cientistas-alertam-devastacao-da-amazonia-esta-proxima-de-um-ponto-irreversivel/#:~:text=Cientistas%20alertam%3A%20devasta%C3%A7%C3%A3o%20da%20Amaz%C3%B4nia%20est%C3%A1%20pr%C3%B3xima%20de%20um%20ponto%20irrevers%C3%ADvel,-13%20de%20fevereiro&text=Cientistas%20que%20estudam%20a%20Amaz%C3%B4nia,fogo%2C%20mais%20propensa%20a%20inc%C3%AAndios.. Acesso em: 03/08/2020.

IWASHITA, Soichi. Gripes suínas, aviárias, Sars, Covid-19: As pandemias que vêm do hábito de comer carne e da exploração animal. Simonde. Disponível em: https://www.simonde.com.br/gripes-suinas-aviarias-sars-mers-coronavirus-covid-19-as-epidemias-pandemias-que-vem-do-habito-de-comer-carne-vegano-vegan-h1n1/. Acesso em: 03/08/2020.

PATRÍCIA, Elaine Cruz. Produção de alimentos é suficiente, mas ainda há fome no país, diz pesquisador: Desigualdade de renda e desperdício fazem com que problema afete 7,2. Repórter da Agência Brasil - São Paulo. 16 jul de 2020. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-07/producao-de-alimentos-e-suficiente-mas-ainda-ha-fome-no-pais-diz. Acesso em 03/08/2020.

QUINTELLA, Cristina M.; MATA, Ana M. T.; Mata. FERREIRA, Grace Ghesti.; ASIS LOPES, Pedro Miguel Tavares da Mata. Vacinas para Coronavírus (COVID-19; SARSCOV-2): mapeamento preliminar de artigos, patentes, testes clínicos e mercado Coronavirus: Vaccines (COVID-19; SARS-COV-2): preliminary review of articles, patents, clinical trials and market.Universidade Federal da Bahia, Salvador, BA, Brasil 2 Programa de Pós-Graduação Profissional em Propriedade Intelectual e Transferência de Tecnologia para a Inovação; Associação Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia, Brasil. 3 ESTS-CINEA, Instituto Politécnico de Setúbal, Setúbal, Portugal 4 iBB, IST, Universidade de Lisboa, Lisboa, Portugall 5 Universidade de Brasília, Brasília, DF, Brasil 6 Hospital Garcia de Orta, Pragal, Almada, Portugal. Disponível em: https://portalseer.ufba.br/index.php/nit/article/view/35871/20780. Acesso em 03/08/2020.

SOARES, Flvio. Abelhas são nomeadas os seres vivos mais importantes do mundo: Segundo cientistas, as abelhas são insubstituíveis e imprescindíveis no mundo.GentSide. 7 de jul de 2019. Disponível em: https://www.gentside.com.br/ciencia/abelhas-sao-nomeadas-os-seres-vivos-mais-importantes-do-mundo_art11544.html#:~:text=Abelhas%20s%C3%A3o%20nomeadas%20os%20seres%20vivos%20mais%20importantes%20do%20mundo,-Abelhas%20s%C3%A3o%20nomeadas&text=Segundo%20cientistas%2C%20as%20abelhas%20s%C3%A3o%20insubstitu%C3%ADveis%20e%20imprescind%C3%ADveis%20no%20mundo.&text=Um%20tema%20que%20est%C3%A1%20chamando,import%C3%A2ncia%20das%20abelhas%20no%20mundo.. Acesso: 03/08/2020.

SPONCHIATO, Diogo. Coronavírus: como a pandemia nasceu de uma zoonose: Entenda como o vírus conseguiu migrar de morcegos para seres humanos e se transformou no maior problema da humanidade. Veja - Saúde. 20 mar 2020. Disponível em: https://saude.abril.com.br/medicina/coronavirus-pandemia-zoonose/. Acesso em 03/08/2020.