domingo, 23 de março de 2014

Cronobiologia e sua influência no nosso cotidiano



Série Ensaios: Aplicação da Etologia

Por Bruna Los e Camila Laschiwitz Beghetto

Graduandas do Curso de Ciências Biológicas


A cronobiologia é o ramo da ciência que estuda a organização temporal dos seres vivos, ou seja, a capacidade dos seres vivos de expressarem seus comportamentos e controlarem sua fisiologia de uma forma recorrente e periódica. A essa recorrência periódica damos o nome de ritmos biológicos (Araujo; Marques, 2002). Todos os seres vivos estão expostos às variações cíclicas que ocorrem no meio ambiente, como por exemplo, a alternância dia-noite, as variações de temperatura e as estações do ano. Todas estas mudanças geraram um desafio à sobrevivência. Para se adaptar a elas alguns mecanismos foram desenvolvidos ao longo da evolução, que permitiram antecipar e ajustar os processos fisiológicos a essas alterações rítmicas e cíclicas. Para acompanhar essas mudanças houve a necessidade de um “relógio” que marcasse o tempo de forma independente de qualquer alteração ambiental, assim como de “sensores” que percebessem a variação temporal (os sincronizadores) e de sistemas humorais e neurais que informassem todos os componentes do sistema. Este relógio endógeno chama-se: relógio biológico, o qual permitiu que o indivíduo se preparasse com antecipação as variações cíclicas do meio ambiente (Acúrcio; Rodrigues, 2009).
Os primeiros estudos a respeito dos ritmos biológicos datam do início do século XVIII, quando o astrônomo Jean-Jacques D'Ortous de Mairan (1678-1771) publicou um artigo sobre a possível existência de um mecanismo marcador de tempo em uma planta. Nesse estudo, Mairan tentava explicar porque os movimentos espontâneos de abertura e fechamento das folhas de uma planta persistiam mesmo quando ela era isolada do ambiente e mantida por alguns dias dentro de um baú em plena escuridão (Menna-Barreto; Marques, 2002). Em 1960, ocorreu o Cold Spring Harbor Symposium on Biological Clock uma das principais reuniões científicas da área da cronobiologia, que contou com a participação de diversos profissionais, de biológicos a matemáticos.  Desde então, e mais frequentemente a partir de meados do século XX – período em que a cronobiologia foi considerada uma disciplina científica – vários estudos vem sendo realizados nessa área.
Dentre eles podemos citar estudos na subárea da cronopatologia, que verifica que a expressão de patologias pode ser alterada por eventos circadianos, onde o agravamento ou a melhoria de certos sinais e sintomas se verifica predominantemente em determinadas horas do dia, meses ou estações do ano; e estudos na subárea da cronofarmacologia que tentam detectar as variações rítmicas dos sinais e sintomas de doenças de modo a decidir o momento mais adequado para a administração dos medicamentos (Acúrcio; Rodrigues, 2009). Como exemplo, podemos citar a administração de corticoides sob a forma de comprimidos que quando são administrados no período matinal provocam uma supressão adrenocortical pequena, porém se a mesma dose for administrada à noite antes da hora de dormir, isso irá provocar um agravamento da supressão adrenocortical. Tendo isso em vista, o conhecimento sobre os melhores horários para tomar determinados medicamentos podem ajudar a aumentar o seus efeitos terapêuticos e/ou diminuir os seus efeitos colaterais (Silva, 2011).
Na área da genética, há vários estudos a respeito dos chamados “genes relógios”, que seriam os genes que participam do controle do ritmo biológico nos seres vivos. Um exemplo seria o gene PER3 que está relacionado com a regulação homeostática do sono (Pereira; Sabino; Umemura, 2005). Um estudo com abelhas sem ferrão mostrou que numa mesma colônia diversos ritmos estão presentes e são detectados tanto em indivíduos, quanto na colônia como um todo. Esses ritmos diferem entre si, mas ainda assim relações de fase são estabelecidas entre eles, gerando uma ordem temporal interna e garantindo a expressão rítmica geral da colônia. Tal como acontece em um organismo metazoário, o estabelecimento da ordem temporal interna garante a sobrevivência do superorganismo (Gonçalves; Marques, 2010). 
Há também relatos inovadores de estudos que mostram os efeitos do ritmo circadiano na inclusão educacional de pessoas totalmente cegas, em que foi observado que pessoas com deficiência visual podem apresentar uma queda no desempenho acadêmico de tempos em tempos por causa da sonolência excessiva durante as horas de estudo, além de distúrbio no humor, no alerta e na atenção (Squarcini; Esteves, 2013). A secreção de melatonina (também chamada “hormônio do escuro”, pois tem como função sinalizar para o organismo a presença dessa fase) está relacionada à ocorrência do sono notur­no. Sendo assim, a exposição à luz durante a fase escura do ciclo pode inibir a secreção desse hormônio, antecipando ou atrasando a fase dos ritmos biológicos, em especial do ciclo vigília/sono (Pereira; Anacleto; Louzada, 2012). Alguns estudos realizados com mulheres que trabalham à noite tem mostrado que a iluminação artificial noturna interrompe a produção da melatonina e com isso pode haver o aumento na liberação de estrogênio, que estimula a replicação de células-tronco epiteliais da mama, aumentando o risco de tumor maligno (Martau, 2009). Os trabalhadores que possuem empregos nos chamados “terceiro” e “quarto” turnos muitas vezes apresentam algumas disfunções nos seus ritmos biológicos, o que acarreta em problemas para a segurança da empresa – infraestrutura - e para a saúde dos próprios funcionários, visto que não são todos os trabalhadores que se acostumam com a rotina de trabalho trocada. Como solução para estes problemas as empresas estão deixando que seus funcionários, que trabalham em turnos diferenciados, durmam algumas horas – cochilem - para recuperar suas “energias” e voltar ao trabalho. Esta abordagem tem mostrado ótimos resultados, pois após algumas horas de sono o funcionário já está mais disposto pra voltar a sua função (Martino; Neto, 1999). As alterações da relação claro-escuro também são prejudiciais para outros organismos. Várias espécies de aves migrantes noturnas se desorientam quando suas rotas atravessam áreas iluminadas; o aumento artificial do dia pode interferir também no comportamento reprodutivo das aves, visto que isso induz alterações hormonais, fisiológicas e comportamentais; e há várias modificações nos horários de canto das mesmas devido à poluição luminosa (Fernandes; Coelho; Caires, 2010).
Em consequência a esse modo de vida da sociedade moderna, nós formandas em Biologia, podemos perceber que o em decorrência da alteração ambiental promovida pelo o homem, o relógio biológico dos animais não está conseguindo de alinhar com o ambiente, o que desencadeia vários sentimentos de irritabilidade e desconforto nos indivíduos, o que pode torna-los cada vez mais suscetíveis a doenças. Esse modo de vida do homem também foi/está sendo responsável por alterar o relógio biológico de outras espécies, devido a constante degradação ambiental e mudanças climáticas. Desse modo, como formandos em biologia acreditamos que o estudo da cronobiologia é fundamental não somente para a saúde humana como também para a preservação dos demais organismos vivos.


