quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Agressividade é um instinto ou um comportamento adquirido durante a vida?



Série ensaios: Sociobiologia

Por: Jaqueline Kliemke Carneiro, Kauane Caroline Ferreira, Maria Eduarda Behrens de Oliveira Viana.

Graduandas de ciências biológicas







A primeira notícia a ser abordada será a da guerra por território que está ocorrendo na Ucrânia, onde a Rússia a invadiu para anexar territórios do país. Putin, quer impedir que a Ucrânia se torne membro ativo da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), uma aliança militar que visa impedir o poder bélico da antiga URSS (União das Repúblicas Soviéticas) atual Rússia. Podemos supor que este comportamento do líder russo visa a sobrevivência de seu país, onde ele quer impedir que um país que divide fronteira com o seu está perto de se tornar membro de uma organização que visa seu extermínio.

A segunda matéria a ser apresentada será relativa aos dos chimpanzés, onde bandos fizeram guerras e anexaram territórios inimigos. Estudos de 10 anos com chimpanzés em Ngogo, localizado no parque nacional de Uganda, concluíram que primatas possuem comportamento bélico apurado estimulado pelo instinto de sobrevivência. O pesquisador John Mitani e sua equipe reuniram dados e foram seguindo os chimpanzés nos momentos das investidas, onde apontaram 18 ataques fatais no período dessas observações de estudo, que levou ao entendimento que a prática de guerra gerou a então tomada e consequente posse do território vizinho.

Um grupo de machos analisa os limites do território e procura por possíveis indivíduos de outras comunidades, observando em silêncio o topo das árvores. Ao avistar um inimigo, a reação vai depender da avaliação que faz da força inimiga, se for um número menor, os membros que estavam fazendo a ronda se separam e retornam ao território de origem, porém se um único chimpanzé atravessa o caminho deles, o ataque é certeiro. Eles mordem e espancam machos inimigos até a morte, apenas liberam fêmeas, mas os bebês são devorados.

John Mitani e seus colegas de pesquisa concluíram que o objetivo da campanha, que durou 10 anos, foi realmente a captura do território, pois ao ter maior disponibilidade de árvores frutíferas para as fêmeas que se alimentariam melhor, reproduzindo mais rápido, fazendo com que o grupo tenha tendência a crescer mais forte. Sendo herdado esse comportamento porque significa que a seleção natural cunhou o comportamento no circuito neural dos chimpanzés pois ele acaba por promover a sobrevivência.

O presente ensaio tem como objetivo identificar componentes biológicos, etológicos e psicológicos de um comportamento social humano focando em agressividade em relação à territorialidade.

Neste serão apresentadas duas matérias onde o foco principal é a agressividade na territorialidade nestes dois grupos, humanos e chimpanzés, e mostrar coincidência dos atos feitos por animais e humanos.

De acordo com Freud a agressividade é um instinto herdado que é manifestado como um impulso podendo ter uma realização de um comportamento, reproduzindo assim uma tensão crescente que irá ser descarregada por uma ação impulsiva, podendo desta forma ocorrer uma agressão efetiva (SIMANKE, 2014).

Há muitos aspectos em que o comportamento bélico entre grupo de humanos caçadores/coletores se assemelha ao comportamento dos chimpanzés. Ocorrem ataques e emboscadas, onde há poucas mortes de pessoas, porém a partir de conflitos incessantes o número tende a aumentar. O que Wrangham argumenta é que os humanos e chimpanzés teriam herdado uma propensão à territorialidade agressiva a partir de um ancestral comum parecido com o chimpanzé.

Segundo Mendes et al. em seu estudo os principais condicionantes da agressividade no contexto biológico foram: genético (onde houve uma baixa expressão do gene monoaminaoxidase e do gene transportador de serotonina, havendo uma variação nos genes transportadores e receptores de dopamina), durante o desenvolvimento intrauterino houve uma exposição a substâncias como álcool, cocaína e tabaco e nutricionais, como desnutrição infantil.

Em relação aos mecanismos cerebrais podendo gerir uma agressividade, no estudo Agressividade: significado social e psicológico, os autores apontam que em determinadas pessoas, proteínas responsáveis pelos neurotransmissores cerebrais são desativadas em momentos distintos, principalmente pessoas que vivem em ambientes hostis, convivendo com transgressões e violência. Os autores apontam que estes resultados são contraditórios ou não conclusivos.


