quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O destino de Sandro: uma nova esperança?

 por  Laíssa Mirella Mendes Mariano de Lara, Rebecca kempis e Jean Carlos Scuissiato

 Formandos de Biologia 

 


Alguns casos envolvendo animais mantidos sob domínio humano chamam atenção justamente porque nos obrigam a questionar situações que, durante muito tempo, foram consideradas aceitáveis O caso do elefante Sandro de 54 anos é um desses exemplos. Depois de mais de 40 anos vivendo no Zoológico Municipal Quinzinho de Barros, em Sorocaba (SP), onde foi encaminhado após ser resgatado de um circo, Sandro foi transferido, em setembro de 2026, para o Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães (MT) , após uma disputa judicial envolvendo o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Prefeitura de Sorocaba. A solicitação da transferência do animal teve início em 2022, quando o MPSP começou a investigar as condições de vida do indivíduo, que após inúmeras recorrências da prefeitura de Sorocaba, foi executada somente em 2025 sob a alegação da perícia que apontou a presença de cerca elétrica no recinto do animal e ausência de exames de saúde atualizados, além da autuação do IBAMA de maus tratos, pautada na Lei 9.605/1998.  Porém, essa resolução não agradou a todos, sendo marcada pelo descontentamento de parte da população da cidade de Sorocaba, mobilizando protestos no dia da transferência, durante os quais a Polícia Militar utilizou spray de pimenta para dispersar os manifestantes. As preocupações com o bem-estar de Sandro estavam relacionadas às restrições ambientais e comportamentais impostas pelo cativeiro. Embora recebesse alimentação, água, acompanhamento e atividades de enriquecimento ambiental, as condições do
recinto eram questionadas diante do porte e das necessidades ecológicas da espécie. Elefantes são animais com elevada capacidade de senciência, que estabelecem vínculos sociais, comunicam-se e percorrem longas distâncias. A morte da elefanta Haisa, sua companheira de recinto por 25 anos, em 2020, intensificou as preocupações sobre o isolamento de Sandro e a ausência de interações com outros indivíduos da mesma espécie. Essas condições podem ser analisadas à luz das Cinco Liberdades, especialmente a liberdade para expressar comportamentos naturais, que pressupõe oportunidades ambientais e sociais compatíveis com as necessidades do animal. A restrição dessas oportunidades pode comprometer seu bem-estar, mesmo quando suas necessidades básicas de alimentação e saúde são atendidas.  
A discussão sobre a transferência ganhou repercussão nas redes, com manifestações de influenciadores digitais, como o Biólogo Henrique e Yago Stephano. Enquanto parte do público defendia a permanência de Sandro no zoológico, considerando os vínculos afetivos estabelecidos ao longo de décadas e os riscos de uma viagem prolongada na idade avançada, outros argumentam que a transferência poderia proporcionar melhores condições ambientais, maior liberdade de movimento e oportunidades de interação. A preocupação com os riscos também se relacionava ao histórico de elefantes transferidos para o mesmo santuário que morreram pouco tempo depois da chegada. Ramba morreu cerca de dois meses após sua chegada, em 2019, em decorrência de uma doença renal crônica que já havia sido diagnosticada anos antes, enquanto Pocha morreu aproximadamente cinco meses após a transferência, em 2022, também apresentando comprometimento renal grave associado a uma infecção por Mycobacterium tuberculosis. Guida, por sua vez, permaneceu no santuário por quase três anos antes de morrer, em 2019. Embora esses casos não comprovem que as transferências tenham causado os óbitos, evidenciam a necessidade de avaliar os riscos envolvidos, especialmente em animais idosos e com condições de saúde preexistentes.  
A transferência de Sandro foi precedida por semanas de treinamento com condicionamento operante e reforço positivo, para que ele se habitu à caixa de transporte e entrasse nela voluntariamente, sem necessidade de sedação ou coerção. Essas estratégias são compatíveis com o refinamento do manejo e com a redução do estresse durante procedimentos. ALei Arouca (Lei nº 11.794/2008), embora voltada à utilização de animais em ensino e pesquisa científica, apresenta princípios que contribuem para essa reflexão, especialmente os 3Rs: substituição, redução e refinamento. No caso de Sandro, o refinamento pode ser relacionado à adoção de técnicas que minimizem o desconforto e os riscos associados ao manejo. Após a chegada ao santuário, as atualizações divulgadas em seuperfil oficial mostraram sua exploração do novo ambiente e o início do processo de readaptação, com oportunidades de movimentação em uma área mais ampla. A transferência, entretanto, não representa uma solução isenta de riscos, assim como a permanência em um zoológico não significa necessariamente que todas as condições de bem-estar estejam comprometidas. O caso deKenya, transferida de um zoológico argentino após cerca de 40 anos em cativeiro e que morreu aproximadamente cinco meses depois, e o deBaby, transferida após três décadas no Beto Carrero World e integrada à rotina do santuário, ilustram diferentes trajetórias. Esses exemplos reforçam a importância de considerar o histórico de manejo, a condição clínica, a idade e as necessidades individuais de cada animal na escolha da alternativa mais adequada.  Esses conflitos podem ser analisados a partir de duas correntes éticas. A perspectiva utilitarista admite a utilização de animais por seres humanos, desde que as decisões considerem as consequências para o bem-estar e evitem dor, sofrimento e experiências negativas desnecessárias. Nessa abordagem, a manutenção em zoológicos pode ser considerada aceitável quando as condições atendem às Cinco Liberdades, promovem experiências positivas e incorporam estratégias de refinamento, além de respeitar os princípios dos 3Rs quando aplicáveis. Já a perspectiva abolicionista ou dos direitos animais questiona a própria utilização dos animais como recursos para finalidades humanas, compreendendo-os como sujeitos de direitos, e não como objetos de entretenimento, exploração ou consumo. Sob essa perspectiva, mesmo condições adequadas de manejo não justificariam necessariamente a manutenção de animais em cativeiro para exposição pública. ADeclaração Universal dos Direitos dos Animais, como referencial ético não vinculante, e a Declaração de Cambridge sobre a Consciência contribuem para essa discussão ao reconhecerem a relevância moral dos animais e suas capacidades de experimentar estados afetivos. 
No âmbito jurídico, o artigo 225 da Constituição Federal estabelece o dever de proteção à fauna e proíbe práticas que submetam os animais à crueldade, enquanto a Lei de Crimes Ambientais prevê sanções para situações de abuso e maus-tratos. Entretanto, a existência de uma instituição autorizada a manter animais não garante, por si só, que todas as condições oferecidas sejam adequadas. A discussão também ganhou uma dimensão política com oProjeto de Lei nº 2.648/2026, que propõe o encerramento de zoológicos, aquários, safáris e ecoparques voltados à exibição pública de animais, com previsão de realocação para santuários e centros de reabilitação. A proposta levanta preocupações sobre a capacidade de acolhimento, o financiamento, a infraestrutura e o acompanhamento de milhares de animais, caso seja aprovada, evidenciando que a substituição de um modelo de manejo exige planejamento institucional e recursos adequados. Após a aprovação deste projeto, todos os empreendimentos seriam fechados em 2 anos, com realocação dos animais para Santuários de conservação e Centros de Reabilitação de Fauna (CRF). Entretanto, caso o projeto seja aprovado, surgem questionamentos quanto à disponibilidade de espaço, à infraestrutura e ao financiamento dos santuários e CRFs para receber os milhares de animais que precisariam ser realocados nesse período de dois anos. A decisão sobre o destino de Sandro envolve, portanto, diferentes concepções sobre a responsabilidade humana em relação aos animais. Enquanto a perspectiva utilitarista busca estabelecer condições para que sua utilização não resulte em sofrimento injustificado, a abordagem abolicionista questiona se os interesses humanos, mesmo quando associados à educação e à conservação, legitimam a manutenção de animais em cativeiro. Em ambas, é necessário considerar que Sandro não participou das decisões sobre seu ambiente, suas interações ou seu destino, embora tenha sido diretamente afetado por elas. A responsabilidade envolve não apenas os profissionais e as instituições responsáveis pelo manejo, mas também as políticas públicas, os modelos de conservação e as escolhas coletivas que sustentam essas práticas. Diante disso, o caso de Sandro nos leva a questionar quais formas de convivência com outras espécies estamos dispostos a manter e quais precisam ser revistas à luz do conhecimento científico e dos princípios éticos. Se os zoológicos têm como objetivos a educação, a conservação e a aproximação da sociedade com a natureza, será que esses propósitos precisam depender da exposição permanente de animais? E vocês, gostam de visitar zoológicos? O que procuram nessas visitas e até que ponto consideram que a presença dos animais nesses espaços é necessária?