O presente ensaio foi elaborado para disciplina de etologia I baseado nas seguintes obras:

ACÚRCIO, A. R., RODRIGUES, L. M. Os Ritmos da Vida - Uma Visão Actualizada da Cronobiologia Aplicada. Rev. Lusofona de Ciencias e Tecnologias da Saude, 2009; (6) 2:216-234.
ARAUJO, J. F., MARQUES, N. Cronobiologia: uma multidisciplinaridade necessária. MARGEM, SÃO PAULO, NO 15, P. 95-112, JUN. 2002.
FERNANDES, G. W., COELHO, M. S., CAIRES, T. O impacto ambiental da poluição luminosa. Especial Scientific American, Terra 3.0. Ed. nº 2, 2010.
GONÇALVES, R. C., MARQUES, M. D. Ritmos de populações: o caso das  abelhas sem ferrão. Revista da Biologia (2012) 9(3): 53–57. DOI: 10.7594/revbio.09.03.10
MARTAU, B. T. A luz além da visão. Revista Lume Arquitetura, edição 38, 2009.

MENNA-BARRETO, L. E., MARQUES, N. O Tempo Dentro Da Vida, Além Da Vida Dentro Do Tempo. Cienc. Cult. vol.54 no.2 São Paulo Oct./Dec. 2002.

