segunda-feira, 7 de maio de 2018

Ieieiê infiel, eu quero ver você morar no motel!


Série Ensaios: Sociobiologia

 

Por Andressa Azevedo, Daniele Fischer, Daliane Pacheco, Cassiane Caroline, Gabriela Kostiuk, Maria Luiza Gandara e Iolanda Schwartz

Acadêmicas do Curso de Ciências Biológicas

Que o surgimento da internet facilitou nossas vidas, isso não é novidade, mas ela não facilitou somente no trabalho, no colégio, na faculdade ou na pesquisa rápida de um produto qualquer. A internet facilitou também, a infidelidade dos casais, seja pela procura de um relacionamento extraconjugal ou no uso excessivo de ferramentas que acabam afastando quem está próximo. Não bastando à facilidade das redes sociais mais conhecidas como Facebook, Instagram, Twitter, Tinder, e outros, algumas redes sociais foram criadas com o foco exclusivo em traições, como Ashley Madison, Ohhtel, Second Love e Amante Discreto, que juntas contam com milhões de usuários pelo mundo.

O presente ensaio crítico se baseou em uma notícia sobre o aplicativo Ashley Madison com slogan "Life is short. Have an affair" - (A vida é curta. Curta um caso), que foi lançado em 2001 e teve grande repercussão ao ter sido acusado de vazar os dados pessoais de mais de 30 milhões de clientes no ano de 2015, mas o foco principal não são os dados vazados e sim a quantidade de usuários da rede social, mais precisamente, usuários brasileiros. Em uma entrevista (2018) ao portal Engadget, o Diretor de Tecnologia da Ruby Life, dona da Ashley Madison diz que os registros de usuários brasileiros somam em 140 mil por mês, colocando o Brasil atrás somente dos Estados Unidos.

Sabemos que a infidelidade diante dos olhos da sociedade é vista como um ato contra as regras, contrariando a prática monogâmica. Este ato é visto como algo que fere os ideais do amor romântico, comprometimento e exclusividade, sendo um rompimento no contrato social que se estabelece quando duas pessoas iniciam um relacionamento. O conceito de infidelidade é complexo, já que para cada pessoa pode apresentar uma concepção diferente. É um fenômeno experimentado por homens e mulheres, mas o caminho percorrido por ambos é complemente distinto.

Analisando apenas os condicionantes biológicos e evolutivos, não abordando os inúmeros condicionantes psicológicos e sociais, apesar dos custos da atividade extraconjugal, os machos são motivados por condições de procurar variedade sexual. Já nas fêmeas, isso não é tão evidente. Na maioria das culturas o adultério cometido por uma mulher, ou até uma suspeita, é considerada uma ofensa ao marido e geralmente leva a violência. Há muitos anos, os homens que buscavam esta variedade e engravidavam outras mulheres, levavam em conta a prevalência de sua linhagem genética, gerando mais descendentes. Já as mulheres, buscavam encontrar um protetor que assegurasse a sobrevivência de seus filhos, caso um de seus parceiros morresse.

Um estudo publicado na revista científica Evolution & Human Behaviour realizado na Universidade de Queensland, na Austrália, mostrou que variações genéticas podem fazer com que homens e mulheres tenham maior propensão a cometer o adultério. No estudo foram analisados o comportamento de mais de 7 mil pares de gêmeos, todos em relacionamentos estáveis. Os resultados sugerem que 63% do comportamento infiel nos homens e 40% nas mulheres podem ser atribuídos à herança genética. No caso das mulheres, os cientistas detectaram variações em um gene chamado AVPRIA, associado ao comportamento infiel. Para homens, a poligamia seria explicada pela necessidade da preservação da espécie: mais sexo resultaria em mais filhos.

Do ponto de vista evolutivo, a infidelidade não é exclusiva dos humanos, uma vez que este ato se relaciona com as estratégias de sobrevivência de outras espécies. Em aves, o conceito de monogamia pode ser relativo. Há espécies que ficam com um único par para o resto da vida e outras que ficam apenas durante estações de reprodução e crescimento do filhote. No artigo de Forstmeier e colaboradores (2011) experimentos foram feitos em Tentilhões-zebra buscando compreender o comportamento de indivíduos “casados” dentro de um grupo e após análises genéticas de paternidade e relações extraconjugais o resultado se mostrou surpreendente. Aparentemente a disposição de fêmeas para se envolver em contatos extraconjugais era herdada de seus pais machos que tinham traído suas parceiras, e esta predisposição para a infidelidade da fêmea vem de uma base genética moderada, mas evolutivamente crucial, uma vez que estes “genes da infidelidade” são passados de pai para filha.

O fato é que vivemos em sociedade e isso requer formação de regras para que o convívio seja aceitável. Mas sempre existirá quem quebre estas regras, até mesmo no mundo dos animais não humanos e, para todos os “quebradores de regras”, haverá uma punição que também será definida pela sociedade ou pelo grupo de convivência.

Que a infidelidade é natural, isso já entendemos. A pergunta é: estou disposto a quebrar as regrar e abrir mão do bom convívio dentro do meu grupo ou sociedade para a minha satisfação pessoal?

