segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Quando o afeto vira captura: Cosmovisão originária, objetificação afetiva e o transtorno do vínculo na relação humano-animal

 

 

 

por 
 
Bianca Santana/ Tëtë Xinã














Nas cosmologias dos povos originários brasileiros, a relação entre humanos e animais nunca foi pensada a partir da posse, do uso ou da função. Animais não existem para servir, confortar ou regular emocionalmente os humanos. Eles existem como sujeitos plenos, portadores de intencionalidade, lugar no mundo e modos próprios de habitar a vida.                                                

Essa leitura não é metafórica. É ética.

O animal não é recurso, não é extensão psíquica e não é objeto de compensação emocional. Quando essa fronteira é atravessada, o que se rompe não é apenas um vínculo individual, mas um equilíbrio relacional mais amplo. O sofrimento emerge como consequência de uma captura indevida do outro.

Esse ponto dialoga diretamente com o que, na clínica contemporânea, podemos reconhecer como objetificação afetiva.

Na cultura urbana moderna, o discurso do afeto frequentemente encobre práticas profundamente utilitaristas. O animal é amado, mas esse amor muitas vezes vem acompanhado de uma exigência implícita: regular o humano. Acalmar, preencher, sustentar, fazer companhia, dar sentido, evitar o vazio, tamponar a angústia.

O cão deixa de ser sujeito e passa a ser função.

Esse deslocamento é sutil e socialmente validado. Diferente da exploração física direta, a objetificação afetiva se apresenta como cuidado, zelo e proximidade. No entanto, do ponto de vista relacional, ela produz o mesmo efeito estrutural: retira do animal sua autonomia emocional e o aprisiona em um papel que não lhe pertence.

Na cosmovisão originária, isso seria compreendido como uma quebra de pacto. Um ser não pode ocupar o lugar psíquico do outro sem que o sistema inteiro se desorganize. Quando um humano deposita no animal a função de regulador emocional exclusivo, cria-se um desequilíbrio que, nessas cosmologias, se manifesta como doença, sofrimento ou perda de harmonia.

Na clínica comportamental, observamos o mesmo fenômeno sob outra linguagem.

Cães com ansiedade de separação grave, estereotipias, compulsões ou dificuldade de repouso autônomo frequentemente vivem em vínculos marcados por fusão emocional. Não lhes foi permitido desenvolver autonomia, explorar o ambiente, se regular na presença do humano. O vínculo foi construído como dependência.

Nesses casos, a ausência não é a causa do sofrimento. Ela apenas expõe uma organização emocional fragilizada, sustentada por um vínculo utilitarista travestido de afeto.

É aqui que o conceito de transtorno do vínculo se torna clínico, e não apenas teórico.

O transtorno não está na separação, mas na forma como a relação foi estruturada. Um vínculo no qual o animal existe para atender demandas emocionais humanas inevitavelmente gera ansiedade, porque coloca sobre o cão uma responsabilidade incompatível com sua biologia, sua etologia e sua capacidade de autorregulação.

A cosmovisão dos povos originários oferece um contraste radical com essa lógica. Nela, o afeto não autoriza a invasão. A proximidade não elimina o limite. O cuidado não anula a autonomia. Cada ser ocupa seu lugar no mundo, e a relação só se mantém saudável enquanto esse lugar é respeitado.

Essa leitura desmonta a ideia moderna de que amar é estar sempre junto, intervir sempre, mediar tudo. Para essas cosmologias, interferir demais é tão nocivo quanto abandonar. O equilíbrio está na justa medida, no reconhecimento do outro como outro.

Quando trazemos essa ética relacional para a clínica, algo se esclarece.

Tratar a ansiedade de separação não é ensinar o cão a tolerar a ausência humana, mas libertá-lo da função de regulador emocional. É devolver ao animal o direito de existir sem carregar o peso da angústia do outro. É reorganizar o vínculo para que ele volte a ser espaço de troca, não de captura.

O utilitarismo sobre a vida animal, mesmo quando embalado em linguagem afetiva, produz sofrimento porque transforma relação em uso. A objetificação afetiva não é menos violenta por ser silenciosa. Ela apenas é mais difícil de reconhecer.

Talvez o que os povos originários nunca tenham esquecido, e que a clínica moderna começa a reencontrar, seja isso:
vínculo não é fusão,
afeto não é apropriação,
cuidado não é dependência.

Quando o animal deixa de ser função e volta a ser sujeito, o vínculo se reorganiza. E, muitas vezes, a ansiedade deixa de ser necessária como forma de existir na relação.



O presente ensaio foi elaborado baseando-se nas obras:


ALBERT, Bruce; KOPENAWA, Davi. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

BOWLBY, John. Attachment and loss: attachment. 2. ed. New York: Basic Books, 1982. v. 1.

DAWKINS, Marian Stamp. Animal welfare and the paradox of animal consciousness. Oxford: Oxford University Press, 2012.

DONALDSON, Sue; KYMLICKA, Will. Zoopolis: a political theory of animal rights. Oxford: Oxford University Press, 2011.

FOGLE, Bruce. The dog’s mind: understanding your dog’s behavior. New York: Howell Book House, 2009.

HOLMES, Jeremy. Attachment theory and its clinical applications. 2. ed. London: Routledge, 2014.