MILVA, M. F. M., JOSÉ C. N. Repercussões do ciclo vigília-sono e o trabalho em turnos de enfermeiras. Rev. Ciência Médica, Campinas, 8 (3): 81-84, Set/Dez; 1999.
PEREIRA, D. S., SABINO, F. C., UMEMURA, G. S. Period3: um gene relacionado com a sincronização de ritmos circadianos pela luz. Revista da Biologia (2012) 9(3): 26–31 DOI: 10.7594/revbio.09.03.05.
PEREIRA, E. F., ANACLETO, T. S., LOUZADA, F. M. Interação entre sincronizadores fóticos e sociais: repercussões para a saúde humana. Revista da Biologia (2012) 9(3): 68–73  DOI: 10.7594/revbio.09.03.13
SILVA, R. B. G. Cronoterapia – Uma abordagem temporal da terapêutica. Dissertação de Mestrado. Universidade Fernando Pessoa, Porto – Portugal, 2011.
SQUARCINI, C. F. R., ESTEVES, A. M. Cronobiologia e Inclusão Educacional de Pessoas Cegas: do Biológico ao Social. Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v. 19, n. 4, p. 519-530, Out.-Dez., 2013.

terça-feira, 4 de março de 2014

Terapia Assistida por animais (TAA): Uma prática multidisciplinar de humanização para o benefício da saúde humana