Nós como futuras biólogas acreditamos que a infidelidade ainda é presente por que de algum modo, seja ele inconsciente ou consciente, traz uma vantagem evolutiva, e essa estratégia de alguma forma ainda é expressa de modo comportamental até hoje. E esse comportamento se repete várias vezes, como exemplifica a  música “Infiel”:

“Agora ela vai fazer o meu papel

Daqui um tempo você vai se acostumar

E ai vai ser a ela que vai enganar

Você não vai mudar....”

 

 

O Presente ensaio foi realizados para disciplina de Etologia tendo como base as obras:

 

Ashley Madison - A vida é curta. Curta um caso. Disponível em: <https://www.ashleymadison.com/>. Acesso em: 30 abr. 2018.

BBC – Brasil. Genes influenciam propensão à infidelidade, diz estudo. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.


Bravo. Este doutor diz que a monogamia está morta, as pessoas precisam ser honestas sobre ter assuntos. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.

Forstmeier W., Martin, K., Bolund E., Schielzeth H. and Kempenaers B. (2011). Female extrapair mating behavior can evolve via indirect selection on males. Department Behavioural Ecology and Evolutionary Genetics, The Max Planck Institute for Ornithology, D-82319 Seewiesen, Germany. Acesso em: 30 abr. 2018.

O site brasileiro de telefonia. Ei infiel: Brasil só perde para os Estados Unidos em número de usuários no Ashley Madison. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.

PEPSIC – Periódicos Eletrônicos em Psicologia. Infidelidade: uma revisão integrativa de publicações nacionais. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.

PSICONLINEWS. O que é infidelidade? Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.

Porta Educação. Redes sociais, relacionamentos x infidelidade. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.

Terra. Ciência pode explicar por que homens e mulheres traem. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.


Wikipédia – A Enciclopédia Online. Ashley Madison. Disponível em: . Acesso em: 30 abr. 2018.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Biofilia como princípio ético


Série Ensaios: Bioética Ambiental

Por Robiran dos Santos Jr

Professor de ciências e Biologia e mestrando em Bioética

 


“No dia mundial da água (22/03) crianças da Escola Municipal São Cristóvão – Umuarama/ PR, realizaram atividades para a sensibilização dos pais, colegas e comunidade escolar sobre o consumo consciente e a preservação das águas. Para comemorar o dia mundial da água, os alunos realizaram atividades diferenciadas ao longo da semana, tudo isso para lembrar da importância da preservação da água em nosso planeta.”

Não é de hoje que temos observado e falado que o mundo segue em direção a um colapso ambiental, que já tem afetado as condições de vida e saúde da população em todo o mundo.  Só na esfera hídrica, por exemplo, o Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento de Recursos Hídricos em 2015, prevê que o consumo de água nas últimas décadas, cresceu duas vezes mais do que a população e a estimativa é que a demanda cresça ainda 55% até 2050. Assim, mantendo os atuais padrões de consumo, em 2030 o planeta enfrentará um déficit no abastecimento de água de 40% (UNESCO, 2015).

Não obstante, o crescimento populacional humano está estimado em 80 milhões de pessoas por ano, tendo como estimativa de chegar a 9,1 bilhões de habitantes em 2050, sendo 6,3 bilhões em áreas urbanas. A expectativa é que consequentemente esse crescimento gerará um impacto na agricultura, que deverá produzir 60% a mais no mundo e 100% a mais nos países em desenvolvimento até 2050 (UNESCO, 2015).

Obviamente que essas questões geram consequências como a destruição de mais florestas e a extinção de mais seres vivos pela ausência de seus refúgios naturais. Segundo dados do INPE – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, a taxa de desmatamento da Amazônia legal cresce gradativamente ano após ano, chegando a marca 7.893 km2 em 2016, a maior dos últimos 8 anos, representando um aumento de 21% em relação a 2015.

A destruição dos ecossistemas naturais e o aumento da poluição têm levado também ao surgimento de novas doenças e a decadência da vida em toda a sua pluralidade. Tudo em nome de um dito “desenvolvimento”, livre de qualquer julgamento ético ou moral. Mas então diante desse cenário caótico, o que podemos ou devemos fazer? Será que falta informação à população ou aos governantes sobre o rumo das nossas ações?
Desde os anos 60, documentos oficiais vêm sendo produzidos sobre esta temática, relatórios e tratados internacionais com a intensão de instruir ou orientar o mundo em relação às práticas ambientais, destacando–se principalmente a Declaração da ONU sobre o ambiente humano em 1972, a Carta de Belgrado em 1975, a Conferencia intergovernamental de Educação Ambiental em 1977 e o Relatório de Brundtland em 1987, e na esfera nacional o Código florestal em 1965, a Política Nacional de Meio Ambiente em 1981, a constituição Federal em 1988 e a Lei de Educação Ambiental em 1999.
       Há mais de 40 anos esses documentos vêm tencionando as reflexões sobre o tema do meio ambiente e a Educação ambiental mundialmente, no entanto, como vimos anteriormente, as estimativas frente à forma de interação humana com o meio natural são desastrosas. Utilizando ainda o motor de busca “google.com” com os descritores “Educação Ambiental” encontramos 3.400.000 resultados, aos quais dos 100 primeiro elencados pelo buscador, 70 resultados de alguma forma tentam instruir o interlocutor sobre as demandas das problemáticas ambientais.
                Então será mesmo que o problema está na falta de informação, no método de conduzir o interlocutor à questão da educação ambiental? Ou será que o problema é mais profundo, talvez em relação à concepção dos princípios que alicerçam os esforços em prol da causa ambiental.
Realizando uma análise crítica, logo percebemos que por vezes nos textos informacionais destacam-se as necessidades humanas e um paradigma categoricamente antropocêntrico na sua essência. De como devemos preservar nossas florestas, para que a nossa vida não seja prejudicada, ou como devemos repensar o nosso consumo da água, para que nós não tenhamos falta dela no futuro.
Será esse mesmo o caminho? Será que o caminho para sensibilização humana sobre o ato de cortar ou não cortar uma árvore em risco de extinção, perpassa apenas por considerar as necessidades humanas em detrimento a valoração de outras formas de vida?
E Afinal, as outras formas de vida deste planeta são intrinsecamente valorosas? O próprio termo “Recursos naturais” sugere uma visão utilitarista de propriedade, como se a natureza fosse um bem, ou patrimônio para nosso uso, o qual devemos explorar racionadamente de modo a não dar falta para as gerações futuras. Essa ideia famigeradamente antropocêntrica descarta quase que por completo o entendimento que a natureza é um ciclo de relações complexas interdependentes ao qual fazemos parte, como um dos elos nessa gama de inter-relações.