HOROWITZ, Alexandra. Domestic dog cognition and behavior. Berlin: Springer, 2014.

KANT, Immanuel. Groundwork of the metaphysics of morals. Cambridge: Cambridge University Press, 2012.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

MIKLÓSI, Ádám. Dog behaviour, evolution, and cognition. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2015.

NUSSBAUM, Martha C. Objectification. Philosophy & Public Affairs, Hoboken, v. 24, n. 4, p. 249–291, 1995.

SAPOLSKY, Robert M. Why zebras don’t get ulcers. 3. ed. New York: Henry Holt and Company, 2004.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. A inconstância da alma selvagem. São Paulo: Cosac Naify, 2002.

VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Metafísicas canibais: elementos para uma antropologia pós-estrutural. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

Bioética Ambiental e Blue University: uma trajetória de engajamento, formação e incidência em 2025



Por Marta Luciane Fischer




O ano de 2025 marcou a consolidação do Grupo de Pesquisa em Bioética Ambiental como eixo estruturante da Blue University na PUCPR, articulando ensino, pesquisa, extensão e incidência pública em torno da justiça hídrica e do reconhecimento dos rios como sujeitos de direitos. Conforme sistematizado no relatório institucional. As ações desenvolvidas ao longo do ano revelam um percurso coerente, progressivo e estrategicamente integrado.  O primeiro semestre foi caracterizado pelo fortalecimento da formação na graduação por meio do Projeto Interprofissional em Bioética e Direitos Humanos, com a temática “O rio como sujeito de direitos”. A mobilização de 744 estudantes, a realização de 1.294 entrevistas interprofissionais e a produção de 92 materiais de sensibilização pública evidenciaram o impacto acadêmico e social da proposta. A visita ao Rio Belém e a análise de suas fragilidades converteram o território em espaço pedagógico, rompendo com a fragmentação disciplinar e promovendo formação ética aplicada. No mesmo período, a disciplina de Bioética Ambiental na pós-graduação consolidou o debate teórico por meio de 45 publicações no blog “Bioética no dia a dia”, das quais mais da metade dedicadas aos corpos hídricos. A transição conceitual do rio como recurso para o rio como sujeito de direitos estruturou-se a partir de fundamentos da Bioética de Intervenção, do Princípio da Responsabilidade e da análise das vulnerabilidades ontológica e socioambiental. A produção acadêmica deixou de permanecer restrita ao espaço universitário e assumiu caráter público e deliberativo. Em março, no contexto do Dia Mundial da Água, a intervenção “A última gota de água se apagou” integrou arte, ecopedagogia e mobilização social, ampliando o engajamento da comunidade acadêmica e reforçando o compromisso da PUCPR enquanto Blue University. A ação demonstrou a potência metodológica do Bioteatro e da personificação do rio como instrumento de sensibilização ética. Ao longo do ano, a orientação de um PIBIC Graduação, um PIBIC Jr. e o início de um projeto de doutorado aprofundaram o rigor científico da linha de pesquisa. As investigações abordaram percepção social, engajamento juvenil, deliberação mediada por arte e mensuração estatística do senso de agência ambiental. Os resultados foram apresentados em congressos nacionais e internacionais, culminando na publicação do artigo “Somos uma Blue University, e agora?” e na organização de livro coletivo, escrito em 2025 e com lançamento previsto para 2026. Em setembro, a organização da primeira reunião da Blue Community Brasil posicionou a PUCPR na coordenação latino-americana do movimento, ampliando a rede de cooperação interinstitucional. Em outubro e novembro, a participação no lançamento da Pastoral da Ecologia Integral e na COP 2025 (Metaverso Maloca) reforçou a dimensão inter-religiosa, internacional e diplomática das ações, projetando a Blue University como modelo de governança democrática da água no Sul Global. A visita técnica do ativista italiano Filippo Bellini consolidou essa inserção internacional, validando a experiência brasileira como referência prática de Bioética Ambiental aplicada. A ação “Belém: o rio que nos chamou pelo nome”, realizada em novembro, sintetizou o percurso do ano ao unir diagnóstico ambiental, deliberação coletiva e formação intergeracional nas margens do Rio Belém. O rio deixou de ser objeto de estudo para tornar-se interlocutor ético e político. Ao final de 2025, a Blue University na PUCPR não se apresenta apenas como certificação institucional, mas como processo formativo contínuo, fundamentado na democracia hídrica, na responsabilidade intergeracional e na integração entre ciência, ética e espiritualidade. A continuidade desse movimento exige aprofundamento metodológico, ampliação da incidência legislativa, fortalecimento das redes latino-americanas e consolidação da produção científica internacional. Se 2025 foi o ano da estruturação e da afirmação pública do paradigma, 2026 se anuncia como tempo de maturação e expansão. A defesa dos rios como sujeitos de direitos, iniciada nas salas de aula e nas margens do Belém, projeta-se agora como compromisso duradouro com a construção de uma cultura de justiça das águas, capaz de transformar a universidade em território permanente de cuidado, deliberação e ação coletiva, novos projetos serão iniciados, novas ações, novas produções, convidamos a todos para se juntarem a nós... venham participar do nosso clube da água.