Por Eliana Rezende Adami
Acadêmica do Curso de Mestrado em Bioética, PUCPR

O uso terapêutico da proximidade afetiva entre os seres humanos e animais tem atraído a atenção científica. Esse ensaio busca entender os benefícios  acerca do relacionamento humano-animal e o conhecimento sobre a Terapia Assistida por Animais (TAA).
A TAA  é um processo terapêutico formal em âmbito mundial, padronizada pela organização americana Delta Society. Congrega outras instituições, órgãos certificadores, grupos, cursos e voluntários, sendo que dele participam profissionais da área da saúde humana, animais, seus proprietários ou condutores (Society, 2005).  A TAA teve início em 1997, pela psicóloga e veterinária, Dra. Hannelore Fuchs, com o Projeto PetSmile que tem como objetivo a difusão do conceito de terapia assistida por animais e o oferecimento de um serviço comunitário filantrópico. O trabalho consiste em visitas quinzenais ou mensais dos animais e voluntários às instituições que trabalham com crianças carentes ou portadoras de deficiências físicas e mentais. Conforme Hannelore “Constatam-se diminuição de medicamentos, menos incidência de depressão e aumento da sobrevivência de enfartos” (Lermontov, 1910, p.7). Essa profissional fundou a Associação Brasileira de Zooterapia (Abrazoo) e coordena o projeto “Pet Smile”, desenvolvido com sucesso em São Paulo, onde o projeto já realizou mais de 6000 visitas.
            A denominação oficial do uso terapêutico de animais é Terapia Assistida por Animais (TAA). Segundo Machado e outros (2008, p.1) TAA “É uma prática com critérios específicos cujo animal é a parte principal do tratamento, objetivando promover a melhora social, emocional, física e/o cognitiva de pacientes humanos. Ela parte do princípio que o amor e amizade que podem surgir entre seres humanos e animais geram inúmeros benéficos.” A médica veterinária Alves (2010, p.1) sintetiza: ”Trata-se de um recurso a animais em programas de apoio, que auxiliam a recuperação física e psicológica de crianças e adultos”
A pesquisa científica sobre os efeitos terapêuticos da relação homem-animal começou nos Estados Unidos na década de 1960 . Na década de 1980 o interesse pela matéria se espalhou-se pelo Reino Unido e países da Europa continental. Um estudo realizado recentemente na Europa e Estados unidos comprova que famílias com animais de estimação têm menos despesas com saúde do que as famílias sem animais. Segundo os pesquisadores, essa  Convivência é capaz de melhorar a auto-estima, diminuir problemas cardiovasculares, auxiliar a família na diminuição do estresse, na queda da pressão em hipertensos e, principalmente, de melhorar a interação social.
O Doutor Dennis Turner, Professor de medicina veterinária da Universidade de Zurique e presidente da IAHAIO (Associação Internacional das Organizações para a Interação Homem-Animal), defende que “ a companhia de cães e gatos é essencial para a qualidade de vida do homem. A companhia de animais beneficia não apenas deficientes ou portadores de doenças graves, mas também o cidadão comum seja qual for a sua renda familiar". Não só faz bem para a saúde do indivíduo, mas para a saúde pública também. "A Terapia Assistida por Animais representa uma tremenda economia para a saúde pública e obtém sucesso até nos casos em que métodos tradicionais de tratamento falharam” (Arcabrasil, 2010, p.1).
            O vínculo entre o animal de estimação e o ser humano vem despertando o olhar de pesquisadores. Segundo alguns autores as vantagens do convívio com animais de estimação como alívio em situações de tensão, disponibilidade ininterrupta de afeto, maior tendência a sorrir, companhia constante, amizade incondicional, contato físico, proteção e segurança, fazendo a pessoa ter o que fazer e no que pensar (Fuchs, 1987, Berzins, 2000).     Além dos efeitos psicológicos, os animais também podem trazer benefícios fisiológicos para as pessoas. Constata-se que, quando elas interagem com os seus animais, falando com eles, acariciando-os ou manuseando-os, há diminuição da freqüência cardíaca e pressão arterial, atingindo esta última valores menores que os observados em pessoas na situação de repouso (Lynch, 1980). Estudos mostram, também, que a presença de animais em ambiente hospitalar diminui o tempo de internação, interferindo, inclusive, no humor  das equipes de enfermagem e médica (KLlinger, 2004).
            A terapia com animais pode ser benéfica para qualquer ser humano, em diferentes situações de vida, mas é especialmente indicado para crianças.            Buscando investigar qual a função do animal para a criança durante a infância, Levinson, em seu estudo, identificou-o como objeto de fantasia: como um companheiro imaginário, um agente por meio do qual a criança aprende a ser responsável, adquirir um sentido de identidade e desenvolver independência. Os animais são, para as crianças, como uma fonte de amor incondicional e lealdade, principalmente diante de punições. Servem de apoio durante as crises familiares, oferecendo consolo quando os adultos estão envolvidos com seus próprios problemas e assuntos (Society, 2005). Outras vantagens da relação animal–criança ainda são apontadas: ajuda a criança a desenvolver a capacidade de se relacionar com outras pessoas e de lidar com aspectos não-verbais, aprendendo a observar e interpretar a linguagem dos gestos, posturas e movimentos; favorece a aprendizagem de fatos fundamentais da vida (como o nascimento, o crescimento, a reprodução e a morte); ajuda a desenvolver atitudes humanitárias em relação ao animal como ser vivo; desperta a consciência ecológica (Garcia, 2000).
            A terapia com animais tem revelado como uma importante estratégia de humanização  da assistência à criança e idosos hospitalizados. A partir de vários estudos e comprovações essa essa terapia poderá vir a ser utilizada rotineiramente por enfermeiros e equipe multiprofissional. Existem algumas iniciativas desse projeto em nosso país, em instituições para idosos  (Recanto Monte Alegre), crianças portadoras de deficiência física (Lar Escola São Francisco) e com crianças internad as (Centro de Diálise da Unifesp e Hospital da Criança do Hospital Nossa Senhora de Lourdes, 2004).  Outro trabalho desenvolvido por enfermeiros relata o caso de uma criança internada que apresentava intensa tristeza. Diversas técnicas foram tentadas para amenizar o quadro (passeios, leituras, brinquedos e vídeos, entre outros). Não houve sucesso e, como ela manifestou vontade de brincar com um cachorro, foram programadas visitas de um cão aos domingos, no hospital. A partir de então, a criança tornou-se mais colaborativa, alegre e Os estudos acadêmicos sobre a Terapia Assistida por Animais no Brasil ainda são poucos, assim como a sua difusão como uma prática terapêutica válida, embora já existam programas com a utilização de animais em várias instituições e alguns centros de ensino já ofereçam formação na área (Pereira, Pereira e Ferreira, 2007; Vaccari e Almeida, 2007).