Seguindo essa linha de raciocínio Ferreira e Bomfim (2010) afirmam que:

“O antropocentrismo como concepção dualista do mundo funda-se na suposta separação real e objetiva entre o homem e natureza, corpo e mente. Essa separação ocorre a partir de Sócrates (470/469 a.C.) que ao elaborar uma teoria do conhecimento centrou sua reflexão na crença de um homem portador de um projeto racionalista capaz de subjugar calculadamente a natureza entendida como fenômeno irracional, fato que se consolidou no decorrer dos tempos pelo fortalecimento cultural da ideia de superioridade humana.” (FERREIRA & BOMFIM, 2010)

 

Ainda sobre o assunto as autoras discorrem que seria necessária uma mudança de paradigma, de modo a resgatar o ser humano como ser vivente que se identifica com tudo aquilo que está vivo. E que a interação com a natureza poderia ser um caminho de resgate do espaço ambiental e de resgate da sensibilidade para com a vida (FERREIRA & BOMFIM, 2010).
Ao fundamentar uma concepção antropocêntrica em que apenas a vida humana e seus interesses são valorizados em detrimento de outras formas de vida, poder-se-ia supor que essa abordagem deixaria em segundo plano a apropriação de estímulos fundamentais para o desenvolvimento de uma verdadeira consciência ambiental, que considerasse genuinamente o bem-estar de outros seres vivos.
Seguindo essa linha reflexiva poderíamos ainda indagar: que princípio poderia então fundamentar o amadurecimento de uma consciência ambiental que não considerasse apenas os interesses humanos?
Nesse sentido, em 1984 o Biólogo norte americano Edward O. Wilson apresentou ao mundo uma ideia que revolucionaria a compreensão da interação entre o homem e a natureza, a Biofilia. Segundo Wilson a Biofilia se descreveria como uma tendência inata do ser humano em se relacionar com outras espécies. Isso se justificaria em que nos últimos milhares de anos a espécie humana tem co-evoluido nesse sistema complexo de relações interespecíficas, chamado natureza (WILSON, 1984).

Segundo o autor cada ser vivo desse planeta corresponde a uma pequena parte de uma rede intrincada de correlações interdependentes altamente especializadas, que foi construída após milhares de anos de seleção natural e co-evolução. O ser humano é parte integrante desse longo processo e as marcas dele estão vividamente impregnadas em seu corpo, mente e espírito, como regras epigenéticas do desenvolvimento (WILSON, 1993).

                Wilson em seu livro Biophilia: The human bond with other species (1984) afirma que:

“afiliar-se com a vida é um processo no desenvolvimento mental profundo e complicado. Em uma dimensão ainda substimada na filosofia e na religião, no entanto a nossa existência depende dessa propensão, nosso espírito esta tecido nela e a esperança surge em suas correntes” (WILSON, 1984).

                A Biofilia poderia ser definida como uma tendência inata de focar-se na vida e nos processos que envolvem a vida e a natureza. Ela surgiria como resultado da interação com outros organismos durante muitos ciclos de vida, influenciando diretamente na saúde mental, emocional e física do homem.    
A valoração social de parques, zoológicos, jardins botânicos, rios, lagos e paisagens naturais, encontrariam explicação nesta hipótese, uma vez que trazem a sensação de paz e tranquilidade. De igual forma, através da biofilia é possível entender porque algumas pessoas arriscam suas vidas para salvar animais domésticos ou selvagens, ou se dedicam tanto ao cultivo de jardins em suas residências (WILSON, 1993).
No entanto, apesar da tendência genética a essa afinidade, a biofilia depende de estímulos para que essa conexão persista. As experiências pessoais, sociais e culturais de um indivíduo, desde a primeira infância, são capazes de determinar suas perspectivas com o meio natural e sua interação com o mesmo. Nesse sentido, observa-se a necessidade de proporcionar o contato com a natureza, atividades que garantam experiências concretas a fim de estimular o desenvolvimento inato da biofilia.

