Essa foi a mensagem que Potter trouxe do futuro para a humanidade no dia 21 de março de 2025, véspera do Dia Mundial da Água. O Potter do futuro, materializado por seu criador, o biólogo, bioeticista, pedagogo e ator Thierry Betazzi Lummertz, ex-aluno do curso de Ciências Biológicas e do Programa de Pós-graduação da PUCPR, surgiu às 9h da manhã no campus Curitiba. Alarmado e assustado, ele abordava estudantes, participantes da feira gastronômica, colaboradores e professores, repetindo: “A última gota de água se apagou. E você não vai fazer nada?”
Inicialmente, muitos acharam que ele alertava sobre a falta de água naquele instante. Mas logo perceberam que aquele personagem inusitado, vestido com um pesado sobretudo preto em um dia ensolarado, carregava uma mensagem maior. Sua mochila, feita de garrafas PET, continha uma pequena planta de plástico, representando a necessidade de produzir seu próprio oxigênio. Ele vinha do futuro, possivelmente um descendente do próprio Potter, que, décadas atrás, já alertava sobre a importância de unir as ciências humanas e biomédicas para garantir um futuro sustentável (Link para video).
O primeiro Potter trouxe essa mensagem em 1971, há pouco mais de 50 anos. Suas previsões, consideradas catastróficas na época e amplamente ignoradas, especialmente pelos tomadores de decisão, estão agora se concretizando. Todos os dias, os noticiários relatam desastres ambientais, sofrimento humano e vulnerabilidades exacerbadas. Enchentes inesperadas, estiagens em locais antes abundantes em água, ondas de calor intensas em regiões de clima ameno — tudo isso são sinais das mudanças climáticas. O planeta está aquecendo, as geleiras estão derretendo, e, ainda assim, para muitos, esses fenômenos parecem distantes, mesmo quando suas consequências são sentidas de perto.
O que mais precisa ser dito? Há milênios, a humanidade reconhece a importância da água para a vida. Desde nossa existência como coletores/caçadores, passando pela urbanização há três mil anos, aprendemos que a água é fundamental não apenas para evitar doenças, mas também para o desenvolvimento agrícola e tecnológico. Inclusive, a inteligência artificial, que está em ascensão, demanda uma quantidade imensa de água para seu funcionamento. E isso sem mencionar a água em seu sentido simbólico, estético e espiritual.
Potter ficou um pouco decepcionado, pois esperava uma recepção mais calorosa. Muitos o acolheram, demonstraram engajamento e prometeram mais atenção ao tema. No entanto, vários jovens expressaram um ceticismo preocupante: disseram que não se preocupam com o futuro, pois não têm expectativas de viver muito ou de ter filhos. Como falar sobre um futuro sustentável se muitos sequer acreditam que terão um?
O evento daquela sexta-feira foi organizado pelo Comitê da Água e pelo Clube da Água da PUCPR. No ano passado, a universidade recebeu o título de Blue University, um reconhecimento internacional por seu trabalho em prol da água, acompanhado da expectativa de fazer ainda mais. Professores estão se reunindo para encontrar maneiras de engajar toda a comunidade acadêmica. O Clube da Água, um coletivo estudantil, também se dedica a essa discussão. Além disso, a Rede Ecumênica da Água esteve presente, conectando a PUCPR ao Festival das Águas e ao projeto nacional e internacional "100 mil jovens pela água".
Na parte da manhã, conversamos com os estudantes de Biologia, especialmente o pessoal do 3º período. Foi inspirador perceber que eles já têm consciência sobre o tema e entendem que a ação mais urgente é adotar um consumo responsável. A professora Marta provocou uma reflexão: "Que rio corre dentro de vocês e que rio corre fora de vocês?". Se a imagem interna não se projeta no mundo, não há identificação, e sem identificação, não há engajamento. Tivemos música, poesia e um cenário convidativo, com contornos de água, banners e reflexões. No final da tarde, uma liderança indígena Kixirrá, da Nação Jamamadi, tomou a palavra e trouxe uma perspectiva que a "excelência acadêmica" muitas vezes ignora por falta de um pensamento verdadeiramente engajado (Ouça um pouco da fala).
A programação se estendeu até o dia 22, com uma live na qual Elias Wolff, Marta Fischer, Vera Catalão e Nelton Friedrich discutiram o passado, presente e futuro da água (Link Live). Da ecopedagogia ao direito universal ao acesso à água potável, passando pelo incrível projeto "Cultivando Água", a mensagem central foi clara: somos água!
A água que corre dentro de nós é a mesma que circula pelo ambiente, pelos animais, pelas plantas. Está presente no gelo, nos rios, mares, chuvas, lagos, orvalho. Uma molécula simples, com apenas três átomos, que há 4,5 bilhões de anos mantém a biodiversidade deste planeta. Hoje, o mundo fala sobre a água. As reportagens denunciam os excessos do ser humano e alertam sobre sua escassez. Artistas cantam, encenam e pintam a água. As religiões a reverenciam. Mas o Dia da Água não deve ser celebrado apenas em 22 de março. Cada segundo de nossa existência, assim como de todos os seres vivos, depende da água. Devemos cultuá-la, respeitá-la e agradecer por sua fluidez, atemporalidade, resiliência e humildade. É hora de entender que, embora nos digam que podemos ter tudo e que a felicidade individual é o que importa, não temos a água. Como bem destacou Nelton, a água é o único elemento inegociável da nossa existência e não tem substitutos. A água não é sua, nem mesmo a que está em seu corpo agora — em poucas horas, ela partirá para dar lugar a uma nova. Se a água não pertence a ninguém, ela pertence a todos. Logo, as decisões sobre ela devem ser coletivas. Não basta fazer a sua parte, se essa parte não estiver alinhada com um esforço comum.
Já passou da hora de pensarmos e agirmos. Não podemos mais tolerar que haja fome e sede no mundo, pois não toleramos isso para nós mesmos. Provavelmente, quem está lendo este texto nunca passou por fome ou sede extrema. Isso é um privilégio imenso em um planeta onde metade da população não tem acesso a algo tão fundamental para a vida.
Então, vamos fazer diferente? Vamos ouvir Potter? Vamos mudar o futuro? Mas lembre-se: o futuro que se desenhará é o rio que corre dentro de nós. É ali que precisamos mudar. O rio que corre dentro de você é o rio que fluirá para o futuro