 O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Biologia e Evolução do Comportamento Animal, tendo como base nas fontes:

https://periodicos.unifesp.br/index.php/revbea/article/view/2613

https://periodicos.unifesp.br/revbea/article/view/9645

https://www.researchgate.net/profile/Marta-Fischer/publication/317889481_Os_Zoologicos_sob_a_perspectiva_da_bioetica_ambiental_uma_analise_a_partir_do_estudo_de_caso_dos_felideos_cativos/links/5950eb85aca27248ae46153b/Os-Zoologicos-sob-a-perspectiva-da-bioetica-ambiental-uma-analise-a-partir-do-estudo-de-caso-dos-felideos-cativos.pdf

Autodeclaração do uso da IA: Declaramos que foram utilizadas ferramentas de Inteligência Artificial (IA) como recursos auxiliares na elaboração deste trabalho. O ChatGPT (GPT-5.6 Luna) foi empregado para a revisão e correção, incluindo ajustes de clareza, fluidez e organização textual, além da geração de imagens ilustrativas. Também foi utilizada a ferramenta Gemini, por meio do modelo Imagen 3, exclusivamente para a geração de imagens. Ressaltamos que o conteúdo, a análise crítica, a seleção das informações e a revisão final foram de responsabilidade dos autores, que se comprometem com a veracidade e a integridade das informações apresentadas.

 

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