segunda-feira, 27 de maio de 2019

Abandono ao filhote


Série Ensaios: Sociobiologia


Por Danielle Pires; Gabrieli Trevisan; Ian Rodrigo Stoltz; Pedro Cazetta; Rafaela Caldas; Vinícius Cristal




É comum encontrarmos nas mídias sociais e nos noticiários, relatos de mães que abandonam seus filhos logo após o parto, por inúmeras causas. Em março de 2019, o Jornal da Globo, o G1 (veja aqui) relatou o abandono de um recém-nascido em uma lixeira na cidade do Rio de Janeiro. Este é apenas mais um dos diversos casos de abandono pós-parto, gerando diversos questionamentos de como isso acontece, quais as causas que levam a isso e como pode ser explicado.


Na natureza, o abandono de filhotes não é algo incomum, inúmeras causas podem levar a isso, como filhotes incapazes de sobreviver, incapacidade da mãe em prover cuidados, mas em nós humanos, como entender isso, uma espécie, em tese, tão preocupada com o filhote e com vínculo afetivo grande.  Durante e pós a gestação, o cuidado parental ( e o desenvolvimento do filhote, geram na mãe, mudanças hormonais e comportamentais. O recém-nascido precisa de cuidados parentais, pois é muito frágil para se manter sozinho, aprende coisas com os pais e desenvolve laços. O comportamento afetivo desencadeia no sistema límbico reações de síntese hormonal que modulam o comportamento materno, relacionado ao amor pelo filhote. O principal hormônio que desencadeia esse cuidado é a ocitocina (produzido no hipotálamo), podendo dizer que este acaba com a tristeza e com a maldade, que seriam mediadas pelo cortisol (permanecendo em níveis baixos quando a oxitocina age).  Tentando não permear as causas éticas e psicológicas, observando a ação da mãe relatada na matéria, pode se dizer que a falta de vínculo afetivo, poderia ser enquadrada como principal fator para o abandono, podendo essa mãe, ter tido uma baixa produção de ocitocina durante a gestação, ou algum tipo de trauma que levou a uma reação adversa, não gerando o vínculo parental como se esperaria.


Além de condicionantes biológicos, outro fator que pode moldar esse comportamento é o etológico. Esse, por sua vez é baseado pela história evolutiva de cada espécie, e é algo de extrema importância quando se trata da relação da mãe com o filhote. Sendo assim, embasados nesse fator podemos encontrar alguns casos que aumentam a probabilidade de abandono do filhote, tais como: saúde da ninhada e/ou filhote, filhotes com má formação, saúde da mãe, estresse, recursos limitados, presença de um novo macho dominante. Sendo assim, encontramos casos de abandono nos mais diversos grupos, alguns exemplos são: Aves Cuco que abandonam seus ovos em outros ninhos para que os outros cuidem da prole. Isso é uma estratégia evolutiva, pois cuidar da prole exige uma demanda muito alta de tempo e energia. Além disso, as mães primatas (que geralmente não discriminam seus filhotes) podem abandoná-los caso o filhote não tenha o instinto de agarrar nos pelos da mãe. Até mesmo em invertebrados, onde besouros coveiros deixam de alimentar as larvas diminutas.

Levando em conta o caso apresentado, e devido as questões sociais que vem sendo discutidas no cenário atual, devemos considerar a diferença entre o sexo masculino e feminino, tanto nas questões etológicas quanto nas biológicas. Na parte etológica, temos que voltar na história evolutiva de nossa espécie, onde as fêmeas eram responsáveis por cuidar dos seus próximos, principalmente de sua prole, e com isso desenvolveram uma habilidade de fala, cuidado e passar ensinamentos com mais facilidade. Esses fatos se mostram presentes até hoje, como por exemplo mulheres ocupam em maior quantidade cargos na educação e na área da saúde. Já os homens eram responsáveis por prover o alimento e a segurança para a comunidade em que viviam. Por esse motivo, foi necessário que a musculatura em conjunto com aptidão para atividades que precisem de força, estratégia e habilidade de localização foram favorecidas. Isso favorece com que os homens ocupem os cargos como: motoristas, esportistas e empresários.  Tudo isso se trata de um contexto histórico e evolutivo do ser humano. Porém, nos dias de hoje, pode ocorrer uma inversão dos papéis na sociedade, e qualquer um dos gêneros pode ocupar os locais de trabalho e posições as quais quiserem.
Já as diferenças de macho e fêmea quando se trata do contexto biológico são tanto aparentes quanto externas.  Um exemplo disso, é que o corpo da mulher é perfeitamente estruturado para se ter um bebê, então o aparelho reprodutor foi moldado com a finalidade de abrigar um feto. Há também a parte hormonal, onde, esses se tornam extremamente importante para o parto e cuidado do filhote. Outro hormônio que se sobressaí nas mulheres é o estrogênio. Os homens por sua vez, apresentam maiores massas musculares e quantidades menores de hormônios, como a oxitocina, relacionados com o cuidado, além de expressarem esse hormônio em situações distintas das mulheres. Além de que um dos principais hormônios quando se trata do sexo masculino é a testosterona.

Na natureza o abandono ao filhote não é algo incomum, e pode ocorrer quando o filhote é incapaz de sobreviver e quando a mãe não tem condições de criar, podendo outra espécie ou até mesmo indivíduos da mesma espécie serem capazes de prover cuidado ao filhote e adota – lo. A adoção de animais da mesma espécie ou de espécies diferentes na natureza não é algo raro, e acontece especialmente com os mamíferos. Os filhotes quando nascem precisam de cuidado e estabelecimento de vínculo, selecionando o indivíduo que será capaz de prover. Geralmente são fêmeas que adotam os filhotes, devido as alterações hormonais que vão desencadear o comportamento materno o cuidado com o filhote.  Outro fator que leva as fêmeas que não são as mães biológicas a adotarem é o sistema de pânico instalado nos filhotes. Esse sistema promove reações nos filhotes como choro angustiante, procurar pela mãe, só se acalmar quando se sentir seguro, etc, isso faz com que as fêmeas tenham o instinto materno desencadeado e cuidem do filhote que está em situação adversa.

