domingo, 21 de dezembro de 2025

Amor incondicional

Por Thierry Lummertz 


O

rio que

corre em mim

é amor incondicional.

Assim como o rio que corre,

incondicionalmente, levando o

líquido da vida para todos os seres

desse planeta, sem esperar nada em troca,

o meu amor pela natureza é puro, leve, como

o amor divino por todos nós. A água é o próprio amor

diluído, uma molécula simples que está em tudo e em todos.

Essa água não é minha, nem sua, nem de ninguém. Apenas é o

lembrete do amor da mãe natureza para seus seres viventes nela.

Quando olhamos a terra de fora, é possível perceber que não existem

muros que separam a natureza do que somos. Portanto, a água flui, traspassando as pedras, sem fronteiras, resiliente aos obstáculos, simplesmente se deixando ir, na direção que o caminho a conduz. Não de forma impensada, mas consciente que esse é o melhor caminho. Ela é transparente em sua verdade, porém aberta a novas possibilidades, podendo se moldar a situações e lugares. Ela, humildemente, sabe a sua importância e cada gota de água sabe seu propósito, unindo-se a um fluxo de água maior e maior, sendo cachoeira, riacho ou correnteza. Então, todas elas juntas, iluminando o caminho, rolam em uma sonora e constante coreografia, para o extraordinário oceano. Na imensidão das águas profundas se abriga ainda mais vida, numa delicada dança, que equilibra toda a biosfera. Águas profundas que nos fazem mergulhar no profundo do nosso ser e buscar o amor mais puro pelos nossos irmãos e os moradores desse grande ecossistema, que funciona num fluxo de energia, neste e em outros mundos, no passado, presente e futuro, que construímos aqui e agora, para que a vida continue para além do universo. Meu amor é correnteza que flui para a unidade, abençoada pelo grande e infinito Universo, que nos presenteia todos os dias com uma oportunidade de aprendermos uns com os outros e cumprir nossa jornada nessa experiência física e conectada.

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Ser Água: um jeito de existir no mundo


por Nayara Lemasson Tortato
Pibic-Jr PUCPR

Ser água, pra mim, vai muito além de ser líquida ou transparente. É quase um jeito de existir no mundo. A água não briga com o espaço que tem, ela simplesmente ocupa, se molda, escorre, vira onda, sossega, tempestade… e continua sendo água. Quando penso nisso, lembro do jeito que eu me sinto nadando, como se meu corpo e a água conversassem em silêncio. E é daí que nasce minha ideia de ser água: ser livre, ser leve e, ao mesmo tempo, ser forte. Quando eu entro na piscina, parece que tudo encaixa. A água me puxa pra perto, esfria a pele, acalma a mente e dá aquela sensação de que o mundo lá fora fica em pausa por alguns minutos. Cada braçada vira um passo que eu dou dentro de mim mesma. Tem dias que nado rápido, quase como se estivesse correndo de alguma coisa. Tem dias que vou devagar, só sentindo a água passar pelos meus braços, como quem aprende a respirar de novo. E é nesse balanço que eu percebo o quanto a água me ensina. Ela não tem medo de mudar de forma, de virar chuva, gelo, vapor. Ela não pede desculpa por ser forte quando precisa ou por ser tranquila quando é o momento. E eu tento ser assim também: flexível sem perder meu jeito, firme sem ser dura, suave sem me apagar. A água me mostra que até quando tudo pesa, ainda tem como flutuar. Mesmo quando a vida parece fundo demais, existe sempre um jeito de seguir em frente, nem que seja contornando o obstáculo. No fim, ser água é entender que a vida não é uma linha perfeita, reta e controlada. É correnteza, é curva, é movimento. É cair, levantar, evaporar e voltar à terra. É encontrar força na adaptação e paz no fluxo. Quando eu nado, eu me lembro disso: que eu posso seguir, posso mudar e ainda continuar sendo eu. Ser água é ser liberdade, é ser coragem, é ser movimento. E, de algum jeito bonito, é exatamente assim que eu quero viver.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