Eles apresentam pesquisas que aparentam evidências conclusivas de que de fato existe uma grande possibilidade para que determinadas pessoas que convivem em um ambiente violento, e que possuem um perfil genético suscetível a desenvolverem comportamentos agressivos também sejam violentas. Mostrando que estes comportamentos agressivos estão correlacionados com a sociedade em que estão inseridos, de sua estrutura e de seus valores. Dependendo assim das influências sociais, ambientais, genéticas e desenvolvimentais.

Nos estudos de KRISTENSEN, et al. são apontados dois comportamentos que propuseram uma distinção da terminologia etologista em relação ao estudo, estes são: comportamento predatório e comportamento agonístico. Onde o primeiro se caracteriza em ataques entre animais de diferentes espécies em busca de alimento, já o segundo refere-se a comportamento de ameaças e lutas de animais de uma mesma espécie. Assim, a classificação etológica mais assentida é a que divide o comportamento agressivo em: predatório, inter-machos, territorial, defensivo, induzido pelo medo, maternal, irritável e instrumental, sendo que, nos estudos de MOYER (1976), para cada há o controle a partir de substratos neuroanatômicos e neuroquímicos diferentes e até sobrepostos.

Nós como futuras biólogas acreditamos que os comportamentos de agressividade em relação a territorialidade são herdados a partir da associação instintiva dos comportamentos, deste modo se dá há a relevância da continuidade da pesquisa neste campo, buscando a compreensão integral destes comportamentos que possuímos em similaridade com os chimpanzés, pois assim podemos antecipar e assimilar de modo mais eficaz as ações humanas e, por consequência, sermos capazes de alcançar a melhor adaptação. Assim que, a partir da análise das matérias foi possível perceber a correlação da agressividade como comportamento etológico em coexistência com a própria concomitância humana sob o aspecto da agressividade, que se mostra presente não somente no reino animal, mas também no âmbito antropológico.


O presente ensaio foi elaborado para a disciplina Biologia e Evolução do Comportamento Animal tendo como base as seguintes obras:

KRISTENSEN, C; H. et al. Fatores etiológicos da agressão física: uma revisão teórica. Estudos de Psicologia (Natal) [online]. 2003, v. 8, n. 1.

MENDES, D; D. et al. Estudo de revisão dos fatores biológicos, sociais e ambientais associados com o comportamento agressivo. Brazilian Journal of Psychiatry [online]. 2009, v. 31, suppl 2.

SIMANKE, R; T. O Trieb de Freud como instinto 2: agressividade e autodestrutividade. Scientiae. São Paulo, v. 12, n. 3, p. 439-64, 2014.




Desafio Contemporâneo: Ser e Viver de Maneira Sustentável


Série Ensaios: Bioética Ambiental

 Por Estela Galvão Alves, Fabiane Olivia Ardenghi e Renato Damasceno Neto

Mestrandos em Bioética


Em 2 de dezembro de 2018, a Folha de São Paulo por meio do site UOL veiculou notícia relativa à realização da COP-24 – Conferência do Clima, organizada pela Organização das Nações Unidas - ONU. A chamada jornalística apresentou algumas inquietações, pois alertou que o evento se iniciava com senso de urgência e tensões políticas. O evento foi programado para ocorrer na cidade polonesa de Katowiceh e os negociadores dos países participantes discutiram a regulamentação do acordado no encontro de Paris, em 2015, que se tornou Lei em 184 países, entre eles o Brasil. A intenção da reunião era tratar do financiamento das ações, transparência e monitoramento dos progressos e atribuição de responsabilidades diferenciadas entre os países, considerando o estágio de desenvolvimento de cada um deles. 

Eventos dessa natureza colocam frente a frente atores diversos, que possuem uma amplitude global, em nível mundial, porém com repercussões nacionais em níveis micro ambientais. São buscadas formas de se ter um desenvolvimento sustentável. 

