Bianca Santana/ Tëtë Xinã
Nas cosmologias dos povos originários brasileiros, a relação entre
humanos e animais nunca foi pensada a partir da posse, do uso ou da
função. Animais não existem para servir, confortar ou regular
emocionalmente os humanos. Eles existem como sujeitos plenos, portadores
de intencionalidade, lugar no mundo e modos próprios de habitar a vida.
Essa leitura não é metafórica. É ética.
O animal não é recurso, não é extensão psíquica e não é objeto de compensação emocional. Quando essa fronteira é atravessada, o que se rompe não é apenas um vínculo individual, mas um equilíbrio relacional mais amplo. O sofrimento emerge como consequência de uma captura indevida do outro.
Esse ponto dialoga diretamente com o que, na clínica contemporânea, podemos reconhecer como objetificação afetiva.
Na cultura urbana moderna, o discurso do afeto frequentemente encobre práticas profundamente utilitaristas. O animal é amado, mas esse amor muitas vezes vem acompanhado de uma exigência implícita: regular o humano. Acalmar, preencher, sustentar, fazer companhia, dar sentido, evitar o vazio, tamponar a angústia.
O cão deixa de ser sujeito e passa a ser função.
Esse deslocamento é sutil e socialmente validado. Diferente da exploração física direta, a objetificação afetiva se apresenta como cuidado, zelo e proximidade. No entanto, do ponto de vista relacional, ela produz o mesmo efeito estrutural: retira do animal sua autonomia emocional e o aprisiona em um papel que não lhe pertence.
Na cosmovisão originária, isso seria compreendido como uma quebra de pacto. Um ser não pode ocupar o lugar psíquico do outro sem que o sistema inteiro se desorganize. Quando um humano deposita no animal a função de regulador emocional exclusivo, cria-se um desequilíbrio que, nessas cosmologias, se manifesta como doença, sofrimento ou perda de harmonia.
Na clínica comportamental, observamos o mesmo fenômeno sob outra linguagem.
Cães com ansiedade de separação grave, estereotipias, compulsões ou dificuldade de repouso autônomo frequentemente vivem em vínculos marcados por fusão emocional. Não lhes foi permitido desenvolver autonomia, explorar o ambiente, se regular na presença do humano. O vínculo foi construído como dependência.
Nesses casos, a ausência não é a causa do sofrimento. Ela apenas expõe uma organização emocional fragilizada, sustentada por um vínculo utilitarista travestido de afeto.
É aqui que o conceito de transtorno do vínculo se torna clínico, e não apenas teórico.
O transtorno não está na separação, mas na forma como a relação foi estruturada. Um vínculo no qual o animal existe para atender demandas emocionais humanas inevitavelmente gera ansiedade, porque coloca sobre o cão uma responsabilidade incompatível com sua biologia, sua etologia e sua capacidade de autorregulação.
A cosmovisão dos povos originários oferece um contraste radical com essa lógica. Nela, o afeto não autoriza a invasão. A proximidade não elimina o limite. O cuidado não anula a autonomia. Cada ser ocupa seu lugar no mundo, e a relação só se mantém saudável enquanto esse lugar é respeitado.
Essa leitura desmonta a ideia moderna de que amar é estar sempre junto, intervir sempre, mediar tudo. Para essas cosmologias, interferir demais é tão nocivo quanto abandonar. O equilíbrio está na justa medida, no reconhecimento do outro como outro.
Quando trazemos essa ética relacional para a clínica, algo se esclarece.
Tratar a ansiedade de separação não é ensinar o cão a tolerar a ausência humana, mas libertá-lo da função de regulador emocional. É devolver ao animal o direito de existir sem carregar o peso da angústia do outro. É reorganizar o vínculo para que ele volte a ser espaço de troca, não de captura.
O utilitarismo sobre a vida animal, mesmo quando embalado em linguagem afetiva, produz sofrimento porque transforma relação em uso. A objetificação afetiva não é menos violenta por ser silenciosa. Ela apenas é mais difícil de reconhecer.
Talvez o que os povos originários nunca tenham esquecido, e que a clínica moderna começa a reencontrar, seja isso:
vínculo não é fusão,
afeto não é apropriação,
cuidado não é dependência.
Quando o animal deixa de ser função e volta a ser sujeito, o vínculo se reorganiza. E, muitas vezes, a ansiedade deixa de ser necessária como forma de existir na relação.
O presente ensaio foi elaborado baseando-se nas obras:
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