O lugar onde o mundo sonha em nós



por Marta Luciane Fischer



Os sonhos sempre me intrigaram. Viver e lembrar dessa outra dimensão foi, durante muito tempo, um desafio para mim, embora houvesse algo profundamente intuitivo que insistia em dizer que ali existia uma mensagem a ser decifrada. Alguns sonhos eram assustadores, outros reveladores, outros acolhedores. Há um, em especial, que atravessou o tempo sem perder nitidez: eu tinha cerca de quatro anos e caminhava por uma vila, subindo uma rua de paralelepípedos, de mãos dadas com Jesus. A imagem permanece viva, não como lembrança difusa, mas como experiência plena, quase corporal. Por um período da vida, passei a retratar meus sonhos em desenhos e a refletir sobre eles; reverberavam por dias, semanas, às vezes meses. Mais recentemente, comecei a registrá-los em áudio e depois a passá-los para a escrita, como se fosse necessário atravessar conscientemente uma barreira entre o que chamo de consciente e inconsciente para que essa comunicação pudesse, de algum modo, me situar no mundo. Esse movimento despertou uma curiosidade mais ampla sobre o que são os sonhos, de onde vêm e por que, em certos contextos, parecem tão centrais, enquanto em outros se tornam quase irrelevantes. Do ponto de vista biológico, hoje sabemos que sonhar é uma função regular do cérebro humano, fortemente associada ao sono REM, embora também ocorra em outras fases do sono. Estudos clássicos e contemporâneos em neurociência demonstram que a produção de sonhos é automática e recorrente: quando indivíduos são privados de sono REM, ocorre posteriormente um rebote onírico, indicando que o cérebro preserva ativamente essa função mesmo sob condições adversas. Não há evidência de que populações modernas sonhem menos em termos neurofisiológicos; o que mudou foi a relação com o sonho e, sobretudo, a capacidade de lembrá-lo e elaborá-lo simbolicamente.
A distinção entre sonhar e lembrar do sonho é central. Sonhar é um processo contínuo; lembrar é um evento contingente, dependente da ativação coordenada de sistemas de memória episódica, linguagem e atenção, especialmente envolvendo o hipocampo e regiões do córtex pré-frontal. Durante o sono REM, essas áreas apresentam atividade reduzida, o que explica por que sonhos vívidos tendem a se dissipar rapidamente ao despertar. A recordação está fortemente associada a microdespertares espontâneos durante ou logo após o REM, algo cada vez mais raro em rotinas marcadas por alarmes, privação de sono, hiperconectividade digital, uso de álcool e psicofármacos. Assim, a sensação moderna de “não sonhar” decorre, em grande parte, da degradação da arquitetura do sono, amplamente documentada por estudos epidemiológicos e pela Organização Mundial da Saúde. Há, contudo, um componente cultural decisivo. Em sociedades modernas, os sonhos foram progressivamente privatizados, medicalizados ou descartados como irrelevantes. Fora de contextos terapêuticos específicos, raramente são compartilhados ou interpretados coletivamente. Mesmo a psicanálise, ao recolocar o sonho no centro da vida psíquica, restringiu sua leitura ao espaço clínico, desvinculando-o de uma função social mais ampla. Pesquisas em psicologia cultural mostram que, embora as pessoas continuem sonhando, tendem a classificar seus sonhos como “estranhos”, “sem sentido” ou “apenas coisa da mente”, refletindo um regime cultural que desautoriza o sonho como forma legítima de conhecimento. Onde o sonho não importa socialmente, ele não é lembrado; onde importa, ele é narrado, escutado e elaborado, como demonstram estudos transculturais com populações indígenas e tradicionais.
Esse deslocamento cultural também transformou o conteúdo e o sentido do que se chama “sonho”. Atualmente quando perguntamos a alguém qual é o seu sonho, geralmente é uma expectativa individualista, geralmente de difícil realização e envolvendo saciamento de necessidades materiais. É a mercantilização do sonho. Nas cosmologias antigas — egípcias, africanas, asiáticas e ameríndias — o sonho não era estruturado em torno do desejo individual ou de aspirações futuras. Sonhava-se com relações, advertências, alianças, doenças, guerras, territórios e responsabilidades. No Egito Antigo, por exemplo, os sonhos eram considerados mensagens objetivas enviadas pelos deuses e interpretadas por especialistas; manuais de oniromancia, como o Papiro Chester Beatty III, integravam sonho, medicina, política e religião em um mesmo sistema de conhecimento (Assmann, Death and Salvation in Ancient Egypt). Em muitas sociedades africanas, o sonho era espaço de encontro com ancestrais e divindades, orientando rituais, diagnósticos e decisões coletivas, sem a separação moderna entre subjetivo e objetivo (Mbiti, African Religions and Philosophy,). Nas tradições asiáticas, o sonho também ocupou lugar central. Na China clássica, textos como o Zhougong Jie Meng articulam o sonho à harmonia cosmológica do qi, enquanto o taoismo questiona radicalmente a fronteira entre vigília e sonho, como no célebre relato de Zhuangzi que sonha ser uma borboleta. Na Índia, os sonhos aparecem nos Vedas e nos Upanishads como um dos estados fundamentais da consciência, essenciais para compreender a natureza do eu e a ilusão do mundo fenomênico, mais ligados ao conhecimento e à libertação do que à previsão do futuro.
Entre povos ameríndios, essa concepção relacional do sonho atinge talvez sua expressão mais radical. Em muitas cosmologias indígenas das Américas, o sonho é uma experiência ontologicamente real, na qual a alma se desloca e entra em relação com espíritos, animais-pessoa, ancestrais e entidades territoriais. Entre os Achuar, sonhar é literalmente ver e escutar outros seres em um plano contínuo ao da vigília, orientando decisões práticas como caça, cura e guerra. Eduardo Viveiros de Castro descreve o sonho como trânsito perspectivista, no qual o sonhador pode assumir o ponto de vista de outros seres, o que exige cuidados rituais e validação coletiva (A inconstância da alma selvagem). Entre povos norte-americanos, como os Ojibwa, os sonhos-visão estruturavam pactos éticos duradouros entre humanos e espíritos guardiões, moldando a própria pessoa ao longo da vida (Hallowell, Ojibwa Ontology). De forma transversal, os sonhos ancestrais indígenas articulavam três dimensões fundamentais: epistemológica, ao produzirem conhecimento legítimo sobre o mundo; ontológica, ao revelarem a continuidade entre os planos visível e invisível; e ética, ao orientarem condutas, alianças e cuidados com o território. Diferentemente das leituras psicanalíticas modernas, que tendem a reduzir o sonho à expressão simbólica do inconsciente individual, as cosmologias indígenas compreendem o sonho como evento relacional, situado e politicamente relevante, inserido em redes de reciprocidade entre humanos, ancestrais e não humanos.
Essa concepção permanece viva em muitas comunidades contemporâneas e tem sido reconhecida, inclusive, como um desafio epistemológico às ciências modernas, ao propor outras formas de produção de conhecimento e de relação com o real, como discutido por autores ligados à antropologia da ontologia e à etnopsicologia indígena (Kopenawa & Albert, A queda do céu). O contraste com a modernidade é profundo. A partir do Renascimento, do Iluminismo e da Revolução Científica, experiências não replicáveis como os sonhos tornaram-se epistemologicamente suspeitas. O sonho foi progressivamente confinado ao domínio da mente, da imaginação ou da patologia, primeiro pela filosofia moderna, depois pela psicologia e pelas neurociências. Não se trata de negar o valor dessas abordagens, mas de reconhecer que elas produziram um empobrecimento da autoridade pública do sonho, transformando-o em experiência privada, sem relevância ética ou coletiva. Como mostram autores como Walter Benjamin e Bruno Latour, esse processo revela menos um avanço natural da razão e mais a imposição histórica de um regime específico de conhecimento, que separa sujeito e mundo, fato e valor, humano e não humano (O narrador e Jamais fomos modernos,). Talvez retomar a escuta dos sonhos, como experiência biológica, cultural e ética, seja também um gesto bioético cotidiano. Não no sentido de romantizá-los ou absolutizá-los, mas de reconhecer que eles expressam modos de relação com o mundo que a modernidade tentou silenciar. Sonhar continua sendo universal; lembrar, narrar e atribuir sentido ao sonho é uma escolha histórica e cultural. E essa escolha diz muito sobre como concebemos a nós mesmos, o conhecimento e as formas legítimas de habitar o mundo.

 


domingo, 14 de dezembro de 2025

Eu sou o Rio e o Rio sou Eu

                              Por Marta Luciane Fischer


É preciso ter sonhos para viver? É preciso ter um propósito? A vida só vale a pena se for vivida? Se eu sou o rio e o rio sou eu, o que sinto ao entrar no rio é o mesmo que ele sente ao eu entrar nele? Há algum tempo, tenho pensado muito sobre esse entrelaçamento entre o que é ser e o que a água é. Se é possível encontrar uma relação entre o que sou e o que é a água. É impressionante como uma molécula tão simples representa a vida em multidimensões, e como observar a água atentamente pode, de alguma forma, nos ajudar a entender a nós mesmos e o sentido da vida. Num primeiro momento, pensei que Eu era o Rio, a água carregada de história, dores e amores, que passava por mim ativando processos bioquímicos que animavam meu corpo. Era Eu. Mas depois entendi que Eu não era a água em si, mas o Substrato que acolhia essa água enquanto ela passava por mim. Sim, eu sou a água, mas enquanto ela está acolhida pelo meu substrato, que é infinitamente menor que ela, mas cujos contornos, dureza, texturas e turbidez possibilitam que essa água se movimente mais rápido ou mais devagar, que seja mais cristalina ou escura, que comporte mais ou menos vida, que se demore mais ou menos por aqui. Tal como a água, o Substrato também é mutável, mas tem raízes, tem história, tem acúmulos e erosões que dão sentido ao rio. Então, ser rio não é apenas ser, há uma ação no moldar desse substrato que acolhe a água, há decisões sobre o que, como e onde acumular os detritos que vêm de um fluxo ancestral e experiencial. Há decisão em ser pedra, areia ou argila e impactar na expressão da água que por aqui passa. Mas essa água também impacta o substrato, pois, de onde vem, traz suas experiências. Ser rio é ser substrato raso e também profundo. O rio passa por cima, entra abaixo e acima do substrato. O rio passa liquefeito, congelado ou gasoso. O rio passa doce ou salgado. Às vezes, o rio pode ser represado e suas águas não seguem em uma única direção, mas se multiplicam em formas de expansão. Eu, ser que respira, também sou o rio que respira, contrai e expande as águas nas margens, mudando o contorno desse substrato e deixando-o, algumas vezes, irreconhecível. Há momentos em que estamos tão aptos a receber a água de outros rios que nos transformamos em um Mar, que também pode se moldar conforme substratos maiores, coletivos, que são rochas que aguentam a expressão turbulenta das águas ou areia que, no fluxo de agregar e desagregar, comporta o ritmo das águas. Posso ser rio, lago ou mar; superficial, subterrâneo ou voador. 