Conforme as discussões e posicionamentos levantados em sala, temos alguns fatores interferem diretamente na dinâmica de ser mãe. Sendo que, algumas espécies de mamíferos são acometidas de gravidez psicológica, onde a vontade se ter um filhote é tão grande que psicologicamente, fisicamente, comportamental e até mesmo em parâmetros hormonais a fêmea aparenta estar grávida e até prepara o seu habitat para a chegada de sua prole. Porém, isso não passa de um mero “falso positivo”.  Outro fator que pode interferir nessa tal dinâmica, é a depressão pós-parto, que ocorre, pois, durante o período da gravidez o corpo materno fica com grandes doses hormonais, tanto da mãe, quanto da criança. Quando ocorre o parto, esses níveis tendem a baixar drasticamente, fazendo com que as mães rejeitem seus filhotes. Obviamente na sociedade humana há formas de mitigar os efeitos dessa queda hormonal e trabalhar psicologicamente com a mãe para a mesma volte a cuidar dos seus filhos. Outro fato levantado, é que hoje, em nossa sociedade existe uma pressão muito grande para a mulher quando se trata de ter um filho. Sendo, que quando a mesma atinge determinada idade, ela é pressionada a conceber uma criança, se não ela passa a ser questionada como imposições como: “ vai ficar para a titia”, “ não está velha demais? ”, “ o sentindo da vida é ter um filho”, entre outras.


Nós como futuros biólogos acreditamos que, apesar do abandono ser uma atitude condenada pela a sociedade, ela ainda acontece de forma natural nos mais diversos grupos animais. Sendo que, os exemplos citados são apenas alguns, pois encontramos este ato em espécies, como nos gatos domésticos, leões, aves de rapina, roedores, etc. O principal é, compreendermos que estas ações dependem de condicionantes etológicos, psicológicos e biológicos de cada indivíduo. Correlacionar esses comportamentos e os fatores que podem levar a eles, são de extrema importância, até mesmo para relacionarmos com o que acontece no meio em que o ser humano está inserido e o que levam suas ações. Afinal, todos somos animais, temos instinto e fatores que nos levam a realizar determinado comportamento. Porém, essa atitude em nossa sociedade não é necessária, pois existem as mais diversas alternativas para o bem-estar das crianças, um exemplo disso é entregar as crianças para lares adotivos, onde terão a oportunidade de encontrar uma nova família.



O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Etologia, tendo como base as obras:

ALCOCK, John. Comportamento animal: uma abordagem evolutiva. Artmed editora, 2016.
BUSSAB, Vera Silvia Raad. Mãe natureza-Uma visão feminina da evolução: Maternidade, filhos e seleção natural. Interação em Psicologia, v. 6, n. 1, 2002.
LOPES, Vanessa. Por que minha gata rejeita seus filhotes?, 2018. Disponível em: https://www.peritoanimal.com.br/porque-minha-gata-rejeita-seus-filhotes-21441.html
Rincón, Maria Luciana. Cinco piores mães do reino animal, 2018. Disponível em: https://www.megacurioso.com.br/dia-das-maes/43151-5-das-piores-maes-do-reino-animal.htm

Hiperlinks



quinta-feira, 16 de maio de 2019

Agressão: Estudo de caso sobre o segurança que matou um jovem asfixiado em um supermercado


Série Ensaios: Sociobiologia



 Por Adrielly Kucek Freitas, Caynã Nicholas Souza, Gabriele Ferreira Moro, Henrique Wuicik Franco e João Batista dos Santos Neto, Leandro Taborda da Rocha.

Formandos em Ciências Biológicas







No mês de fevereiro de 2019, um rapaz de 19 anos foi morto por um segurança de um Supermercado Extra, localizado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio de Janeiro.  Segundo a equipe de vigilância do mercado, o jovem teria tentado roubar a arma do segurança e, por isso, o funcionário do estabelecimento aplicou um golpe no rapaz conhecido como “mata-leão”, a fim de imobilizá-lo.






Vários clientes do supermercado ficaram ao redor do segurança que estava em cima do jovem, alertando-o que estava sufocando o rapaz e pedindo para interromper o golpe. Contudo, outros funcionários da segurança apareceram no local, com um objetivo maior de impedir gravações do caso, enquanto o vigilante continuou sufocando o jovem, que morreu posteriormente no Hospital Lourenço Jorge, após duas paradas cardiorrespiratórias.

Esse episódio repercutiu por diversos meios de comunicação, sendo pauta de reportagem em grandes jornais, como o G1, Folha de São Paulo e R7 . O Extra declarou em uma nota que os seguranças envolvidos no caso foram imediatamente afastados e que repudia quaisquer atos de violência em seus mercados.

Dessa forma, a atitude do segurança do mercado Extra demonstra uma reação agressiva, já que, conforme Niehoff (1999), a agressão é definida como o comportamento que se utiliza de força física ou verbal em resposta a uma percepção de ameaça. Assim, pode-se notar que o funcionário reagiu de forma agressiva porque o jovem tentou pegar a sua arma, tornando-se uma ameaça para o vigilante.

Segundo Queiroz (2009), pesquisas acerca do comportamento agressivo são divergentes quanta a crença de que a agressão possui influência inata ou instintiva, ou se é simplesmente um comportamento aprendido. Além disso, o fenômeno da agressão é estudado por diferentes perspectivas teóricas, tendo contribuições de maior destaque para esse comportamento nas áreas do behaviorismo, da aprendizagem social e, por fim, da etologia (Kristensen et. al, 2003).