 

 

Diversos segmentos econômicos são envolvidos, dentre muitos, podemos citar a matriz energética, a indústria, os transportes, o combate ao desmatamento. Destacam-se, em nível global, dois grupos de países: um composto pelos países desenvolvidos (maiores emissores de gases de efeito-estufa) e outro constituído pelos países mais vulneráveis (nações menos desenvolvidas e pequenas ilhas). Há argumentações de ambos os lados. Contudo, constata-se que os resultados práticos desses encontros têm se mostrado ineficazes, pois os compromissos assumidos e as metas pactuadas não são cumpridos por razões de natureza diversas. 

A notícia aponta que o aquecimento global provoca alterações climáticas com impactos desiguais para os países. E aqui podemos citar a Justiça Climática, que evidencia, que as alterações climáticas provocam, para a população mundial, períodos de secas, inundações e outros desastres extremos, que sempre trazem impactos maiores para as populações mais pobres o que amplia as desigualdades sociais. No Brasil, há aumento das doenças cardiorrespiratórias e proliferação de mosquitos da dengue nas últimas seis décadas.

O Acordo de Paris, instituído em 2015 unicamente para fins de redução do aquecimento global, visa proteger a vida que conhecemos e propiciar uma possibilidade de futuro para as gerações vindouras.  

A priori o aumento da temperatura nos níveis estipulados (média global até 2ºC com objetivo específico de 1,5ºC ) pode parecer trivial e irrelevante. Contudo, ao refletirmos os pequenos detalhes em maior escala, visualizamos que esta “singela” mudança acarreta de forma significativa nos impactos ambientais previamente citados. Este avanço a qualquer custo, fruto de uma falsa concepção de que a natureza é infinitamente renovável, extrapola o limite da exploração e respalda as preocupações evidenciadas  na COP24, com previsão de uma COP27 (a ser realizada nos dias 06 a 18 de novembro de 2022) com pouca força para mudança. O evento acontecerá em Sharm El Sheikh, no continente Africano, lugar paradisíaco marcado por receber turistas de altíssima renda em resorts all inclusive, acarretando baixíssimo acesso a ONGs e ativistas com recursos financeiros mais frágeis, mas com potencial para exercer pressão em busca de melhorias climáticas.

Os problemas éticos e os respectivos argumentos

Em detrimento das inúmeras sinalizações climáticas, iniciativas em prol da preservação do meio ambiente têm sido pouco visualizadas. A probabilidade de termos uma elevação superior ao teto protetivo previamente concebido de 1.5ºC continua em ascensão desde 2015. Precisaríamos atingir um limite de emissão de gases até 2020 com redução gradual até ZERO em 2040. Contudo, na contramão surgem grandes nações (incluindo o Brasil) retirando seu apoio ao Acordo em um claríssimo conflito de interesses em que o poderio econômico se mostra imperioso. A queima de matéria prima para produção energética e a degradação florestal mantêm-se apesar das metas de redução total autodeterminadas pelo próprio Brasil. As medidas de redução da eliminação de gases precisariam ser de 3 a 5 vezes maiores para o alcance da meta. 

Princípio da Sustentabilidade

Em 2015, a Organização das Nações Unidas – ONU propôs aos seus países membros uma nova agenda de desenvolvimento sustentável para os próximos 15 anos (2030) composta por 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável – ODS.


































A partir dos ODS estrutura-se o princípio da sustentabilidade em três pilares: econômico, social e ambiental. De suas interligações devem surgir ações que conduzam à sustentabilidade.

O quadro abaixo apresenta, em resumo, os agentes, diretos ou indiretos, envolvidos nas Conferências sobre assuntos climáticos e aquecimento global; aponta qual é o lugar de suas participações; as contribuições que são esperadas, seus argumentos e seus valores.