E tudo é tão simples em uma complexidade capaz de revelar, nas faces das águas, todas as faces da subjetividade humana. E tão perfeitamente composto, tal qual a sinfonia gerada no universo com os movimentos cósmicos. Na busca da nossa integridade e de um sentido para tudo o que sentimos, nos afastamos da resposta que está em e ao nosso redor. Seria eu um ser diferente se, apenas respirando, fosse aquele que procura um sentido para sua respiração? Será isso consequência dos trajetos dos nossos próprios substratos, que precisam colapsar para se reintegrar? Nosso início foi uma gotinha no oceano que abrigou poeiras de estrelas, permitindo que seus entrelaçamentos formassem tantas formas de vida que nem conseguimos contar. A memória desse momento é replicada milhões, bilhões, trilhões de vezes em um corpo que, assim como a gota de água, abriga inteligência e gera coletividade em meio à individualidade. Essa compreensão de que sou o substrato que respira e é Rio, não é uma excentricidade nem exclusividade. Trilhões antes de mim encontraram o sentido do seu Rio, até de uma forma mais genuína, pura e autêntica. Hoje, integro esse conjunto de seres que não querem apenas ser moléculas agregadas e movimentadas no fluxo entorpecente, mas que aceitam, sem vitimização, sentir o que o Rio sente quando é estagnado, quando é ferido pelas feridas de outros rios, quando é contaminado por sentimentos que não são seus, quando é explorado como um serviçal dedicado sem reconhecimento, quando é silenciado, ofuscado, injuriado e injustiçado por reagir à altura do dano que lhe é imposto. Hoje, me sinto mais humana porque me sinto mais rio, me sinto dolorida, mas menos solitária. E entendo que o sentido da vida é, sim, o sentido do Rio, mas que o Substrato que sou dá sentido a esse sentir.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

A natureza que nos percebe, quando o silêncio se torna voz: humanos e não humanos em deliberação



Por Cristiano Chiaramonti


Refletir sobre deliberação implica reconhecer que pensar a Bioética Ambiental significa admitir que humanos e não humanos compartilham histórias, influências e destinos interligados. A antropóloga Anna Tsing oferece uma chave preciosa para compreender esse entrelaçamento possível de ser transposto para uma Bioética Ambiental interdisciplinar e complexa. Ao apresentar as assembleias como fundamento para a compreensão de agrupamentos abertos que formam teias de relações possíveis. Para Tsing, assembleias não são apenas encontros eventuais, elas são processos vivos, espaços onde diferentes formas de vida, humanas e não humanas se transformam mutuamente, produzindo histórias que extrapolam a soma das partes envolvidas. São encontros que se tornam acontecimentos se modificando por meio de uma contaminação de saberes mutuamente retroalimentado no processo. Essas assembleias deslocam certezas unilaterais e retiram o humano e os não humanos do centro exclusivo de decisão, arrastando para dentro de si todos os elementos que compõem e sustentam a vida planetária, revelando que não há domínio estritamente unilateral capaz de se sustentar sozinho a diversidade. Esse deslocamento nos ajuda a revisitar uma das críticas mais intensas feitas por Tsing, a crença no progresso ilimitado, corroborado por Van Potter em sua obra Bioética Global. Por séculos, naturalizamos a ideia de que sempre haverá algo maior, melhor e mais avançado à frente, como se a história da diversidade da vida fosse uma estrada linear na qual humanos e os não humanos individualmente iluminam todos os demais. A sobrevivência por meio de interesses individuais, sejam eles humanos ou não humanos, maximizados pelo próprio interesse individual, acabam tirando proveito dos encontros, se mantendo inalterados enquanto núcleo de saberes, pode-se dizer que tanto a Economia quanto a Ecologia se tornaram campos férteis para o progresso como expansão individual, perdendo a relação dos encontros por meio das contaminações de verdades. Essa noção, profundamente antropocêntrica seja pela via Econômica e ou Ecológica, fracassa diante da realidade contemporânea e de suas múltiplas crises socioambientais. Insistir que o progresso, entendido como crescimento permanente e individual, é o único caminho possível nos impede de enxergar a complexidade das relações que sustentam a vida planetária. 
Na tentativa de romper essa narrativa, é preciso observar as assembleias compostas por humanos e não humanos com outro olhar. As crises ambientais, rios contaminados, cidades sufocadas, florestas devastadas, espécies extintas, são fenômenos isolados da sociedade, decisões individuais de desenvolvimento, que são constituídas por crises sociais. Toda mudança climática e ou ambiental corresponde a um modo de organizar a vida planetária marcada por decisões desiguais, exploração e individualismo. A natureza, embora muitas vezes silenciosamente, responde a essas crises sociais de maneira persuasiva, o silêncio de um rio poluído é uma forma de resposta, o silêncio de uma floresta devastada é um aviso, o silêncio de uma espécie extinta é um grito tardio, as enchentes em grandes cidades e o aquecimento global são respostas silenciosas às crises socias contemporâneas. Esses silêncios são vozes, são narrativas que revelam as escolhas humanas e os limites do modelo vencedor baseado na dominação individual. A natureza não está morta, ela está silenciada, e esse silêncio revela o estado de adoecimento compartilhado entre a sociedade humana e não humanos. Pensar a relação da sobrevivência, nesse sentido, exige abandonar a ideia de conquista e expansão individual como precursores da vida. Historicamente, sobrevivência foi associada a vencer, dominar, crescer, mas Tsing convida a contemplar outra perspectiva, a sobrevivência como colaboração, como entrelaçamento de diferenças que produz aquilo que ela chama de contaminação. A contaminação, em sua concepção, não é algo negativo e sim um processo pelo qual diferentes formas de vida se transformam quando se encontram. Humanos e não humanos abrem espaço uns para os outros, suas verdades, saberes e modos de existência se contaminam, gerando diversidade, novas possibilidades e novas narrativas. Assim, sobreviver não é permanecer puro, isolado ou autossuficiente como a ideia de desenvolvimento individual nos permite pensar. Sobreviver é permitir-se ser transformado, é depender, interagir, relacionar-se, e na ausência dessa colaboração mútua, da contaminação dos saberes entre humanos e não humanos, a morte biológica, ecológica, simbólica torna-se inevitável. Quando interesses individuais, humanos ou não humanos, são maximizados a partir do isolamento, as relações deixam de gerar transformações. 
A Economia e a Ecologia, cujo radical “eco” vem de oikos, que significa casa/lar, tornaram-se, paradoxalmente, campos férteis para a perpetuação da lógica do progresso individual. Perdeu-se a percepção dos encontros, das trocas, das contaminações que sustentam a vida no planeta Terra. Para Tsing, nada na vida planetária acontece por decisões isoladas. O que realmente sustenta o mundo em que vivemos, são os encontros essa combinação instável e criativa de seres diferentes que compõem assembleias vivas e dinâmicas. São esses encontros, e não os planejamentos unilaterais dos humanos e ou dos não humanos, que produzem as condições de continuidade da vida. A ilusão da autonomia, humana ou não humana, nos afasta do reconhecimento mais básico, ninguém sobrevive sozinho. Nem florestas, nem fungos, nem animais, nem cidades, nem sociedades humanas. Todas as formas de vida dependem dessa contaminação contínua que produz diversidade, resiliência e adaptação. Assim, compreender que a natureza nos percebe, e que seu silêncio também é voz, é reconhecer que estamos todos envolvidos em um mesmo tecido vivo. Um tecido em constante transformação, feito de encontros, trocas, conflitos e colaborações. Um tecido que pede menos desenvolvimento e mais relação, menos controle e mais escuta, menos individualidade e mais assembleias. A vida no planeta emerge dessas interações, e é nelas que reside a capacidade para enfrentar as crises do nosso tempo. Humanizar a natureza é insuficiente, naturalizar os humanos também, o convite é outro, deliberarmos juntos, humanos e não humanos, em uma assembleia ampliada da vida, onde o silêncio deixa de ser ausência e se torna presença, uma presença que orienta, questiona, convoca e transforma. As florestas são concebidas e transformadas por processos de contaminação de saberes entre humanos e não humanos, não é algo estático. Davi Kopenawa, xamã Yanomami, defende a floresta porque a conhece intimamente, são suas palavras que devo ouvir, e não apenas as certezas do pensamento humano.