Uma das principais abordagens etológicas refere-se ao “instinto da agressão”, proposto por Lorenz (1966), o qual esclarece que esse instinto não pode ser considerado um princípio diabólico que tem como intuito a destruição e a morte, porém deve ser analisado como um contribuinte da preservação e organização da vida (Kristensen et. al, 2003). Além disso, a agressividade poder variar de acordo com a escassez de recursos, sendo que há maior cooperação entre indivíduos se há uma quantidade maior de recursos em determinado ambiente (Câmara, 2018). Ainda há outra contribuição da etologia que se diz respeito à definição de diferentes classes de comportamento agressivo, como a apresentada por Moyer (1976).

Condicionantes biológicos, por sua vez, também podem colaborar na compreensão do comportamento agressivo, já que para ocorrer esse fenômeno é necessário um substrato neurobiológico para conciliar os diversos componentes neuronais e motores dos atos agressivos (Saver et al., 1996, Kristensen et. al, 2003). Características biológicas, como instintos, impulsos ou forças inatas (drives), predisposições genéticas, luta reflexa, hormônios e mecanismos de neurotransmissão estão relacionados ao comportamento agressivo (Kristensen et. al, 2003). Além disso, há outros fatores que influenciam a ação agressiva, como o sexo do indivíduo, temperamento da pessoa, experiência prévia de ação agressiva, condicionamento ideológico (político, religioso, etc.), ambiente de desenvolvimento, padrões de interação familiar, entre outros (Câmara, 2018).

Existem pontos muito conflitantes nesse caso. Condicionantes biológicos podem ser usados para justificar ou amenizar a situação, tendo em vista que neurotransmissores e até mesmo o instinto agressivo frente a uma situação de descontrole estão ligados em casos semelhantes. Mas até que ponto esse tipo de comportamento é aceitável na sociedade em que vivemos? É mesmo possível amenizar a situação levando em consideração esses fatores biológicos? Seria compreensível se ainda fossemos uma espécie inconsciente de  próprios atos, em que o instinto predomina e não soubéssemos aprender a controlá-los?

É fato que a intenção do segurança não fosse o óbito da vítima, e que naquele momento fatores biológicos e do meio (como a pressão das pessoas que estavam em volta) estavam envolvidos, mas a partir do momento em que se sabe que o dever dele não era matar, somente acalmar a situação de forma racional, é inadmissível que se perdesse o controle dessa maneira, tendo o segurança que arcar com as consequências de seus atos e tendo a punição merecida.

No debate realizado em sala foram levantadas algumas questões relacionando os fatores biológicos – hormônios principalmente – que em situação de estresse podem se tornar um fator determinante para a tomada de decisões. Trabalhos com segurança envolvem atenção constante a qualquer situação que possa representar risco aos que o profissional deve proteger, bem como a si mesmo. A versão vinculada pela imprensa relata que o jovem teria tentado pegar a arma do segurança. Tal situação deixa o corpo em alerta, descarga de adrenalina, junto ao cortisol acumulado no sangue pelo exercício da profissão e ainda a testosterona podem ter levado o segurança a uma tomada de decisões equivocada.

Contudo ainda existem versões menos difundidas que o rapaz poderia na verdade estar tendo um princípio de ataque epilético, que foi mal interpretado pelo segurança quando o jovem foi lhe pedir auxílio e o segurança acabou entrando em confronto agonístico com o jovem.

É sabido que a agressão não está diretamente relacionada ao ataque físico em si e sim à ameaça. Uma disputa física é muito dispendiosa de energia e pode ainda deixar sequelas, portanto, as coisas tendem a ser resolvidas antes do combate físico, seja por comparação de tamanho, rugidos para mostrar vitalidade, e somente em último caso, a luta de fato. Um cachorro que rosna antes de atacar somente rosna pois não tem certeza se dá conta do confrontado, primeiro, ameaça e mostra sua vitalidade, para somente em último caso atacar, se tivesse certeza que pode vencer no combate atacaria sem hesitar. Mesmo quando há luta, ela é breve, justamente por ser dispendiosa. Sendo assim, é possível afirmar que a seleção natural atua sobre as espécies fazendo com que os indivíduos que reconhecem uma derrota rapidamente continuem propagando seus genes. Isso pois a energia que seria gasta tentando vencer um competidor mais apto pode sem empregada na busca de recursos ou pares sexuais menos disputados.

Remontando os primórdios da vida em sociedade humana, as fêmeas – como acontece em muitos outros grupos animais – ficava responsável pelos cuidados com a prole, enquanto os machos faziam trabalhos “braçais”, como a caça, principalmente. Logo, ao longo do tempo enquanto os homens dependiam de sua força, vigor e estratégias de luta, as mulheres dependiam de sua sensibilidade, atenção e cuidado. Juntos se mantiveram, por milhares de anos, dando continuidade à espécie humana, sendo selecionados ao longo do tempo. Mesmo que hoje haja uma discussão com relação à equidade de direitos entre os sexos, que não necessariamente uma mulher precise cuidar da prole enquanto o homem provém recursos para a criação dos filhos, essas qualidades de acordo com o sexo selecionadas ao longo de milhões de anos ainda se mantêm entre os humanos atuais.

Com isso é possível afirmar que etologicamente, homens são mais agressivos. Foi discutido que haveriam outras maneiras de lidar com a situação sem a aplicação do golpe, visto que o segurança apresenta certa autoridade sobre cidadãos comuns, estava armado e ainda apresentava um porte maior que a do jovem que faleceu. Ou seja, em todos os quesitos aqui postos o segurança apresentava vantagem sobre o jovem. Isso pode justificar o porquê do ataque, não hesitou, pois, sabia que era mais forte. Além de que o segurança ainda contava com o amparo de outro colega de profissão, que estava, por assim dizer dando cobertura, logo o indivíduo não somente se sentiu seguro para efetuar a agressão mas também sentiu que estava executando sua função como funcionário.