AGENTE

 

PARTICIPAÇÃO

CONTRIBUIÇÃO ESPERADA

ARGUMENTOS

VALORES

ONU

 

Organizador

Gestão

Promover diálogo

Sustentabilidade Global

Justiça ambiental

Comunicação

 

 

 

Países desenvolvidos

 

 

Maiores emissores de gases de efeito-estufa

Políticas públicas

Investimentos sociais responsáveis

Transparência

Redução de desperdícios

 

 

 

Econômicos

 

 

Lucros financeiros

 

 

Segmentos econômicos

 

 

Chamados a realizar mudanças drásticas

Eficiência na produção, transporte e consumo com ênfase para a reciclagem, energia, emissões, água

 

 

 

Econômicos

 

 

 

Lucros financeiros

 

 

Países vulneráveis

 

Maiores sofredores e com dificuldades de recuperação de desastres

Políticas públicas

Transparência

Redução de desperdícios

 

 

Justiça sócio-ambiental

 

 

Direitos humanos

 

 

Fonte: os autores

A transgressão do Princípio da Sustentabilidade é claro uma vez que as inúmeras Conferências sobre o tema não têm trazido avanços quanto às questões climáticas e as suas consequentes implicações na saúde e qualidade de vida, evidenciando a prevalência hierárquica dos valores econômicos (lucros financeiros) sobre os valores humanos e socioambientais.

Hoje, cientistas de diversos campos da Ciência reconhecem que as questões climáticas decorrem do que se usa para chamar de uma nova Era Geológica. O ser humano tornou-se um “agente geológico”. Para alguns pesquisadores as soluções para os problemas pelos quais a humanidade e nosso planeta atravessam somente ocorrerão com a consciência profunda de uma “virada civilizatória”.  Não teria sido essa a intuição de Van Rensselaer Potter, desde 1970, quando cunhou o neologismo Bioética - Ciência da Sobrevivência? Estaríamos perdendo tempo?     

Um olhar bioético:

O redimensionamento do olhar sobre o essencial e o excedente tem transitado nas discussões bioéticas com foco na construção de paradigmas que ressignifique a simplicidade de um ser e viver em sociedade, de uma maneira sustentável e equânime. As disparidades individuais atreladas a políticas públicas inconsistentes promovem desigualdades e permitem a perpetuação de um ciclo de desequilíbrios.

 

O progresso tecnológico e suas promessas de melhoria da qualidade de vida apresentam uma face obscura, paralela à ideologia evolutiva, que ameaçam a sobrevivência do humano e seus pares, com uma violência determinante sobre o ecossistema.

Apesar do pessimismo das evidências e da crença de um desenvolvimento demográfico atrelado obrigatoriamente a agressivas explorações do meio ambiente, ainda se ambiciona o alcance de uma qualidade de vida futura com o uso de tecnologias sustentáveis, que agreguem permanência e proteção social, econômica e acima de tudo ambiental. Esta responsabilidade deve ser equânime ao nível de desenvolvimento de cada país tendo em vista a equivalência do potencial de dano com a liberação de gases-estufa

A bioética através dos seus vários princípios, procura ajudar numa correta interação do ser humano com a vida e deste com os outros seres vivos, ocupando-se da proteção do meio ambiente. Somente a coesão dos valores morais e éticos dos cidadãos com respeito e cuidado ao ecossistema garantirão a mitigação das mudanças climáticas e a sobrevivência das futuras gerações.

A necessidade de uma incessante construção de um pensamento desde a micro à macrobioética é de elementar relevância no alcance do equilíbrio entre desenvolvimento tecnológico e sobrevivência.

Como futuros Bioeticistas acreditamos que não existem soluções mágicas e simplistas para esta questão da sustentabilidade e qualidade de vida, mas que precisamos da visão mais ampla, como nos diz Potter:

“Chegou o momento de reconhecer que não podemos mais examinar opções médicas sem levar em conta a ciência ecológica e os

problemas da sociedade numa escala global [...] A bioética global,

portanto é “a unificação da bioética médica com a bioética ecológica” [...] 

Os dois ramos deste saber necessitam ser harmonizados e unificados para se chegar uma visão consensual que pode ser denominada bioética global, destacando os dois significados do termo global, a saber: um sistema de ética é global, de um lado, se

ele for unificado e abrangente, e de outro, se tem como objetivo

abraçar o mundo todo” (Potter- 1988, p. 76-78)

 

O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Bioética Ambiental do Programa de Pós Graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, tendo como base a obra:

POTTER, Van Rensselaer. Global bioethics: building on the Leopold Legacy. East Lansing: Michigan State University Press, 1988


terça-feira, 15 de novembro de 2022

Bioética Social e Ambiental volume especial da Revista Inclusiones



Editorial

O número da Revista Inclusiones intitulado “Bioética Social e Ambiental” congrega uma valiosa contribuição científica de 14 artigos que determinam além de uma parceria entre Chile e Brasil, um pioneirismo que marca a confluência de duas vertentes importantes da Bioética: a Bioética Social e a Ambiental.