            A precursora brasileira no uso de animais como co-terapeutas no tratamento de pacientes esquizofrênicos foi a psiquiatra junguiana, Nise da Silveira   (Starling, Thomas e Guiddi, 1999). Para a médica, os animais são excelentes catalisadores e servem como uma referência estável no mundo externo aproximando o doente dessa realidade, além de proporcionar alegria ao ambiente hospitalar (Silveira, 1992). Ao estabelecer contato com os animais surge uma relação de amizade que possibilita projeções e identificações que “reflete a problemática entre o homem que se esforça para afirmar-se em sua condição humana e o animal existente nele próprio” (Silveira, 1982, p.87).
            A equoterapia é uma prática antiga e foi reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina  em 1997. Nesta, os cavalos auxiliam o tratamento de pessoas portadoras de necessidades especiais motoras e mentais, como nos casos de Síndrome de Down, Paralisia Cerebral e Autismo, por exemplos (Faria, 2005).  Desde então, novos projetos tem se estruturado tendo a TAA como base. O PetSmile é um projeto paulista que atua em hospitais e instituições, criado em 1997, pela médica veterinária e psicóloga Hannelore Fuchs. Além do projeto, Fuchs fundou a Abrazoo - Associação Brasileira de Zooterapia  (Juliano et al., acesso em 17 jun. 2013).       Desde 2000, por iniciativa da Organização Brasileira de Interação Homem-Animal Cão Coração  (OBIHACC) existe o Projeto Cão do Idoso em São Paulo (Juliano et al., acesso em 17 jun. 2013). E o projeto Dr. Escargot, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP, criado pela professora Dra. Maria de Fátima Martins na cidade de Pirassununga, São Paulo (Rosendo, 2008).   O projeto Cão-Cidadão uma parceria de professores da Medicina Veterinária e Odontologia da UNESP de Araçatuba, existe desde 2003 e têm cães adestrados na sala de espera com o objetivo de reduzir a ansiedade dos pacientes com necessidades especiais e assim facilitar o atendimento odontológico (Oliva,  2009). Em 2004, na Universidade de Brasília um grupo formado por veterinários e médicos deu início a uma pesquisa sobre os efeitos da TAA no acompanhamento de pacientes com demência no Centro de Referência para Doença de Alzheimer do Hospital Universitário de Brasília. No mesmo ano a APAE - Associação de Pais e Amigos de Excepcionais recebe a visita de cachorros pertencentes ao Corpo de Bombeiros das cidades de Belo Horizontee Sabará. Elas participam de atividades terapêuticas de crianças com deficiências diversas, como Paralisia Cerebral, Síndrome de Down, Déficit de Atenção, Hiperatividade e Autismo (Leal e Natalie, 2007). Em fevereiro de 2007, a médica veterinária e professora do Centro Universitário Vila Velha (UVV), Fernanda de Toledo Vieira, criou o projeto Bicho Solidário. Inicialmente as atividades ocorriam através de visitas quinzenais a crianças e adolescentes asilados em casas de passagem na região de Vila Velha. No mesmo ano, o projeto foi estendido a Pestalozzi. Atualmente as atividades ocorrem somente na Policlínica da UVV com crianças portadoras de seqüelas neurológicas, tais como mielomeningocele e paralisia cerebral. O projeto é uma parceria com a equipe de medicina veterinária, fisioterapia e medicina, contando ainda com a participação de estagiários e voluntários (Vieira et al., 2008).
           Em Curitiba O Projeto Amigo Bicho existe desde dez de 2005, é um projeto de Terapia/Atividade Assistida por Animais(T/AAA), que visa benificiar pessoas através do auxílio de cães. Formado por voluntários e seus animais de estimação que visitam semanalmente instituições como Escolas Especiais, Hospitais, Hospitais Psiquiátricos, Orfanatos e Asilos. As pessoas e os animais envolvidos nesse projeto investem seu tempo e se dedicam a esta atividade com um único objetivo: ajudar o próximo. A última visita foi no Hospital Cajuru.
Os benefícios relatados pela TAA são inúmeros e extremamente relevantes, mas é importante salientar alguns problemas que poderão surgir advindos dessa terapia como: mesmo que o animal seja treinado ele poderá reagir diante de uma situação de estresse, o paciente poderá se apegar ao animal proocando tristeza e depressão quando ele estiver ausente. E o problema mais revelante seria o controle de infecção hospitalar por parte da CCIH (Comissão de Controle de Infecção Hospitalar), considerando que é um ambiente composto basicamente por pacientes imunodeprimidos. Os animais utilizados nessa terapia devem ser respeitados, considerando seu bem estar, para que possam trazer benefícios, mas não sejam prejudicados. Os treinamentos devem ser de forma leve sem punições, sua saúde deve ser avaliada rotineiramente garantindo seu bem estar. A qualquer comportamente que manifeste tensão ou opressão do comportamento devem imediatamente serem retirados do local da terapia. Animais que se dedicarem a esse tipo de terapia deverão ter seus direitos garantidos, como é feito com os cão guia, que a partir de um período de trabalho tem seus direitos preservados.
            A relação do homem com o cão e com o gato é reconhecida como um dos mais estreitos vínculos entre espécies na natureza. Não é por acaso que eles são chamados de "animais de companhia", pois interagem com o homem, de quem recebem e oferecem atenção, carinho, serviços, e uma longa lista de benefícios - físicos, emocionais, sociais. É por isso que o convívio com esses animais é um fenômeno mundial crescente. Sendo a TAA uma terapia que tem a interdisciplinaridade como base, portanto é um trabalho que envolve a participação de diversos profissionais: veterinários, psicólogos, médicos, enfermeiros, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais, entre outros (San Joaquin, 2002). Ademais, é uma técnica que pode ser aplicada em diferentes lugares: asilos, centros de acolhimentos e hospitais. Quando aplicada integradas às práticas terapêuticas regulares já praticas pelos participantes, tem mostrado resultados bastante positivos tanto em relação ao tratamento em si quanto nas relações interpessoais entre os envolvidos (Mcguirk, 2001; Jofre, 2005). A terapia com animais tem evidencido como uma atividade extremamente prazerosa, não só para as crianças, mas para os adultos à sua volta, que ficam mais soltos sorriem com mais freqüência e dos funcionários, segundo pesquisas trabalham com mais disposição.
A TAA vem se destacando como um complemento às práticas já existentes. Trata-se de um tema atual que deve ser pensado dentro dos centros de formação de profissionais, porque o êxito dos programas irá depender, em grande medida, da introdução de estudos sobre os benefícios do vínculo entre seres humanos e animais para o currículo da graduação e pósformação dos profissionais da saúde, acompanhada de pesquisas, projetos de extensão e publicações. O entendimento dessa terapia mostra a necessidade de divulgação da TAA como uma técnica possível e interdisciplinar, acompanhadas de pesquisas e reflexões dos profissionais de saúde sobre alternativas à qualidade de vida de pessoas fragilizadas por um processo de doença. Ademais, pode ser uma alternativa de atuação, além de promover um maior conhecimento de como na interação interespécie, seres humanos e animais podem ter mais qualidade de vida através da união entre mãos e patas.