Com o avanço exponencial da civilização, a instrumentalização e a constante transformação do seu meio através da mecanização e da revolução tecnológica, o ser humano isolou-se cirurgicamente das paisagens naturais e da grande maioria dos organismos que a compunham, conduzindo-o as problemáticas ambientais e à um declínio da qualidade de vida (OLIVEIRA, 2002).

                Assim o presente ensaio apresenta a proposição da concepção intrínseca da biofilia como princípio ético, que deveria fundamentar a educação ambiental. Uma vez que os comportamento ditos pro-ambientais que visam apenas satisfazer as necessidades humanas não são capazes conduzir a sensibilização com outras formas de vida, processo fundamental para apropriação de uma consciência ecológica genuína.

                O filósofo Arne Naess em 1973 também introduziu o conceito da “Ecologia Profunda”, afirmando que o ambiente não deva ser preservado apenas em virtude da importância do ser humano. Naess reforçou a tese de que o ser humano é parte integrante e interdependente da biosfera, que deveria objetivar a convivência harmônica com outras espécies e que toda a natureza possui um valor intrínseco (NAESS, 1973)

Corroborando com este posicionamento, Albert Schweitzer, filósofo,  alemão, laureado em 1952 com o Prêmio Nobel da Paz, afirmou que um homem só seria realmente ético, quando obedecesse ao dever que lhe é imposto de ajudar toda a vida que fosse capaz de ajudar e se dar ao trabalho de impedir que se causem danos a todas as coisas vivas. Segundo Schweitzer (1987), “Ele não pergunta se esta ou aquela vida é digna de solidariedade enquanto dotada de valor intrínseco, nem até que ponto ela é capaz de sentimentos. Para ele, a vida é sagrada enquanto tal”.

Eu como biólogo, professor e futuro bioeticista acredito que a formação da moralidade ambiental é algo que deve ser estimulado para que ocorra. Resgatar a interação direta com a natureza aparenta ser uma ferramenta fundamental de identificação e sensibilização com a vida. A Hipótese da Biofilia de EO Wilson corrobora com essa preposição uma vez que aponta para uma tendência inata do ser humano de se relacionar com outras espécies de seres vivos, influenciando diretamente na sua saúde mental, emocional e física. Acredito que para a construção de um verdadeiro cidadão ecológico, consciente de seus direitos e deveres em relação ao meio ambiente, talvez seja necessário olhar por um novo paradigma filosófico, que possa compreender a Biofilia como um princípio ético a ser considerado.

 
Este ensaio foi elaborado para o grupo de pesquisa em Bioética Ambiental da PUC PR, baseando nas obras:

WWAP (United Nations World Water Assessment Programme). Relatório mundial das Nações Unidas sobre desenvolvimento dos recursos hídricos 2015: Água para um mundo sustentável. Itália, UNESCO, 2015".
http://www.inpe.br/ acesso em 14/03/2018 ás 21hrs
http://www.mma.gov.br/ acesso em 14/03/2018 ás 21hrs
FERREIRA, F. ; BOMFIM, Z. A. C. . Sustentabilidade Ambiental: visão antropocêntrica ou biocêntrica?. Ambientalmente sustentable , v. 1, p. 37-51, 2010.
WILSON, E. O. (1984). Biophilia. Cambridge: Harvard University Press.
WILSON, E. O. (1993) Biophilia and the Conservation Ethic. In: Kellert S. a Wilson E.O. (eds.): The Biophilia  Hypothesis. Shearwater Books, Washington, D.C., pp.31–40.
OLIVEIRA, G. B. Uma discussão sobre o conceito de desenvolvimento. Revista da FAE, Curitiba, v.5, n.2, p.41-48, maio/ago. 2002.
Naess, Arne. 1973. ‘‘The Shallow and the Deep, Long-Range Ecology Movement: A Summary.’’ Inquiry: An Interdisciplinary Journal of Philosophy and the Social Sciences 16: 95–100.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Animais exóticos de estimação: O "barato" pode sair caro.


Série Ensaios: Ética no Uso Animal e Bem-estar-animal

 

Por Henrique Trigo

Graduando do curso de Biologia

 

Mais de 50 animais exóticos foram aprendidos em apartamento no Centro de Curitiba, segundo as investigações os animais seriam vendidos pela internet e se encontravam em péssimo estado de higiene, disse o superintendente do Ibama no Paraná, Júlio César Gonchoroskya.



Se existem pessoas que vendem esses animais, certamente existem outras que compram! O que torna esse comércio quase sempre ilegal e super lucrativo. A maior parte dos animais exóticos vendidos possuem permissão para o comércio, desde que legalizados, como é o caso de muitos cágados, aves e roedores, em contrapartida, as espécies mais lucrativas são as silvestres. Segundo o Artigo 29 da Lei nº 9.605 de 12 de Fevereiro de 1998 da Lei Ambiental Brasileira é crime a caça, o comércio ou qualquer alteração na fauna silvestre sem as devidas autorizações. Mas se a Lei é tão clara, por que as pessoas adquirem animais exóticos?