sábado, 29 de novembro de 2025

Comemoração 50 anos da Pós-Graduação em Zoologia UFPR: transmutando memórias consolidando de afetos



por Marta Luciane Fischer


Meu corpo ainda reverbera tudo que vivemos ontem, dia 28 de novembro de 2025, nas comemorações dos 50 anos do Programa de Pós-graduação em Zoologia da UFPR. Uma vivência ímpar de requisição, transformação e transmutação de memórias. A profissional que sou foi moldada ali naquele território, como uma continuidade complementar do meu nascimento na PUCPR. O ano era 1994, eu nem sabia o que era mestrado, meu professor Fly quem disse, você tem perfil para o mestrado da Zoo, quase um mito para os graduandos da PUC, até então. Eu fui! Não sabia nada dos protocolos científicos e até um orientador não credenciado consegui, o João Vasconcellos-Neto de Campinas, mas fui barrada de fazer a matrícula, por não ter um orientador da casa, a coordenadora então Dr. Setuko Massunari, me deu a noticia com seu jeitinho carinhoso. Eu fui até o banheiro, e chorei por alguns momentos, então pensei: será que é pra terminar assim? Voltei até ela, com olhos inchados e perguntei se não havia nenhuma alternativa. E uma faísca de conexão, levou ela a tomar o telefone e contactar meu eterno orientador Luiz Amilton Foerster, ele topou e impossível aconteceu, passei na prova mais temida da minha vida, conheci as pessoas mais incríveis que pulsam em mim até hoje e, principalmente, consolidei a minha carreira de bióloga, zoóloga e aracnóloga. 
Quando recebi o convite das organizadoras do evento Dra. Maria Angélica Haddad, Dra. Rosana Rocha e Dra. Lilian Manica para escrever um capítulo para o E-Book sobre o meu animal de pesquisa, já delirei, por mim e por ela: A Aranha-Marrom. Escrevi imediatamente e fui providenciar fotos inéditas, afinal é uma ocasião que merece um visual à altura do evento. Contudo, não esperava que além do livro, viria um encontro tão inusitado! As meninas nos solicitaram fotos, então fui vasculhar meus álbuns, pois naquela época as fotos eram de reveladas, e confesso que fiquei impressionada como nos divertimos, aliás todas as fotos eram fazendo festa, especialmente na nossa sala de estudo que era laboratório, ponto de encontro e de moradia, não apenas dos estudantes da Zoo, mas também da Entomo. A sala 2, era a melhor! Nas minhas memórias registradas que desenterram os sentimentos, o Free estava em todas, como esse guri acolhia com força meu lado lúdico (até hoje alias), estavam ali também meu amado Popa, Samira, LuDu (Luiz Duboc), Kerlen (minha comadre), Gislaine (fazíamos os bolos temáticos), Ney, Susi, André, Marcus... 
Obviamente não posso esquecer de duas amadas, que as vezes festavam, mas eram comprometidas e estudiosas demais: a Ednalva e a Janete, elas me acolheram no primeiro dia, eu estava com muito medo, saindo literalmente de uma casca de ovo, da minha zona de conforto, e foi ali na sala de estudo 1, que me senti a vontade e segura para seguir, sempre contando com elas. A Janete, foi minha companheira de trabalho, solidificamos nossos afetos, a Edi, não a via há muitos anos, mas parece que foi ontem. Na sequência as meninas pediram um vídeo, eu convidei o Julio Leite pra gravar comigo ali na PUC. Julio, meu primeiro orientador de TCC, eu a primeira orientada dele, ainda como mestrando, encontros solidificados na convivência de admiração que tenho por ele em todas as dimensões possíveis (espero que ele faça um fundo musical para essa minha reflexão.). Então, quando pensei que tudo tinha acabado, eis que Angel manda um e-mail dizendo que nós fomos escolhidos para sermos homenageados, 60 em 600, eu estava entre os 10% dos egressos dignos de receberem uma homenagem pela sua trajetória? Não acreditei em um primeiro momento, insisti com o Julio para confirmar se era verdade! Fiquei ansiosa sim, acho que nem consigo descrever a intensidade de sentimentos que se emaranham nesse momento, é uma vida! é uma trajetória! É meu propósito de vida que priorizei entre tantos outros caminhos sem hesitar um só dia! 
Me preparei para esse dia, cheguei atenta, o cerimonial formal, abaixou um pouco a adrenalina e de cima de um anfiteatro 10 (palco de tantas semanas de doutorando, defesas, palestras) lotado, eu procurava por rostos conhecidos, agora revelando o tempo. Muitos dos meus mestres, admiráveis prumos, que não via há mais de 10 anos, exibiam seus cabelos brancos, revisitaram minhas memórias, também juvenis, e as provocaram a se transformarem, transmutarem e conectarem com a minha trajetória. A compreensão veio, foi isso que fui, é esse time, é esse remo, é esse rumo. Do Histórico louvável do curso, aos vídeos (inclusive o meu e do Julio), fotos e homenagens aos egressos, me emocionei. Ver o Eduardo Colley, meu filhotinho, que mora longe agora, lembrar de mim! Impagável! Então o momento das fotos, das tentativas de colocar anos, algumas vezes décadas em dia em três minutos, pois queria abraçar a todos. Tayla minha irmã caçula, Tati minha colega de turma mais inteligente, Marion que me presentou em poder partilhar um pouco com seus pequenos, a Sandra, a Lucineia, e aos professores amados, Paulo, Rosana, Setuko. Aliás eu chorei abraçando a Setuko e agradecendo por meu acolher, ela não entendeu o porque das lágrimas, rs! Emygdio, está personalizando o indígena latente dentro dele, lindo. Cultuamos a Marcia, aliás ela entrou comigo naquele evento, quando vi a Tati, lembrei dela, quando vi a Tayla, lembre dela, ai coroou, quando soube que ela entrou nosso e-book, também! Tenho certeza que ela foi quem curtir mais do que todos esse evento, e as suas memórias adocicando os colegas com paçoca, me encheu de orgulho, essa é a minha Amiga!. Enfim, uma vez mais gostaria de registrar nessa reflexão minha gratidão, por todos os privilégios e presentes que a vida me deu e me dá, só peço encarecidamente ao universo que me dê sabedoria para retribuir tudo isso, seja no legado científico, seja melhorando a vida das pessoas, seja formando novos profissionais, sendo distribuindo abraços e amando cada momento de conexão. A formação na Zoo da UFPR foi muito sólida, foi desafiante, sim! Chorei muito, surtei muito, mas criou couraça! E Deu certo, vendo a quantidade de egressos de sucesso, comprometidos, sérios, reconhecidos nacional e internacionalmente e, principalmente, admirados! Hoje, honro meu, até então imperceptível, pertencimento a esse espaço que consolida uma fauna diversa, um ecossistema em pulsação. Uhuuuu pra Nós!


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Comitê da Água PUCPR recebe visita técnica de ativista italiano Filippo Bellini para troca de experiências sobre comunidades azuis