Infelizmente todos os atos que aconteceram convergiram na morte de um jovem, o fato é que tem um ponto importante a se abordar na questão da técnica que foi empregada pelo segurança. No caso, o agressor derrubou o jovem no chão, que acabou batendo a cabeça bruscamente, técnica que não é usual e responsável para a neutralização da possível ameaça, após isso o segurança foi ao chão para “conter” a ameaça aplicando um golpe do Jiu-Jitsu conhecido como Mata-Leão, que foi a técnica que acabou sendo letal, visto que foi aplicada de uma forma errônea, pois o segurança ao invés de manter suas costas no solo, aplicando a técnica correta cortando a circulação da jugular, ele se apoiou sobre as costas do rapaz fazendo com que o mesmo ficasse pressionado contra o chão, fato que impediu que o jovem pudesse mexer sua caixa torácica e logo, respirar. Fato que culminou na morte do rapaz devido à falta de oxigenação do cérebro e outros órgãos visto que a oxigenação do pulmão do indivíduo fo suspendida com o golpe sem técnica, sendo ainda que o segurança permaneceu sobre o corpo do jovem por muito tempo além do que poderia, culminando no óbito do agredido

Entretanto, a discussão que se forma a partir da argumentação biológica dos atos do segurança é: “ Então ele estava certo? ”. Não, esses profissionais com a função de nos proteger, apesar de estarem expostos ao estresse constante, devem estar preparados para tomar decisões difíceis e agir em situação de risco sem pôr a sua nem a vida dos outros em risco. O caso é apenas mais um capítulo do extenso livro de abusos contra a população, seja da polícia, guarda municipal ou até mesmo seguranças de supermercados.



O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Etologia, tendo como base as obras....

Câmara, F. P. (2018). Comportamento agressivo. Psychiatry on line Brasil. Disponível em: https://www.polbr.med.br/2018/03/02/comportamento-agressivo/.

Kristensen, C. H., Lima, J. S., Ferlin, M., Flores, R. Z., & Hackmann, P. H. (2003). Fatores etiológicos da agressão física: uma revisão teórica. Estudos de psicologia (Natal). Vol. 8, n. 1 (jan./abr. 2003), p. 175-184.

Lorenz, K. (1966). On aggression. Nova York: Hartcourt, Brace & World.

Moyer, K. E. (1976). The psychobiology of aggression. Nova York: Harper & Row.

Niehoff, D. (1999). The biology of violence. Nova York: Free Press.

Queiroz, R. da S (2009). Agressividade humana: contribuições da Psicologia Evolucionista e da Antropologia. OTTA, E; YAMAMOTO, M. E. Psicologia Evolucionista. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, p. 127-132.

Saver, J. L., Salloway, S. P., Devinsky, O., & Bear, D. M. (1996). Neuropsychiatry of aggression. In B. S. Fogel, R. B. Schiffer & S. M. Rao (Orgs.), Neuropsychiatry (pp. 523-548). Baltimore: Williams & Wilkins.


terça-feira, 14 de maio de 2019

Homem x Mulher: Mulheres na ciência e seus desafios


Série Ensaios: Sociobiologia

 Por Emeli Bail, Fernanda Fornerolli, Karin Wermeier e Natasha Kobai
Formandos em Ciêncais Biológicas