Certamente durante a infância ou até mesmo na vida adulta, você já ficou maravilhado com as diversas cores, formas e tamanhos dos animais, seja em zoológicos, parques, circos ou andando por uma trilha. Talvez você já tenha entrado em um pet shop e encontrou uma gigante variedade de espécies exóticas, e ficou com desejo de comprar alguma delas um dia. Isso é extremamente normal! Animais são além de uma conexão com a natureza, uma relação evolutiva com nós mesmos, e muitas vezes vemos neles um pedaço que falta em nossas vidas.

Muito se especula sobre as razões pela qual as pessoas adquirem pets, se olharmos para a história, os cães foram domesticados ao longo de séculos para ajudar na caça, por possuírem um olfato aperfeiçoado e serem mais rápidos. Os gatos no Egito antigo eram utilizados como objeto de cultos além de serem bons caçadores de ratos, já as aves são apreciadas pela sua beleza e canto. Esses animais, principalmente os cães e gatos já fazem parte da vida humana, estão evoluindo cada vez mais próximos do homem e cada vez mais perdendo a sua naturalidade. E os outros animais que são utilizados em grande proporção como pets, os exóticos, ainda não possuem essa evolução em paralelo direto com o homem, é possível salva-los?

Se olharmos pelo mundo veremos que o elefante-asiático (Elephas maximus) e principalmente a subespécie indiana Elephas maximus indicus é um animal que está presente há séculos na cultura e religião (Imagem 3) de diversos povos da Ásia. São considerados patrimônio ambiental desses países e presentes no cotidiano da população, servindo muitas vezes como pet exótico. Olhando do ponto de vista da preservação, os elefantes passam a se tornar mais protegidos vivendo próximos de pessoas apegadas religiosamente a eles. Mas, se culturalmente em países como a Índia os animais exóticos estão presentes socialmente por motivos religiosos ou culturais, em outros cantos do mundo esses animais são adquiridos pelo homem apenas por satisfação pessoal. A humanidade já se alimenta das formas de vida, à comercializa, escraviza, ou seja, acaba com as mais belas formas da vida, então qual o problema em adquirir só mais uma vida? "Eu sou uma pessoa ética, alimentarei e cuidarei do meu camaleão", "Eu não vivo sem o canto da minha ave exótica", "Antes comigo, do que com alguém que maltrate a minha tartaruga", esses são alguns dos vários argumentos que são utilizados para se adquirir uma espécie exótica.

Mas e as consequências, você é capaz de lidar com elas? Ao ir em um pet shop e comprar um animal exótico, o vendedor te dará algumas informações básicas sobre alimentação, cuidados e de onde o animal deve viver. Os primeiros dias parecem fáceis, mas com o tempo o animal vai crescendo e não cabe mais no aquário, gaiola ou terrário em que se encontra, e um maior custa muito além do orçamento. Os hábitos alimentares passam a mudar, a ração terá que ser a partir de agora importada, segundo o veterinário. Ah sim! O veterinário... "Nossa havia esquecido do veterinário", frase muito comum! É muito difícil perceber quando animais exóticos estão doentes, resta leva-los periodicamente a clínica veterinária, mas é uma espécie exótica, apenas um local na cidade tem esse atendimento e ele acaba sendo muito caro. Anos se passaram e se tornou impossível manter o animal "ele ficou muito grande", "gasta demais com comida", "não há tempo para cuidar do animal", entre outras coisas. Isso tudo deveria ser analisado antes de adquirir o animal. As consequências para a vida desse animal serão muitas: ser vendido, abandonando próximo de um zoológico ou de um local qualquer, e até mesmo a morte.

Se um animal desses que foi comprado de forma lícita pode acabar assim, imagine o fim de uma espécie exótica comprada ilegalmente, que provavelmente nunca visitou um veterinário especializado pelo medo dos donos de serem descobertos e nunca recebeu uma alimentação correta e de qualidade, devido a falta de informações fornecidas pelos traficantes. Além de todos os cuidados, esses animais podem não ser seguros, eles podem atacar a qualquer momento, existem casos de cobras que mataram asfixiados seus donos, além de transmitir doenças.

A domesticação de animais exóticos deve ser analisada do ponto de vista da Bioética, sabendo que ali reside uma vida, que deve ser preservada de qualquer mal, segundo o princípio da não-maleficência: "...não fazer mal a qualquer entidade natural ambiental que tenha um bem a seu próprio modo. Isso inclui não matar um indivíduo animal ou planta, não destruir espécies ou comunidades bióticas nem fazer algo que as prive das condições necessárias a seu bem específico".

Eu como estudante de bacharelado na área de Ciências Biológicas, acredito que os motivos para se adquirir um animal exótico são muitos, deve-se informar que nem tudo é o que parece. Muitas vezes os vendedores dizem que é fácil cuidar de um bichinho, pois estão interessados no lucro por trás daquela vida, e as pessoas acabam sendo alienadas pelo status social de possuir algo raro e acabam comprando. Deve-se tomar cuidado para não se adquirir por impulso um animal e lembrar que não é fácil cuidar, dar atenção, alimentação adequada, habitat adequado, e encontrar veterinários adequados. Se você está disposto a adquirir qualquer animal, seja ele exótico ou não, saiba que é um ser vivo que está ali, um galho de uma imensa árvore evolutiva que há muito tempo nos privilegia com o incrível e magnífico mistério da vida. 