Por Marta L. Fischer 


A visita técnica realizada hoje 27 de novembro de 2025 marcou mais um passo na internacionalização das ações da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) no âmbito das Blue Communities. Como Blue University desde 2023, a instituição recebeu Filippo Bellini, operador socio-sanitário e ativista do Forum Italiano dei Movimenti per l’Acqua, interessado em conhecer de perto o modelo brasileiro de universidades comprometidas com a gestão ética e comunitária da água. A visita teve como propósito compreender as práticas já consolidadas na PUCPR e avaliar a viabilidade de adaptação dessas iniciativas ao contexto italiano, onde apenas uma experiência-piloto de comunidade azul está em andamento. Fellipo foi recebido por representantes diretamente envolvidos na pauta hídrica da universidade: a professora Dra. Marta Fischer (PPGB), o professor Dr. Elias Wolff (PPGT), Thierry Lummertz, coordenador do Clube da Água, e a equipe da Diretoria de Operações de sustentabilidade representada por Elaine Kurscheidt, Jonas Kossar e Gustavo Ceschin Silva de Liz. Ao longo do encontro, realizou um tour institucional pelas instalações, conhecendo laboratórios, museus, iniciativas acadêmicas, projetos de extensão e práticas de sustentabilidade presentes no campus. O momento de maior destaque ocorreu à margem do Rio Belém, rio urbano que integra a identidade territorial da PUCPR e da comunidade vizinha. Longe de ser tratado como um estigma, o rio foi apresentado como um símbolo pedagógico e ético: suas águas ainda comprometidas revelam o desafio formativo de unir técnica e responsabilidade socioambiental, preparando profissionais capazes de atuar com competência e compromisso real com a vida das pessoas e dos ecossistemas. Assim, o Rio Belém foi compreendido como um eixo de pertencimento e como campo de aprendizagem, onde a recuperação da mata ciliar e os esforços de monitoramento ambiental caminham lado a lado com ações comunitárias e acadêmicas.
Na sequência, a equipe apresentou ao ativista italiano uma síntese das práticas que sustentam o selo Blue University, fundamentadas nos três pilares das Blue Communities: reconhecimento da água como direito humano, gestão pública e comunitária dos recursos hídricos e eliminação de garrafas plásticas descartáveis. A PUCPR vem avançando em todas essas dimensões, seja por meio de ações estruturais — como monitoramento semestral da qualidade da água, sistemas de redução de consumo, manutenção técnica contínua, tecnologias sustentáveis e produção de 95% da água utilizada internamente —, seja por meio de iniciativas educativas integradas à comunidade, incluindo educação ambiental, engajamento estudantil e cooperação internacional. Esses elementos também estão alinhados ao que o artigo científico “Somos uma Blue University, e agora?” apresenta sobre o papel das instituições de ensino superior no movimento global das Blue Communities, reforçando que universidades ocupam posição estratégica no desenvolvimento de tecnologias, práticas de sensibilização e modelos de governança da água baseados na justiça socioambiental. Fellipo relatou que, na Itália, o Fórum Italiano dos Movimentos pela Água tem buscado ampliar a mobilização popular e a educação para o uso sustentável da água, especialmente entre jovens de 14 a 30 anos. O país vive, assim como outras regiões europeias, uma intensificação das crises hídricas provocadas pelas mudanças climáticas, o que torna urgente o desenvolvimento de iniciativas educacionais e comunitárias capazes de reduzir o consumo e aumentar a resiliência local. 
A experiência brasileira, especialmente a da PUCPR, mostrou-se relevante exatamente pela articulação entre ciência, ética, extensão universitária, espiritualidade e participação comunitária — características que, na avaliação do visitante, são essenciais para a expansão das comunidades azuis no contexto europeu. Também foram discutidas iniciativas de engajamento estudantil como o Clube Universitário da Água, que promove ações de preservação, atividades formativas e campanhas de conscientização alinhadas aos princípios do movimento internacional. O ativista demonstrou especial interesse por essa dimensão formativa, considerando que a atuação dos jovens tem sido um dos principais motores da comunidade azul italiana. A integração entre território, universidade e espiritualidade também chamou atenção do visitante, que destacou a importância das instituições de ensino superior na promoção de políticas baseadas na justiça hídrica e no reconhecimento da água como bem comum. A visita encerrou-se com a perspectiva de ampliar a cooperação entre universidades brasileiras e italianas, fortalecendo a troca de experiências e contribuindo para a adaptação do modelo de Blue University à realidade europeia. Para a PUCPR, o encontro reforça seu papel como agente de transformação socioambiental e revela a relevância internacional das ações que vêm sendo desenvolvidas desde a certificação em 2023. A experiência reforça a missão da PUCPR como uma universidade comprometida com o cuidado da casa comum, com a justiça socioambiental e com a construção de respostas éticas, técnicas e comunitárias para os desafios globais da água.

Mais informações sobre as iniciativas citadas podem ser encontradas em:
– Fórum Italiano dos Movimentos pela Água Pública: https://www.acquabenecomune.org
– Projeto italiano de comunidades azuis (CEVI): https://www.cevi.coop
– Artigo “Somos uma Blue University, e agora?”: http://dx.doi.org/10.7213/cda13n22p158180
- FISCHER, Marta Luciane; WOLFF, Elias; DA SILVA, Luciana Caetano. Somos uma Blue University, e agora?. Caminhos de Diálogo, v. 13, n. 22, p. 158-180, 2025. (clique aqui)

repercussão:  https://blue-community.net/blue-university-visit-in-brazil/  

 

 

 

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Quando o Rio Pede Vez e Voz: Ética, Direito e Vida no Caso Rio Belém

Por Gabrielli Marchiolli e Melissa Erika Ichi

Na cidade de Belém–PA, que se prepara para sediar a COP30, os desafios relacionados à água e ao saneamento são evidentes. No igarapé Piraíba, afluente do rio Maguari, comunidades ribeirinhas precisaram abandonar suas casas devido à poluição industrial e à ausência de tratamento de dejetos, situação que se arrasta há quase duas décadas. Situação semelhante ocorre na Ilha do Combu, onde a falta de saneamento básico e de acesso à água potável ainda compromete a qualidade de vida local. Com a aproximação da conferência e o aumento do turismo, cresce a preocupação de que as ações priorizem a aparência da cidade em detrimento da sustentabilidade e do bem-estar das comunidades.


Essa contradição expõe um paradoxo ético: enquanto líderes globais discutem a sustentabilidade, o rio que corta a cidade símbolo do evento agoniza em silêncio. O caso dos rios e igarapés de Belém revelam um problema de caráter ético, social e ambiental complexo, que ultrapassa os limites da ecologia e nos obriga a repensar a relação entre humanidade e natureza. Ambientalmente, o rio sofre com o despejo de resíduos e esgoto sem tratamento, o desmatamento das margens e a perda de biodiversidade. Socialmente, as comunidades ribeirinhas vivem em condições precárias, sem acesso à água limpa, saneamento ou políticas públicas efetivas. Economicamente, a degradação reduz o potencial turístico e eleva os custos com saúde pública. Na dimensão da saúde, aumentam os casos de doenças causadas pelo contato com águas contaminadas, enquanto no campo espiritual e cultural, o rio, símbolo de vida e ancestralidade, é silenciado pelo abandono. Essa visão dialoga diretamente com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030, adotada em 2015 na sede das Nações Unidas, que busca promover a erradicação da pobreza, à proteção do meio ambiente e à promoção da prosperidade para todos. Entre esses objetivos, o ODS 6, que propõe assegurar a disponibilidade e a gestão sustentável da água e do saneamento para todos, é particularmente relevante. Contudo, esse objetivo continua longe de ser alcançado em muitas regiões do planeta — e o Brasil é um exemplo expressivo dessa distância entre discurso e realidade. A degradação ambiental dos rios e igarapés de Belém evidencia um cenário complexo, marcado por interesses e valores conflitantes. Entre os agentes morais estão o poder público, responsável por formular e aplicar políticas de saneamento e fiscalização ambiental; as empresas e indústrias locais, cujas atividades contribuem para a poluição; e o setor do turismo e serviços, interessado na infraestrutura e na imagem da cidade. Já entre os pacientes morais encontram-se as comunidades ribeirinhas, que enfrentam diariamente a escassez de água potável e as doenças decorrentes da poluição; os animais e organismos aquáticos, afetados pela degradação dos ecossistemas; o próprio rio, enquanto sujeito ecológico cuja integridade está ameaçada. 
O conflito surge quando os interesses dos agentes morais (como o lucro, o crescimento econômico ou a valorização política) prevalecem sobre os interesses dos pacientes morais. Situação semelhante ocorre no Rio Belém, que nasce e deságua no município de Curitiba–PR, observa-se uma situação crítica, em que o rio apresenta elevados índices de poluição, sendo grande parte do líquido transportado composto por esgotos e resíduos de diversas origens. É necessário identificar os direitos do rio e os interesses de todos os envolvidos, garantindo a proteção dos ecossistemas e a participação ativa da sociedade na sua conservação. Diante disso, torna-se fundamental considerar o igual interesse de todos os envolvidos. Nesse sentido, o princípio da igual consideração de interesses, formulado pelo filósofo utilitarista Peter Singer, postula que, nas deliberações morais, deve-se atribuir o mesmo peso a interesses semelhantes de todos os afetados pelas ações. Isto é, um interesse é um interesse independente de quem o possua. Esse princípio atua como uma balança, pesando os interesses de modo imparcial. Singer ainda retoma os princípios de dor e prazer de Jeremy Bentham, estabelecendo que a capacidade de sofrer ou de sentir prazer é a condição necessária para que um ser possua interesses. Aplicado ao contexto de Belém, apesar de a ótica utilitarista clássica excluir os entes não sencientes, consideramos o rio como sujeito de direito, reconhecendo seu valor intrínseco, independentemente de qualquer benefício que possa trazer para os seres humanos. Nesse sentido, a degradação dos rios e igarapés representa não apenas uma violação dos direitos das comunidades afetadas, mas também um desrespeito aos próprios interesses ecológicos desses corpos hídricos. A reflexão bioética sobre o Rio Belém (e tantos outros rios negligenciados por todo o Brasil) pode ainda ser fundamentada no Princípio da Responsabilidade, proposto pelo filósofo alemão Hans Jonas. Em sua obra de mesmo nome, Jonas defende que, diante do poder humano sobre a natureza, surge uma nova obrigação moral: agir de modo que as consequências de nossas ações sejam compatíveis com a continuidade da vida na Terra. Aplicado ao caso do Rio Belém, esse princípio nos convoca a compreender que o desenvolvimento urbano, sem o devido cuidado ambiental, é eticamente insustentável. O rio não é apenas um recurso natural, mas um ser que sustenta a vida humana e não humana. Assim, a responsabilidade ética implica repensar nossas escolhas e decisões públicas, levando em conta não apenas os interesses imediatos, mas também as futuras gerações. Ao analisar o cenário atual a partir desses princípios, nota-se que é essencial fortalecer a governança ambiental, garantindo que indústrias e empreendimentos urbanos sigam normas de saneamento e tratamento de resíduos, reduzindo a poluição. Devem ser implementadas ações integradas, como controle das fontes de poluição, recuperação da mata ciliar, drenagem sustentável das águas pluviais, conservação das áreas de inundação, gestão de resíduos sólidos, recomposição morfológica e biológica do rio, e a promoção da participação social. Além disso, é necessário investir em saneamento e acesso à água potável, com inclusão de programas de educação ambiental. Ainda, o reconhecimento de direito dos rios oferece mecanismos legais para proteger seu valor intrínseco. Esse reconhecimento jurídico dos rios como sujeitos de direitos surgiu como uma resposta inovadora à crise ambiental contemporânea. O primeiro caso emblemático ocorreu na Nova Zelândia (Rio Whanganui) em 2017, quando a legislação reconheceu o rio como uma entidade viva dotada de personalidade jurídica, representada por humanos guardiões. Esse reconhecimento vai além de um gesto simbólico: trata-se de uma tentativa concreta de reconectar a ética humana à natureza, superando o paradigma antropocêntrico e incorporando uma visão ecocêntrica, na qual o ambiente deixa de ser simples recurso e passa a ser considerado sujeito moral e jurídico. Essa abordagem, portanto, resgata uma relação de reciprocidade e respeito entre sociedade e natureza, reconhecendo que a vida humana depende da saúde dos ecossistemas. 