Em abril de 2019 foi marcada pela publicação a primeira foto real de um buraco negro pelo projeto EHT (Event Horizon Telescope), pela Fundação Nacional de Ciências (NSF) e pelo European Southern Observatory (ESO). Um dos feitos mais importantes da astrologia nos últimos tempos, ressaltando o trabalho de Katie Bouman, uma cientista de computadores de 29 anos, Ph. D em Engenharia Elétrica e Ciência da Computação no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) em 2007, foi responsável por criar o algoritmo capaz de contabilizar todo o volume de dados obtidos pelos telescópios e formar a imagem que foi apresentada. Após a divulgação da imagem e do acontecimento nas mídias a cientista foi alvo de ataques machistas na internet.
Nos ataques, os críticos disseram que a cientista estava recebendo "muito crédito" pelo trabalho. Desde o momento que passou a receber reconhecimento, Katie ressaltou que o trabalho era, na realidade, de toda a equipe — ao todo, 200 cientistas participaram do projeto, sendo 40 mulheres.
 O conceito de Comportamento Social descrito pelo psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner nos diz que o comportamento de duas ou mais pessoas em relação a uma terceira é determinado por estímulos ambientais. Por isso, conhecer, mais a fundo, esta ideia nos ajuda a entender, com mais clareza, como se dão as nossas relações interpessoais também no ambiente de trabalho. Sendo importante para a formação de grupos, onde agrega-se uma diversidade de indivíduos providos de uma visão de mundo e educação diferentes, mas que possuem um valor em comum que nos une como um grupo, apresentando-se um elemento agregador que faz com que o indivíduo se sinta bem ao se reconhecer com o outro. Por sua vez, em cada grupo vai ser estabelecido regras, quanto mais indivíduos participam desse grupo mais as regras vai se estabelecer elevando seu nível de complexidade.
No que condiz aos condicionantes sociais, as trajetórias diferenciadas de homens e mulheres ao longo da história evolutiva de nossa espécie podem explicar as dessemelhanças de sexo observadas em diversos âmbitos, inclusive no mercado de trabalho. Desde a mais remota antigüidade a mulher ocupou na sociedade uma posição subalterna ou, no mínimo, subsidiária ou complementar ao homem.Dentro deste contexto a mulher era apenas uma peça a ser negociada para fechar o acordo, ela precisaria cumprir com os afazeres do lar sendo uma boa esposa. Era também papel da mulher na antiguidade manter uma boa imagem da sua família e esposo. Na história da ciência a participação da mulher ficou marcada por ausências e presenças. Foi no início dos anos da Revolução Científica que as mulheres começaram e envolver-se com  atividades científicas, tal como observando os céus através de telescópios, analisando plantas e insetos e outros animais olhando no microscópio, junto com seus pais, maridos ou filhos cientistas. Sobretudo a institucionalização e profissionalização da ciência a separação entre público e privado, com o desenvolvimento do capitalismo, ficou-se restrito a participação da mulher, com exceções as mulheres não puderam desenvolver  pesquisas, nem mesmo como auxiliares, já que eram impedidas de frequentar as instituições de ensino, pois estavam destinadas as atividades e cuidados do lar, filhos e marido. Vale destacar que as universidades, embora criadas no século XII, apenas no final do século XIX e início do século XX é que passaram a admitir efetivamente as mulheres em seus quadros de discentes e docentes.
Analisando o histórico das mulheres na ciência, podemos ver que houve muitas contribuições para a ciência e tecnologia, que foram descobertas e desenvolvidos por mulheres. Um exemplo mais famoso que todos conhecemos é a Marie Curie (1867 – 1934) conhecida como a "Dama da Radioatividade", pioneira em sua pesquisa sobre a radioatividade, pela descoberta dos elementos Polônio e Rádio, além do mais ela conseguiu isolar os isótopos deste elemento. Sendo a primeira mulher a ganhar um Nobel e a primeira pessoa a ser laureada duas vezes com o prêmio: a primeira vez em Química, em 1903, e a segunda em física, em 1911. Além de Marie Curie, há muitas outras mulheres que tiveram uma contribuição importante na ciência, por exemplo, Margaret Hamilton (1969) ajudou a escrever o código de Software que permitiu com que o homem chega-se a lua, comparando-se até mesmo com Katie Bouman.
Porém, um recente estudo da Unesco (2018), mostra que as mulheres representam apenas 28% dos cientistas no mundo, e o prêmio Nobel nas áreas de física, química ou medicina, já foi entregue a apenas 17 mulheres contra 572 homens. Essa disparidade não é ao acaso, isso se deve por conta do impedimento de muitas meninas de se desenvolver por conta das normas e expectativas sociais. Tanto a educação como a igualdade de gênero são partes integrantes da agenda 2030 das ODS que visa o desenvolvimento sustentável, e as mulheres e meninas são partes fundamentais em tal desenvolvimento. É de extrema necessidade a luta contra os obstáculos específicos que mantém as estudantes longe das áreas da ciência, e é importante estimular e encorajar o desenvolvimento acadêmico feminino e acima de tudo quebrar estereótipos que impedem as mulheres e meninas de terem carreira científica.
            Sob as perspectivas dos condicionantes biológicos, as diferenças entre homens e mulheres é um tema controverso na sociedade atual. Na década de 1990 era difundida a ideia de que a mulher era inferior ao homem, por diversas razões, desde a representação do corpo masculino como sendo “perfeito” e o feminino caracterizado como uma “inversão”, até, explicações mais aprofundadas, como por exemplo, a descrição de que o espermatozóide é uma organela mais ágil e forte e o óvulo como sendo mais frágil e passivo. A literatura aponta que a descoberta de substanciais diferenças entre os sexos sugere que homens e mulheres possam ter interesses e habilidades diferentes, independentemente de qualquer influência social. Umas das principais diferenças entre homens e mulheres é encontrado na forma pela qual utilizam o cérebro. Nos homens, predomina o uso do lado esquerdo, responsável entre outras funções pelo raciocínio lógico. Já as mulheres usam tanto a porção esquerda como a direita do cérebro, que deflagra os mecanismos da emoção. Elas têm, por isso, uma relação mais emocionada com todas as formas da linguagem. Diante disto, tanto homens quanto mulheres se utilizam dessas habilidades para a escolha de suas profissões, assim mulheres tendem a ir em áreas como psicologia, enfermagem entre outras áreas que favoreçam suas habilidades, a mesma coisa com os homens escolhendo a área da engenharias e profissões que se utilizam mais do raciocínio lógico. Esses pensamentos influenciam em toda a história da mulher na sociedade e em sua luta pela igualdade na sociedade atual, que ainda sofre com preconceitos e situações desagradáveis e até mesmo de risco para a parcela feminina da sociedade.
Na etologia, assim como em nossa sociedade, no reino animal também existem diferenças gritantes na anatomia e fisiologia do corpo feminino para o masculino. O corpo feminino é caracterizado por ser capaz de gerar uma vida dentro dele, sendo necessário então, estruturas e  hormônios diferenciados para o desenvolvimento do embrião. Os papéis de machos e fêmeas  em animais sociais na natureza não se diferem tanto quando comparado com a espécie humana. De uma maneira geral na maioria das espécies, o macho e a fêmea passam por um processo de reprodução onde, geralmente, é o animal do sexo feminino que fica com a função de gestar, dar à luz e depois cuidar de seus filhotes. Entretanto podem existir algumas exceções em que os machos assumem completamente o papel da maternidade, tornando-se as verdadeiras mães da relação e desempenhando um papel fundamental para a sobrevivência e desenvolvimento dos seus bebês, um dos exemplos mais comuns por apresentar uma paternidade incomum são os cavalo-marinhos onde o macho é que fica "grávido" e dão a luz a vários cavalinhos-marinhos, além dos cavalos marinhos temos ainda algumas outras espécies onde há essa troca de papéis. No reino animal em algumas espécies há as sociedades patriarcais que se caracteriza por compor de um grupo no qual é liderado geralmente pelo "macho alfa" , contudo como na natureza sempre há exceções, temos determinadas espécies em que o grupo é liderada por fêmeas, a chamada sociedade matriarcal, as abelhas, por exemplo, a denominada abelha rainha, na qual lidera o seu exército de operária. Em algumas espécies de mamíferos também há grupos sociais liderados por fêmeas, por exemplo, as manadas de elefantes lideradas por fêmeas, e apesar da matriarca ser geralmente maior do que os outros (em tamanho), o que importa mesmo é a sua experiência. Muitas vezes, na natureza, a hierarquia entre os animais é estabelecida pela força.   