A ideia de se trabalhar na Revista Inclusiones um número que congregasse a reflexão e a importância de divulgar as contribuições da bioética social e ambiental é mais um fruto de um encontro memorável, pela sua improbabilidade e efemeridade. Foi por meio de uma conversa com o diretor da revista Juan Guillermo Estay Sepúlveda que percebemos que o mundo conclamava pela apropriação da temática por todas as demais áreas do saber que trabalham em prol dos direitos humanos e da qualidade de vida de todos os seres vivos que compõe a vida no planeta Terra. Então, começamos nossa caminhada em visando prover para sociedade um cenário complexo, mas acolhedor às vulnerabilidades e a transpor para intervenções necessárias e urgentes.

Embora a Bioética florescida com Van Rensselaer Potter no início da década de 1970 tenha se consolidado em bases sociais e ambientais, que se viam vulneráveis diante do rápido e estrondoso desenvolvimento científico, o não acolhimento das angústias e súplicas do bioquímico estadunidense, por um mundo com um capitalismo em ebulição, foi rapidamente apropriado pela ética médica. A Bioética se desenvolveu no cenário de luta pela autonomia do paciente e respeito pelo participante da pesquisa, campo ainda predominante em países do norte global. A Bioética latino-americana em decorrência de suas extremas desigualdades sociais e vulnerabilidades diante dos paradigmas capitalistas impostos por países desenvolvidos, se constituiu de um terreno fértil para a Bioética Social e Ambiental. Assim, é justamente nesse cenário, de confluência do Chile e Brasil, que esse número da Revista Inclusiones se consolidou.

O percurso do número “Bioética Social e Ambiental” inicia por uma perspectiva inédita que resgata da obra de Potter a essência social e ambiental da bioética. Visando a avaliação das vulnerabilidades e necessidade de inclusão da Fauna Silvestre Urbana nas pautas da bioética e da gestão das cidades foi avaliada a experiência dos cidadãos de uma cidade do Sul do Brasil. A apropriação do autocuidado pelo educador físico e seu papel na saúde global e as vulnerabilidades da sociedade digital trouxeram a inserção de temas inéditos para bioética. Na sequência temos quatro artigos que analisam os refugiados sob diferentes perspectivas: os refugiados ambientais, a inclusão dos refugiados pelas cidades inteligentes, pela educação e no acolhimento de um relato de um angolano, cego e negro. As limitações impostas na inclusão de questões sociais envolvidas na perspectiva técnica e das políticas públicas foram abordadas com relação ao prolongamento da vida e quanto a população LGBTQIA+. O número é fechado com a discussão sobre a compaixão como valor de colaboradores de instituição de acolhimento de pacientes com deficiências múltiplas e sobre a segurança alimentar e a fome de água que tem assolado o mundo.

Após o percurso para agregação das pesquisas nesse número não tem como não imaginar o que diria Jan Guillermo, internacionalmente reconhecido pelo seu posicionamento contundente diante das vulnerabilidades sociais e ambientais, e revertido por uma preocupação com a conduta ética. A sua obra magna e amplamente reconhecida “A canção do rouxinol que não era um rouxinol. Aves na América vistas por cronistas: Mesoamérica e Caribe” desvendou para o mundo que a história de um povo pode sim estar impressa nas cores das penas de suas aves. Desejamos que os desdobramentos das pesquisas apresentadas neste número sejam tão frutíferas quanto foi o projeto firmado entre Cadernos de Sofia e o Programa de Pós-graduação em Bioética da Pontifícia Universidade Católica do Paraná

Boa leitura a todos e todas.



Marta Luciane Fischer´

Caroline Filla Rosaneli

Editoras convidadas

 

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Altruísmo: Apenas bondade ou um elemento etológico?

Série Ensaios: Sociobiologia

Por Bruna Becker; Deborah Eckermann; Juliana B. da Silva e Reinara R. de Souza.