O presente ensaio foi elaborado para o estágio de Ética Animal do NEC (Núcleo de Estudos Comportamentais) da PUCPR, baseando-se nas seguintes obras:

















segunda-feira, 19 de março de 2018

Algumas ideias sobre a complexa conexão entre consumo e vulnerabilidade

Série Ensaios: Bioética Ambiental

Por Ronaldo Lobo Gonçalves
Engenheiro Civil e Mestrando em Bioética PUCPR



ONG pede que Grande SP pague por poluição do Rio Tietê no interior - Poluição no rio Tietê causada por depósitos de produtos derivados do consumo humano (veja aqui


            Nesse ensaio procuraremos mostrar algumas relações introdutórias na complexa conexão entre consumo e vulnerabilidade. O ser humano é um agente moral na complexidade das relações sociais e ambientais. Como agente ativo afeta todas as interações com outros seres humanos e com o meio ambiente. Por outro lado, o ser humano é afetado pelas ações, atitudes ou falta de atitudes de outros seres humanos, das instituições sociais constituídas pelos agrupamentos sociais, bem como pelos efeitos dos fluxos dos ciclos dinâmicos da natureza (sem intervenção humana) ou das reações da natureza às alterações nessa dinâmica natural provocadas por ações humanas.
            Os seres humanos são diferentes nos seus interesses, nas suas capacidades pessoais de assimilar, de reagir, de enfrentar, quando afetados pelas demandas de outros seres humanos e da natureza. Nesse sentido são seres vulneráveis em diferentes graus. Podemos, em geral, considerar essa vulnerabilidade em duas dimensões:

- Vulnerabilidade primária: aquela que decorre da dimensão antropológica da existência humana. A vida é frágil. O ser humano, na constituição biológica, está predisposto à perturbações diversas, orgânicas, inclusive à morte.

- Vulnerabilidade secundária: decorrente da dimensão cultural e contingências da existência humana. Onde é afetado por circunstâncias desfavoráveis, adversas, como: pobreza, falta de recursos mínimos à sua sobrevivência, falta de educação, dificuldades geográficas, doenças crônicas, e outras.

            Na complexidade dessas relações talvez se possa incluir a questão do consumo na medida em que é uma necessidade natural para suprir a sobrevivência orgânica do ser humano, bem como um produto cultural ampliado pelo desenvolvimento do comércio, da revolução industrial, conhecimento científico-tecnológico e dos meios de comunicação e propaganda.

            O ser humano é afetado pela escassez de água e alimentos (vide reportagem 2 abaixo) e essa falta de um consumo mínimo acarreta graves consequências para sua saúde e sobrevivência. Por outro lado, o excesso de consumo, sensibilizado pelo excesso de produção e indução ao consumo, também pode afetar a sua saúde, ampliar as desigualdades sociais e acarretar prejuízos à natureza, tanto pelos meios de produção que são utilizados atualmente, acarretando poluição ao meio ambiente (vide reportagem 1, como pelo uso acelerado de recursos naturais não renováveis e o desmatamento de florestas e áreas de reservas naturais para a exploração agropecuária e madeireira.

            A visão da natureza não é mais de uma fonte inesgotável de recursos e que não pode ser afetada pela ação humana, mas ao contrário, pela escala que o ser humano alcançou culturalmente, pode afetar significativamente o fluxo dinâmico da natureza. Assim, a vulnerabilidade da natureza, deve ser incluída cada vez mais nas reflexões, discussões a respeito das ações humanas sobre a vida animal, vegetal e sobre os demais integrantes da natureza como os minerais, a água, o ar.

            Como se observa no ensaio acima, as relações dos agentes morais são bidirecionais, complexas, afetam e são afetados pelo consumo, e em cada contexto, dentro do princípio da vulnerabilidade. Na figura abaixo indicamos esquematicamente as relações propostas acima:


            Eu como engenheiro e futuro bioeticista acredito que o consumo consciente é a chave para equilibrar essa ação prática humana e o princípio da vulnerabilidade. Ou seja, é possível consumir buscando a sustentação básica da vida e o conforto social. A natureza é mentora. A principal fonte de conhecimento e recursos necessários à nossa sobrevivência e bem-estar. Nós temos um dever para com a natureza e os outros seres humanos, portanto uma obrigação moral. Quanto mais compreendermos e nos conscientizarmos dessa conexão e interdependência entre o ser humano e a natureza, mais harmônica será a prática do consumo. Quanto compreendermos nosso pertencimento à humanidade, maior a nossa consciência planetária. Alcançar esse estágio, passa pela educação, não de apenas decorar dados, conceitos e definições, mas uma educação que promova a reflexão crítica e que sensibilize ao agir consciente. A bioética ambiental, nesse sentido tem uma grande contribuição a fazer.   

  O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Bioética Ambiental do programa PPGB, tendo como base nas obras:

FISCHER, Marta Luciane, SGANZERLA, Anor, CUNHA, Thiago, SANTOS, Juliana Zacarkin dos, RENK, Valquíria. Da ética ambiental à bioética ambiental: antecedentes, trajetórias e perspectivas.  Revista História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de janeiro. V. 24. N.2, abr.-jun. 2017, p.391-409. Acesso em: 24 set 2017.