Homens
Mulheres
Cromossomo y
Cromossomo x
Andrógeno
estrógeno
espermatozóide
Óvulo
Pênis
Vulva
Timbre grosso
Timbre fino
Menos gordura acumulada
Mais gordura acumulada (quadril e barriga)
Músculos se desenvolvem mais facilmente
Músculos se desenvolvem com mais dificuldade
Maior quantidade de pelos (facial e corporal)
Menor quantidade de pelos (facial e corporal)
Fisionomia “dura”
Fisionomia “delicada”

 No debate realizado em sala com formandos de biologia se questionou o papel da mulher em cargos de poder, elas não estão nos cargos de liderança por que elas não têm disposição? Ou por que elas não querem? Será que a mulher se recusaria a aceitar cargos de poder por ter de se dedicar muito a ele, uma vez que é um ambiente muito “hostil”, havendo muita competitividade e exigindo um maior autocontrole,  deixando em segundo plano sua dedicação a sua família, o cuidado com os filhos e ao lar?. Dessa forma fazendo com que ela aceite um emprego de menor status e poder para dar contra tanto de sua dedicação ao trabalho quanto ao cuidado da família, filhos e o lar. Como mencionado anteriormente a mulher por ter esse lado mais da emoção, ela em um cargo de poder se desgastaria muito emocionalmente devido a esse ambiente competitivo e hostil, na qual ela teria que separar a parte emocional com a parte mais lógica e racional que de certa maneira que é exigido na maioria dos cargos de liderança. Atualmente na nossa sociedade a mulheres são a maioria dos universitários, porém ainda são os homens que estão assumindo a liderança. Não é impossível uma mulher trabalhar nessa parte mais técnica e engenharia, mas talvez seja necessário o envolvimento de maior talento ou mais dedicação. Essas mulheres que vão para o cargo de poder elas precisam “vestir” uma imagem de “atmosfera” masculina para poder sustentar esse status, em um ambiente agressivo, de autocontrole e competitividade, não expondo suas características femininas, por exemplo a presidenta Dilma Roussef. No reino animal a fêmea pode assumir a liderança, há exemplos de animais em a sociedade são matriarcas, ou seja, fêmeas que regem uma sociedade inteira de animais e que da certo, mesmo desempenhando do jeito delas, se diferenciando estruturalmente das sociedades patriarcais da mesma maneira obtendo um sucesso, um bom exemplo disso é a sociedade matriarcal de bonobos. A mentalidade machista mata, fere, humilha e reprime mulheres todos os dias, em todos os cantos do mundo. E nós precisamos lutar diariamente contra esse tipo de comportamento, mesmo quando ele se apresenta de forma sutil, disfarçado de piada, de pequena censura. Mas não são só as mulheres que são vítimas do machismo. Obviamente não estamos comparando dores, nem nivelando os potenciais das agressões. As maiores vítimas do machismo sempre serão as mulheres. Mas talvez esteja na hora de entendermos que a vida de todo mundo seria melhor sem ele. Começa muito cedo, desde crianças os meninos aprendem que “menino não chora”, por vezes quando eles deixam expressar suas emoções, no âmbito familiar ou até mesmo na escola escutam a famosa frase: “vai ficar chorando que nem uma menina?”. O machismo tenta enfiar as lágrimas de volta nos olhos dos meninos, que já crescem com duas ideias erradas: a de que eles não podem ter fragilidades e a de que toda menina é frágil por natureza. Os meninos são muitas vezes induzidos a escolher brinquedos como: carrinhos, bolas, personagens de super-heróis, entre outros; já as meninas são estimuladas a preferir brinquedos como: bonecas, utensílios de cozinhas em miniaturas, etc. Uma menina jogando bola ou brincando de carrinho pode até ser aceita (embora o mundo prefira vê-la com uma cozinha de plástico cor de rosa), mas um menino com uma Barbie jamais passará ileso. Portanto se torna inadmissível ver um menino com brinquedos de meninas, esse, então será descriminado por boa parte da sociedade. Mais tarde são os cursos universitários: nutrição? Enfermagem? Psicologia? Pedagogia? Design de interiores? Gastronomia? O machismo está pronto para mandá-los para a engenharia, para o direito e para administração de empresas. Essas atitudes nos levam para o movimento feminista, que luta pela igualdade, não só das mulheres para com os homens, mas também dos homens para com as mulheres, permitindo aos gêneros a liberdade de escolha sem que haja julgamentos ofensivos e exclusões.
Portanto nós como estudantes de Biologia acreditamos também que é de extrema necessidade a luta contra os obstáculos específicos que mantém as estudantes longe das áreas da ciência, e é importante estimular e encorajar o desenvolvimento acadêmico feminino e acima de tudo quebrar estereótipos que impedem as mulheres e meninas de terem carreira científica. Além disso acreditamos que no caso aqui abordado, se a mídia se utiliza de um dos cientistas homens para lançar a matéria sobre a primeira imagem do buraco negro, os internautas não teriam atacado, como o ocorrido com Katie. O biológico feminino pode impor barreiras, mas isso não deve ser visto como problema nem fazer com que as mulheres tenham papel se subordinação nas sociedades.


O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Etologia, tendo como base as obras....