Acadêmicas de Ciências Biológicas e Engenharia Agronômica






A jovem Anastasiya Tykha é uma médica veterinária que com seu marido conduziam um abrigo para animais de rua, com membros amputados e doentes na Ucrânia. A jovem foi fotografada ao tentar fugir do país com os animais após a intensificação da guerra e avanço das tropas Russas. Assolados pela falta de eletricidade, água, internet e alimento a permanência no local se tornou impossível, além dos seres humanos, muitos animais foram atingidos, sofreram muitos ferimentos, foram mortos e abandonados (veja a Notícia completa)

Muitas pessoas se mobilizaram para dar suporte para pessoas e animais, indo para a área de conflito para o resgate, contribuíram com o fornecimento de refúgio, alimentos, itens de higiene. Atos como esse, onde o comportamento de ajuda aumenta a aptidão direta do recebedor, reduzindo em simultâneo com a redução direta da aptidão do doador/colaborador, é denominado de altruismo .


Altruísmo é um comportamento de ajuda que aumenta a aptidão direta do recebedor e ao mesmo tempo reduz a aptidão direta do doador, do qual pode ser condicionado por elementos biológicos, etológicos e psicológicos. Esse comportamento pode por muitas vezes ter indiretamente o intuito da geração de aptidão indireta, por meio do reconhecimento de sua reputação e generosidade o que por esse motivo, possa a vir ser espelhado por outros indivíduos, os estimulando a se unirem ao mesmo propósito. Dessa forma, a jovem objetiva deter a aprovação do grupo a qual pertence e/ou acompanhe em suas redes com o intuito do recebimento da reciprocidade indireta, ou seja, obtenção da recompensa em aptidão de outros que testemunham sua boa ação, para que ela possa provar sua reputação social de "pessoa generosa" podendo ser objetivada para a detenção de doações, apoio financeiro e político para que, dessa forma possa ajudar mais animais, no seu resgate e em sua manutenção.

O elemento etológico citado anteriormente, diz a respeito da evolução de determinado comportamento e de acordo com a biologia evolutiva . O altruísmo tem sua base adaptativa, já que de acordo com o estudo de 1963 realizado por W.D.Hamilton (veja o estudo) do qual chamou de "egoísmo genético” entre animais aparentados, fazendo assim com que ele “cuide” do seu gene, por mais que não seja biologicamente seu filho. Em espécies de animais não-humanos, esse comportamento altruísta também é observado, intra e interespecífico, onde os animais possuem o mesmo objetivo, o aumento de sua reputação, generosidade, para serem bem vistos pelo seu grupo, com vistas a benefícios reprodutivos, outras para a substituição de filhos, adoção por animais com problemas de fertilidade, ou impossibilidade de se reproduzirem, ou que são filhos de outro animal mais próximos a eles, havendo inclusive disputa para determinar quem irá criar o animal que perdeu seus pais.

Um dos exemplos de adoção interespécie é o caso da gorila Koko nascida em 4 de julho de 1971 no zoológico de São Francisco, ela cuidou de diversos filhotes de gatos como mostra no blog “Conexão Planeta” (veja a História completa Koko). Outra possibilidade é que a ação da adoção é motivada por um dever de manutenção de um grupo que vive em sociedade. Visto que muitas vezes a proteção e alimentação depende de um número mínimo de indivíduos, a criação de outros indivíduos (mesmo que não sejam diretamente aparentados) seria vantajosa a longo prazo, por ajudar a manter a estabilidade, coesão e funcionalidade de um grupo, do qual o indivíduo que adota outro vai depender até o fim de sua vida.


O altruísmo tem também um contexto biológico, isso leva em conta os neurotransmissores presentes e também questões genéticas, como citado por exemplo no texto de Lencastre e Prieto (veja o estudo) no qual animais parentais possuem um nível mais elevado de ocorrência de fenômenos de altruísmo isso se deve as emoções ligadas no cuidado do filhote. Quando praticada a ação de “ajudar” o cérebro libera oxitocina, hormônio produzido pelo hipotálamo, também conhecido como “hormônio do amor”, do qual produz uma sensação prazerosa e por este motivo estimula a pessoa querer cada vez mais sentir essa sensação.