 SGANZERLA, Anor, ROSANELI, Caroline Filla, CINI, Ricardo de Amorim. Categorização dos sujeitos em condição de vulnerabilidade: uma revisão na perspectiva da bioética. Revista Iberoamericana de Bioética, nº 05, p.01-16, 2017. Acesso em: 09 nov 2017.



SGANZERLA, Anor. SCHRAMM. Fermin Roland. Fundamentos da Bioética: Série Bioética. Vol.3. Curitiba: Editora CRV, 2016

SANCHES, Mario Antonio; GUBERT, Ida Cristina (Org.). Bioética e Vulnerabilidades. Curitiba: Editora UFPR, 2012.

O Princípio Do Comunitarismo Na Gestão Da Crise Hídrica


Série Ensaios: Bioética Ambiental

Por Mario Sergio Cunha Alencastro

Engenheiro com doutorado em Meio Ambiente e Desenvolvimento


            O relatório “Água para um Mundo Sustentável” divulgado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015, alerta para o fato de que cerca de 30 países enfrentarão crises hídricas de alto risco nos próximos anos e que as reservas hídricas do mundo podem encolher 40% até 2030. O estudo, cujos dados foram obtidos a partir de medidas de demanda e a disponibilidade de água em 167 países, apresenta evidências de que aproximadamente um bilhão de cidadãos no mundo não têm acesso a um abastecimento adequado de água (que seria de pelo menos 20 litros diários a uma distância de até um quilômetro). O relatório apresenta outros dados alarmantes: 1,2 bilhão de pessoas (35% da população mundial) não têm acesso a água tratada; 1,8 bilhão (43% da população) não contam com serviços adequados de saneamento básico; 10 milhões de pessoas morrem anualmente em decorrência de doenças intestinais transmitidas por água insalubre.



As mudanças climáticas, por conta da alteração das estações de chuva, aumento de temperatura e as secas prolongadas, que comprometem o ciclo hidrológico e a consequente recarga dos aquíferos, contribuem em muito para a crise hídrica que afeta o planeta como um todo. Entretanto, há de se ressaltar que o consumo crescente de água, a poluição e degradação das reservas hídricas, bem como a ausência de infraestruturas básicas, são fatores determinantes no processo.

Um detalhe interessante é a constatação de que a crise hídrica chega a ser problema mesmo em países ou localidades do mundo que apresentam certa disponibilidade de água. Isso acontece por questões econômicas, sobretudo em países periféricos, onde os problemas relativos à falta de recursos afetam os investimentos em sistemas de captação, armazenamento e distribuição da água para a população e atividades produtivas. O Brasil não foge à regra.


No que tange ao consumo, de acordo com Machado e Torres (2012), o uso agrícola é responsável por 70,1% do consumo dos recursos hídricos no país, cabendo ao uso industrial 20%. Sobra apenas 9,9% para o abastecimento doméstico. É evidente então que os maiores consumidores dos recursos disponíveis são os setores e atividades ligadas ao agronegócio.

Além disso, segundo o relatório da ONU já citado, o Brasil está entre os países que mais registraram impacto ambiental após alterar o curso natural de rios. As mudanças nos fluxos naturais foram feitas para a construção de represas ou usinas hidrelétricas. Entre as consequências dos desvios, estão uma maior degradação dos ecossistemas, com aumento do número de espécies invasoras, além do risco de assoreamento.

Ainda em relação ao agronegócio cabe ressaltar alguns pontos importantes, tais como apresentados pelo engenheiro agrônomo Osvaldo Aly Junior (2017) num artigo muito sugestivo publicado no jornal “Le Monde Diplomatic”. Segundo o autor, ao se analisar, por exemplo, o aumento no volume das exportações brasileiras de soja, carne e açúcar, deve-se considerar o aumento do volume de água embutido nessa produção e seus impactos ambientais. Estima-se que entre 1997 e 2005, o volume de água empregado na produção e exportação apenas nesses três produtos saltou de 27,1 bilhões de litros para 460,1 bilhões de litros.

Aly Junior, chama a atenção para o fato de que o avanço do desmatamento da Amazônia, a pressão agroexportadora e as mudanças climáticas colocam em risco essas vantagens comparativas naturais, já que a previsão é o aumento de períodos maiores de seca e crise hídrica para nossa população. Esse quadro elevará a demanda das águas superficiais e subterrâneas e poderá afetar a vida dos rios perenes e dos ecossistemas, já que são as águas subterrâneas que perenizam o leito dos rios e são exploradas quase sem controle pelos órgãos estaduais.

Diante de situações como estas é forçoso concluir que é preciso melhorar a gestão da água a fim de garantir sua perenidade e qualidade para qualidade de vida da população mundial. Nesse sentido, é comum, quando se aborda a questão da crise hídrica, canalizar as iniciativas para as ações individuais. Campanhas são promovidas pelos governos e veiculadas na grande mídia no sentido de que cabe ao cidadão poupar água, devendo adotar atitudes ambientalmente corretas. Todos precisam ser econômicos no uso dos recursos disponíveis, a partir de hábitos frugais de higiene pessoal, na limpeza da casa, na irrigação de hortas e jardins, etc. Em casos extremos os governos locais apelam para o rodízio e/ou racionamento de água.  Campanhas educativas são desenvolvidas e até inovações como o aproveitamento de água da chuva e reutilização de águas usadas são incentivadas. Tudo isso é muito importante, mas será que resolve o problema? Provavelmente não.

