Por Têtê Xinã
Mestranda do PPGB
Há alguns meses, escrevi neste espaço sobre uma inquietação que nasceu entre a clínica comportamental, a Bioética e aquilo que aprendo com os saberes originários: o afeto não é, por si só, garantia de uma relação ética. Um animal pode ser profundamente amado e ainda assim ser submetido às necessidades, projeções e expectativas humanas. Pode ser chamado de filho, ocupar a cama, participar da intimidade da família multiespécie e, ainda assim, ter sua autonomia reduzida e sua alteridade pouco reconhecida. Foi dessa inquietação que nasceram ideias como objetificação afetiva, captura afetiva e cativeiro afetivo. No II Congresso de Bioética e Bem-estar Animal, essa reflexão ganhou outro espaço. Apresentei, ao lado da minha orientadora Marta Fischer, o trabalho Família multiespécie ou cativeiro afetivo? O fetiche do vínculo controlável. Ali, pude compartilhar essas inquietações e colocá-las em diálogo com outras perspectivas sobre nossas relações com os animais. Quando incluímos os animais em nossas famílias, transformamos também as estruturas de poder dessa relação? A escuta que encontrei foi generosa. Houve diálogo, perguntas, incômodo, interesse. Perspectivas diferentes se encontraram e nos convidaram a olhar novamente para relações que, de tão presentes no cotidiano, muitas vezes parecem naturais. Ao final do congresso, o trabalho recebeu o reconhecimento de Melhor Apresentação Oral. Recebo esse prêmio com alegria, mas principalmente como sinal de que existe espaço para aprofundarmos essa discussão. Porque, para mim, o centro continua sendo o bem-estar animal. Se conseguimos reconhecer que cuidado também pode controlar, que proximidade também pode restringir e que afeto não autoriza captura, abrimos espaço para relações nas quais os animais possam existir menos como função das nossas necessidades e mais como sujeitos de suas próprias vidas. Agradeço ao CBBA pela abertura com que recebeu essas provocações e à Marta por construir comigo um espaço em que inquietação não precisa ser domesticada para se transformar em conhecimento.
Quando a ciência se dispõe a olhar também para o poder que exercemos sobre os animais, o bem-estar animal deixa de ser apenas aquilo que oferecemos e passa a exigir que reconheçamos aquilo que retiramos: autonomia, escolha, limites, possibilidade de afastamento, expressão da própria natureza. Talvez nosso compromisso com o bem-estar animal comece justamente aí: não em ocupar ainda mais suas vidas com aquilo que julgamos necessário, mas em devolver espaço para que possam vivê-las segundo suas próprias necessidades. Descentralizar o humano não significa abandonar nossa responsabilidade. Se somos nós que concentramos o poder de decidir sobre tantas dimensões da vida dos animais, cabe a nós transformar esse poder em responsabilidade, para que o cuidado deixe de reproduzir, mesmo sob a linguagem do afeto, formas de utilitarismo animal. Que o afeto não autorize abuso emocional. Que a família multiespécie seja um lugar seguro também para o animal. Que o bem-estar animal seja rotina. Que não seja confundido com o consumo excessivo de produtos, mas reconhecido especialmente nas experiências que podem parecer simples para nós e são essenciais para os cães: explorar, farejar, descansar, escolher, brincar, conviver e, também, poder se afastar. Que nosso amor se converta em responsabilidade, e não em objetificação afetiva. Por uma sociedade animalitária, em que os animais não precisem ser úteis aos seres humanos para terem valor. Em que sua alteridade seja respeitada na sociedade e em seus lares multiespécie.
Quando a ciência se dispõe a olhar também para o poder que exercemos sobre os animais, o bem-estar animal deixa de ser apenas aquilo que oferecemos e passa a exigir que reconheçamos aquilo que retiramos: autonomia, escolha, limites, possibilidade de afastamento, expressão da própria natureza. Talvez nosso compromisso com o bem-estar animal comece justamente aí: não em ocupar ainda mais suas vidas com aquilo que julgamos necessário, mas em devolver espaço para que possam vivê-las segundo suas próprias necessidades. Descentralizar o humano não significa abandonar nossa responsabilidade. Se somos nós que concentramos o poder de decidir sobre tantas dimensões da vida dos animais, cabe a nós transformar esse poder em responsabilidade, para que o cuidado deixe de reproduzir, mesmo sob a linguagem do afeto, formas de utilitarismo animal. Que o afeto não autorize abuso emocional. Que a família multiespécie seja um lugar seguro também para o animal. Que o bem-estar animal seja rotina. Que não seja confundido com o consumo excessivo de produtos, mas reconhecido especialmente nas experiências que podem parecer simples para nós e são essenciais para os cães: explorar, farejar, descansar, escolher, brincar, conviver e, também, poder se afastar. Que nosso amor se converta em responsabilidade, e não em objetificação afetiva. Por uma sociedade animalitária, em que os animais não precisem ser úteis aos seres humanos para terem valor. Em que sua alteridade seja respeitada na sociedade e em seus lares multiespécie. Os animais agradecem.
Axé.
Para continuar essa reflexão
Quando o afeto vira captura: cosmovisão originária, objetificação afetiva e o transtorno do vínculo na relação humano-animal

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