O presente ensaio foi elaborado para a disciplina de Bioética e Bem-estar Animal e baseado nas seguintes obras:


Alves, Cristina. Terapia animal. Capturado em 20 ago. 2010. Online. Disponível na Internet: http://www.hospvetprincipal.pt/terapiaanimal.htm., acesso  16/11/2013.

Bayne, K. ; Development of the human-research animal bond and its impact on animal well-  being. ; ILAR Journal; 43; 4-9; 2002.

Berzins, Mavs, Velhos, cães e gatos: interpretação de uma relação [tese]. São Paulo:    Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2000.

Delta Society. Atividade e terapia assistida por animais. A/TAA [texto na internet] 2005 [citado 2005 Mar 19]. Disponível em: http:// www.projetocao. com.br/main.htm

Coren, SP -Terapia mediada por animais. Revista. 2004; 53(1):12-3.

Faria, A. Cão terapeuta. Revista Viva Saúde, ano 2, n.9, jan. 2005. Disponível em: . Acesso em: 02 jan. 2009.

Fuchs, H. O animal em casa: um estudo no sentido de desvelar o significado psicológico do animal de estimação [tese]. São Paulo: Faculdade de Psicologia da Universidade de São Paulo; 1987.

Garcia,  A. O emprego de animais na terapia infantil. Pediatr Mod. 2000;26:75-9

Hare, B. & Tomasello, M. 2005. Human-like social skills in dogs? Trends in Cognitive Sciences    9 (9), 439-444.