A gestão dos recursos hídricos deve ser vetor para o desenvolvimento socioeconômico e redução da pobreza e deve acontecer em sintonia com os interesses das comunidades envolvidas. Mas como fazê-lo? Talvez algumas orientações possam ser prospectadas à luz Princípio do Comunitarismo.

Surgido na década de 1980, o Comunitarismo é um conceito político, moral e social que se contrapõe a determinados aspectos do individualismo e em defesa dos fenômenos como a sociedade civil. Para os comunitaristas, a comunidade precisa ser respeitada e protegida e, para tanto, é necessário prestar atenção às práticas e valores compartilhados dentro de cada sociedade.

Segundo Amitai Etzioni (1973), no Comunitarismo, há sempre a necessidade de se tentar o equilíbrio entre direitos e responsabilidades, e entre autonomia e ordem para a manutenção de uma boa sociedade. Reconhece então que os indivíduos são afetados simultaneamente por forças antagônicas: de um lado, as necessidades individuais; do outro a dimensão social da existência humana. A preservação da liberdade individual depende da manutenção ativa de instituições da sociedade civil onde os indivíduos possam adquirir um senso de responsabilidade, tanto pessoal quanto cívica e coletiva. Ou seja, o equilíbrio entre os direitos comunitários e individuais é o ponto de partida para a discussão de questões de natureza ética.

Desta feita, o princípio do “bem comum” é um elemento central no Comunitarismo. Em outras palavras, os indivíduos, embora mantendo a sua livre vontade, vivem em comunidade compartilhando valores e conceitos comuns, abrindo mão de se orientar exclusivamente pelo seu próprio interesse, fazendo prevalecer a necessidade da predominância do todo sobre as partes, ou seja, das comunidades e sociedades sobre os indivíduos. Nesta perspectiva, uma pré-condição necessária à liberdade e aos direitos é a partilha de valores comuns no interior de uma determinada sociedade (Donlevy, 2008; Etzioni, 1995).

            Antonio Argandoña (1998) sugere que, aplicado a situações práticas, o Princípio do Bem Comum trazido pelo Comunitarismo serve como fundamento ético para que os vários stakeholders (as partes interessadas) contribuam para o bem da comunidade que integram, mas também para que recebam os frutos da sua contribuição. No caso da gestão dos recursos hídricos, o envolvimento comunitário aconteceria por meio de debates públicos, ações de conscientização, criação de fóruns de discussão, pareceres de especialistas, dentre outros.

A gestão consensual e comunitária dos recursos hídricos, pode ser exemplificada pelos Comitês de Bacia Hidrográfica (CBH). Em atividade desde 1988, são organismos colegiados que fazem parte do Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos.  Possuem uma composição diversificada e democrática que permite que todos setores da sociedade com interesse sobre a água na bacia tenham representação e poder de decisão sobre sua gestão. Os membros que integram o colegiado dos comitês são escolhidos entre seus pares, sejam eles dos diversos setores usuários de água, das organizações da sociedade civil ou dos poderes públicos.

O contato com a bioética me fez perceber que as soluções técnicas per si não são capazes de fazer frente à crise hídrica, visto que envolvem questões complexas de natureza social, econômica, política e ética. Tudo isso implica num amplo diálogo com a sociedade no sentido da busca das melhores alternativas que, via de regra não podem ser desenhadas nas pranchetas dos engenheiros. Em outras palavras, os interesses coletivos devem ser um elemento decisivo na gestão dos recursos hídricos.


O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Bioética Ambiental, tendo como base as obras:


ALY JUNIOR, Osvaldo. Mercantilização na natureza. Água e agronegócio: uma relação a ser mais bem examinada  – Le Monde Diplomatic - 2 de junho de 2017. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2018.

ARGANDOÑA, Antonio. Journal of Business Ethics (1998) 17: 1093. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2018.

COMITÊ DE BACIAS HIDROGRÁFICAS - CBH. Disponível em: . Acesso em: 26 fev. 2018.

DONLEVY, J.K. The Common Good: The Inclusion of non-Catholic Students in Catholic Schools. Journal of Beliefs & Values. (2008). p. 161- 171. Disponível em: Acesso em: 26 fev. 2018.

ETZIONI, A. (1995) The Attack on Communiy – The Grooved Debate. “Society” (Julho/Agosto 1995). Disponível em: < https://www2.gwu.edu/~ccps/etzioni/A239.html>. Acesso em: 26 fev. 2018.

ETZIONI, A. A Communitarian note on stakeholder theory. Business Ethics Quarterly, [S.l.], v.8, n.4, p.679-91, 1998. Disponível em: Acesso em: 26 fev. 2018.

ETZIONI, A. Organizações Modernas. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1973.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS - ONUBR – Nações Unidas Brasil. Até 2030 planeta pode enfrentar déficit de água de até 40%, alerta relatório da ONU. Disponível em: . Acesso em: 20 fev. 2018.