             Nós como futuras bioeticistas acreditamos que ao combinar essas medidas, a abordagem integra os interesses de todos. Assim, as comunidades ribeirinhas têm acesso à água potável e menor risco à saúde; os rios e ecossistemas aquáticos têm seus valores intrínsecos protegidos; e os setores econômicos podem organizar suas atividades de forma sustentável. A implementação requer diálogo contínuo entre governo, empresas e sociedade, promovendo um equilíbrio entre necessidades econômicas, sociais e ecológicas, de modo que todas as decisões considerem os interesses de todos os seres afetados. O Rio Belém, hoje silenciado pela poluição, pode se tornar um símbolo de renovação ética e ecológica. Dar-lhe voz é reconhecer o valor da água, da terra e da vida em todas as suas formas. É compreender que o futuro da humanidade depende da capacidade de ouvir o rio — e de agir com responsabilidade diante do seu clamor. Afinal, cuidar do rio é cuidar de nós mesmos.
 
Esse ensaio foi elaborado para disciplina de Bioética Ambiental, PPGB, tendo como base as obras:

BATTESTIN, Cláudia. GHIGGI, Gomercindo. O princípio responsabilidade de Hans Jonas: um princípio ético para os novos tempos. Thaumázein – Revista Online de Filosofia, v. 3, n. 6, p. 164, 2016. Disponível em: https://periodicos.ufn.edu.br/index.php/thaumazein/article/view/164/pdf. Acesso em: 11 nov. 2025.

BITTENCOURT, Vivian; FLORIT, Luciano Félix. Os rios como sujeitos de direito: uma nova jurisprudência para modelos de desenvolvimento não predatórios. Revista de Direito Econômico e Socioambiental, Curitiba, v. 16, n. 1, e288, 2025. DOI: 10.7213/rev.dir.econ.soc.v16i1.31094. Disponível em: https://periodicos.pucpr.br/direitoeconomico/article/view/31094/27161. Acesso em: 11 nov. 2025.

BOLLMANN, Harry, Alberto.; EDWIGES, Thiago. Avaliação da qualidade das águas do Rio Belém, Curitiba-PR, com o emprego de indicadores quantitativos e perceptivos. Engenharia Sanitaria e Ambiental, v. 13, n. 4, p. 443–452, out. 2008.

BOSSELMANN, Klaus; WILLIAMS, Timothy. The River as a Legal Person: The case of the Whanganui River in New Zealand. Heinrich-Böll-Stiftung, 29 Jan. 2025. Disponível em: <https://www.boell.de/en/2025/01/29/river-legal-person-case-whanganui-river-new-zealand\>. Acesso em: 11 nov. 2025.

OLIVEIRA, Anselmo Carvalho de. O princípio de igual consideração de interesses semelhantes na ética prática de Peter Singer. Barbaroi, Santa Cruz do Sul , n. 34, p. 210-225, jun. 2011.

SCHERWITZ, Débora Perilo. As visões antropocêntrica, biocêntrica e ecocêntrica do direito dos animais no Direito Ambiental. Revista Interfaces: Ensino, Pesquisa e Extensão, v. 14, n. 9, set. 2022. Disponível em: https://www.uniesp.edu.br/sites/_biblioteca/revistas/20220915125623.pdf. Acesso em: 11 nov. 2025.

SINGER, Peter, Ética Prática. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

Para ilustrar este ensaio, foi necessária a utilização de imagens geradas por ferramentas de Inteligência Artificial, que permitiram criar representações visuais dos rios mencionados, dos impactos ambientais e dos conceitos discutidos, enriquecendo a compreensão do leitor.

“Belém: O Rio que Nos Chamou Pelo Nome”

 Por Marta Luciane Fischer


No dia 24 de novembro de 2025, vivemos uma experiência que pareceu atravessar três tempos simultaneamente — passado, presente e futuro — quando Potter do futuro, viajante vindo de 2080, chegou a Curitiba para nos alertar sobre a urgência de salvar o rio Belém e despertar as pessoas para o engajamento na missão de salvar esse Rio. Sua missão era clara: mobilizar pessoas, despertar consciência e convocar engajamento coletivo. Para isso, iniciamos juntos uma jornada pelas origens, pelos caminhos e pelas feridas do rio. Começamos pelo Parque Municipal Nascentes do Belém, um pequeno e precioso território de aproximadamente 11.178 m², localizado na Rua Rolando Salin Zappa Mansur, no bairro Cachoeira, nas coordenadas 25°21'10"S, 49°15'54"W (curitiba.pr.gov.br / wikimapia.org). Ali encontramos a placa inaugurada em 2001, registrada na imagem enviada, que nos lembrou que aquele é um território destinado à preservação e à educação ambiental. As palavras gravadas no bronze reforçavam um compromisso ancestral: “Que as águas que aqui brotam levem os princípios preservacionistas deste Norte até a sua foz, no Rio Iguaçu.”