Instituto Nacional de Ações e Terapias Assistidas por cães; TAA - Terapia Assistida por Animais; http://www.inataa.org.br ; junho de 2011

Juliano, R. S.; Jayme, V. D. S.; Fioravanti, M. C. S.; Paulo, N. M.; Athayde, I. B. Terapia Assistida por Animais (TAA): uma prática multidisciplinar para o benefício da saúde humana. Disponível em: . Acesso em: 02 jan. 2009.

Klinger,  K. Pesquisas mostram benefícios do convívio com animais. Jornal Folha de S. Paulo [periódico na Internet] 2004 [citado 2005 Mar 19]. Disponível em: www.folha.uol.com.br/folha/equilíbrio/noticias/ult263u3714.html

KnobelL, Marcos, cardiologista do Hospital Israelita Albert Einsteinwww.einstein.br/.../cardiologia-einstein-recebe-primeira-visita-pet.aspx‎, acesso 17/06/2013.

Leal, G.; Natalie, K. Animais Terapeutas: convívio estimula cognição e processos de cura. Revista Viver Mente Cérebro, ano 14, n. 169, p. 40-46, fev. 2007.

Lermontov, Tatiana. Terapia com animais. Capturado em 20 de ago. 2010. Online. Disponível na Internet: http://www.saudevidaonline.com.br/artigo74 htm.

Lynch, JJ, Thomas SA, Long JM, Malinow KL, Chickadonz G, Katcher AH. Humam speech and blood pressure. J Nerv Ment Dis. 1980;168(9):526-34.

Machado, Juliane de Abreu Campos; ROCHA, Jessé Ribeiro; SANTOS, Luana Maria;

Machado, J.A.C.; et. al.; Terapia Assistida por Animais (TAA). ; Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária; 10; 1-7; 2008.

Mcbride, E. A.; Mcnicholas, J.; Ahmedzai, S. Animal facilitated therapy: a practice of welfare concern? In: Proceedings of the VDWE International Congress on Companion Animal Behaviour and Welfare. 2006, Sint-Niklaas, Belgium, Vlaamse Dierenartsenvereniging, p. 95-102. Disponível em: . Acesso em: 17 jun. 2013.

Mcguirrk, K. Animal assisted therapy at children’s specialized hospital. Children's Specialized Hospital, 2001. Disponível em: . Acesso em: 17 jun. 2013.

Oliva, V. N. L. S. Projeto Cão Cidadão UNESP. Revista Pequenos Cães, v. 22, 2009. Disponível em: . Acesso em:
     17 jun. 2013.

Pereira, M. J. F.; Pereira, A, L.; Ferreira, M. L. Os benefícios da terapia assistida por animais: uma revisão bibliográfica. Saúde Coletiva, São Paulo, v. 4, n. 14, p. 62-66, 2007.

Rosendo, R. Terapia Assistida por Animais. Revista Super Saudável, ano 8, n. 40, p. 22-23,    out/dez. 2008.

San Joaquin, M. P. Z. Terapia asistida por animales de compañía. Bienestar para el ser humano. Revista Centro de Salud, Madrid, v. 10, n. 3, p. 143-149, 2002.

Scott, J.P. & Fuller, J.L. 1965. Dog behaviour: the genetic basis. Chicago, University of    Chicago Press.

Soproni, K., Miklósi, A., Topál, J. & Csányi, V. 2001

Silveira, N. Imagens do Inconsciente. Rio de Janeiro: Alhambra, 1982.

Silveira, N. O Mundo das Imagens. São Paulo: Ática, 1992.

Starling, A, Thomas M, Guidi M. O significado do animal de estimação na família. Trabalho de conclusão de curso [texto na Internet]. [citado 2005 Fev 10]. Disponível em: http://culturapsi.vila.bol.com.br/animal.htm.

Tanabe, Y. 2006. Phylogenetic studies of dogs with emphasis on Japanese and Asian breeds.
    Proceedings of the Japan Academy, Series B 82 (10), 375-387.

Vaccari, A.M.H.; Almeida, F.A. ; A importância da visita de animais de estimação na recuperação de crianças hospitalizadas; Einstein; 5; 111-116; 2007.

Vieira, F. T.et al Benefícios da relação homem e animal no projeto Bicho Solidário. Trabalho   apresentado na VI Jornada Científica UVV, Vila Velha, 2008.