Com toda certeza a vivência própria do indivíduo influencia, como por exemplo questões ambientais e as próprias emoções, ou seja, o elemento psicológico, seja por fatores sociais e culturais como comunidades que incentivam a adoção e até por aprendizados, assim como citado pelo Jus Brasil do qual define a adoção pelo vínculo de filiação/cuidado de alguém, quando não há vínculo genético entre as partes (para mais informações: Site Jus Brasil) .

Em animais que não são tão agressivos, como por exemplo aves passeriformes, a simples presença de um filhote que precisa de cuidados e não tem nenhum adulto exercendo a função parental deve ser o suficiente para engatilhar uma reação em um adulto semelhante à que aconteceria se ele tivesse de fato um filhote consanguíneo, ocorrendo então a adoção.


Do ponto de vista profissional de futuras biólogas, esse processo é extremamente vantajoso para populações, pois proporciona sobrevivência para indivíduos órfãos. Estes não se desenvolveriam, o que seria uma perda de potencial para um grupo populacional. Além disso, é uma chance para que indivíduos estéreis (ou que por algum motivo não puderam reproduzir) desempenhem a função parental, que é de grande valor na formação de novos indivíduos. Conhecimentos adquiridos podem ser passados para o filhote adotado, que ainda terá o fator da variabilidade genética diferente de indivíduos próximos no grupo.

A adoção apesar de ser um tema em alta atualmente é uma prática muito antiga como citado no artigo de Dutra e Maux (veja o estudo) que a adoção já era realizada em 1250 a.C. Ainda que essa prática altruísta pareça ser “algo humano”, é um comportamento que ocorre também nos animais não humanos, como é possível observar em algumas aves e mamíferos, ocorrendo a “adoção” até mesmo de interespécies.

Nós como futuras biólogas e engenheiras agronômicas, acreditamos que o altruísmo é essencial para a sociedade humana e animal, como mostra a notícia, é possível observar fatores etológicos, psicológicos e biológicos para o comportamento de colocar o outro afrente de suas necessidades pessoais.





O presente ensaio foi elaborado para disciplina de Biologia e Evolução do Comportamento Animal, tendo como base as obras:




DUTRA; Elza. e MAUX; Ana A. B. Adoção no Brasil, algumas reflexões. Estudos E Pesquisas Em Psicologia, Uerj, RJ, Ano 10, N.2, P. 356-37. Disponível em: https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/revispsi/article/view/8959/6847

JORGE, Dilce R. Histórico e aspectos legais da adoção no Brasil. Revista Brasileira de Enfermagem, Abr. - Jun., 1975. Disponível em: https://www.scielo.br/j/reben/a/BgBrdzpHrV5X4NvD7yBVZwP/?lang=pt

CARVALHO, Maria e CARVALHO, Gilson. Adoção: um ato de amor, 1998. Disponível em: http://repositoriosanitaristas.conasems.org.br/jspui/bitstream/prefix/224/1/Ado%C3%A7%C3%A3o%20-%20Um%20ato%20de%20amor.pdf

CALARGA, Allan R. Abandono materno de primatas não humanos. São Paulo, 2022. Disponível em: https://repositorio.butantan.gov.br/bitstream/butantan/4234/2/TCC_Allan%20Rodrigo%20Calarga.pdf

Alcock, J. (2009). Comportamento Animal. Porto Alegre: Artmed (tradução 2011)
NUNES, Mônica - Koko, a gorila treinada na linguagem dos sinais – e exemplo de empatia -, morre na Califórnia. Blog Conexão Planeta. Disponível em: https://conexaoplaneta.com.br/blog/koko-a-gorila-treinada-na-linguagem-dos-sinais-e-exemplo-de-empatia-morre-na-california/#fechar

LENCASTRE, Afonso; PRIETO, Marina. Bondade, Altruísmo e Cooperação. Considerações evolutivas para a educação e a ética ambiental. Revista Lusófona de Educação, 15 - Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias - Portugal, 2010. Disponível em: https://www.redalyc.org/pdf/349/34915599008.pdf

DIEHL; Alessandra. Altruísmo humano: uma construção social ou biológica?. Blog Artmed, 2019. Disponível em: https://blog.artmed.com.br/psicologia/altruismo-humano-construcao