NATIVIDADE, Jean Carlos; SILVANO, Maiala Bittencourt; FERNANDES, Heitor Barcellos Ferreira. Diferenças entre homens e mulheres: desvendando o paradoxo. Rev. Psicol., Organ. Trab.,  Florianópolis ,  v. 14, n. 1, p. 119-122, mar.  2014 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1984-66572014000100010&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  26  abr.  2019.

Salvador, E. P., Cyrino, E. S., Gurjão, A. L. D., Dias, R. M. R., Nakamura, F. Y., & Oliveira, A. R. D. (2005). Comparação entre o desempenho motor de homens e mulheres em séries múltiplas de exercícios com pesos. Rev Bras Med Esporte, 11(5), 257-61.
SANTOS, Vanessa Sardinha dos. "Diferenças biológicas entre homens e mulheres"; Brasil Escola. Disponível em <https://brasilescola.uol.com.br/curiosidades/diferencas-entre-homens-mulheres.htm>. Acesso em 28 de abril de 2019.
SILVA, Fabiane Ferreira da. Mulheres na ciência: vozes, tempos, lugares e trajetórias. 147 f. Dissertação (Mestrado em Educação em Ciências: Química da Vida e Saúde) – Instituto de Educação, Universidade Federal do Rio Grande, 2014. Disponível em <http://repositorio.furg.br/handle/1/5028?show=full>. acessos em  26  abr.  2019.
Senkevics, A. S., & Polidoro, J. Z. (2018). Corpo, gênero e ciência: na interface entre biologia e sociedade. Revista da Biologia, 9(1), 16-21.
Unesco, 2018. Decifrar o código: Educação de meninas e mulheres em ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM). Disponivel em <https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000264691> Visto em Abril de 2019.
SILVA, Fabiane Ferreira da; RIBEIRO, Paula Regina Costa. Trajetórias de mulheres na ciência: "ser cientista" e "ser mulher". Ciênc. educ. (Bauru),  Bauru ,  v. 20, n. 2, p. 449-466,    2014 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-73132014000200449&lng=en&nrm=iso>. access on  28  Apr.  2019.  http://dx.doi.org/10.1590/1516-73132014000200012.
RODRIGUES, V. L,. A importância da Mulher. Disponível em <http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/729-4.pdf>. acessos em  26  abr.  2019.

Espiritualidade e Ciência: Os animais são espirituosos?


Série Ensaios: Sociobiologia

Por Ana Paula Javorski, Daniela Zolet, Gabriela Bownen, Gabriela Inhesta, Fabiana Bouwman, Suélen Boni.
Acadêmicos de Ciências Biológicas



         A espiritualidade pode ser definida como um sistema de crenças que enfoca elementos intangíveis, que transmite vitalidade e significado a eventos da vida. Tal crença pode mobilizar energias e iniciativas extremamente positivas, com potencial ilimitado para melhorar a qualidade de vida do indivíduo. Nos animais, ainda não se sabe ao certo em que a espiritualidade influencia diretamente, mas a motivação que os leva a desejar uma vida digna com o objetivo de gerar descendentes e sobreviver pode ter envolvimento espiritualista.
            Até pouco tempo atrás, os cientistas acreditavam que o comportamento espiritualista estava relacionada apenas com a socialização e com a educação recebida pelo indivíduo. Porém, já foi demonstrado que a genética também possui grande influência nisso. Nos estudos de Laura Koening (2005) foi observado que existe uma influência genética e que esta tende a aumentar da adolescência para a fase adulta. Quando criança, o convívio com os membros da família faz com que o nível de espiritualidade seja semelhante a deles, mostrando grande influência ambiental. Quando adultos, a influência ambiental começa a diminuir e a genética tende a aumentar. Segundo Laura, não existe gene para a religiosidade, mas seu efeito está relacionado com os genes que influenciam a personalidade. Isso faz com que algumas pessoas sejam mais propensas do que outras a desenvolver a espiritualidade e, além disso, aderir uma religião.
O estudo do Comportamento Animal é uma ponte entre os aspectos moleculares e fisiológicos da biologia e da ecologia. O comportamento é a ligação entre organismos e o ambiente, e entre o sistema nervoso e o ecossistema. Além disso, o comportamento é uma das propriedades mais importantes da vida animal e tem um papel fundamental nas adaptações das funções biológicas.  
Em seu livro, intitulado “O Gene de Deus: Como a Fé Fica Conectada a Nossos Genes” (2005), o geneticista Dean Hamer apresenta a 'Hipótese do Deus-Gene’. Essa hipótese é baseada em estudos neurobiológicos, psicológicos e comportamentais e atribui a tendência religiosa à expressão do gene VMAT2 (transportador de monoamina vesicular 2). Esse gene é ativado durante a contemplação religiosa e codifica uma bomba de proteínas que transporta os neurotransmissores, produzindo as sensações favoráveis associadas a experiências místicas. Acredita-se que o gene VMAT2 é um condicionante biológico agindo sobre os animais humanos e não humanos. Os condicionantes etológicos podem ser interpretados quando o animal busca a dignidade e a sua sobrevivência demostrando possuir algo que é transcendente, além disso os animais buscam estar de “corpo e alma”, ou seja, focam em sua sobrevivência além de tudo, seus atos estão totalmente interligados a viver buscando a homeostase e para isso é necessário o foco total, estar presente de fato naquilo que esta acontecendo no momento.
O gene VMAT2 funciona na produção de um senso inato de otimismo que, por sua vez, pode produzir efeitos positivos tanto física quanto psicologicamente. Sendo assim, acredita-se que a persistência evolucionária do gene VMAT2 seja governada pela seleção natural (Hamer, 2005). Algumas descobertas já provaram que o otimismo promovido pela fé está relacionado com a uma saúde mais forte e menor incidência de derrames e problemas cardíacos. Além disso, a incidência de depressão e suicídio são mais baixas entre os religiosos. Essas vantagens geradas por essa personalidade podem ter selecionado positivamente o “gene da fé”.