Chegamos cedo e encontramos o parque parcialmente em reforma, mas ainda assim imerso em um silêncio raro: silêncio de ruídos humanos, mas cheio de vozes da floresta. O canto de pássaros, o farfalhar de insetos, a luz atravessando as copas. Havia plataformas de madeira elevadas sobre a mata — mirantes que nos permitiam observar o verde sem interferi-lo. Debaixo de um desses mezaninos encontramos a própria nascente: um pequeno lago de água límpida brotando do chão, repleto de girinos, insetos e vida em movimento. O sol surgia exatamente sobre a cabeceira, iluminando o primeiro gesto do rio naquele dia. Dali, a água seguia seu caminho lentamente, infiltrando-se ora sob a terra, ora correndo sobre ela, reunindo filetes vindos de todas as direções até formar um fio contínuo. Movidos por um impulso quase sagrado, seguimos esse filete até o Parque Barreirinha, extenso e silencioso, situado próximo à Avenida Anita Garibaldi, com cerca de 275 mil m² (turismo.curitiba.pr.gov.br).

O guarda-parque nos conduziu até um pequeno córrego que ele chamava de “rio seco” e mostrou uma fonte de água cristalina escondida entre a vegetação. Ali, assim como na nascente, sentimos a necessidade visceral de tocar a água gelada — como se ela nos pedisse presença. Carregávamos ainda a vibração da nascente; Marta havia mergulhado os pés naquele primeiro lago, conectando-se às raízes da água, e seguíamos caminhando com essa força pulsando na pele. Depois seguimos para o Parque São Lourenço, criado em 1972, nas coordenadas 25°23′S, 49°15′W, com um grande lago formado para conter enchentes do Belém (curitiba-parana.net). O contraste foi imediato: o parque estava cheio de pessoas caminhando, correndo, conversando ou apenas contemplando. Os lagos, porém, estavam em processo de drenagem para retirada do lodo acumulado.

O guarda-parque explicou como o rio se encorpa ali, como as águas se expandem, como a ilha central sustenta uma rica comunidade de aves. Era um trecho do Belém onde a vida ainda resistia teimosamente. Ali também encontramos um banheiro público e um bebedouro onde a água potável corria de uma torneira — outro gesto simbólico de convivência entre água urbana e água natural. Em seguida caminhamos até o Parque João Paulo II (Bosque do Papa), com suas centenas de araucárias e casas tradicionais polonesas (pt.wikipedia.org). Aqui o impacto foi profundo: o córrego antes livre agora era canalizado entre paredes de concreto.

Daquelas frestas laterais escorriam filetes suspeitos, indicando possível presença de esgoto. O Belém, que nascera límpido horas antes, seguia agora comprimido, encaixotado, forçado a atravessar a cidade por baixo do asfalto, recebendo descargas de outros rios igualmente adoecidos. Depois de desaparecer sob prédios, ruas e tubulações, emergia brevemente na região da rodoviária antes de seguir em direção à PUC-PR.
Quando chegamos à PUCPR, Potter não conteve mais a urgência. Reuniu estudantes, docentes e visitantes e relatou tudo o que havia visto: a nascente viva, o córrego seco, a contenção de concreto, o confinamento subterrâneo, o esgoto.

Suplicou por engajamento real. Pediu que todos respondessem a um questionário para fortalecer o movimento social que busca convencer parlamentares a reconhecer o rio Belém como cidadão curitibano e sujeito de direitos.


Estávamos acompanhados do graduando em Biologia Rapha Mota, da estudante do ensino médio Nayara Tortado, do graduando em Psicologia  Julio Tozo e dos bolsistas PIBIC Jr. Sara e Peter. Juntos, seguimos até a floresta do Belém para uma atividade com os estudantes do 7º ano trazidos pelo professor Alex Silva e pela diretora Rosane Eugênia Paidoz, do Colégio Estadual Olindamir Merlin Claudino. Foi ali que realizamos um grupo focal baseado no roteiro oficial que havíamos preparado. Potter ficou muito triste com o que viu, um rio tão lindo, forte, imponente, quase sem vida, algumas sacuras insistem em viver ali, agora o casal já tem um bebê. Mas o lixo jogado lá em cima, se fixa nas margens que já possuem uma mata ciliar bonita e que pode sim comportar a vida.


Pedimos às crianças que respirassem fundo, ouvissem o rio, descrevessem sensações, imaginassem o Belém como pessoa, identificassem sinais de saúde e adoecimento, pensassem em direitos possíveis para o rio e projetassem futuros de cuidado ou abandono. Assim que chegamos à floresta, fomos tomados por um silêncio que não era vazio: era um silêncio cheio de vida, de água e de um chamado que parecia vir de muito longe — talvez do futuro, talvez da própria terra. Potter nos pediu que respirássemos fundo e que deixássemos o corpo entrar no tempo do bosque. O cheiro úmido da mata, a sombra das árvores, o murmúrio abafado da água correndo entre as pedras… tudo convidava para uma presença mais inteira. Ele disse que tínhamos em nós algo que o futuro precisava, algo que muitas pessoas haviam esquecido: a capacidade de escutar aquilo que quase ninguém mais escuta. Estávamos ali porque o Rio Belém estava pedindo ajuda — e Potter viera de outro tempo justamente para pedir que o ouvíssemos. Depois desse acolhimento, Potter nos orientou a fechar os olhos por um instante. Seu pedido era simples e profundo: “Ouçam o rio.” Nesse momento, o som da água se tornou mais nítido, como se tivesse se aproximado. Cada um de nós escutou de um jeito — alguns com os ouvidos, outros com o corpo, outros pela imaginação. Houve quem sentisse vibração nos pés, quem percebesse um sussurro, quem visse uma imagem. O silêncio coletivo, neste instante, era quase sagrado.
Com essa primeira conexão estabelecida, Potter passou a estimular nossa imaginação e sensibilidade. Ele perguntou: “O que o rio te disse?” As respostas surgiam tímidas no começo, mas logo formaram um coro de percepções: o rio estava cansado, triste em alguns trechos, esperançoso em outros. Para alguns, ele parecia pedir socorro; para outros, parecia pedir companhia. Houve quem dissesse que o rio parecia uma pessoa, e Potter então perguntou: “Se o rio fosse alguém, como ele estaria se sentindo agora?” As respostas variavam — adoecido, solitário, exausto — mas também houve percepções de força, de persistência, de vida resistindo.
Depois disso, Potter nos convidou a olhar para o rio não só como espírito, mas como parte da cidade e da vida. Ele perguntou se o rio estava vivo, morto ou doente. Perguntou quem sofre quando um rio adoece, e o grupo começou a perceber que não era apenas o rio: a floresta, os bichos, as pessoas, a própria cidade — tudo enfraquece quando a água perde sua vitalidade. Alguns jovens apontaram elementos do ambiente que mostravam saúde — o canto das aves, a sombra fresca, a diversidade da vegetação — e também os sinais de adoecimento — lixo acumulado, cheiro estranho em alguns pontos, água presa ou canalizada demais.
Foi então que Potter trouxe o tema central da bioética daquele encontro: os direitos dos rios. Ele contou que no futuro de onde vinha, alguns rios tinham conquistado direitos — eram reconhecidos como sujeitos. A reação foi de surpresa. As perguntas começaram a surgir. E Potter devolveu: “Um rio pode ter direitos?” A partir daí, o debate se tornou intenso. As crianças e adolescentes refletiram sobre quais direitos seriam justos — direito a correr livre, a não receber lixo, a existir sem ser violentado pelo concreto. Algumas falas eram tão lúcidas que estremeciam: “Se o rio está vivo, ele deveria ser tratado como vivo”; “Se a gente precisa dele, então ele precisa da gente também”. Após essa provocação ética, Potter pediu que imaginássemos o Rio Belém daqui a vinte anos. Primeiro, se nada fosse feito: as imagens eram duras — água cinza, cheiro forte, ausência de peixes, tristeza. Depois, Potter pediu que imaginássemos o contrário: como gostaríamos que o rio estivesse daqui a vinte anos? As respostas foram de esperança: água limpa correndo livre, trilhas revitalizadas, bichos voltando, pessoas caminhando com orgulho ao lado do rio. 
Era como se estivéssemos abrindo, juntos, um portal de possibilidades. Com todas essas percepções reunidas, Potter nos guiou na construção de um pequeno mapa mental coletivo. Organizamos o que o rio disse, como está hoje, quais direitos deveria ter, o que mudaria se tivesse esses direitos e o que poderíamos fazer agora para protegê-lo. As palavras surgiam espontâneas, pulsavam no ar: cuidado, escuta, respeito, compromisso, futuro, vida. Para finalizar, Potter pediu que cada participante dissesse uma palavra ou mensagem final sobre o que havia aprendido. As falas eram simples e profundas: “esperança”, “responsabilidade”, “tristeza”, “força”, “vontade de ajudar”, “escuta”, “vida”.  E então Potter encerrou com sua narrativa — dizendo que levaria nossas ideias para o futuro, pois talvez fossem exatamente elas que salvariam o Rio Belém. Ele agradeceu por termos escutado o rio e por termos escutado uns aos outros. Antes de partir, deixou seu último convite: continuarmos atentos ao que a natureza tenta dizer. Porque ela sempre está falando — oferecendo, pedindo, ensinando — e cabe a nós reaprender a ouvir. Enquanto conversávamos, no fim da tarde, as árvores começaram a derramar chuva de flores amarelas, como se a própria floresta participasse do diálogo. Sentados sobre ruínas antigas, partilhamos juntos aquilo que ouvimos, sentimos e acreditamos. Jovens de 12 e 13 anos ofereceram reflexões tão profundas que nos atravessaram. Era o rio-pessoa se relacionando com pessoas-rios.
Saímos desse encontro transformados e, como última reviravolta, Potter aceitou o desafio proposto pelo pastor e doutorando Kemuel Andrade, com apoio de Thierry Lummertz, de assumir a presidência do Clube da Água da PUCPR, uma liga acadêmica destinada a mobilizar estudantes de diferentes áreas para a construção de uma blue university, uma universidade enraizada no cuidado com a água. Assim, o dia 24 de novembro de 2025 tornou-se um marco inesquecível para nós: uma travessia ética, ecológica e afetiva que uniu ciência, comunidade, imaginação e futuro. Um movimento em que sentimos que 2025 já era um grande ano — e que 2026 prometia um horizonte ainda mais fecundo, guiado pela força de um rio que insiste em continuar vivo.