        Muitos questionam a espiritualidade dos animais e como ela é desenvolvida. Na conceituação espírita, somente podemos falar em alma quando esta já atingiu um determinado nível evolutivo, mais precisamente quando conquistou o discernimento e o pensamento contínuo. Na reportagem “Amor pelos animais ultrapassa a barreira religiosa” (publicado pelo G1 em 2018),  o médico veterinário e professor Cláudio Yudi aborda a relação dos animais com a espiritualidade. Segundo ele, alguns tutores não concordam mais em realizar eutanásias em seus animais doentes e procuram outras alternativas para melhorar a qualidade de vida de seus pets. Alguns centros espíritas já realizam o ritual de “passe” em animais e plantas, e observaram uma melhora na saúde e qualidade de vida. Além disso, segundo o Yudi, alguns animais possuem uma capacidade de mediunidade melhor que os seres humanos e podem ver coisas que não conseguimos enxergar.
Muitos estudos já têm provado que técnicas como o Reiki, quando utilizadas em humanos ou animais, podem trazer benefícios para saúde mental e física. O Reike foi criado pelo japonês Mikao Usui no início do século vinte. Ele consiste em um ritual em que se transmite energia através das mãos sobre um corpo, sendo ele humano ou animal, para aliviar dores e melhorar o bem estar. Essa técnica está sendo muito utilizada para auxiliar a medicina convencional.
            Estudos já demonstraram a eficácia desta prática. Baldwin (2006) realizou experimentos utilizando ratos de laboratório. Nesses animais, os barulhos altos podem levar a vários distúrbios, como a danificação da microvasculatura, levando ao vazamento do plasma sanguíneo no tecido circundante. Os ratos foram induzidos ao estresse através de ruídos altos e posteriormente eles foram tratados com a técnica de Reiki. Com isso, eles puderam concluir que o Reiki reduziu significamente o vazamento microvascular, sendo uma técnica útil para minimizar os efeitos do estresse ambiental em animais e humanos. Além disso, em estudos posteriores, já foi comprovada a eficácia do Reiki na diminuição da frequência cardíaca e pressão arterial (BALDWIN, 2008).
       
     A espiritualidade gera uma motivação diante da formação de grupos, uma vez que os envolvidos que ali se relacionam demonstram e detêm interesses e compreensões parecidas que fortalecem a estruturação de uma união entre aqueles indivíduos. Essa união resulta em um acolhimento dos indivíduos que formam determinado grupo, desenvolve o sentimento de fazer parte de algo e de se sentir compreendido em meio aos outros.
Por fim, até hoje não foi identificada e mensurada com clareza a espiritualidade no comportamento de outras espécies animais, diferente do ser humano que adquiriu esse comportamento e leva no decorrer das gerações, pois serve como um motivador, que gera coragem e esperança, e foi fundamental para a manutenção da espécie. Acreditar em algo maior, causa uma motivação. Já os outros animais, acredita-se que são guiados pelo instinto, sem essa necessidade de possuir crenças.
No debate realizado em sala com os formandos de biologia foram abordados diversos pontos relevantes sobre a importância da espiritualidade como algo único e individual para a formação do indivíduo, tais como a manutenção do autocuidado e autoconhecimento, tendo em vista que, por se tratar de algo tão individual, a espiritualidade desenvolve um forte senso crítico sobre nós mesmos. Durante o debate surgiram muitos relatos dos estudantes sobre sua relação com a espiritualidade, citando os benefícios advindos da mesma e suas implicações.
Nós como formandas em biologia acreditamos fortemente na importância da espiritualidade para a saúde física e psicológica. O homem desde o seu primórdio recorre a espiritualidade como a busca de um sentido para a existência, visando a compreensão do mundo e de si mesmo de inúmeras maneiras, independente de religião ou cultura. Esse entendimento único e individual reflete diretamente na forma em que nos enxergamos como um indivíduo vivendo em sociedade, trazendo uma melhor qualidade de vida e impactos positivos na saúde através da sua prática.

O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Etologia, tendo como base as obras:


Saad, M., Masiero, D. e Battistella, L. 2001. Espiritualidade baseada em evidências.
Acta Fisiátrica. 8, 3 (dez. 2001), 107-112.
Dias, M. (2018). Amor pelos animais ultrapassa a barreira religiosa”, diz médico veterinário de MG que faz palestras sobre pets e espiritismo. G1, triângulo Mineiro.
Snowdon, C., T. (1999). O significado da pesquisa em Comportamento Animal. Estud. psicol. (Natal). vol. 4. no.2 Natal. pp. 35-373.
Pula, A., V., Vieira. (2016). Como funciona a espiritualidade dos animais?. Redação Alto Astral.
STEIN, Diane. Reiki essencial: manual completo sobre uma antiga arte de cura. Editora Pensamento, 2003.
BALDWIN, Ann L.; SCHWARTZ, Gary E. Personal interaction with a Reiki practitioner decreases noise-induced microvascular damage in an animal model. Journal of Alternative & Complementary Medicine, v. 12, n. 1, p. 15-22, 2006.
BALDWIN, Ann Linda; WAGERS, Christina; SCHWARTZ, Gary E. Reiki improves heart rate homeostasis in laboratory rats. The journal of alternative and complementary medicine, v. 14, n. 4, p. 417-422, 2008
KOENIG, Laura B. et al. Genetic and environmental influences on religiousness: Findings for retrospective and current religiousness ratings. Journal of personality, v. 73, n. 2, p. 471-488, 2005.
HAMER, Dean H. The God gene: How faith is hardwired into our genes. Anchor, 2005.
MEYER, Tessa. The Neurophysiology of Religious Conversion Experiences. Science Journal of Psychology, v. 2013, 2013.
Outros:
-       O gene de deus (livro).