Repercussão internacional: The River That Called Us By Name - Blue Community 

 


sábado, 22 de novembro de 2025

O que as teias escondem: descobrindo caminhos para o controle ético da aranha-marrom

 Por Gabriel Henrique Cadenas SIEBURGER




Desde o colégio Positivo, quando participei do Clube de Ciências, criei o gosto por observar o comportamento animal e entender como pequenas interações respondem a perguntas maiores. Naquela época, mergulhei em temas variados: herpetologia, dengue, saúde pública, ciência forense e até projetos de limpeza de lago com plantas aquáticas. Apesar da paixão pela ciência, meu foco era prestar medicina. Com o ENEM acontecendo em plena pandemia, não consegui seguir esse caminho e assim fui para minha segunda opção a Biologia. O que eu não sabia é que essa escolha acabaria me levando exatamente ao que sempre me fascinou. Ao entrar na PUCPR, jamais imaginei que trabalharia com aranhas ou que passaria tantas horas observando tais, movimentos quase imperceptíveis e comportamentos que, aos poucos, revelaram um mundo complexo. Logo no primeiro período, ingressei no estágio no Núcleo de Estudos do Comportamento Animal (NEC), e ali tive meu primeiro contato com o tema do controle. Esse início me levou a um PIBITI (DESENVOLVIMENTO DE PROTOCOLO DE CONTROLE BIOLÓGICO PARA ARANHA-MARROM).
Mais tarde, ao meu Trabalho de Conclusão de Curso, uma jornada contínua que uniu comportamento, ética, ecologia e convivência.  No dia 13 de novembro de 2025 no auditório Madre Leone da EMCV da PUCPR defendi meu TCC intitulado CONTRIBUIÇÃO PARA PROTOCOLO DE CONTROLE BIOLOGICO DA ARANHA-MARROM A PARTIR DO COMPORTAMENTO DE CONSTRUÇÃO DE TEIAS DE ARANHAS ARANEOFÁGICAS de diante a banca comporta pelos professores Dra. Lays Parolin e Dr. João Minoso, concluindo mais um ciclo da minha formação profissional que já é marcada pela publicação de um resumo expandido (clique aqui para conhecer) e um artigo no prelo.  
A aranha-marrom é considerada uma das principais pragas ambientais, que afetam diretamente a sociedade, devido a sua aproximação a casas urbanas, gerando acidentes. Esses acidentes, chamados de Loxoscelismo, são um grande problema para as pessoas, por apresentarem um aumento anual de registros, em que predominam na região de Curitiba, há mais de 30 anos. A pesquisa teve como foco a aranha-marrom e os desafios do seu controle em ambientes urbanos. Em vez de recorrer a métodos agressivos ou estritamente químicos, busquei uma abordagem mais ética, para entender como diferentes espécies de aranhas interagem entre si e como as próprias teias podem revelar caminhos para um controle biológico. No viveiro do laboratório, observei e registrei teias e comportamentos de aranha-marrom, aranha treme-treme (Pholcus phalangioides) e viúva-vermelha (Nesticodes rufipes). 
Analisei padrões, comportamentos e situações de interação, buscando compreender como espécies predadoras de aranhas poderiam atuar como agentes naturais de controle, reduzindo a presença da aranha-marrom sem causar danos ambientais. Esse estudo tem relevância social, devido o loxoscelismo continuar sendo um problema de saúde pública no Brasil. Muitas estratégias usadas hoje são ineficientes ou geram impactos ambientais. Pensar em alternativas que considerem a biologia das espécies, suas interações naturais e princípios éticos abre caminho para métodos mais eficazes, seguros e sustentáveis, contribuindo para uma convivência mais equilibrada entre humanos e aranhas nas cidades. Os resultados revelaram diferenças importantes nos padrões de ocupação e movimentação, estratégias de captura e arquitetura das teias, de cada espécie. Onde a treme-treme e a viúva-vermelha se mostraram ótimas para o controle, por conta das estratégias de posicionamento de teias próximas às aranha-marrom, reduzindo a movimentação das mesmas. Além de no caso da treme-treme, houve a melhor adaptação e movimentação durante a pesquisa. Porém o maior desafio não está apenas nas técnicas de controle, mas sim na relação humano animal, pelo medo, preconceito histórico e o incômodo estéticos pelas teias, impedindo que essa alternativa ecológica seja aceita pela população. Depois de anos convivendo com essas espécies, observando suas teias e compreendendo seu papel ecológico, uma pergunta permanece:

“As aranhas são realmente o problema, ou é o preconceito que construímos sobre elas?”

Nada disso seria possível sem pessoas que caminharam comigo. Desde a profa. Flavia Amend até minha orientadora, Dra. Marta Luciane Fischer, minha gratidão pela paciência, confiança e incentivo desde o início da graduação. Agradeço também aos colegas do laboratório, pelas coletas, pelas horas no viveiro e pelas conversas compartilhadas. À minha família e amigos, pelo apoio constante. E à minha antiga professora do colégio, Flavia, por ter despertado em mim o encantamento pela biologia. Cada uma dessas pessoas teve um papel essencial na construção desse trabalho.




O presente ensaio tem o intuito de informar a defesa do Trabalho de conclusão se curso, para informações complementares indicamos os artigos a seguir:
 

SIEBURGER, Gabriel Henrique Cadenas; FISCHER, Marta Luciane. DESENVOLVIMENTO DE PROTOCOLO DE CONTROLE BIOLÓGICO PARA ARANHA-MARROM. In: XIII Jornada de Produção Científica e Tecnológica, XVI Ciclo de Palestras Tecnológicas, I Semana da Pedagogia e X Semana da Biologia. Instituto Federal de São Paulo-Câmpus São Roque, 2025. (clique aqui)

FISCHER, Marta Luciane. Vivências de 30 anos do loxoscelismo em Curitiba, Paraná, Brasil: rumos de uma educação em saúde disruptiva, inclusiva, humanitária e sustentável. Revista Inclusiones, v. 9, n. 3, p. 52-77, 2022. (Clique aqui)